terça-feira, 13 de julho de 2010

OS MUTANTES: 'BALADA DO LOUCO'



Os Mutantes (Sérgio Dias, Rita Lee e Arnaldo Baptista), grupo formado em São Paulo nos anos 60, que se consagrou por sua postura de deboche e irreverência – além de sua extrema criatividade, tanto musicalmente quanto por suas letras inovadoras – na então insipiente cena do rock brasileiro, o qual se desenvolveu paralelamente a outro movimento revolucionário da MPB, o Tropicalismo, é considerado um marco histórico na música brasileira.

Em 1968 gravam o clássico LP “Tropicália ou Panis et Circensis” na companhia de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé e Nara Leão e, um ano depois, apresentam o antológico show “Planeta dos Mutantes”, no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. Em 1972 lançam “Os Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets”, com um dos maiores sucessos de sua carreira, a “Balada do Louco”. O grupo é citado como definição da palavra mutantes na enciclopédia Delta La Rousse, tendo recebido a comenda Padre Anchieta outorgada pela Câmara Municipal de São Paulo.



Em 2006, retornando com uma formação diferente da original (sem Rita Lee), Os Mutantes apresentam um show no Barbican Theatre em Londres, com a participação de Zélia Duncan nos vocais. Logo após, fazem uma tournée nos EUA (Nova York, Los Angeles, San Francisco, Seatle, Chicago e Miami), onde recebem o premio de melhor show do ano de 2006. Em 2007, tocam pela primeira vez no Brasil após 30 anos, no aniversário da Cidade de São Paulo, em frente ao Museu do Ipiranga, para um publico de 100.000 pessoas. Após diversos shows no Brasil, EUA e Europa, Os Mutantes chegam a merecer a primeira página do NY Times, na qual Sérgio Dias é comparado a Eric Clapton e Carlos Santana. 



POST-SCRIPTUM:




Hoje (13 de julho) é o "DIA DO ROCK", pessoal! Sério!!! 

Portanto nada melhor do que 'curtir' a pioneira e uma das melhores bandas do rock brasileiro experimental, que flertava despudoradamente com a MPB, bem como com outras sonoridades mais 'exóticas' e surpreendentes... 

'Ladies and gentlemen', com vocês: 

OS MUTANTES!






BALADA DO LOUCO
(Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias)


Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz


Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão


Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu


Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu


Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu


Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz


Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz





O PARADOXO DE DEUS



































[O texto original de autoria de Daniel Haddad encontra-se em: http://br.geocities.com/ateismo]



Uma boa reflexão é tentar estabelecer quais seriam os desígnios de "Deus", dentro do plano da Criação, cotejados com a possibilidade aleatória real da destruição desta mesma criação, por um fenômeno natural, como o choque de um asteróide com a Terra. Esta questão está no mesmo nível do paradoxo da existência do mal em um mundo criado por um ser "Omniciente", todo bondade e amor. Por que existe o mal na Criação de um ser "todo-bondade"? Por que em um mundo, em que em última palavra Deus é responsável, existem desastres naturais que podem matar milhões? Por que existem doenças que causam sofrimentos e mutilações em crianças e inocentes? Em outras palavras, por que existe o mal e o sofrimento de qualquer espécie? Este dilema é conhecido como o "problema do mal". 





Resumidamente, podemos caracterizar o problema do mal da seguinte maneira: Se Deus não sabe que existe o mal Ele não é "Omniciente". Se Deus sabe que existe o mal, mas não pode evitá-lo Ele não é "Omnipotente". Se Deus sabe que existe o mal, pode evitá-lo, mas decide não fazê-lo Ele não é "Omnibondoso". 





Se, como os cristãos afirmam, Deus é todo-sabedoria e é todo-poder, temos que concluir que Deus não é todo-bondade. A existência do mal no Universo exclui essa possibilidade. Tem havido várias tentativas dos religiosos de escapar do problema do mal. Uma abordagem teológica geral do problema do mal, consiste na afirmativa de que o mal é de alguma maneira irreal ou, puramente, de caráter negativo. Este argumento é tão inadmissível que poucos cristãos se oferecem para defendê-lo. Um dos primeiros problemas com esse argumento é: "Se o mal não é realmente nada, então por que toda agitação sobre o pecado: nada?". Qualquer tentativa de absolver Deus da responsabilidade sobre o mal, afirmando que em última análise não existe tal coisa denominada mal, é uma piada sem graça. 



Outro esforço comum para reconciliar Deus com o mal, argumenta que o mal é a conseqüência do livre arbítrio humano. Apesar desta abordagem possuir uma coerência inicial, ela falha de imediato na solução do problema do mal. Somos solicitados a acreditar que Deus criou o homem com o poder de escolha na esperança que este, voluntariamente, seguisse o caminho do bem e se o homem frustasse o desejo de Deus, atrairia o mal sobre sua própria cabeça. Porém, para começar, falar-se de frustar ou agir, contrariamente, aos desígnios de um ser divino "omnipotente" não faz sentido. Não existem barreiras para a "omnipotência" divina, nenhum obstáculo poderia obstar seus desejos, desta forma temos que assumir que o presente estado do mundo está precisamente como a vontade de Deus quis. Se Deus desejasse que as coisas estivessem de maneira diferente do que elas estão, nada poderia evitar que elas fossem de maneira diferente, não obstante o livre arbítrio do homem. 



O livre arbítrio é incompatível com o conhecimento "a priori" que o ser "Omnipotente" detém, desta forma o apelo ao livre arbítrio também falha neste aspecto. De qualquer maneira, Deus ao criar o homem possuía total conhecimento do sofrimento generalizado que este estaria sujeito e dada à sua faculdade de evitar esta situação, devemos presumir que Deus desejou e quis que esta atrocidade imoral ocorresse. 



É injusto colocar a responsabilidade de ações imorais, generalizadamente, no livre arbítrio humano. Homens individuais cometem atrocidades, não a abstração "homem". Alguns homens cometem injustiças, outros não. Alguns homens assassinam, roubam ou enganam mas outros não o fazem. Como então, podemos avaliar um Deus que permite a injustiça disseminada quando, facilmente, estaria entre seus poderes evitá-la. Os cristãos acreditam em um Deus que demonstra pouco ou nenhum interesse na proteção dos inocentes, e devemos nos perguntar se tal entidade pode ser chamada "bom". 



Mesmo que ultrapassássemos as presentes dificuldades, o apelo ao livre arbítrio é ainda derrubado porque ele encampa somente o chamado mal moral (i.e. ações do homem). Ainda restariam os problemas incomensuráveis dos males físicos, tais como desastres naturais, sobre os quais o homem não tem controle. 



Por que existem inundações e terremotos que podem matar bilhões e mesmo aniquilar com a espécie humana? A responsabilidade por estas ocorrências obviamente não poderá recair sobre os ombros do homem...



POST-SCRIPTUM:




Como diz o ditado (e muitos deles possuem uma sabedoria intuitiva muito aguçada), "o pior cego é aquele que não quer ver".




Do ponto de vista antropológico, tal questão, suscitada pela escatologia judaico-cristã, só se resolve na dimensão do imaginário (chamem-no de inconsciente coletivo, imaginal, 'illud tempus', etc.), onde se processa a fenomenologia do mitema, através da aceitação do ganho interpretativo fornecido pelo entendimento da simetria paradialética colocada pela reflexão inclusiva (que admite uma lógica paradoxal), muito bem expressa na fórmula hermética: "O diabo é deus inverso".




Ou, em outras palavras (como já sugeria Mme. Blavatsky), Deus e Satã, enquanto componentes de uma mesma determinada bacia semântica, são um e o mesmo, e sua aparente oposição é um 'efeito de imagem' produzido a partir de perspectivas topológicas diferentes e não necessariamente excludentes, mas, muito pelo contrário, complementares.




Supera-se, portanto, a moralidade eclesiástica entendendo-a como uma particularidade histórica e contingente plasmada a partir de um 'sentimento de moralidade' (algo como um 'instinto utilitarista' psicossocial que visaria, em última análise, a preservação da espécie) maior e mais abrangente, porque arquetípico.




Se entendermos 'Deus' como o fundamento primeiro e último de todo e qualquer evento, sua representação mais coerente em qualquer instância é o Devir, e este se põe, desde sempre, como Multiplicidade.




No horizonte mitológico do imaginário, que dá sentido ao arquétipo da 'divindade', a multiplicidade do Devir se dá (como, aliás, em qualquer horizonte interpretativo) num regime de "excesso" não totalizável que engloba as anomalias virtuais do 'um' (afirmação da negação) e do 'não-um' (negação da afirmação), além do próprio movimento circular que se estabelece entre ambos.




Esta "santíssima trindade" é somente passível de apreensão, para além de sua aparente contradição, a partir da reflexão que admita uma lógica mais ampla, paradoxal, da qual a lógica formal, com seus silogismos e identidades, é apenas um caso especial, numa relação análoga aquela entre a geometria euclidiana e a possibilidade de múltiplos tipos de geometria.




Deus, portanto, 'é um' e 'é muitos', simultaneamente, ainda que 'não-seja' absolutamente, posto que, na gramática do imaginário, 'ele' é, antes de tudo Verbo (ação de movimento recíproco entre simetrias) e, só depois, Sujeito e Predicado, ainda que apenas virtualmente.




Sintetizando de forma mais clara: o conceito originário de 'Deus' (ou de 'realidade', ou de 'universo') não tem nenhuma relação com nossas concepções humanas de Bem e Mal, justiça e injustiça; estes são meros reflexos imateriais projetados por nossas necessidades até certo ponto instintivas de segurança, conforto, atenção e afeto. 




Somos coagidos a agir como entes morais até por uma questão de sobrevivência cultural (moral esta que pode variar de acordo com as circunstâncias temporais, espaciais e existenciais, inclusive), o que não obriga necessariamente o resto do mundo ou 'Deus' a sê-lo, de forma alguma.




Na verdade, imputamos tais características a nossas divindades e depois invertemos os termos da equação dizendo que fomos "criados a sua imagem e semelhança". 


Parafraseando a própria Bíblia, "cresçamos e nos multipliquemos", mas também tornemo-nos mais maduros, honestos e corajosos.  


HOMENS E ANIMAIS



































Não penso ser o caso de comparações entre exemplos particulares, até porque, efetivamente, não existe igualdade na natureza; o que há são características genéticas e morfológicas que, mais ou menos, assemelham os indivíduos de uma suposta mesma espécie a um padrão genérico convencionado.

Tal padrão é, até certo ponto, inegavelmente arbitrário, mas nem por isso absurdo na medida em que se fundamenta nos pressupostos lógicos de uma racionalidade eminentemente técnica que tem-se mostrado muito útil na resolução de problemas, com maior ou menor grau de sucesso, no âmbito de várias ciências (física, química, biologia, antropologia, etc.), ao longo da história do pensamento.

Mais precisamente desde, pelo menos, o Renascimento (ou talvez mesmo antes), porém com maior ênfase a partir do advento do Iluminismo e com profundas raízes fincadas no Idealismo (ainda que às vezes de forma sutil e em outras tantas vezes de forma constrangedoramente envergonhada ou até mesmo não-admitida).

Somos, portanto, segundo esta perspectiva e ainda que sob o regime de uma admissão relutante, animais sim, também sujeitos a instintos como todos os demais, mas, e aí se introduz a diferença crucial, de um tipo especial: animal humano, aristotélico-platônico, racional. Mas será que somos tão 'especiais' assim?

Ainda que a própria vida de vez em quando nos prove que esta classificação não é de forma alguma absoluta e nem mesmo a mais plausível ou muito menos a única possível, ainda assim, há que se admitir um diferencial óbvio e inescapável.

Sejam quais forem os parâmetros, o homem não é necessariamente melhor ou pior que os outros animais, mas fundamentalmente diferente num sentido bem claro. E o que nos permite apontar essa clareza de forma tão veemente é a habilidade que possui o homem de saber manipular códigos e signos em geral com complexidade e eficiencia ímpar, apesar de ser evidente que o homo sapiens não é absolutamente a única espécie dotada de capacidade criativa, comunicação (nem tão rudimentar em alguns casos, ainda que não-verbal) e hierarquia social.      

Porém, é justamente por ser capaz de dominar tão eficientemente linguagens as mais variadas possíveis que ao homem é dado legar informação e conhecimento, em quantidade e sofisticação incomparável, às gerações futuras. Este animal insólito e surpreendente é, portanto, e definitivamente, um criador de cultura. E essa é sua dádiva e sua maldição.

A própria possibilidade de concepção de um julgamento ético ou moral a respeito da 'violência', da 'crueldade' ou do 'egoísmo' humanos é uma evidencia mais que suficiente: sem uma cultura estruturada de tal e qual forma não haveria lugar para este tipo de avaliação, até porque na natureza, entre os outros animais, e ainda sob um ponto de vista inescapavelmente humano, essa é a regra impessoal e amoral.

Nesse sentido, não há como simplesmente negar esse componente diferenciador (a cultura) e pretender voltar a ser animal não-humano, 'besta-fera', mas também não é o caso de abandonar completamente certos instintos básicos e inegavelmente úteis à manutenção do indivíduo e da espécie ou, ainda, abnegadamente render-se a tradições culturais que levam a pensar o homem de forma negativa e pessimista. 

O que ocorre, efetivamente, e dessa 'nova fé' precisamos nos imbuir, é um constante aprendizado com vistas à evolução progressiva, inspirado na aposta vital e existencial de que é possível superar os impasses colocados pela próprias circunstâncias biológicas, políticas e tecnológicas. Ou seja - e as transformações psicossociais decorrentes de novas descobertas e propostas até então inéditas dentro do própirio ambiente cultural garantem tal possibilidade -, é preciso abrir mão de um certo 'esquema de pensamento' ultrapassado e abraçar um novo paradigma que permita a superação dos atuais desafios à criatividade e à própria sobrevivência do homem e do mundo em outros níveis de entendimento.

Não obstante a submissão cega proposta pela teologia tradicional aos "desígnios superiores" de divindades inescrutáveis (sem mesmo discutí-los ou procurar compreender a possibilidade da atuação de estruturas e forças impessoais e exteriores a nossa percepção limitada), de qualquer forma ou sob qualquer outro ponto de vista diferente, penso ser quase inescapável, para alguns, supor que o suicídio seja a opção mais honesta e corajosa, ainda que muitos prefiram simplesmente "assistir a tudo de cima do muro" ou hedonística e egocentricamente "curtir" a vida sem maiores preocupações, talvez por mera ignorância ou sincera perplexidade diante do reinado sombrio de que todos somos súditos nos dias atuais.

Para alguns tal estado de coisas seria o reflexo de um momento específico no ciclo cósmico da existência e que ora se manifesta como decadência (mas também como renovação), conhecido no hinduísmo como Kali Yuga. Outros talvez o interpretem como a aproximação do 'fim do mundo', ou coisa que o valha. E outros tantos simplesmente não admitem sentido algum à existencia e, sendo assim, "tanto faz como tanto fez".

Entretanto, tudo tem seu preço, e o mundo que nossos filhos e netos herdarão no futuro depende em muito do esforço que cada um de nós estiver disposto a fazer para torná-lo melhor desde já, a fim de garantir que haja um 'depois' tanto para a humanidade quanto para os outros animais. Até porque corremos o risco de que, muito em breve, os únicos seres vivos a habitarem nosso planeta sejam as baratas e as bactérias.

"E daí?", dirão alguns. "Eu só quero saber do meu, o resto que se dane", dirão outros (ou provavelmente os mesmos). É lastimável que, mesmo não sendo maioria (assim espero), provavelmente constituam uma parcela considerável da população mundial. Este tipo de 'comportamento-resposta' aos desafios do mundo - misto de indiferença com egoísmo -, não é inédito na história, mas não deixa sempre de nos surpreender a capacidade humana para a imbecilidade.     

POST-SCRIPTUM:


Este já é outro assunto, o qual, assim nos parece, tem pouco a ver com o suposto conflito 'homem x animal', ao qual talvez retornemos no futuro.


O IMAGINÁRIO I



['INTRODUÇÃO' da obra “O Imaginário: Ensaio Acerca das Ciências e da Filosofia da Imagem”, de Gilbert Durand; tradução de René Eve Levié; Coleção 'Enfoques – Filosofia', da editora Difel; 1998]


Seria muito banal afirmar que os enormes progressos das técnicas de reprodução por imagem (a fotografia, o cinema, os vídeos, “as imagens de síntese”, etc.) e de seus meios de transmissão (o belinógrafo, a televisão, o fax, etc.) permitiram ao século 20 acompanhar a construção de uma “civilização da imagem”. Por conseguinte, torna-se fácil imaginar uma inflação de imagens prontas para o consumo tenha transtornado completamente as filosofias, que até então dependiam do que alguns denominam “a galáxia de Gutenberg”, isto é, a supremacia da imprensa e da comunicação escrita – com sua enorme riqueza de sintaxes, retóricas, e todos os processos de raciocínio – sobre a imagem mental (a imagem perceptiva, das lembranças, das ilusões, etc.) ou icônica (o figurativo pintado, desenhado, esculpido e fotografado...).

As civilizações não-ocidentais nunca separaram as informações (digamos, “as verdades”) fornecidas pela imagem daquelas fornecidas pelos sistemas de escrita. Os ideogramas (o signo escrito copia algo num desenho quase estilizado sem limitar-se a reproduzir os signos convencionais, alfabéticos e os sons da língua falada) dos hieróglifos egípcios ou os caracteres chineses, por exemplo, misturam com eficácia os signos das imagens e as sintaxes abstratas. Em contrapartida, antigas e importantes civilizações como a América pré-colombiana, a África negra, a Polinésia, etc., mesmo possuindo uma linguagem e um sistema rico em objetos simbólicos, jamais utilizaram uma escrita.

Todas estas civilizações não-ocidentais, em vez de fundamentarem seus princípios de realidade numa verdade única, num único processo de dedução da verdade, num modelo único do Absoluto sem rosto e por vezes inominável, estabeleceram seu universo mental, individual e social em fundamentos pluralistas, portanto diferenciados.

Aqui, toda diferença (alguns mencionariam um “politeísmo de valores”) é percebida como uma figuração diferenciada com qualidades figuradas e imaginárias. Portanto, todo politeísmo ipso facto é receptivo às imagens (iconófilo) quando não aos ídolos (êidolon, em grego, significa “imagem”). Ora, o Ocidente, isto é, a civilização que nos sustenta a partir do raciocínio socrático e seu subseqüente batismo cristão, além de desejar ser considerado, e com muito orgulho, o único herdeiro de uma única Verdade, quase sempre desafiou as imagens. É preciso frisar que este paradoxo de uma civilização, a nossa, que por um lado, propiciou ao mundo as técnicas, em constante desenvolvimento, de reprodução da comunicação das imagens e, por outro, do lado da filosofia fundamental, demonstrou uma desconfiança iconoclasta (que “destrói” as imagens ou, pelo menos, suspeita delas) endêmica.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

A CIA E A GLOBALIZAÇÃO DO CRIME ORGANIZADO

























[Trecho de uma entrevista concedida pelo cineasta Mauro Lima (“Meu Nome Não é Johnny”) à jornalista Luciana Pessanha (O Globo), em março de 2009]


P: O filme que você está escrevendo tem nome?

R: Não.

P: A tua pesquisa parece ser gigante...

R: Ficou gigante porque achei que devia partir de fatos reais e não ficcionais, então tive que procurar muitas histórias para colocar no roteiro e mostrar que em cantos diferentes do mundo o crime organizado podia se cruzar globalizadamente. Aliás, a globalização não é uma invenção do neoliberalismo, no crime organizado isso já é muito velho...

P: O que te instiga na globalização do crime?

R: Eu me perguntava: será que a gente vai ver a vida inteira filmes onde essa questão parece que se encerra no chefe do morro? Nessa coisa de varejo? Os chefes do morro no Brasil não sabem nem de onde vem essa porra. O cara vende pó como mais um produto que foi empurrado para a clandestinidade. O Rio de Janeiro é sitiado porque tem um gerente do morro que coordena esse sítio? Eu queria uma visão macroscópica, olhar de cima e entender que a questão do crime organizado, e sobretudo das drogas e das armas, sempre atendeu a interesses de nações, não de chefinhos de morro ou de fazendeiros.

P: Onde você foi buscar informação?

R: Em livros. E com a ajuda de um agente aposentado, o Francisco Garisto, que é meu consultor e trabalhou na Polícia Federal dos anos 70 aos 90. Ele foi infiltrado em cartéis internacionais, sentou na frente do Pablo Escobar com uma identidade falsa...

P: Falando em Pablo Escobar, você podia contar a história do julgamento dele?

R: Está no livro do Michael Levine, um ex-agente do DEA (Drug Enforcement Administration), chamado “A Grande Mentira Branca”. O Levine é o correspondente a esse meu informante, só que americano. Ele escreveu que o Pablo Escobar disse que a única coisa que ele não admitia, de todas as mentiras que inventaram durante o julgamento, era dizer que ele era associado a guerrilheiros, porque ele é um empresário, um homem de negócios, é contra o comunismo e qualquer movimento guerrilheiro.

P: Como você pretende organizar as informações no seu filme?

R: Tenho que pensar em pessoas, em cantos diferentes do mundo, envolvidas com máfias diferentes. Escolhi uma do Oriente, uma dos EUA, uma do Brasil, outra do leste europeu. E vou contar a vida desses caras ao longo de 30 anos.

P: E como é que você chegou às conexões do tráfico de drogas com a CIA?

R: Até a eleição do Obama, e principalmente durante a Guerra Fria, a CIA era uma empresa completamente independente da Casa Branca, que trabalhava com um orçamento secreto e com as operações mais malucas para financiar movimentos de derrubada de repúblicas comunistas ao redor do mundo. Se você ler “Legado de Cinzas”, do Tim Weiner, escrito só com documentos oficiais, vai ver a maluquice. Durante a Guerra Fria, tudo o que fez para derrubar ou evitar alguma revolução foi baseado em desinformação e sabotagem.

P: O que você chama de desinformação?

R: Você pode ter a via diplomática para resolver um conflito internacional, pode ter uma guerra oficial e declarada ou ir por uma terceira via: contrainformação, espionagem, sabotagem, financiamento de contraguerrilha. Oficialmente os EUA não fizeram nada em relação ao golpe de estado no Brasil, mas os porta-aviões deles se despencaram pra cá, porque estavam preparados para uma cagada. Eles não deram um tiro, mas pegaram um Zé Mané, tipo cabo Anselmo e... como é que um cabo pode ser estopim de um golpe de estado? Ele era presidente da Associação de Marinheiros, insuflou os companheiros de uma maneira absurda e incontrolável, aquilo sai em tudo o que é jornal, aquela baderna, o golpe acontece, o delegado Fleury prende o cara e, em duas horas, ele muda de lado? Ninguém muda de lado em duas horas. Não deu nem tempo de ele apanhar. Existem cabos Anselmos espalhados pelo mundo inteiro. Você pode explodir um cinema e dizer que foi um guerrilheiro. Eu li uma entrevista com um ex-agente da CIA em posto avançado em SP, onde ele contava que saiu da agência porque tinha que explodir um cinema na Avenida Paulista e culpar o partido comunista. Tem um documentário sobre ex-funcionários da CIA que mostra um agente infiltrado em Cuba, cuja missão era envenenar o leite que a União Soviética mandava para as crianças. Como é que eles levantavam dinheiro pra essas operações? Eles sempre tiveram orçamentos secretos. As verbas deles sempre vieram de lavagem de dinheiro, de venda de armas e do 'drug trade'.

P: Com que exemplos?

R: A famosa Conexão França foi o seguinte: as docas dos portos de Marselha eram dominadas por sindicatos ligados ao partido comunista. A CIA deu apoio logístico para a máfia dos Corsos tomar o controle. Os Corsos eram mafiosos, então toda a heroína que foi para os EUA durante os anos 50 vinha dessa conexão. Eles sempre financiaram o inimigo: Ho Chi Minh, Fidel, Saddam Hussein, Bin Laden, os Mujahidin do Paquistão foram financiados durante a guerra com a Rússia pelos americanos, tudo com dinheiro do 'drug trade'. O Afeganistão também, nos anos 70. Os grandes barões da droga lá eram os caras que não queriam russo lá de jeito nenhum, porque queriam vender papoula. A CIA bancava os Mujahidin, onde o Bin Laden fez escola.

P: Isso tudo é assunto do seu filme?

R: Não. Mas o 'drug trade' da Indochina, sim. No Laos, a CIA tinha uma companhia aérea de fachada, chamada Air America, que transportava gente, inclusive o Dalai Lama, em aviões supostamente comerciais, mas que levavam armas e heroína. Isso está no “The Politics of Heroin”, Tem um livro chamado “Barry and the Boys” que conta a história do Barry Seal, que fez voos pra Cuba, na época em que os Estados Unidos financiaram o Fidel para derrubar o Fulgencio. Esse cara trabalhava para CIA e como piloto comercial ao mesmo tempo. Nos anos 80 ele foi preso por tráfico de drogas umas três vezes, era pego com 300 quilos de cocaína num teco-teco e pegava prisão domiciliar por seis meses. Ele fez tráfico de cocaína da Colômbia para financiar a contraguerrilha na Nicarágua, era parte do esquema Irã-Contras.

P: Sempre se financiou contraguerrilha com drogas?

R: No Afeganistão, na guerra com a Rússia, eles usaram os drug lords da papoula; e, na América Latina, a cocaína. O escândalo Irã-Contras começou quando se descobriu que os EUA vendiam armas para o Irã e o Iraque. A Rússia apoiava o Irã e os EUA, oficialmente, o Iraque. Mas, para financiar a derrubada do governo da Nicarágua pelos rebeldes (os Contras), eles vendiam armas para o Irã e o Iraque. O escândalo estourou porque um avião caiu na América Central com quatro toneladas de cocaína. Nessa década o Bush pai era diretor da CIA, e o Noriega era agente da CIA e traficante. O Noriega virou presidente do Panamá, e, assim que o Bush foi eleito presidente dos EUA, o exército americano invadiu o Panamá, arrancou o cara de dentro do palácio e o levou para ser julgado como traficante nos EUA. Ele era arquivo, não podia abrir a boca. Na verdade o que eu quero dizer é que o tráfico de drogas não atende o interesse do Comando Vermelho, e sim de nações.

P: Todas as rotas mundiais de drogas do seu filme chegam a CIA?

R: O meu consultor brasileiro estava investigando uma conexão Mato Grosso-Bolívia e se infiltrou num cartel. Na mesma época o Michael Levine estava na Argentina, trabalhando para a DEA, fingindo que era traficante americano, comprando toneladas de cocaína. As duas operações tiveram que parar porque o governo democrata da Bolívia estava perigando e isso era financiado pelo tráfico, associado à CIA. As duas operações esbarraram na CIA, que protegia os traficantes. O brasileiro parou porque teve que reportar à Polícia Federal e à DEA que um general boliviano, emblema do combate às drogas no governo democrático, era parte do tráfico. Quando ele viu o nome desse general na “Veja” como ponta de lança do combate às drogas, mandou um dossiê para a PF dizendo que ele frequentava as fazendas dos traficantes, e a operação parou aí. Pouco depois teve o golpe, e esse general virou presidente: o Garcia Meza. Historicamente esse fato se chama O Golpe da Cocaína. Com o americano aconteceu a mesma coisa. Uma hora ele viu que estava correndo risco de vida, e essa coisa não ia dar em nada. No livro “A Grande Mentira Branca”, ele conta que, num dado momento, um policial argentino torturador imundo virou pra ele e disse: “Vem cá, gringo, quem você acha que está beneficiando esses traficantes? São seus conterrâneos!”. Depois descobriu que a informante dele estava totalmente ligada ao golpe militar e aos traficantes. Aí viu que era um idiota, fez um ‘report’ dizendo que isso não ia dar em nada, e mandaram ele voltar para os EUA. Aí ele escreveu uma carta secreta para um jornalista do “New York Times”, o Larry Rohter, que publicava artigos ufanistas sobre a guerra contra as drogas do Reagan, explicando que não era bem assim, que o buraco era mais embaixo, acreditando que o jornalista ia arrumar um jeito de fazer um escândalo. Dois dias depois saiu outra matéria ufanista. Logo em seguida abriu-se um inquérito contra o Levine, não por isso, mas por motivos absurdos.

P: Como você pretende orquestrar tantos fatos em vários cantos do mundo?

R: Se você tirar o joio do mundo do crime organizado, que é gigante, fica com um quadradinho.

P: Você não teme pela sua vida?

R: Não é um filme de denúncia. Não vou dar nomes. Tudo isso já foi fartamente documentado. E essa galera toda já morreu. O crime hoje é outro.

P: Está mais organizado?

R: Acho que sim. Eu nem sei como funciona hoje. Mas sei que não é assim.




POST-SCRIPTUM:





Pode até ser que não seja mais assim, porém, e ainda que os personagens desta tragicomédia sejam outros, com certeza tem muita gente poderosa se beneficiando da velha política de 'combate às drogas', usando os mesmos argumentos hipócritas ao mesmo tempo em que alimenta a corrupção em todos os níveis do poder público em todo o mundo.


sábado, 8 de maio de 2010

DUALIDADES E SIMETRIAS



































"Parece-me que a questão decisiva da espécie humana é a de saber se, e em que medida, o seu desenvolvimento cultural será bem-sucedido em dominar o obstáculo à convivência representado pelos impulsos humanos de agressão e de autoaniquilação" - Sigmund Freud


Existe uma discussão milenar, velada ou explícita, presente em quase todas as manifestações culturais da humanidade, seja nas artes, nas ciências, nas religiões ou na filosofia, a respeito do real valor da emoção, no sentido em que esta é percebida como as tais tão criticadas ‘paixões humanas’, supostamente a origem (ou, pelo menos, uma delas) da irracionalidade, em contraposição a razão, fundamento do ‘logos’ (palavra grega da qual deriva o termo ‘lógica’) e, portanto, de todo e qualquer discurso, filosófico ou não.

Românticos e sensualistas a parte, é indiscutível que a segunda (a razão) tem tido uma significativa vantagem sobre a primeira (a emoção) nesta comparação, ao longo dos tempos.

Afinal, devem as paixões ser suprimidas ou estimuladas pelo homem?

Do meu ponto de vista, nem uma coisa nem outra.

Estas deveriam ser, antes de tudo, aceitas e compreendidas, objetivando-se o desenvolvimento de um equilíbrio, o mais harmonioso possível, no interior da alma humana.

Indiscutivelmente tal equilíbrio não é possível sem o auxílio das ferramentas do intelecto, porém, para que  seja concretizado, há que se ampliar, necessariamente, o âmbito de abordagem do entendimento racional – valorizando-se a suposta ‘irracionalidade’ da mitologia clássica ou do zen-budismo, por exemplo, bem como o potencial da imaginação para criar ou descobrir o novo na literatura, na física teórica ou na comunicação entre os homens, suas relações de produção e interação com o meio ambiente – através da admissão de lógicas alternativas àquela praticada convencionalmente (aristotélico-cartesiana).

Como disse Grant Morrisson: "Não existem dualidades. Apenas simetrias". Ou seja, o conflito entre opostos é apenas ilusório. Eles se complementam necessariamente e um não existe sem o outro, assim como a luz e a sombra. E toda a relatividade, todo o "cinza" do universo, é resultante daquela tensão, real ou aparente, que gera energia potencial entre todos os pólos (ou melhor, simetrias) possíveis e imagináveis, viabilizando, assim, aquilo a que chamamos de realidade. 

Metafísica? Talvez, se entendida a partir de versões equivocadas da pós-modernidade que se distanciam do horizonte conceitual fundamental em que se formou a compreensão histórica da modernidade e de sua relação com a racionalidade, atualmente postas em questão.

Parafraseando Arnold Gehlen (para discordar das conclusões do mesmo e concordar com J. Habermas), apesar de admitir que “as premissas do Iluminismo (Aufklärung) estão mortas”, ainda assim suas consequências continuam em curso e elas não são ‘apenas’ de cunho social, mas também, e eminentemente, de cunho cultural. Admitir que tal discussão esteja obsoleta em nome de um suposto pós-Iluminismo é tornar-se cúmplice, mesmo que involuntariamente, de um evidente contra-Iluminismo. E, como já dizia minha avó, "quem anda pra trás é carangueijo".

Bem diferente é buscar novos entendimentos a partir de um olhar crítico às conquistas intelectuais do passado. Até porque, síntese dialética tem a ver com superação por assimilação e incorporação e não mera rejeição e negação, função da antítese: admitir a irracionalidade não significa, necessariamente, abrir mão da racionalidade.

E que não se diga que a dialética está superada, baseando-se em argumentos no mínimo discutíveis, sob o risco de empobrecimento do pensamento. Ela é, certamente, uma ferramenta limitada (como todas o são, em última análise), mas ainda assim extremamente útil ao processo de reflexão, desde que acompanhada de outras tantas possibilidades instrumentais e não cotejada como verdade única e absoluta.


quinta-feira, 29 de abril de 2010

MINHA FILOSOFIA

























Ainda que só nos reste concordar com Marx, no sentido de que à filosofia caberia, antes de tudo, modificar o mundo, não há como abrir mão da reflexão neste processo, evidentemente acompanhada de ação. E uma reflexão honesta a respeito do fenômeno religioso, por exemplo, que traga uma compreensão mais ampla sobre o mesmo, sem os ranços preconceituosos do passado, em minha modesta opinião, faz-se mais que urgente nos dias de hoje, quando a ameaça real de fundamentalismos religiosos dos mais variados matizes se faz presente, bem como a atitude oposta mas paralela de negação do valor da imaginação do homem, colocada pela ultrapassada mentalidade mecanicista.

Não me considero ‘marxista’, ‘nietzscheano’, ‘hideggeriano’, ‘kantiano’ ou qualquer outro rótulo que os acadêmicos costumam imputar a si mesmos. Considero tal atitude, no mínimo, uma limitação auto-imposta que impede que se enxergue mais longe, apesar de buscar tanto em Marx, Nietzsche, Hiedegger e Kant quanto em outros grandes pensadores da humanidade, subsídios para meu aprimoramento pessoal e para uma melhor compreensão da realidade.

Entretanto, se me permito alguma identificação imediata com ‘escolas’ filosóficas seria – até certo ponto – com os pré-socráticos, verdadeiros mestres que indicaram o caminho a ser seguido, apesar da disparidade entre o pensamento (ou o pouco do mesmo que chegou até nós) de cada um de seus representantes. Mas diferença não trás, necessariamente, como consequência, exclusão de um ou de outro. Ou como diria Heráclito, “não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como de arco e lira”; ou ainda: “é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantes da sabedoria”.

Acima de tudo, respeito o esforço de cada sistema ou corrente filosófica ao longo da História da Filosofia na tentativa de melhor compreender o homem e o mundo. E, àqueles que têm uma visão meramente positivista ou pragmatista em relação às ciências em geral, só posso dizer que procurem situar sua perspectiva no contexto atual e verão que estão defasados em pelo menos um século, haja vista as contribuições à reflexão fornecidas pela Mecânica Quântica e pela teoria do inconsciente coletivo de Jung, por exemplo, só para ficar no reino da Física e da Psicologia.

Assim sendo, e se o objetivo é a busca da Sabedoria e não do mero acúmulo de conhecimento, acredito que, hoje mais do que nunca, uma abordagem interdisciplinar do binômio "totalidade/multiplicidade” (ainda que cônscios de sua parcialidade e relatividade) é essencial, bem como uma atitude renovada do Pensamento e a inauguração de um novo paradigma cultural que possa lidar de forma mais eficaz com o conceito de paradoxo.

O despertar da visão holística depende de uma nova abordagem não fragmentada e não reducionista do Real. Esta abordagem constitui hoje uma urgência de que estão cientes todos aqueles que desejam contribuir ativamente para a mudança de consciência que caracterizará este novo século, mudança necessária, indispensável mesmo se quisermos salvar a vida neste nosso querido planeta Terra.