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domingo, 25 de maio de 2014

FARIAS BRITO E O RISCO DO PENSAMENTO


[Texto editado de autoria de Sérgio de Oliveira Souza publicado em TRAMA - Revista dos pós-graduandos em Filosofia pela UERJ]


A história do pensamento no Brasil é enriquecida pelas inegáveis contribuições de um cearense obstinado, Raimundo de Farias Brito (1862-1917), que assume seu amor pelo saber, elevando-o à paixão. 

É de fato apaixonadamente que ele se dedica à filosofia, por mais que tentem desestimulá-lo ou até impedi-lo. Queixa-se da influência positivista que passa a dominar com Benjamin Constant e que retira a filosofia dos currículos oficiais do ensino brasileiro.

Mas a sua paixão é mais forte e ele resolve que tem o direito de dedicar-se a esta "inutilidade", assim como os outros se dedicam às suas preferências.

Através dele, enquanto procura da "finalidade do mundo", pensadores como Voltaire, Schopenhauer, Kant, Hegel, Feuerbach, Renan, Hamilton, Stuart Mill, Bergson e outros vão sendo apresentados aos leitores (talvez poucos) da época.

Farias Brito trabalha com dois pontos principais: natureza e consciência. Seleciona três pares de diferenças para os quais entende que se deve buscar, pela filosofia, explicação nos universais: vida e morte, prazer e dor, direito e dever. Não era um pessimista, mas estudou essa corrente.

Volta a Sócrates para falar da morte como necessária e a Salomão - citando o Eclesiastes (12,8): "vaidade das vaidades, tudo vaidade". Considera as recíprocas relações entre moral, filosofia e direito. Afirma que a metafísica é uma necessidade  fundamental do espírito humano. Acusa o erro positivista de tentar eliminar a metafísica.

A filosofia é conhecimento em desenvolvimento (in fieri) e a ciência é conhecimento já feito. Entende que filosofia e Poesia andam juntas, pois têm as mesmas fontes ocultas no espírito, sendo que a primeira tem maior extensão, maior alcance.

O nosso organismo dá origem a dois tipos de fenômeno: físicos e psíquicos. Os primeiros dependem das leis do movimento, espaço e tempo e os outros dos fenômenos da consciência (sentimento e conhecimento). A morte é apresentada como solução e garantia de continuidade para a vida e também tem a sua lógica. No entanto, a vida é a verdadeira finalidade do mundo. Toda evolução do cosmo tende para ela, mas em certa ordem: mecanismo, vegetação, animalidade e homem.

O homem, porém, apesar de citado por último na ordem acima, é elemento indispensável para a filosofia, pois nele "se manifesta o fenômeno fundamental da consciência (...) a ação com suas condições formais - o sentimento e o conhecimento."

Para Farias Brito, a filosofia, a religião e a ciência não devem se hostilizar umas às outras, pois têm papéis definidos na sociedade e na formação da consciência e na finalidade universal, mas não são excludentes. A corrente positivista, dominante, está errada ao tentar impor apenas a ciência como referência para o desenvolvimento humano.

A filosofia é "o espírito interrogando a realidade e elaborando o conhecimento". A ciência, por sua vez, tem por fim "estabelecer o domínio do homem sobre a natureza". Para filosofar é necessário imaginação, tem-se que ler "no fundo da consciência", na busca do ideal e no sonho mais legítimo, "a verdade no pensamento, em correspondência com a luz da natureza".

A luz porém não será alcançada sem o auxílio da fé. Mas a fé também é um dos alvos da falsa ciência que tenta matá-la. Então é preciso mantê-la viva. Com que autoridade? Da consciência que sou. Aí está uma "Psicologia Transcendente" que também inclui o questionamento dos questionamentos: "O que há após a morte?" A ciência aqui revela-se incapaz e desautorizada, mas a filosofia auxilia a fé viva que responde através de seus fatos inegáveis ainda que inexplicáveis para a razão.


POST-SCRIPTUM:


A filosofia da consciência de Farias Brito nada perde em seriedade e capacidade argumentativa a qualquer outro pensador que possa ser tomado como referência (a grande maioria estrangeira e imposta aos alunos dos cursos de filosofia).

   

domingo, 27 de abril de 2014

O JESUS JUDEU (2)


[Trecho extraído e editado do capítulo 6 ("O Jesus dos Evangelhos Sinópticos: curandeiro e mestre carismático e entusiasta escatológico") do livro AS VÁRIAS FACES DE JESUS de autoria de GEZA VERMES, publicado pela Editora RECORD]



As leis alimentares (kosher versus não kosher)
constituem uma segunda área do suposto conflito de Jesus com a Torá de Moisés, mas a afirmativa de que ele aboliu a distinção entre puro e impuro está baseada numa incompreensão crassa de um dito sutil: "Não há nada no exterior do homem que, penetrando nele, o possa tornar impuro; mas o que sai do homem, isso é o que o torna impuro... Não entendei que tudo o que vem de fora, entrando no homem, não pode torná-lo impuro, porque nada disso entra no coração, mas no estômago, e sai para a fossa?" (Mc 7:15, 18-19; Mt 15:11, 17-18). 

O significado patente dessas palavras é que a corrupção não vem pelo alimento enquanto tal, mas quando se negligencia profundamente uma proibição divina, uma interpretação ética costumeira de um preceito legal. Essa moralização da Lei se enraíza, sem contar os profetas bíblicos, no autor da Carta de Aristéia na primeira metade do século II a.C., segundo a qual Deus não é honrado por oferendas e sacrifícios, mas por pureza d'alma e convicções sagradas.

A mesma ideia é essencial ao ensinamento partilhado por Filo de Alexandria e por Jesus, que identifica os Dez Mandamentos como o epítome da Lei (Leis Especiais I,I; Mc 10:17-19; Mt 19:16-19; Lc 18:18-20), ou a assim chamada Regra de Ouro - "Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles" - que sob formas variantes vai de Tobias (4:15) e Filo (Hupothética 7:6) até Ilel, um destacado mestre judeu à virada da era (bShabbat 31a), e o próprio Jesus (Mt 7:12; Lc 6;31).

Para voltarmos às leis dietéticas, o comentário do editor do Evangelho de Marcos 7:19 - "Assim, ele declarava puros todos os alimentos" - é um comentário secundário que nada tinha a ver com Jesus, e só era significativo e benéfico para a igreja gentílica-cristã à qual o Evangelho era em última análise dirigido. A dificuldade da cristandade judaica com os convertidos gentios prospectivos nos Atos dos Apóstolos e a disputa de Paulo com Pedro em Antioquia demonstram que, na primeira geração cristã, ninguém estava ciente de que Jesus tivesse declarado todo alimento puro!

Tão espúria quanto as duas precedentes, a terceira prova da afirmação de Jesus da sua superioridade sobre a Lei reside em seus ditos reunidos no Sermão da Montanha, conhecidos como "antíteses" (Mt 5:21-48). Nestes, um antigo preceito do Velho Testamento, por exemplo, "Não matarás", é introduzido com as palavras, "Ouviste que foi dito aos antigos", e seguido pela proclamação de Jesus, "Eu, porém, vos digo" outra coisa, tal como "todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá que responder no tribunal" (Mt 5:21-2).

 Entretanto, quando objetivamente analisadas, as suas declarações reforçam e esclarecem, em vez de contradizerem a Torá. Ao proibir a raiva, Jesus não permite o assassinato, mas garante que a sua raiz seja arrancada.

Tomar as antíteses por uma "ruptura da letra da Lei", como fez Ernst Käsemann, um estudioso alemão do Novo Testamento, revela a extraordinária cegueira de que teólogos de um certo tipo são presa.



POST-SCRIPTUM:
















sábado, 26 de abril de 2014

O JESUS JUDEU (1)



[Trecho extraído e editado do capítulo 6 ("O Jesus dos Evangelhos Sinópticos: curandeiro e mestre carismático e entusiasta escatológico") do livro AS VÁRIAS FACES DE JESUS de autoria de GEZA VERMES, publicado pela Editora RECORD]



A maioria dos títulos sob os quais Jesus foi abordado, especialmente "senhor", "profeta" e "Messias", implica uma função de professor, o que por sua vez suscita a questão da posição exata de Jesus em relação ao judaísmo tal como compreendido e praticado no seu tempo.

A tradição cristã nutrida por Paulo e João sempre afirmou que, como mensageiro de Deus, ele situava-se acima e considerava-se dissociado da degenerada religião judaica da Palestina do primeiro século, cujos representantes lhe deram, previsivelmente, uma recepção tão hostil. Assim, para justificar nossa posição básica, de que Jesus de Nazaré era inteiramente judeu em seus papéis de mestre, exorcista e pregador, profeta e filho de Deus, teremos de investigar os seus pronunciamentos sobre a Lei de Moisés, que está no coração da religião que ele ensinava e praticava.

Os evangelistas retratam Jesus implicitamente como um judeu profundamente ligado às leis e aos costumes de seu povo, e alguns dos seus ditos mais obviamente autênticos confirmam essa imagem. Os evangelhos atestam a sua presença nas sinagogas galiléias e no Templo de Jerusalém. Contam-nos que ele fez a refeição da Páscoa pouco antes de ser preso. Suas roupas eram como a dos fariseus (Mt 23:5), com as tradicionais franjas na orla da veste (Mt 9:20; Lc 8:44; Mc 6:56; Mt 14:36; Dt 22:12). O seu respeito pela legislação ritual é revelado na história do leproso já curado por ele, a quem ele ordenou submeter-se ao julgamento dos sacerdotes e oferecer o sacrifício prescrito no Templo (Mc 1:44; Mt 8:4; Lc 5:14).

Tal conduta está em perfeita harmonia com o ensinamento de Jesus sobre a validade permanente da Torá, que foi preservado em duas versões. A primeira está em Mateus: "Porque em verdade vos digo, até que passem o céu e a terra, não será omitido nenhum i, uma só vírgula da Lei" (Mt 5:18), e o segundo, quase idêntico, em Lucas: " É mais fácil passar o céu e a terra do que uma só vírgula cair da Lei" (Lc 16:17).

Mais uma vez, a melhor garantia da autenticidade dessa afirmação é a sua própria sobrevivência no Novo Testamento face ao profundo embaraço por ela causado na igreja antinomiana dos gentios, o que deu aos Evangelhos de Mateus e Lucas um lugar permanente.

Admitidamente, foram feitas tentativas, tanto na igreja primitiva, quanto no cristianismo posterior, de eviscerar a afirmação de Cristo da permanência da Torá, e de insinuar que a bifurcação dos caminhos entre o judaísmo centrado na Lei e a nova religião espiritual cristã teria sido iniciada pelo próprio Jesus.

Afirma-se que, para demonstrar a sua superioridade em relação à religião do Velho Testamento, ele desdenhou duas das obrigações mais fundamentais impostas pela Lei, a observância do Sabá e das regras dietéticas da Bíblia, e que se considerou maior do que Moisés, cujos preceitos sentiu-se livre para abolir e substituir. Nenhuma dessas acusações é capaz de resistir a um exame objetivo.

Em nossa discussão sobre Jesus como curandeiro e exorcista, já encontramos a crítica de que, ao curar os doentes no Sabá, Jesus quebrou a Lei. A questão de curar no dia de descanso é levantada explicitamente pelos próprios Evangelhos (Mc 3:4; Mt 12:10; Lc 6:9), bem como nos debates de rabinos fora do Novo Testamento. Os evangelistas fazem Jesus respondê-la afirmativamente através da sua ação, e isto está em conformidade com a opinião dos rabinos, para os quais salvar uma vida suplanta os preceitos do Sabá.

Em todo caso, a forma de curar através de palavras ditas ou pelo toque, que Jesus adotou, na verdade não contava como "trabalho" proibido no Sabá. Sabemos pelos evangelistas que a única questão que realmente preocupou as pessoas escrupulosas no seu ambiente galileu foi o grau de severidade de uma doença que pudesse justificar o "trabalho" terapêutico, por exemplo, de transportar e administrar remédios.

Mesmo a esse respeito, porém, o chefe de uma sinagoga citado por Lucas não pôs a culpa no curandeiro, mas naqueles que buscavam a cura no Sabá: "Há seis dias nos quais se deve trabalhar; portanto, vinde nesses dias para serdes curados, e não no Sabá!" (Lc 13:14).

Rabinos esclarecidos na Mixná defendem a leniência e defendem que se houvesse alguma dúvida sobre o caráter potencialmente letal de uma doença, já era o bastante para sobrepujar os preceitos do Sabá (mYomma 8:6). Na verdade, mesmo a afirmação aparentemente mais chocante de Jesus sobre o Sabá ser feito para o homem e não o homem para o Sabá (Mc 2:27) não excede a opinião expressa por um rabino do segundo século d.C.: "O Sabá vos foi entregue e não vós ao Sabá." (Mekihlta sobre Ex. 31:14).


POST-SCRIPTUM:







Continua... 




  

sábado, 10 de abril de 2010

A BÍBLIA

























Faz-se urgentemente necessário parar de ler a Bíblia como se fosse uma descrição textual de fatos consumados. Tal interpretação é um grande equívoco, ou deveria ser considerada como tal, pelo menos entre aquelas pessoas que, como eu, não a vêem como uma "revelação divina", a não ser em um sentido metafórico e alegórico.

Muitas de suas passagens, desde que abstraídas do contexto referente à questão das intervenções divinas, podem realmente ser consideradas como relatos mais ou menos fidedignos de acontecimentos históricos, conforme demonstram inúmeros exemplos arqueológicos. 

Porém, em sua maior parte, ela deve ser interpretada como contendo alegorias e metáforas para a transmissão e preservação de certas idéias de cunho filosófico, algumas comprovadamente herdadas de fontes bem mais antigas e adaptadas por seus redatores, incluindo-se aí preceitos éticos e conceitos metafísicos (e mesmo de noções de higiene e profilaxia que pareceriam rudimentares aos nossos olhos modernos), que a população a que era direcionada, na época, por diversos motivos teria dificuldades em compreender ou praticar, a não ser que envoltas no véu do mistério, bem como um dos principais veículos da manifestação artística, pela via literária, de um povo proibido por sua própria crença de fazer esculturas de si mesmo e de sua divindade, além, é claro, de ser uma excelente ferramenta de controle social e político, no âmbito coletivo (como também de conforto psicológico, no âmbito individual), em momentos de crise, uma circunstância que não era incomum no dia-a-dia dos hebreus.

É neste contexto, portanto, que volto a insistir: A Bíblia é um livro que precisa ser lido com seriedade, PRINCIPALMENTE no se refere ao seu aspecto mitológico.

Pois eu entendo o mito não como uma "mentira", mas como um símbolo manifesto do inconsciente coletivo, portanto dotado de uma verdade psicológica relevante e autêntica.

Assim como entendo o valor do sentimento religioso como uma realidade psíquica sujeita a uma metodologia de estudo própria e fundamentalmente filosófica, cujo estatuto estaria para a ciência na mesma proporção que a arte, por exemplo.

E, embora os três (o mistério, a ciência e a arte) estejam em perpétuo conflito ideológico, a filosofia não se deixa prender por nenhum de seus parâmetros conceituais, transitando entre eles e servindo como "fio de Ariadne" que põe em contato suas respectivas verdades, aparentemente contraditórias.

O exemplo mais simples é o de que todas as religiões ditas primitivas procuravam explicar certos fenômenos atmosféricos (a chuva, o relâmpago, etc.) através de 'racionalizações' mágicas (e é claro que não se resumiam só a isso, certamente).

Além do mais, no início do pensamento filosófico na Grécia, entre os Pré-socráticos (mais ou menos no século 6 a.C.), o que veio a ser considerado como 'racional' estava ainda vinculado a hipóteses e explicações um tanto quanto 'místicas' na aparência, apesar da maioria destes filósofos poderem já ser considerados como ateus, pelo menos para os padrões da religiosidade oficial grega da época.

Resumindo: a Bíblia e, por extensão, qualquer texto de inspiração religiosa, entre tantos outros produzidos pelas mais diversas culturas na Antiguidade (como, por exemplo, o Alcorão, o Tao Te Ching, os Upanishads, o Bhagavad Gita, etc.), enquanto produtos da cultura humana e material de pesquisa sociológico e antropológico, estão longe de ser inúteis.

Entretanto, há que separar o Antigo do Novo Testamento, com vistas a uma melhor compreensão de ambos. No meu entender, se pusermos de lado certas idiossincrasias inevitáveis, é possível argumentar que, nas produções literárias que caracterizam tanto um quanto o outro, estão presentes motivações políticas e religiosas bastante similares, pelo menos a princípio, já que a raiz de muito do que prega o cristianismo e suas derivações seculares, como por exemplo no aspecto da igualdade perante a lei ou da atitude fraternal ante a necessidade dos menos favorecidos, já estar presente no judaísmo, sendo antes uma questão de envolvimento pessoal maior ou menor, decorrente muitas vezes de sutis diferenças de interpretação dadas à lei mosaica pelas diversas facções políticas e religiosas existentes à época da dominação romana na Palestina, quando teria surgido Jesus, que muitos supõe ter sido integrante da seita conhecida como 'essênios', cujos preceitos seriam semelhantes aos que ele teria divulgado.

Por outro lado, não há como escapar do fato de que os conteúdos simbólicos presentes nos dois Testamentos produziram resultados diferentes, e até certo ponto inusitados e surpreendentes, ao longo da história, que divergem em maior ou menor grau de sua proposta inicial, quando analisadas no contexto de sua inserção e adaptação a outras culturas que não a especificamente judaica.

Nesta perspectiva pode-se dizer que o Antigo Testamento cumpriu seu papel com mais eficiência e durante um tempo maior (apesar de toda sua ambivalência e contradição interna), sendo mais fiel ao que se propunha, ou seja, criar um forte vínculo cultural e étnico que servisse como estímulo psico-social à perseverança diante de antagonismos de todo tipo, enquanto circunscrito aos judeus, reforçado pelo Talmude e por tradições místicas ligadas à Cabala durante a Diáspora, pelo menos até o advento do Holocausto e da criação do estado de Israel.

Além do mais, enquanto fundamento do cristianismo e um dos pilares da civilização ocidental (juntamente com o legado da cultura greco-romana), o Antigo Testamento teve preservado muito de seu simbolismo exterior pelo ‘status quo’ dominante ao longo da história, enquanto que seu simbolismo esotérico foi perpetuado por geração após geração de místicos (inclusive cristãos e muçulmanos) e cultivado zelosamente por instituições semi-clandestinas e fraternidades pseudo-secretas, ao lado de outras tradições arcaicas das mais variadas origens.

Já no caso do Novo Testamento, por mais que este possa ser redimido por uma interpretação que valorize os elementos revolucionários de generosidade e tolerância universais contidos em sua mensagem - o que não é irrelevante, muito pelo contrário, mas, em minha modesta opinião, de aplicação quase impossível, na prática -, não resta dúvida de que o mesmo foi e tem sido, pelo menos desde a promulgação do Édito de Constantino em 321, vítima da mais abjeta deturpação e manipulação possíveis, até o ponto de quase total descaracterização de sua suposta intenção original, cujo cerne seria, penso eu, promover a convivência pacífica e a boa-vontade entre os homens, algo que pouquíssimas vezes (na realidade quase nunca), o cristianismo institucional, seja em sua vertente católica ou protestante, praticou de forma franca e sem subterfúgios.

Se bem que para sermos totalmente justos há que reconhecermos também que nenhuma outra religião institucional derivada da Bíblia, seja a judaica ou a islamica, praticou seus ensinamentos éticos de forma coerente, em todos os tempos e em todos os lugares onde prosperaram, talvez, suponho, em virtude da própria incoerência, patente ou aparente, inerente tanto à seus textos quanto à 'relação conflituosa' entre a Divindade Única e seu séquito.   

Voltando ao Novo Testamento, talvez em virtude mesmo daquela dificuldade de concretização total e absoluta de sua doutrina, intrinsecamente exigida pela mesma a qualquer custo e, mais ainda, em espírito de sincera devoção, entusiasmo juvenil e arrebatamento espiritual, impermeável, portanto, a qualquer tipo de hipocrisia, interesse egoísta ou veleidade material, ou seja, tudo aquilo que nos torna demasiadamente humanos, talvez, repito, em virtude de tudo isso é que a “boa nova” presente nos Evangelhos seja um ideal inatingível, uma promessa sem esperança de realização, pelo menos enquanto o homem não encontrar os meios necessários para transcender sua própria natureza animal, se é que tal coisa é desejável ou mesmo possível, algo que é, no mínimo, discutível sob vários aspectos.

Que fique claro que não duvido absolutamente da sinceridade de algum crente isolado, mas nunca em minha vida encontrei um que não tivesse deslizes, brechas ou dúvidas em sua fé, por mínimas que fossem. Honestamente, não me arriscaria a 'por a mão no fogo' por nenhum deles...

Aliás, pode-se afirmar categoricamente que exista algo como uma 'natureza humana' imutável?

Ou o ser humano é capaz de construir-se e desconstruir-se a seu bel-prazer, influenciado por suas experiências, sejam elas materiais ou espirituais?

Será que o ideal professado por Jesus não tinha mais a ver com a humildade em aceitar a própria imperfeição de cada um e, ainda assim, procurar fazer sempre o melhor possível do que com a arrogância em propalar uma suposta superioridade, conforme fez a igreja romana e, posteriormente, as confissões protestantes, durante vários séculos?

E os judeus, será que realmente seguem as leis mosaicas ou, em sua maioria, ainda idolatram o 'bezerro de ouro'?

E quanto a certos fundamentalistas muçulmanos que identificam assassinato com zelo religioso?

É possível justificar com total honestidade intelectual tais comportamentos através de textos considerados sagrados por seus seguidores na atualidade, sejam eles a Bíblia, o Alcorão ou qualquer outro?

E será que arrogar-se como crente, praticante ou não, de uma determinada fé religiosa, ou, analogamente, como ateu, é garantia de atitudes e comportamentos éticos perante a vida e o mundo?

Ou será que o ser humano é naturalmente hipócrita, egoísta e imbecil?

Questões e mais questões...


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

JUDAÍSMO



























[Adaptado de um artigo publicado na 'Folha de São Paulo' da autoria de Mateus Soares Azevedo, jornalista e ensaísta, mestre em história das religiões pela USP e autor de "Mística Islâmica", Ed. Vozes, 2002]



"Insensatos, prestai atenção: recebei minhas instruções com maior gosto do que se recebêsseis dinheiro, pois a Sabedoria vale mais do que todas as riquezas. Comigo estarão a glória, a opulência e a justiça. Feliz o homem que ouve a Sabedoria."




Extraídas dos Provérbios, de autoria de Salomão, são as palavras da "Sabedoria" personificada. Elas assinalam o lugar privilegiado do conhecimento no judaísmo, tradição monoteísta que tem seu eixo num livro sagrado. A 'Torah' (que corresponde ao Pentatêuco, os cinco primeiros livros da Bíblia) contém os Dez Mandamentos, principal legislação do Ocidente dos últimos 3.000 anos.

Até hoje não colocada em prática ("não matarás, não roubarás..."), é tão central que ultrapassou suas fronteiras originais, sendo incorporada pelo cristianismo e pelo islã. Distintamente dessas religiões missionárias, que buscam prosélitos entre todos os povos, o judaísmo não busca conversos e só raramente os aceita.

O judaísmo legou também os Salmos de Davi, venerados pelos cristãos, e os livros sapienciais de Salomão. Davi fez de Jerusalém sua capital, há 3.000 anos, e Salomão construiu o Templo. Destruído em 600 a.C. e reconstruído, foi arrasado em 66 d.C. pelos romanos. O Muro das Lamentações é o que restou dele.

A derrota para os romanos marca a Diáspora - a difusão dos judeus pelo mundo. Curiosamente, a despeito das tensões, suas comunidades somente prosperaram em terras do islã ou do cristianismo. Vem da Espanha muçulmana um dos ápices de sua cultura, com espetacular florescimento da mística e da filosofia, como testemunhado pelo 'Zohar - Livro do Esplendor' -, principal exposição do esoterismo judaico, e pelas obras de Maimônides.

Há ainda o messianismo. Em oposição ao cristianismo e ao islã, para os quais o Messias já veio, certa vertente do judaísmo sustenta que ele ainda está por vir, não necessariamente na forma de uma pessoa, como Jesus ou Maomé, mas certamente para implantar paz e justiça universais. Algo como uma Nova Era sem data marcada. Imagina-se então o fim da Diáspora.

Não se deve confundir essa concepção com o moderno sionismo. Sua ideologia nacionalista e expansionista é uma secularização do ideal messiânico. O sionismo não é parte constitutiva da religião; ainda hoje rabinos se lhe opõem tenazmente, como Moshe Hirsch, de Jerusalém, que prega a devolução integral das terras tomadas na Palestina.


http://olharglobal.blogspot.com/2008/02/judaismo-anti-semitismo-sionismo.html

terça-feira, 29 de setembro de 2009

RELIGIÃO, SUPERSTIÇÃO E PRECONCEITO


























Tanto a religião quanto a superstição contradizem a lógica formal.

Mas a lógica formal não explica necessariamente a totalidade das experiências existenciais. Existem outras formas de lógica que não a formal que podem ser úteis na compreensão de certos fenômenos.

Acredito que muitos tenham, no mínimo, ouvido falar ou lido a respeito das possibilidades ontológicas do pensamento matemático, notadamente no campo da teoria dos conjuntos, por exemplo.

Ou sobre as reflexões (ainda que em contextos diversos) a respeito do "mistério", explícitas ou implícitas, feitas por pensadores como Spinoza, Leibniz, Hegel, Heidegger, Nietzsche, Cantor, Jung, Krishnamurti, Mircea Eliade, David Bohm, Alan Badiou e muitos outros.

Ou ainda a respeito da filosofia existencial imanente aos ensinamentos de diversas religiões consideradas "exóticas", como o budismo, o taoísmo e o induísmo.

Segundo algumas linhas de pensamento das tradições filosófica e teológica ocidentais, ou bem Deus está fora do mundo "real, existente" e não interfere em absoluto com o mesmo (e, portanto, é inútil) ou é onisciente e onipotente e interfere sempre, ou, pelo menos, a seu bel-prazer (sendo, portanto, tirânico ou, no mínimo, fútil). Parece impossível conciliar os dois sentidos. Ou não? Será possível imaginar tal quimera, desde que a despojemos de certas idiossincrasias e antinomias?

É por esta razão (o conflito resultante entre as várias concepções de "Deus") que o monoteísmo absoluto nunca existiu, a não ser de uma forma disfarçada. Parte do Antigo Testamento, por exemplo, especialmente o Gênesis, é uma "colcha de retalhos" costurada com versões de textos caldeus mais antigos, entre outras possíveis fontes.

Para uma visão lógica, coerente e consistente do conceito de "Deus" há que se conciliarem lógicas, coerências e consistências diversas, definindo âmbitos diversos de significação e atuação.

Resumindo: mesmo que haja um "Deus" único (entendido como fundamento ontológico originário, seja imanente ou transcendente), este desdobra-se e subdivide-se necessariamente em "deuses" diversos: por exemplo, a hierarquia gerativa dos conceitos, entre outras possibilidades.

O mesmo raciocínio pode ser transportado para a questão da "natureza" da personalidade humana. Somos um, muitos ou (paradoxalmente) ambos?

Tanto a "personalidade" de Deus quanto a personalidade do homem só se definem por uma coerência que escapa à lógica formal (ou seja, pela constatação de que ser paradoxal não é o mesmo que ser contraditório).

Não obstante, conforme já foi observado, existe efetivamente muita contradição (e superstição) no pensamento religioso tradicional.

A homofobia, por exemplo, faz parte dos supostos ensinamentos de Jesus? Penso que não. Entretanto - e lamentavelmente de uma forma agressiva e virulenta - a condenação ao homossexualismo é explícita no Antigo Testamento. Como conciliar o "amar ao próximo como a ti mesmo" com um preceito bíblico que pode chegar aos limites da intolerância radical?

Alguns diriam que "Deus ama o pecador, mas não o pecado". Mas fazer milhares de pessoas se sentirem miseráveis por conta de sua orientação sexual é uma forma válida de demonstração de amor?

O próprio conceito de religião, tanto em sua etimologia ("re-ligação" com uma suposta "autoridade" exterior) quanto em sua história, remete a uma relação de dominação-submissão. É neste sentido que defendo um entendimento diferente do "fenômeno religioso", calcado numa abordagem imanente e transpessoal.

Como bem colocou o ex-pastor protestante e homossexual assumido Sérgio Viula numa entrevista, "o homem pode viver sem religião. Viver sem religião não é ser a-ético ou anti-ético. Ética é a arte de viver bem, com o maior índice de felicidade possível, interferindo o menos possível na felicidade alheia."

E eu acrescentaria, por minha própria conta, que ser imbuído de uma intuição do sagrado não implica necessariamente em seguir cegamente esta ou aquela concepção do que seja religião.

Faz-se mister que a justa importância concedida à liberdade de culto para os praticantes e seguidores de qualquer religião seja estendida à liberdade de expressão daqueles que se pretendem ateus ou de alguma forma duvidantes, e que sua posição seja considerada com o mesmo respeito.

Já houve perseguições e massacres suficientes ao longo da História entre adeptos de diferentes credos, bem como contra aqueles que optaram por manter uma atitude agnóstica ou de descrença em relação à fé religiosa. Chega de mártires e guerras santas. Respeitemo-nos uns aos outros na diversidade.  

Entretanto, não se pode fechar os olhos, os ouvidos e a boca - como aqueles três macaquinhos - quando a barbárie se manifesta, a partir de concepções religiosas, em atitudes violentas e humilhantes para com as mulheres, os homossexuais, as crianças e todo aquele que não se encaixe no modelo de "normalidade" preconizado por grupos ou governos (religiosos ou seculares), seja no Irã, na China, em Israel, na Coréia do Norte, em Cuba, no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.       

Religião e política são como água e óleo. Não foram feitas para se misturar, assim como intolerância não combina com democracia. E nunca é demais lembrar que a minha liberdade termina onde a do outro começa, e vice-versa.

Que fique bem entendido: este texto não é um panfleto contra ou a favor da religião (ou do homossexualismo, por sinal). É pura e simplesmente uma declaração de independência intelectual e de repúdio direcionado a todo e qualquer tipo de opressão e preconceito, sejam religiosos, sexuais ou de qualquer outro tipo.