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quinta-feira, 1 de maio de 2014

A OUTRA GUERRA DA CRIMÉIA


[Editado de um texto de autoria de Flávio Henrique Lino publicado no jornal O GLOBO]


Embora o mundo olhe com preocupação para a República Autônoma da Crimeia, a península secessionista ucraniana não é nenhuma novata no palco dos imbróglios internacionais. Travada principalmente na região, entre 1853 e 1856, a Guerra da Crimeia opôs o Império Russo, de um lado, a uma aliança entre o Império Otomano, o Reino Unido, a França e o Reino de Piemonte e Sardenha, de outro.

   

É considerada por historiadores como a primeira guerra da era moderna, levando para o campo de batalha - e fora dele também - inovações da Revolução Industrial precursoras dos avanços tecnológicos que permitiram as grandes carnificinas dos conflitos armados do século XX.

Na Crimeia novas armas se desenvolveram, com usos mais letais. Mas também foi lá que o mundo viu nascer a figura lendária do correspondente de guerra, responsável por aproximar o público de longínquos teatros de guerra. Aproximação essa facilitada pela utilização do recém-inventado telégrafo para o envio das notícias do front, cortando em dias ou até semanas o trajeto das histórias do campo de batalha às páginas dos jornais.

Tais relatos ficaram ainda mais vívidos com outra inovação recente, a fotografia, que começou ali a tomar o lugar das ilustrações nas publicações, dando início ao fotojornalismo. No campo humanitário, nos hospitais militares da Crimeia forjou-se uma nova forma de atendimento médico, com maior ênfase na higiene e nas condições sanitárias das instalações, diminuindo a mortalidade por doenças.

E também foi das necessidades da guerra que surgiram peças de vestuário amplamente conhecidas em nossos dias.


POST-SCRIPTUM:


Agora só nos resta torcer para que a sanha expansionista do novo "império" russo e os interesses econômicos dos EUA e da União Européia não nos levem a uma nova guerra mundial...




  

domingo, 13 de abril de 2014

O LIVRO NEGRO DO CAPITALISMO




[Editado a partir de um texto da autoria de EMIR SADER]



Em tempos de regressão conservadora como os atuais, a "baderna" voltou ao vocabulário cotidiano, não pela voz dos militares - que, depois de cumprir seu papel de "restabelecimento da ordem e da disciplina", deixaram a função na mão de civis - mas de órgãos da grande imprensa e de ex-comunistas, em guerra contra os pobres.

Bradar pela ordem é um dos mecanismos básicos da direita - aquela que privilegia a ordem em detrimento da justiça, segundo Norberto Bobbio - e portanto a "baderna" é parte integrante do vocabulário da direita. Faz parte do mecanismo de buscar bodes expiatórios para o fracasso de sua civilização, vitoriosa na virada do século.

Se a esquerda assume o que foi a URSS como proposta fracassada de sociedade socialista, assume e tira consequências, a direita se esquiva dos monstros que criou.


Afinal de contas, as duas guerras mundiais foram guerras interimperialistas e, portanto, seus milhões de mortos, pertencem, com justiça, ao Livro Negro do Capitalismo, porque foram uma expressão da feroz disputa de mercados entre as potências capitalistas. Assim como o nazismo, o fascismo, o franquismo, o salazarismo foram expressões exacerbadas de sociedades capitalistas.

Ou foram o que?


POST-SCRIPTUM:

Esta postagem é em "homenagem" ao ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que renunciou ao cargo e que já vai tarde.

E que não volte tão cedo!






sexta-feira, 23 de setembro de 2011

OLHAR LOCAL, OLHAR GLOBAL



Pois é. Não bastassem os problemas pessoais - ganhar dinheiro e aturar a ex-mulher, por exemplo, entre outros menos cotados - que me levam (e a qualquer um, com certeza) a ficar de 'saco cheio', não faltam notícias absurdas no Brasil e no mundo para contribuir com a sensação de pessimismo generalizado, descontando-se algumas honrosas exceções.



Aqui no Rio, pra começo de conversa - e este é um começo dos mais inofensivos - o meu Flamengo, depois de uma campanha exemplar, passou a perder seguidamente e agora praticamente não tem chances (1%) de ganhar o Campeonato Brasileiro. E isto pouco tempo depois de uma partida memorável contra o Santos (que inclusive elogiei aqui no meu 'blog'). Acho que sou 'pé-frio'...



Por outro lado - e este sim é um lado realmente triste e vergonhoso - o Rio de Janeiro, apesar de continuar lindo, tem sido palco de tragédias e quase tragédias que poderiam e deveriam ser evitadas. Além dos bueiros que continuam explodindo, ferindo pedestres e destruindo propriedades - sem que até agora tenha-se apurado os devidos responsáveis -, tivemos há pouco tempo o caso do bondinho de Santa Teresa (um bairro onde já morei e que adoro, tendo usado o mesmo bondinho inúmeras vezes, inclusive na companhia de minhas filhas pequenas), que aparentemente perdeu o controle dos freios e sofreu um acidente lastimável, causando mortos e feridos.





Acidente este que, para variar, ainda não foi devidamente esclarecido quanto a suas causas efetivas, existindo fortes indícios de que houve negligência e descaso das autoridades com relação à manutenção do veículo, o que, se comprovado, é um verdadeiro absurdo, em se tratando de um patrimônio histórico da cidade e que atrai turistas tanto do Brasil quanto do resto do mundo.   



Entre outros problemas menos badalados - mas não menos importantes - temos tido, ainda aqui no Rio, diversas greves reivindicatórias que, apesar de justas em sua origem, têm causado transtornos à população, como foi o caso dos bombeiros e, mais recentemente, dos bancários, dos correios e dos professores da rede pública.  



Voltando aos casos trágicos e sinistros, assistimos ontem mesmo à história do menino de 10 anos, em São Paulo, que deu um tiro na professora com a arma do pai, policial municipal, e depois suicidou-se com um dispara contra a própria cabeça. Putz! Se bem que este não seja um caso único ou inédito: episódios em que crianças ferem-se ou mesmo matam-se (ou a irmãos ou colegas) com armas pertencentes aos pais não são raros no Brasil. 



Este caso do garoto, entretanto, tem um componente macabro que lembra aquele do psicopata de Realengo (no Rio), há algum tempo atrás, e nos deixa a todos, novamente, com uma sensação de total perplexidade, superada apenas pela constatação da urgente necessidade de um maior controle das armas de fogo pelas autoridades.




Autoridades essas que, em muitos casos, estão infiltradas por bandidos, como é o caso da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Ultimamente, facções de policiais corruptos que controlam a cidade através de 'milícias' tem se sentido tão seguras de sua impunidade que um destes grupos não hesitou em assassinar a juíza Patrícia Acioli com 21 tiros (!), uma vez que ela ameaçava desbaratar suas atividades criminosas e levar vários de seus membros à prisão. Espera-se ainda o esclarecimento do caso pela justiça e a punição exemplar dos culpados. 





(Pelo menos por aqui ainda não nos tiraram a liberdade de expressão e o direito de reclamar...)  



Agora, perplexidade mesmo e até incredulidade foram causadas pelo absurdo atentado terrorista na Noruega, há algumas semanas atrás, provocado por um louco que matou várias pessoas apenas para expor seu ponto de vista fascistóide e racista. 



Ainda no palco internacional, cabe dar os parabéns aos EUA por finalmente localizarem o líder terrorista Osama Bin-Laden, apesar de, pelo menos neste item, eu concordar com certas opiniões que advogam que o mesmo deveria ter sido levado a julgamento. Porém, pensando melhor, os desdobramentos de uma execução pública - ainda que como consequência lógica de um julgamento imparcial - seriam de tal forma problemáticos que talvez a melhor solução tenha sido mesmo aquela implementada pelos militares americanos.




De qualquer maneira, isso já é notícia velha: recentes, mas muito mais preocupantes, são as que nos falam das pretensões palestinas a um estado reconhecido pela ONU sem a concretização de um acordo de paz duradouro com Israel (das duas, uma: tal iniciativa pode levar a uma escalada no conflito palestino-israelense ou então - o que seria ótimo - os caras acabam finalmente se entendendo) e o discurso do senhor Mahmoud Ahmadinejad no plenário daquelas mesmas Nações Unidas disparando acusações contra o Ocidente, sem nenhuma moral para isso, diga-se de passagem, haja vista a situação dos direitos humanos no Irã.






Para completar o panorama, a situação econômica mundial deteriora-se a passos largos, com a possível falência dos EUA, do Japão e da União Européia avizinhando-se no horizonte, enquanto organizações e grupos criminosos infiltram-se nos altos escalões de praticamente todos os governos do mundo (alguém duvida que Silvio Berlusconi ou Vladimir Putin, por exemplo, não passem de mafiosos engravatados?), controlando-os com vistas a seus interesses particulares, incluindo-se aí a Rússia, a China, a Índia, a Itália, o Japão e quantos mais se puder imaginar, dada a quantidade de denúncias de corrupção e de fraudes de todos os tipos perpetradas por seus líderes e representantes, eleitos ou não. E não nos esqueçamos do Brasil de Sarney & Cia., o qual ocupa, se não o primeiro, pelo menos um lugar de destaque neste 'ranking'.




Mas eis que um fato novo vem trazer alguma esperança e otimismo a um cenário internacional tão sombrio: a 'primavera árabe'. Tunísia, Egito e Líbia - e, esperamos, num futuro próximo, também a Síria, a Argélia, a Jordânia, o Iêmen, o Marrocos, a Arábia Saudita, o Líbano e outros - inauguraram uma nova era política no Oriente Médio e Norte da África que, com certeza, deverá mudar inexoravelmente o equilíbrio de forças naquelas regiões, assim como para melhor a qualidade de vida de suas populações - que Allah nos ouça! -, o que deve acontecer assim que governos democráticos e, principalmente, orientados por princípios laicos (ao contrário de certas ditaduras religiosas comandadas por aiatolás, por exemplo) assumirem o poder. Fico daqui na torcida.




Por fim, no meio de toda essa 'zorra', não podemos esquecer que a Copa do Mundo da Fifa está chegando e, como sempre acontece no Brasil em tais situações, as obras relacionadas ao evento estão perigosamente atrasadas, o que causa preocupação, ainda mais em meio a rumores de superfaturamento e desvio de verbas. Tá feia a coisa.



POST-SCRIPTUM:






Mas, por enquanto, vamos só curtir, porque o 'Rock in Rio' começa hoje, minha gente! Só lamento a ausência de um pouco mais de rock 'de verdade' no evento, apesar de muitas presenças memoráveis como Capital Inicial, Evanescence, Coldplay, Slipknot, Metallica, Guns & Roses, Lenny Kravitz, Elton John e Stevie Wonder, entre outros.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

A CIA E A GLOBALIZAÇÃO DO CRIME ORGANIZADO

























[Trecho de uma entrevista concedida pelo cineasta Mauro Lima (“Meu Nome Não é Johnny”) à jornalista Luciana Pessanha (O Globo), em março de 2009]


P: O filme que você está escrevendo tem nome?

R: Não.

P: A tua pesquisa parece ser gigante...

R: Ficou gigante porque achei que devia partir de fatos reais e não ficcionais, então tive que procurar muitas histórias para colocar no roteiro e mostrar que em cantos diferentes do mundo o crime organizado podia se cruzar globalizadamente. Aliás, a globalização não é uma invenção do neoliberalismo, no crime organizado isso já é muito velho...

P: O que te instiga na globalização do crime?

R: Eu me perguntava: será que a gente vai ver a vida inteira filmes onde essa questão parece que se encerra no chefe do morro? Nessa coisa de varejo? Os chefes do morro no Brasil não sabem nem de onde vem essa porra. O cara vende pó como mais um produto que foi empurrado para a clandestinidade. O Rio de Janeiro é sitiado porque tem um gerente do morro que coordena esse sítio? Eu queria uma visão macroscópica, olhar de cima e entender que a questão do crime organizado, e sobretudo das drogas e das armas, sempre atendeu a interesses de nações, não de chefinhos de morro ou de fazendeiros.

P: Onde você foi buscar informação?

R: Em livros. E com a ajuda de um agente aposentado, o Francisco Garisto, que é meu consultor e trabalhou na Polícia Federal dos anos 70 aos 90. Ele foi infiltrado em cartéis internacionais, sentou na frente do Pablo Escobar com uma identidade falsa...

P: Falando em Pablo Escobar, você podia contar a história do julgamento dele?

R: Está no livro do Michael Levine, um ex-agente do DEA (Drug Enforcement Administration), chamado “A Grande Mentira Branca”. O Levine é o correspondente a esse meu informante, só que americano. Ele escreveu que o Pablo Escobar disse que a única coisa que ele não admitia, de todas as mentiras que inventaram durante o julgamento, era dizer que ele era associado a guerrilheiros, porque ele é um empresário, um homem de negócios, é contra o comunismo e qualquer movimento guerrilheiro.

P: Como você pretende organizar as informações no seu filme?

R: Tenho que pensar em pessoas, em cantos diferentes do mundo, envolvidas com máfias diferentes. Escolhi uma do Oriente, uma dos EUA, uma do Brasil, outra do leste europeu. E vou contar a vida desses caras ao longo de 30 anos.

P: E como é que você chegou às conexões do tráfico de drogas com a CIA?

R: Até a eleição do Obama, e principalmente durante a Guerra Fria, a CIA era uma empresa completamente independente da Casa Branca, que trabalhava com um orçamento secreto e com as operações mais malucas para financiar movimentos de derrubada de repúblicas comunistas ao redor do mundo. Se você ler “Legado de Cinzas”, do Tim Weiner, escrito só com documentos oficiais, vai ver a maluquice. Durante a Guerra Fria, tudo o que fez para derrubar ou evitar alguma revolução foi baseado em desinformação e sabotagem.

P: O que você chama de desinformação?

R: Você pode ter a via diplomática para resolver um conflito internacional, pode ter uma guerra oficial e declarada ou ir por uma terceira via: contrainformação, espionagem, sabotagem, financiamento de contraguerrilha. Oficialmente os EUA não fizeram nada em relação ao golpe de estado no Brasil, mas os porta-aviões deles se despencaram pra cá, porque estavam preparados para uma cagada. Eles não deram um tiro, mas pegaram um Zé Mané, tipo cabo Anselmo e... como é que um cabo pode ser estopim de um golpe de estado? Ele era presidente da Associação de Marinheiros, insuflou os companheiros de uma maneira absurda e incontrolável, aquilo sai em tudo o que é jornal, aquela baderna, o golpe acontece, o delegado Fleury prende o cara e, em duas horas, ele muda de lado? Ninguém muda de lado em duas horas. Não deu nem tempo de ele apanhar. Existem cabos Anselmos espalhados pelo mundo inteiro. Você pode explodir um cinema e dizer que foi um guerrilheiro. Eu li uma entrevista com um ex-agente da CIA em posto avançado em SP, onde ele contava que saiu da agência porque tinha que explodir um cinema na Avenida Paulista e culpar o partido comunista. Tem um documentário sobre ex-funcionários da CIA que mostra um agente infiltrado em Cuba, cuja missão era envenenar o leite que a União Soviética mandava para as crianças. Como é que eles levantavam dinheiro pra essas operações? Eles sempre tiveram orçamentos secretos. As verbas deles sempre vieram de lavagem de dinheiro, de venda de armas e do 'drug trade'.

P: Com que exemplos?

R: A famosa Conexão França foi o seguinte: as docas dos portos de Marselha eram dominadas por sindicatos ligados ao partido comunista. A CIA deu apoio logístico para a máfia dos Corsos tomar o controle. Os Corsos eram mafiosos, então toda a heroína que foi para os EUA durante os anos 50 vinha dessa conexão. Eles sempre financiaram o inimigo: Ho Chi Minh, Fidel, Saddam Hussein, Bin Laden, os Mujahidin do Paquistão foram financiados durante a guerra com a Rússia pelos americanos, tudo com dinheiro do 'drug trade'. O Afeganistão também, nos anos 70. Os grandes barões da droga lá eram os caras que não queriam russo lá de jeito nenhum, porque queriam vender papoula. A CIA bancava os Mujahidin, onde o Bin Laden fez escola.

P: Isso tudo é assunto do seu filme?

R: Não. Mas o 'drug trade' da Indochina, sim. No Laos, a CIA tinha uma companhia aérea de fachada, chamada Air America, que transportava gente, inclusive o Dalai Lama, em aviões supostamente comerciais, mas que levavam armas e heroína. Isso está no “The Politics of Heroin”, Tem um livro chamado “Barry and the Boys” que conta a história do Barry Seal, que fez voos pra Cuba, na época em que os Estados Unidos financiaram o Fidel para derrubar o Fulgencio. Esse cara trabalhava para CIA e como piloto comercial ao mesmo tempo. Nos anos 80 ele foi preso por tráfico de drogas umas três vezes, era pego com 300 quilos de cocaína num teco-teco e pegava prisão domiciliar por seis meses. Ele fez tráfico de cocaína da Colômbia para financiar a contraguerrilha na Nicarágua, era parte do esquema Irã-Contras.

P: Sempre se financiou contraguerrilha com drogas?

R: No Afeganistão, na guerra com a Rússia, eles usaram os drug lords da papoula; e, na América Latina, a cocaína. O escândalo Irã-Contras começou quando se descobriu que os EUA vendiam armas para o Irã e o Iraque. A Rússia apoiava o Irã e os EUA, oficialmente, o Iraque. Mas, para financiar a derrubada do governo da Nicarágua pelos rebeldes (os Contras), eles vendiam armas para o Irã e o Iraque. O escândalo estourou porque um avião caiu na América Central com quatro toneladas de cocaína. Nessa década o Bush pai era diretor da CIA, e o Noriega era agente da CIA e traficante. O Noriega virou presidente do Panamá, e, assim que o Bush foi eleito presidente dos EUA, o exército americano invadiu o Panamá, arrancou o cara de dentro do palácio e o levou para ser julgado como traficante nos EUA. Ele era arquivo, não podia abrir a boca. Na verdade o que eu quero dizer é que o tráfico de drogas não atende o interesse do Comando Vermelho, e sim de nações.

P: Todas as rotas mundiais de drogas do seu filme chegam a CIA?

R: O meu consultor brasileiro estava investigando uma conexão Mato Grosso-Bolívia e se infiltrou num cartel. Na mesma época o Michael Levine estava na Argentina, trabalhando para a DEA, fingindo que era traficante americano, comprando toneladas de cocaína. As duas operações tiveram que parar porque o governo democrata da Bolívia estava perigando e isso era financiado pelo tráfico, associado à CIA. As duas operações esbarraram na CIA, que protegia os traficantes. O brasileiro parou porque teve que reportar à Polícia Federal e à DEA que um general boliviano, emblema do combate às drogas no governo democrático, era parte do tráfico. Quando ele viu o nome desse general na “Veja” como ponta de lança do combate às drogas, mandou um dossiê para a PF dizendo que ele frequentava as fazendas dos traficantes, e a operação parou aí. Pouco depois teve o golpe, e esse general virou presidente: o Garcia Meza. Historicamente esse fato se chama O Golpe da Cocaína. Com o americano aconteceu a mesma coisa. Uma hora ele viu que estava correndo risco de vida, e essa coisa não ia dar em nada. No livro “A Grande Mentira Branca”, ele conta que, num dado momento, um policial argentino torturador imundo virou pra ele e disse: “Vem cá, gringo, quem você acha que está beneficiando esses traficantes? São seus conterrâneos!”. Depois descobriu que a informante dele estava totalmente ligada ao golpe militar e aos traficantes. Aí viu que era um idiota, fez um ‘report’ dizendo que isso não ia dar em nada, e mandaram ele voltar para os EUA. Aí ele escreveu uma carta secreta para um jornalista do “New York Times”, o Larry Rohter, que publicava artigos ufanistas sobre a guerra contra as drogas do Reagan, explicando que não era bem assim, que o buraco era mais embaixo, acreditando que o jornalista ia arrumar um jeito de fazer um escândalo. Dois dias depois saiu outra matéria ufanista. Logo em seguida abriu-se um inquérito contra o Levine, não por isso, mas por motivos absurdos.

P: Como você pretende orquestrar tantos fatos em vários cantos do mundo?

R: Se você tirar o joio do mundo do crime organizado, que é gigante, fica com um quadradinho.

P: Você não teme pela sua vida?

R: Não é um filme de denúncia. Não vou dar nomes. Tudo isso já foi fartamente documentado. E essa galera toda já morreu. O crime hoje é outro.

P: Está mais organizado?

R: Acho que sim. Eu nem sei como funciona hoje. Mas sei que não é assim.




POST-SCRIPTUM:





Pode até ser que não seja mais assim, porém, e ainda que os personagens desta tragicomédia sejam outros, com certeza tem muita gente poderosa se beneficiando da velha política de 'combate às drogas', usando os mesmos argumentos hipócritas ao mesmo tempo em que alimenta a corrupção em todos os níveis do poder público em todo o mundo.


quarta-feira, 14 de abril de 2010

BARACK OBAMA E A CÚPULA SOBRE SEGURANÇA NUCLEAR


































O presidente americano, Barack Obama, disse nesta terça-feira que a Cúpula sobre Segurança Nuclear realizada durante dois dias em Washington foi um exemplo do que é possível quando as nações trabalham juntas e que o mundo ficará mais seguro após a reunião.


"Essa noite, eu posso relatar que aproveitamos essa oportunidade e por causa dos passos que tomamos como nações individuais e como uma comunidade internacional, que os americanos terão mais segurança e que o mundo estará mais seguro", disse o presidente no discurso de encerramento da Cúpula.

Obama afirmou ainda que houve um consenso sobre a seriedade de ameaça nuclear.

"Primeiramente, concordamos com a urgência e seriedade da ameaça. Declaramos hoje que o terrorismo nuclear é uma das maiores ameaças para a segurança internacional", disse ele, afirmando ainda que os 47 países presentes concordaram que o fortalecimento dos controles sobre materiais nucleares é a melhor forma de evitar que criminosos adquiram-os.

Obama elogiou a meta ratificada pelos participantes de garantir a segurança de materiais nucleares em um prazo de quatro anos.

"Reconhecemos que, mesmo se cumprirmos com nossas responsabilidades, essa meta não pode ser alcançada por países que trabalhem em isolamento", disse. "Portanto, estamos comprometidos com um programa efetivo de cooperação e convidamos outras nações a se juntarem a nós", completou.

Os 47 países presentes na Cúpula se comprometeram a trabalhar juntos para que todo o material nuclear vulnerável esteja protegido no prazo de quatro anos.

Durante dois dias, a reunião organizada pelo governo americano discutiu medidas para impedir que materiais nucleares - como plutônio ou urânio altamente enriquecido - caiam em poder de organizações consideradas extremistas.

No documento final do encontro, os países se comprometem em "aumentar a segurança nuclear e reduzir a ameaça de terrorismo nuclear".

Os participantes da cúpula estabeleceram ainda um plano de trabalho com medidas nacionais e internacionais para levar o compromisso adiante.

Também ficou marcada uma nova reunião para 2012, na Coréia do Sul.

Obama pediu para que a comunidade internacional trabalhe "rápida e decididamente" para impor novas sanções contra o Irã por causa de seu programa nuclear.

"Meu interesse não é ter um processo que se arraste por meses", disse ele, afirmando ainda desejar que o governo iraniano perceba que desenvolver um programa nuclear traz mais custos do que benefícios.

O presidente americano disse que a China está cooperando nos esforços para estipular sanções nas Nações Unidas contra o Irã.

"Os chineses estão obviamente preocupados com as ramificações que isso pode ter para sua economia. O Irã é um produtor de petróleo. Acho que muitos países no mundo têm relações comerciais com o Irã e estamos cientes disso", afirmou.

O presidente americano elogiou a forma como o Paquistão vem mantendo seu arsenal nuclear.

"Tenho confiança na segurança paquistanesa em relação ao seu programa nuclear mas não significa que não existam melhorias possíveis de serem feitas em todos os nossos programas nucleares", afirmou.

Obama pediu para que a Coréia do Norte volte a negociar seu programa nuclear, afirmando que o país "escolheu o caminho do isolamento radical".


(BBC Brasil - 13/04/2010)


POST-SCRIPTUM:




Que se danem os governos do Irã e da Coréia do Norte, o Talibã e o Bin-Laden: pelo menos no que se refere a este assunto, estou com o Obama e não abro!

Apesar de discordar veementemente da lógica grotesca que procura justificar a manutenção dos arsenais nucleares, dos males o menor: antes viver sob o jugo da exploração mal-disfarçada que sustenta a falida democracia ocidental (onde, pelo menos, me é permitido o luxo de criticá-la), que submetido a tirania explícita de ditaduras que cinicamente se autoproclamam como "socialistas" ou de teocracias medievais asfixiantes e repressoras.


domingo, 2 de agosto de 2009

COOPERAÇÃO OU EXTINÇÃO?



























A guerra sempre foi inerente ao homem em sua escalada civilizatória na mesma medida em que a violência e o conflito, de uma forma ou de outra, são também inerentes à própria existência como um todo, o que é fácil de constatar se tivermos a honestidade intelectual de observar a realidade em todas as suas instâncias com a devida isenção.

Podemos supor, entretanto, que o 'homo sapiens' esteja também sujeito à evolução social, além da biológica, e que a mesma, eventualmente, reforce a tendência a sofisticar as formas de resolução dos conflitos, substituindo a opção das guerras propriamente ditas por outras menos violentas como, por exemplo, o debate e a diplomacia.

Quando falo em ‘evolução social’ devo admitir que o faça baseado em certas observações empíricas inegavelmente discutíveis (o paralelo com a evolução biológica, por exemplo), porém não totalmente descabidas; mas também o faço por uma opção pragmática (prefiro apostar que ‘o copo está meio cheio’ do que ‘meio vazio’) e por convicção ideológica (uma fé difusa e aparentemente irracional no potencial do gênero humano, mas as aparências às vezes enganam). Entretanto não acho desejável a opção pela extinção completa da agressividade, uma vez que é dela, em última análise, que depende o instinto de sobrevivência de qualquer organismo vivo.

A questão da guerra, especificamente, assim como outras questões que envolvem interesses particulares de indivíduos ou grupos, não será resolvida com um discurso moral por si só decadente e inócuo. E ainda que manipulados por líderes desonestos, os homens continuam acreditando que fazem a guerra por motivos justos. Aliás, o que mais temos hoje são guerras ‘justas’, segundo o mesmo padrão que se usa para afirmar que a guerra é ‘imoral’.

Diz-se que a necessidade é a mãe da invenção; somente quando chegarmos ao ponto em que o homem perceba, se é que o fará (só nos resta torcer que sim), que a sobrevivência da espécie está ameaçada e que a cooperação é a única saída viável poderemos, talvez, nos tornar algo diferente do que temos sido no último milhão de anos.


"Se pensarmos em quantas coisas além de fronteiras entre estados as guerras da história decidiram, temos de sentir um respeitoso assombro, a despeito de todos os horrores. Nossa verdadeira civilização, tão boa quanto ruim, teve as guerras passadas como condição determinante" (William James)


domingo, 28 de junho de 2009

APOLOGIA DA PAZ: PALESTINA x ISRAEL (UM DESABAFO)


















Gostaria, antes de tudo, de esclarecer que nem todo judeu é sionista ou apóia a estratégia beligerante do Estado de Israel. O que se passa, hoje, por sionismo, em Israel, é herança do sionismo revisionista, uma facção fascistóide entre inúmeras que existiam, tanto de direita quanto de esquerda (até porque o sionismo nunca foi doutrinariamente unificado e coeso, possuindo diversas versões com propostas divergentes entre si).

Meu pai, ainda hoje vivo, é um judeu polonês naturalizado brasileiro; minha mãe, também viva, é brasileira e nordestina, nascida no estado de Pernambuco, 'meio' católica 'meio' convertida ao judaísmo; e meus avós maternos, ambos já falecidos, eram mestiços (tenho sangue africano, indígena e europeu, com muito orgulho).

Meu pai, apesar de não ter sido uma vítima direta dos campos de concentração nazistas (ao contrário de muitos de seus familiares e vizinhos), então ainda muito jovem, lutou na Segunda Guerra Mundial como sargento do Exército Vermelho soviético contra a ameaça representada por Hitler e sua ideologia criminosa, mesmo não sendo russo e muito menos endossando incondicionalmente as barbaridades cometidas por Stálin, apesar de poder citar muitas de suas realizações em favor do povo nas áreas da educação, da saúde e do bem-estar social (algo que, evidentemente, não justifica os massacres também cometidos por ele contra seus opositores).

Sou, portanto, judeu e (parcialmente) descendente de judeus - meu avô paterno era escritor e tradutor de alguns clássicos da literatura ocidental para o 'iídishe' e meu bisavô um estudioso da 'Kabbalah' - e me identifico com muito do que diz respeito ao judaísmo, mas também sou, antes de tudo, brasileiro e latino-americano. Entretanto, e justamente por minha definição pessoal de judaísmo não estar ligada a uma questão meramente religiosa, cultural ou mesmo étnica, sendo mais uma ligação afetiva que qualquer outra coisa, também me considero um “cidadão do mundo”, cosmopolita, multiétnico e sem ligação formal com qualquer religião organizada ou, mais precisamente, um agnóstico com grande interesse por mitologias comparadas e por todas as antigas doutrinas místicas tanto ocidentais quanto orientais, bem como pelos assim chamados 'fenômenos paranormais' de uma forma geral.

Assim sendo, e tendo em vista minha situação particularmente 'sui generis' no que se refere a experiências pessoais em lidar com diversos tipos de preconceito, sinto-me com isenção suficiente para criticar qualquer manifestação de racismo ou intolerância, venha de onde vier.

Já estou cansado de ouvir pessoas proferirem impropérios contra os judeus ou os muçulmanos em geral e confundirem os atos de alguns grupos e indivíduos com toda uma população, além de fazerem questão de colocarem vendas sobre os olhos para não enxergarem os crimes igualmente condenáveis cometidos por ambos os lados. Não vai ser com acusações unilaterais nem com intolerância preconceituosa que se resolverão os problemas seculares do Oriente Médio.

Acusa-se Israel, por exemplo, e com certa razão, de ter 'roubado, matado e destruído', assim como o povo palestino de ser 'um bando de suicidas irracionais', mas esquece-se de que serão sempre indivíduos e facções a praticar tais atos; não faz sentido, portanto, imputar tais acusações a todo um povo, como não faz sentido acusar a todos os alemães pelo nazismo ou a todos os americanos pela bomba de Hiroshima. E ficar bradando palavras de ordem eivadas de ódio e ressentimento não me parece ser a atitude de alguém que tenha um mínimo de inteligência e bom-senso. Se exageros são cometidos por alguns, eles devem ser expostos e condenados, porém sem essa virulência que põe 'todos os gatos no mesmo saco'.

Diante da complexidade desta situação, quero proclamar em alto e bom som minha posição pessoal em relação ao aqui exposto: sou contra a ação desproporcional e criminosa do exército israelense, assim como também sou contra o Hamas usar a população civil palestina como escudo contra as bombas de Israel; sou contra os ultranacionalistas de direita israelenses que não querem a criação de um estado palestino, assim como sou contra a estupidez dos homens-bomba palestinos que não admitem a existência do estado judeu; sou contra a atitude intransigente dos atuais governantes israelenses, bem como sua falta de visão do futuro, assim como sou contra a prática de ficar revirando o passado a procura de uma justificativa para o ódio, tanto quanto abomino quaisquer tentativas de negar o Holocausto.

Para reforçar ainda mais minha disposição pacifista e conciliatória, concluo fazendo minhas as palavras de Uri Avnery, uma das mais sábias vozes em Israel, quando escreve que, depois de uma vitória militar israelense, “o que ficará marcado na consciência do mundo será a imagem de Israel como um monstro manchado de sangue, pronto para, a qualquer momento cometer crimes de guerra e não preparado para obedecer a quaisquer limites morais. Isso terá consequências graves para nosso futuro no longo prazo, para nossa estada no mundo, para nossa chance de conseguir paz e sossego. No fim, essa guerra é um crime contra nós mesmos também, um crime contra o Estado de Israel”.

Entretanto, seria uma atitude muito ingenua e nem um pouco realista esperar que Israel não se defendesse enquanto sofre atentados terroristas continuamente por parte daqueles que negam até mesmo seu direito à existência. 

Quem se deu ao trabalho de pesquisar o pouco que seja a respeito da história da criação do estado de Israel pela ONU em 1948, conhece a proposta de criação de um estado palestino na mesma época, vizinho ao estado judeu, e que foi rejeitada pela comunidade dos países árabe sob alegações no mínimo discutíveis.

Enquanto ambos os lados não se conscientizarem de que somente através do dialogo e do respeito mútuo às diferenças se poderá conviver em paz e prosperar, ao invés de ceder ao ódio cego e aos interesses escusos de lideranças manipuladoras, seja no Oriente Médio ou em qualquer outro lugar do planeta, tais conflitos irracionais, em nossos dias de armas atômicas, químicas e biológicas, terão eventualmente como consequência inevitável  levar a Humanidade a se aproximar cada vez mais da extinção pura e simples.

Acredito, assim como todo aquele imbuído do mínimo de bom-senso, que tal conclusão não seja do interesse de ninguém. Ou será que a ganância e a estupidez novamente falarão mais alto?           


POST-SCRIPTUM:

Shalom, Salam, Paz a todos.