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domingo, 25 de maio de 2014

A DECADÊNCIA DA CORRUPÇÃO


[Texto de Millôr Fernandes publicado originalmente em O PASQUIM nº 281]


Pode ser que esta discussão não tenha acontecido, ou tenha, pode ser que eu seja especialista em leis, pode ser que não seja, pode ser que vocês acreditem no que escrevo, pode ser que não. Tudo pode ser e pode não ser ao mesmo tempo. Hamlet perdeu seu tempo e seu latim.

O fato é que meus amigos - que chamaremos de Paulo Pai e Paulo Filho, ou Paulo Sênior e Paulo Junior, para os que preferem anglicismos, Paulo I e Paulo II, para os que ainda suspiram pela monarquia, - tiveram uma discussão.

Paulo Filho estava fazendo 20 anos, uma idade absolutamente provecta para quem, cinco anos antes tinha apenas 15 e está portanto, 1/3 mais velho, e Paulo Pai tocou no delicado assunto de escolha de uma carreira.

Não se tratava mais "do que é que você vai ser agora que já está demasiado crescido" (Paulo Filho tem 1 metro e 83). Pois embora Paulo Pai estime muito o filho, não é dado aos pais, mesmo os mais estimativos, sustentar os estimados filhos até a morte - comumente morte deles próprios, pais, porém, algumas vezes, dos referidos filhos, pois ninguém é tão velho que não possa viver mais um ano nem tão jovem que não possa morrer já.

Pois, então, dialogaram:
- Bem, meu pai - disse Paulo Filho - creio que, ao escolher uma profissão, devo ser prático. Tenho que pensar em algo que, acima de tudo, dê dinheiro.

- Acho que não, meu filho - disse Paulo Pai - o fundamental é o espírito. Você deveria ser um artista.

- Artista, pai? Pouco rendoso. Além do que, e a vocação?

- Bem, se você não quer ser um artista, então seja um pesquisador social, um professor, um filantropo, qualquer atividade que se dirija, enfim, ao bem público.

Paulo Filho pensou que o pai estava ironizando e mostrou-o em palavras:

- Está ironizando, meu pai? Eu estou falando sério.

Paulo Pai, não compreendendo como o filho não via a seriedade de suas propostas, parou de sugerir. Paulo Filho, atencioso, analisou minuciosamente as propostas do pai e mostrou-lhe que eram todas impraticáveis.

Paulo Pai que, como todos os pais, é altamente sensível às razões dos filhos, concordou. E a coisa estava nesse impasse quando Paulo Filho teve uma brilhante ideia. Por que ele não poderia se dedicar à prática do crime, que é uma profissão, afinal, livre, rendosa e aventurosa?

Paulo Pai estremeceu diante da brilhante argumentação do filho, concordou que a proposta, partida de um jovem de alta classe média era, pelo menos, original. E concordou. Nesse instante é que me procuraram, não sei se pela minha sabedoria ou se pelos meus livros de consulta, outra forma da mesma coisa.

A primeira dúvida era, evidentemente, que tipo de especialidade, dentro do vasto ramo Crime. Paulo Filho deveria seguir: o delito leve, atos não distantes da boa conduta social, coisas como dolo, peculato e simples picaretagem ou deveria entrar mesmo no crime mais amplo, incluindo assalto, violência e morte?

Paulo Filho imediatamente colocou a sua posição: "Quero logo deixar bem claro que não desejo dedicar minha vida a nada que não seja intenso e absorvente. Se vou abraçar o crime não pretendo ficar no delito leve, que qualquer leigo pode praticar e que pode ser até cuspir na calçada e chegar atrasado no emprego. Não, se vou me dedicar ao crime, quero me dedicar ao crime. E crime mesmo, para mim, é assassinato."

- Ótimo - disse eu - isso torna tudo mais fácil. Temos definição. Mas, falar em definição, você sabe o que é Assassinato? Assassinato que em inglês se chama 'murder', no latim 'homicidium'...

- Não poderíamos passar por cima da erudição, seu Millôr? - me pediu Paulo Filho. Passei por cima e concluí: "... e consiste em tirar a vida de um ser humano, ilegal e intencionalmente. Passo a explicar ponto por ponto."

- Não precisa - disse Paulo Filho - explique apenas "ilegal e intencionalmente".

Peguei meus códigos mas, ao fim de meia hora de explicações, ambos os Paulos mostravam-se visivelmente cansados e desiludidos: "Realmente não temos condições econômicas para enfrentar esse tipo de atividade."

- Acho que vocês tem toda razão - concordei. - O assassinato é uma atividade extremamente mais complicada do que parece à primeira vista, e, se Paulo Filho vai ingressar nela, tem que estar técnica e teoricamente preparado, porque o menor descuido pode levá-lo a praticar uma morte não apenas desculpável, mas mesmo justificável, chegando até, em alguns dos casos, a ser socialmente desejável.

- O senhor está se referindo a atividade tipo Esquadrão da Morte?

- Não, estou me referindo a Eutanásia. Por que não tenta o roubo?

- É uma boa ideia - disse Paulo Filho, não porque a ideia tivesse partido de mim mas porque, evidentemente, tudo conduzia a isso. - Como é que se define?

- Roubo - disse eu - é o ato de se apropriar de qualquer bem material alheio, com emprego de força ou violência, com invasão de domicílio, estabelecimento comercial, templo...

Parei, respirei e disse a Paulo Filho.

- Não quero desanimá-lo, mas só nesse código, o roubo tem 37 páginas de definição. Tem também, importantíssimo, um Mens Rea.

- O que é isso?

- Uma coisa parecida com ilegal e intencionalmente - chutei - Quer que leia? São só seis páginas.

- Não, não, Millôr, deixa, - me respondeu Paulo Filho decepcionado - é tudo muito complicado. Acho que meu pai tem razão. Vou ser um homem de bem.


POST-SCRIPTUM:


O crime não compensa mesmo hoje em dia?




quarta-feira, 30 de abril de 2014

DENTADURA, SAPATO OU EMPREGO


[Texto editado de autoria de João Ubaldo Ribeiro publicado no jornal O GLOBO ]


E, lá no meu sertão, como andará a festa? O brasileiro não sabe votar, avaliação todos os dias repetida, até mesmo num texto falsamente atribuído a mim, que circulou na internet e que já desisti de desmentir. Se isso se refere aos brasileiros pobres, miseráveis ou esquecidos nos cafundós, não tenho tanta certeza de que representa a verdade. Que quer dizer "votar certo"?

O eleitor vota certo, digamos, quando vota no candidato que representa seus legítimos interesses e aspirações. Nesse caso, quando vende seu voto, ou troca por uma dentadura, um par de sapatos ou, melhor ainda, um emprego, o tal eleitor "inconsciente" não estará votando certo? Em muitos casos, somente na próxima eleição é que ele vai ver esse pessoal que ora compra o seu voto. A eleição é uma ocasião preciosa e rara que se oferece a ele.


Durante a temporada eleitoral, ele é cumprimentado, é escutado e elogiado, vira até gente e recebe alguma coisa de um mundo que o ignora e abandona o resto do tempo. Que outra serventia tem o voto para ele? Como vão caber no horizonte dele as questões discutidas pelos "esclarecidos"? Que real diferença, para ele, existe entre um deputado e outro, a não ser que um recompensa o voto com uma graninha, um sapatinho, uma dentadurazinha, uma colocaçãozinha - e o outro nem isso? 

E, como nem um nem outro jamais fizeram nada para beneficiá-lo, estará votando errado, ao ser recompensado pelo seu voto da única forma que a experiência o autoriza a ver como viável?

E os que votam "certo"? Aqui de novo há uma escala. Quem furta galinha é ladrão; quem furta muitos milhões é um financista vitimado pelas vicissitudes do mercado; quem furta bilhões é um grande homem. Matou um, é assassino; matou milhões é grande líder. Da mesma forma, quem negocia seu voto por um emprego vota errado. Em compensação, votam certo os que negociam seus votos por uma legião de empregos, como fazem os políticos profissionais, dando-nos volta e meia a vontade de pedir calma, que vai dar para todo mundo, embora, levando-se em conta a voracidade e a eficiência com que saqueiam e dissipam, talvez o seguro seja estar entre os primeiros a abocanhar, pois de repente a fonte pode secar.

  

Saber votar, por outro lado, consola pouco os que acham que sabem. Todos os objetivos de todos os candidatos são sempre os mesmos. Construir um Brasil mais justo, mais igualitário, com cidadania. E porque tal, porque vira etc. e tal. É tudo a mesma coisa, tudo fácil de dizer. E assim, mesmo nós, os que achamos que sabemos votar, enfrentamos dificuldades de escolha. 

Não estou precisando de dentadura no momento, mas um parzinho de sapatos talvez caísse bem.


POST-SCRIPTUM:

Ou quem sabe um par de tênis de marca, hein?

Falando sério e indo direto ao assunto: VOTE NULO E QUE SE FODAM OS POLÍTICOS!






sexta-feira, 28 de março de 2014

A VAGUIDÃO ESPECÍFICA


[Texto de autoria de Millôr Fernandes, publicado originalmente em O CRUZEIRO/1956 e republicado em "Amostra Bem-Humorada" pela EDIOURO PUBLICAÇÕES S.A. de 1997]


   "As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica."
Richard Gehman


- Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.

- Junto com as outras? 

- Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer qualquer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.

- Sim senhora. Olha, o homem está aí.

- Aquele de quando choveu?

- Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.

- Que é que você disse a ele?

- Eu disse pra ele continuar.

- Ele já começou?

- Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse.

- É bom?

- Mais ou menos. O outro parece mais capaz.

- Você trouxe tudo pra cima?

- Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera.

- Mas traga, traga. Na ocasião, nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite.

- Está bem, vou ver como.


POST-SCRIPTUM:

Millôr é mesmo o cara! Que me desculpem as feministas - até porque não são apenas as mulheres que falam assim de vez em quando - mas esse texto é de 1956! Mais exemplos desse humor genial brevemente...



quinta-feira, 27 de março de 2014

O MAIOR RIVAL DO SUPERMAN


[Texto de autoria de Marco Moretti, publicado originalmente na revista Wizmania nº 43, em abril de 2007]


Na esteira do sucesso do Superman, lançado em quadrinhos em 1938, nos anos seguintes passaram a surgir novos super-heróis fantasiados por intermédio de editoras pequenas e variadas.

Na maioria das vezes, essas criações não passavam de plágios baratos do Homem de Aço, como o Wonder Man, criado pelo lendário Will Eisner pra revista Wonder Comics, em maio de 1939. Antes porém que Eisner chegasse a ser processado pela DC Comics, Wonder Man foi tirado de circulação logo após sua estréia. Foi só então que Eisner partiu pra criação de seu mais famoso (e mais original) personagem, o Spirit.

Contudo, a maior imitação ao Superman ainda estava por vir. Indubitavelmente, essa honra coube ao Capitão Marvel, que surgiu na Whiz Comics, em fevereiro de 1940. Filhote da então prestigiosa Fawcett Publications, o Capitão Marvel chegou a ser o campeão de vendas da categoria na década de 40. Criado pelo artista C. C. Beck e o roteirista Bill Parker, suas aventuras tinham mais humor que as do concorrente e um apelo direto junto aos garotos, que se identificaram de imediato com o alter ego insuspeito do herói, o menino Billy Batson.

Como o Superman, ele tinha força descomunal e a capacidade de voar, além de contar com poderes mágicos que eram invocados com a palavra "Shazam", sempre pronunciada quando Batson se transformava no "Mais Poderoso Mortal do Mundo".




Da mesma maneira que o Homem de Aço, que vira e mexe, enfrentava Lex Luthor, Marvel tinha como arquiinimigo um cientista malévolo (e maluco), o Dr. Silvana. Para completar, o Capitão Marvel também dispunha de um uniforme característico, com capa e um relâmpago dourado como símbolo, tão marcante como o "S" do Superman.

As semelhanças entre os dois personagens eram por demais evidentes pra que a DC aceitasse passivamentea imitação e decidiu processar a Fawcett por plágio.

A batalha judicial se arrastou por mais de uma década e foi somente em 1953 que a justiça chegou a uma decisão. Após idas e vindas entre tribunais de primeira e segunda instância, a Fawcett acabou capitulando e aceitou para de publicar as histórias do Capitão Marvel.

Foram necessários mais 20 anos pra que a DC adquirisse os direitos sobre o personagem e o revivesse em uma revista mensal, apropriadamente chamada de 'Shazam!'.

Foi somente a partir de então que o herói passou a ocupar seu lugar de direito entre os maiores super-heróis de todos os tempos. E quase em pé de igualdade com seu maior rival.



  


POST-SCRIPTUM:

Infelizmente a nova revista do Capitão Marvel lançada na década de 70, agora publicado pela DC Comics, teve vida curta. Os tempos eram outros e a ingenuidade inerente a suas histórias não fez mais sucesso. 

Porém, revisado em alguns pontos há alguns anos, o herói agora faz parte da Liga da Justiça. Nada mal para o velho Capitão, que começou como um suposto plágio do Último Filho de Krypton, hein? 


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

QUEM É BENETT?



Benett Alberto de Macedo ou simplesmente ALBERTO BENETT é cartunista radicado em Curitiba, capital do estado do Paraná (Brasil). 

Publica suas tiras, ilustrções e charges no jornal GAZETA DO POVO e é editor da revista de humor e quadrinhos ZONGO CÔMIQUES, que teve apenas uma edição. Benett jura que algum dia a Zongo voltará triunfante!

Em 2005 foi vencedor do SALÃO DE HUMOR DE PIRACICABA, na categoria quadrinhos (HQ/BD/comics).

Normalmente os assuntos abordados em seu trabalho são de cunho autobiográfico (neuroses, paranóias, desespero e alguma felicidade), embora possua personagens como Punkadinha (uma espécie de Bob Cuspe das tiras infantis), Barata (um sujeito que vive, e convive, com uma faca fincada no peito), Carlos Invertebrado (personagem que nasceu sem vertebra) e, por conta disso, fica o tempo todo deitado). Seu mais recente personagem é Amok, o menino-caveira com síndrome de Amoque (aquela vontade de matar todo mundo que leva adolescentes a cometerem chacinas em suas escolas) e Ludwig, um menino que é um mero coadjuvante em sua própria vida.

Suas influências artísticas consistem, basicamente, em Charles M. Schultz e nos brazucas Laerte e Angelí.

No final de 2007 Benett publicou, pela Editora Juruá, seu primeiro livro de tiras, "BENETT APAVORA! - TIRAS INFAMES E DESENHOS ENCARDIDOS PARA TODA FAMÍLIA DISFUNCIONAL".




POST-SCRIPTUM:
[Chupado descaradamente da WIKIPÉDIA]





Um novo personagem inspirado em algumas idéias aterradores que certas pessoas andam tendo por aí. Amok, segundo Steven Pinker, autor do incrível livro Como a Mente Funciona (Cia das Letras, 666 págs, 45 reais) "é uma palavra malaia que designa as orgias homicidas ocasionalmente empreendidas por homens solitários da Indochina que sofreram uma perda de amor, de dinheiro ou da honra". Trata-se de uma síndrome, chamada Síndrome de Amoque, mais ou menos o que deu no Michael Douglas naquele filme Um Dia de Fúria. Com a diferença que, o ataque de uma pessoa com Síndrome de Amoque, "é desencadeado não por um estímulo, não por um tumor, não por um jorro aleatório de substâncias químicas no cérebro, mas por uma idéia". Horripilante, não?






visite BENETT Blog em UOL Blog


quarta-feira, 31 de julho de 2013

O PAPA E O PECADO



["A CARNE NÃO É TERRITÓRIO DO PECADO" por JUAN ARIAS, correspondente do 'El País' no Brasil e autor de "Jesus, esse grande desconhecido", entre outros livros; publicado originalmente no caderno 'PROSA E VERSO' do Jornal O GLOBO em 27.07.2013] 


Nunca se disse tanto que o catolicismo, para se salvar da sangria que o assola, precisa voltar a suas raízes, a suas origens, que começam na Palestina com os ensinamentos do profeta judeu Jesus de Nazaré.







Com o Papa Francisco voltou-se a falar ainda mais sobre a urgente necessidade de a Igreja recuperar suas essências. Ela nasceu, na visão de Jesus, como uma abertura do judaísmo a outros grupos não judeus em nome de um Deus que era pai de toda a Humanidade.






Quando se diz que o cristianismo deve se desprender da influência que recebeu no século IV do Império Romano e da contaminação platônica da filosofia grega com Santo Agostinho, pouco se fala de um ponto fundamental: recuperar a teologia do corpo, a ideia de que, como sempre defendeu o judaísmo que influenciou as primeiras comunidades cristãs, não existe diferença entre corpo e alma.





Até Paulo de Tarso, a dignidade do corpo é inseparável da atribuída à alma ou ao espírito. Só com a influência helênica o cristianismo se contamina e começa a ver o corpo como a 'prisão' do espírito e, portanto, 'território do pecado', influenciando fortemente a ética sexual.




Para Santo Agostinho, já influenciado pela filosofia grega, o homem é "uma alma racional que tem um corpo mortal". O corpo passa a ser secundário e perigoso para a santidade.




Por sua vez, a cultura judaica, na qual bebeu o primeiro cristianismo, foi diametralmente oposta à da Igreja de hoje. No judaísmo não existe a vergonha pelo corpo e, em consequência, pela sexualidade. Para o judaísmo, o pecado original não é o sexo.





Esse divórcio entre corpo e alma contaminou todo o universo da sexualidade na Igreja e acabou caindo sobre a mulher, considerada objeto de tentação sexual e, por isso, afastada do sacerdócio que lhe havia sido inato nas primeiras comunidades cristãs, quando nem o corpo nem o sexo eram vistos como território do mal.





E assim a mulher continua sem poder ser dona de seu corpo, com todas as consequências que isso traz.





O dualismo entre corpo e alma, introduzido no cristianismo a partir do século II, quando se distancia de suas raízes judaicas, acabou condicionando toda a ética sexual da Igreja até hoje.





Só no Concílio Vaticano II defendeu-se, por exemplo, que a sexualidade, além de um instrumento de procriação, pode ser um novo modo de comunicação humana.





O Papa Inocêncio III chegou a sustentar que o Espírito Santo se ausentava do quarto quando um casal mantinha relações sexuais, já que, segundo ele, o ato sexual, ainda que lícito, "envergonha Deus".





Diz-se que Francisco é o Papa do 'do corpo', que não teme o contato físico. Em seus quatro meses de pontificado, beijou mais pessoas, crianças e adultos, do que outros Papas em toda sua vida. 





Talvez seja essa falta de medo do tato, da corporeidade, que faz Francisco ser amigo de muitos judeus, para os quais o corpo não é inimigo da alma, e sim o grande companheiro das relações verdadeiramente humanas e não só espirituais ou sublimadas.





Se analisarmos os sacramentos da Igreja, em sua origem, são todos sacramentos 'do corpo'. São realidades que se transmitem por meio do corpo, desde a eucaristia até o batismo ou a extrema-unção. A graça sempre atravessa o corpo, que é 'obra de Deus', e não 'instrumento do demônio', como defenderam tantos teólogos conservadores. Falando a uma devota que se gabava de dar sempre esmolas a um mendigo, Francisco perguntou: "Quando entrega a moeda ao irmão mendigo, você a joga ou a coloca nas mãos dele, tocando nelas?"                                   




O Papa que se despojou de todos os símbolos de poder de uma Igreja que se envergonha do corpo e coloca a virgindade acima do matrimônio busca o contato corporal com as pessoas. Ele pediu aos sacerdotes que tirem a poeira da antiga prática cristã de pousar as mãos sobre a cabeça dos fiéis para abençoá-los. Francisco entendeu que, para ter credibilidade e responder aos novos desafios apresentados pela ciência e a ética modernas, a Igreja não pode continuar a se refugiar no medo da corporeidade, nem continuar a defender que o corpo é a fonte do pecado. Ela deve abrir novos caminhos do que ele chama de 'teologia do encontro'.





Quando se refere ao ecumenismo, às diferenças que separam até os que se professam filhos de um mesmo Deus, Francisco dá o exemplo de que nas veias de crentes e não crentes "corre o mesmo sangue" e, por isso, devemos nos sentir parte de uma mesma 'família'. Todo o resto, para ele, é ideologia.





Sua fonte de inspiração, na verdade, é Jesus de Nazaré, que escandalizou os próprios apóstolos pelo pouco medo que tinha do tato, da corporalidade. Ele se deixava lavar os pés por uma prostituta e curava os doentes 'tocando-os' fisicamente. E até usava sua saliva para curar os cegos.




CLEMENTINA DE JESUS

O medo do corpo, da sexualidade, do abraço com o irmão, levou a Igreja a se converter em uma religião 'asséptica', com vocação mais para anjos do que para humanos? Pois bem, a essência do cristianismo não é a 'encarnação' e a 'ressurreição', esta última não só das almas mas também dos corpos? E os corpos estão atravessados pela sexualidade e pelo prazer do encontro. Juntos, corpo e alma se salvam ou se condenam.





CARLINHOS DE JESUS


POST-SCRIPTUM:



Concordo entusiasticamente com a opinião do jornalista e escritor Juan Arias em relação à necessidade urgente da Igreja católica acomodar-se aos tempos atuais e tornar-se mais 'humana' e menos 'celestial', bem como com sua simpatia e otimismo para com o Papa Francisco I. Infelizmente, todos nós sabemos que "uma andorinha só não faz verão". Existe no seio da Igreja uma forte resistência conservadora que dificilmente aceitará aquilo que eles consideram como 'modernismos sacrílegos'. Entretanto, a postura do novo Papa em relação aos gays e a todo tipo de intolerância, por exemplo, alimenta esperanças de uma possível abertura da Igreja para um cristianismo real e não apenas 'de fachada'. Sonhar não custa nada... 




terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CARNAVAL 2013



E lá se vai mais um Carnaval. Admito que não sou fanático pela festa, mas costumo sair todo ano num bloco que reúne uma galera da minha adolescência. Além de ser uma boa desculpa pra rever muita gente boa às vezes dá até pra conhecer umas caras novas e... (deixa prá lá!).

Quanto ao desfile das Escolas de Samba, pra mim não tem mais muita graça não, parece que todo ano é sempre a mesma coisa, apesar de torcer pro Salgueiro. Aliás, foi uma das poucas que eu tive paciência de assistir pela TV, além da Unidos da Tijuca, Mangueira, Beija-Flor e São Clemente, até porque estavam entre as primeiras a desfilar no domingo e na segunda-feira.





Sem querer ser chato, vou ousar fazer algumas críticas, tanto ao desfile quanto à transmissão da TV Globo. O Salgueiro veio “arrebentando”, com muito luxo e abusando da tecnologia. Nada contra, até porque o desfile é cada vez mais para gringo ver.

Unidos da Tijuca, idem, muito bonita e cheia de truques tecnológicos. Pena que pecou num detalhe nem tão pequeno assim. A homenagem à Alemanha foi original, mas a Escola cometeu um equívoco logo na Comissão de Frente ao exaltar a mitologia germânica. Thor e Odin, apesar de terem sido reverenciados na antiga Alemanha, eram conhecidos como Donar ou Doner e Wotan ou Woden. Thor e Odin são os nomes pelos quais estas divindades eram conhecidas na Escandinávia (Dinamarca e Noruega, principalmente). Não chegou a tirar o brilho do espetáculo (legal a mágica com o martelo!), mas que foi um tremendo “vacilo” isso foi.






Mangueira e Beija-Flor: ambas como sempre dignas e belas, candidatas indiscutíveis ao título. Entretanto a Escola de Nilópolis também teve seu equívoco, e não foi pequeno. Um dos destaques foi uma fantasia muito bonita e luxuosa chamada “Dario, Rei da Babilônia”. Hein?!? Dario foi Imperador da Pérsia, gente. Tudo bem que suas conquistas também alcançaram a região entre os rios Tigre e Eufrates (atual Iraque), onde localizava-se a antiga Babilônia, mas, pelo amor de Zaratustra, essa foi imperdoável!





Outro equívoco, até engraçado, veio de um dos comentaristas da TV Globo. O tema da Beija-Flor era uma homenagem ao cavalo, animal que, desde pelo menos a última Era Glacial, tem sido um parceiro indispensável da humanidade na construção das civilizações. Acontece que uma certa alegoria focalizava a evolução do animal desde seus ancestrais mais longínquos, entre eles o "eohippus", que existiu mais ou menos entre 10 e 20 milhões de anos atrás. Era um animal pequeno em comparação com nosso cavalo, mais ou menos do tamanho de um cachorro médio atual. Durante o desfile, a certa altura, o comentarista declarou que devia ter sido mais fácil para o “homem das cavernas” caçar aqueles “cavalinhos” do que os dinossauros. Putz! Essa foi hilária! Alguém andou vendo desenhos animados demais! Entre a extinção dos últimos dinossauros e o surgimento dos primeiros hominídeos existe um intervalo de, pelo menos, 50 milhões de anos!!! Fala sério...






Quanto a São Clemente, pessoalmente detestei. Veio homenageando as novelas da TV Globo, num demonstração descarada de “puxa-saquismo” típico. Por sinal, por que só a Globo pode transmitir o desfile das Escolas de Samba? Ah é, muito dinheiro...

E pra quem não sabe o desfile agora tem patrocínio de empresas privadas. Quem não gosta de dinheiro?



POST-SCRIPTUM:



Anyway, parabéns a todas as Escolas de Samba que desfilaram no Sambódromo da Av. Marquês de Sapucaí. E que vença a melhor!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

'RIO' IN RIO



O tapete da pré-estréia de "Rio", animação de Carlos Saldanha, em um cinema da Lagoa (bairro da zona sul do Rio de Janeiro), foi azul em vez do tradicional vermelho, em referência à ararinha Blu, personagem principal do filme, uma declarada homenagem à cidade.




Fui ver a fita e, após a exibição, me pareceu que, no geral, a aprovação por parte de quem assistiu era realmente quase unânime.  Sem dúvida é uma propaganda positiva sem precedentes, mas, sem querer ser chato, há que se fazer algumas ressalvas, em minha opinião.



É tudo muito lindo e maravilhoso, mas não se pode esquecer que é só um desenho animado feito para entreter (não só inclusive, mas especialmente, as crianças) e que a realidade do Rio de Janeiro é, para ser bem gentil, "um pouquinho" mais dura e menos colorida.


E também não há como alguém discordar a respeito do aspecto meio folclórico da coisa toda, além da trilha sonora calcada em “samba de gringo”. Mas talvez esse seja o preço a pagar quando se quer agradar cariocas e americanos ao mesmo tempo.




Meu medo era que a fita fosse um arremedo hollywoodiano da realidade, algo bizarro e excessivamente artificial que causasse vergonha aos moradores do Rio. 




Entretanto, dentro do que se propõe, a trama até que é razoável (ponto para a denúncia ao tráfico de animais silvestres) e bem engraçada, apesar de certa sensação de desconforto que me transmitiu em alguns momentos, talvez pela simplificação e redução da realidade social e psicológica dos cariocas - perfeitamente compreensível, evidentemente, dadas as exigências da mídia, mas, mesmo assim, exagerada, em minha opinião. 




Outro ponto positivo se refere à acuidade geográfica, por exemplo, que é de uma perfeição inatacável. Lá estão, compondo o cenário, os Arcos da Lapa, a Catedral Metropolitana, o prédio da Petrobrás, as ladeiras de Santa Teresa, a Baía de Guanabara, a praia de Copacabana, a Vista Chinesa na Floresta da Tijuca e o Sambódromo na avenida Marquês de Sapucaí, alguns com participação maior outros menor, mas sempre presentes.






Bom, mas aí vem a grande questão: vale mesmo a pena dar-se ao trabalho de ir ao cinema assistir ao filme em tela grande? 






Antes de responder quero abrir um parênteses para declarar algo que nada tem a ver com as qualidades (ou falta das mesmas) da fita: fiquei com uma baita de dor de cabeça ao sair da sessão! Aliás, isso sempre me acontece quando acompanho minhas filhas ao cinema para assistir desenhos-animados em 3-D...  




Admito que prefiro este artifício em filmes live action de ação ou fantasia à la 'Piratas do Caribe' ou 'Alice no País das Maravilhas'; em animações, não sei bem explicar por que, mas me cansa um pouco, principalmente quando muito coloridas e feéricas. 




Voltando ao filme, confesso que eu e as crianças adoramos, mas mesmo assim não deixamos de concordar em que faltou "algo mais". Na verdade, qualquer um dos filmes da trilogia 'Era do Gelo' (Ice Age) é indiscutivelmente superior. 






Pensando bem acho que dava para esperar sair em DVD, principalmente levando-se em conta o preço do ingresso: tá caro pra caramba, parceiro (pelo menos pra nós, meros proletários do pensamento)!



POST-SCRIPTUM:


Será que, eventualmente, veremos um 'RIO 2'? Apesar de tudo, espero sinceramente que sim (e que seja melhor que o primeiro...).