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sexta-feira, 16 de maio de 2014

O VÍDEO


[Texto de Gonçalo M. Tavares publicado no caderno Prosa & Verso do jornal O GLOBO]


Não te leves demasiado a sério, mas leva a sério o mundo.

Lembro-me do vídeo, mas não do autor. De repente, à nossa frente no ecrã, estava uma bela mulher nua, deitada. Uns seios belos e uma pele que fazia com que o olhar se esquecesse de que existem mais coisas no mundo.

Parece dormir, a bela mulher, os olhos estão fechados.

Por segundos quem vê está na cadeira do desejo e da excitação. E nesses pequenos segundos balança nessa cadeira de um lado para o outro, como que à procura da melhor localização dos seus olhos em relação ao ecrã.

Alguém se aproxima. Está vestido de branco, um homem. Para quem vê a expectativa dirige-se para o que de sexual existe na situação. A cadeira parece um pouco mais desconfortável, estamos perante um vídeo, mas o nosso corpo move-se como se alguém o agitasse.

Subitamente, um pequeno objeto na mão do homem faz um corte brutal no tronco da mulher. Os seios caem, um para cada lado, como sacos. Um mundo acaba. Queremos fugir da cadeira, mas não fugimos antes de perceber que estamos perante a filmagem de uma autópsia. Aquela mulher estava morta há muito. Aquele homem estava a cumprir uma função, era um profissional.

O que choca neste vídeo é o mísero segundo que basta para se passar do desejo para a repugnância. O interior de um corpo é tirado para fora e o belo percebe-se finalmente como uma superfície, uma camada finíssima que se pode quebrar a qualquer momento.

Entre o belo e o horror não apenas o intervalo de um segundo, mas o intervalo de uma camada de pele; a distância: uns milímetros.


POST-SCRIPTUM:

Ah, a beleza, fugaz por natureza...






terça-feira, 22 de abril de 2014

ZÉ DO CAIXÃO




[Editado a partir de uma reportagem de Karla Monteiro publicada no Segundo Caderno do jornal O GLOBO em 12.02.2011]


Cultuado mais fora do Brasil, onde é conhecido como 'Coffin Joe', do que aqui, Mojica rende histórias sem fim. Barcinski e Finotti, autores da biografia publicada pela Editora 34, receberam menção especial do júri no festival de Sundance de 2001, com o documentário "Maldito - O estranho mundo de José Mojica Marins".

O personagem Zé do Caixão nasceu "no dia 11 de outubro de 1963, praticamente". Mojica adora duas palavras, que repete em quase todas as frases: praticamente e realmente. Zé do Caixão baixou num sonho. Ou num pesadelo. Na época, Mojica já era um cineasta com vários filmes no currículo, do faroeste à pornochanchada. O primeiro curta metragem é de 1945: "A mágica do mágico". E o primeiro longa, de 1958: "Sina de aventureiro".

Zé do Caixão estreou no hoje clássico "À meia-noite levarei sua alma". Por falta de atores, Mojica foi obrigado a incorporar o personagem, que, aliás, nunca desencorporou. Segundo ele, o Zé do Caixão tem até um nome de batismo: Josefel Zanatas. Nos sonhos do diretor, ele era um vulto que o arrastava até o próprio túmulo.

Mojica tornou-se famoso pelo estilo rude de filmar, baseado na improvisação, na falta de recursos técnicos e em histórias objetivas. Antes de iniciar a saga do Zé do Caixão, já flertava com o suspense. Havia fundado o estúdio Companhia Cinematográfica, depois Companhia Cinematográfica Apolo, no bairro do Brás, onde dava aulas de cinema e fazia testes, utilizando bichos como ratazanas e baratas, para "tirar a emoção, o horror dos atores". "À meia-noite levarei sua alma" marca o nascimento do gênero terror no Brasil.

De 1963 até meados dos anos 70, Mojica viveu o auge. Ganhou um programa na TV Tupi, era personagem de quadrinhos e possuía vários produtos licenciados com a marca Zé do Caixão. Em 1969, porém, começou a descer a ladeira. O marco foi a proibição pela censura do filme "O despertar da besta", considerado por muitos sua grande obra. Produtores e investidores desapareceram. Mojica não conseguia mais trabalhar. Entrou em depressão, passou a beber muito, em 1977 teve um enfarto que o deixou em coma por cinco dias e, nos anos 80, sumiu.


POST-SCRIPTUM: