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domingo, 20 de abril de 2014

MAIS CERVEJA, MENOS PÃO


[Editado a partir de um artigo publicado em GALILEO nº 223 de fevereiro de 2010]



Patrick McGovern é diretor do Laboratório Arqueológico Biomolecular do Museu da Universidade da Pensilvânia e autor do livro 'Uncorking the Past: The Quest for Wine, Beer and Other Alcoholic Beverages'.

Diferentemente do senso comum, que costuma ligar os bêbados a uma horda de bárbaros, McGovern defende que o álcool teve um importante papel no estabelecimento das primeiras civilizações. "Quando você tem que produzir álcool suficiente para toda a sua população, é necessário se assentar em algum lugar por todo o ano, cuidar das plantas." Com o tempo, os humanos começaram a construir casas, e esses assentamentos se tornaram vilas.




"Nossa agricultura surgiu para produzir álcool. Os primeiros assentamentos humanos surgiram depois do cultivo da cevada, e é mais fácil produzir cerveja do que pão, além de ser mais nutritiva." McGovern cita o exemplo do milho na América Latina. Antes de ser domesticado, o grão não servia para ser comido, ele só era consumido transformado em bebida fermentada. "Se olharmos para os grãos como arroz, cevada, trigo, milho e sorgo, eles todos podem ser transformados em bebidas. A motivação de sua domesticação foi poder consumi-los na forma de bebida alcoólica. Só depois passamos a fazer pães e massas", diz. 


 


Avançando um pouco no tempo, McGovern aponta o comércio das bebidas como grande impulsionador de intercâmbios culturais. "Enquanto os fenícios levavam o vinho em seus barcos, espalhavam sua cultura pelo Mediterrâneo." Eram vendidas a altos preços aos nobres egípcios e europeus - inclusive para os italianos e franceses, que mais tarde seriam os grandes produtores da bebida. Eles não transportavam só a cultura do vinho, mas sua indústria, o trabalho com metais e a cerâmica. Além, é claro, da mais importante contribuição de sua cultura para o mundo: o alfabeto latino.





O vinho tornou essas trocas bem mais fáceis. "Não acho que toda transferência cultural e tecnológica tem de ser pela força, ela pode ser guiada simplesmente pelo prazer. Quando vamos para outros países experimentar suas bebidas, as pessoas podem ser muito amigáveis, ficamos interessadas por suas ideias e cultura", diz McGovern.


POST-SCRIPTUM:


Quem já leu os quadrinhos de 'Astérix, o gaulês' tem uma boa ideia a respeito do que o professor McGovern está falando...

  




quarta-feira, 19 de março de 2014

MICHEL FOUCAULT



[Adaptado de uma reportagem publicada no caderno 'Prosa & Verso' do jornal O GLOBO, em 11.01.2014]


No ano em que se completam três décadas da morte do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) presto aqui minha homenagem aquele que foi o pensador libertário das marginalidades sociais e das minorias culturais, raciais e sexuais.

Foucault expunha uma visão da cultura e da História que não pretendia explicar o presente pelo passado. Preferia investigar os discursos que condicionam as formas de ver e julgar, e analisar a maneira pela qual a cultura contemporânea determina as condições de possibilidade do novo. Construiu assim sua arqueologia da cultura ocidental.


POST-SCRIPTUM:


A seguir um trecho de declarações feitas pelo filósofo, em entrevista concedida ao "Jornal da Tarde", numa visita ao Brasil poucos dias depois do assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes da ditadura militar em 1975:

"A dialética mestre-escravo, segundo Hegel, é o mecanismo pelo qual o poder do mestre se esvazia pelo fato mesmo de seu exercício. A certa altura ele se encontra na dependência do escravo, não tendo mais poder porque cessou de exercê-lo. 

Quero mostrar o oposto: que o poder se reforça pelo seu próprio exercício - não passa sub-repticiamente para o outro lado. Desde 1831, a Europa não parou de pensar que a derrubada do capitalismo era iminente. Isso muito antes de Marx. E ele está aí. Não digo que ele nunca será desenraizado. Mas que o custo de sua derrubada não é o que imaginamos.

Se essas lutas são feitas em nome de alguma essência do homem, tal como ela foi construída no pensamento do século XVIII, eu diria que essas lutas estão perdidas. Porque elas serão conduzidas em nome do homem abstrato, do homem 'normal', do homem 'de boa saúde', que é o precipitado de uma série de poderes.

Agora, se quisermos fazer a crítica desses poderes, não se deve efetuá-la em nome de uma ideia do homem construída a partir desses poderes. Quando o marxismo vulgar fala do homem completo, do homem reconciliado com ele mesmo, de que se trata? Do homem 'normal', do homem 'equilibrado'. Quando se formou a imagem desse homem? A partir de um saber e de um poder psiquiátrico, médico, um poder 'normalizador'. 

Fazer crítica política em nome desse humanismo significa reintroduzir na arma do combate aquilo contra o qual combatemos."



sábado, 29 de dezembro de 2012

E O MUNDO NÃO ACABOU...




Salve, salve, minha gente, estamos aí de novo depois de uma longa ausência.

Alguém poderia pensar que eu estava deprimido com a possibilidade de o mundo acabar mesmo e que resolví abandonar tudo para aproveitar e 'curtir' a vida, fazendo as coisas que sempre tive vontade de fazer mas não tinha coragem (aliás, aquele seriado da TV Globo, "COMO APROVEITAR O FIM DO MUNDO", foi realmente muito legal e engraçado, não?). Ou então para me preparar espiritualmente para encarar o derradeiro final de tudo. Nada a ver...






Se bem que lá no fundo (no bom sentido, é claro), talvez eu desejasse inconscientemente que o mundo fosse mesmo para o beleléu; tá feia a coisa! Mas sempre resta uma esperança...

Na verdade eu precisei me ausentar por motivos puramente pessoais que nem valem a pena mencionar; voltemos, portanto, ao 'fim do mundo'. Esse papo, pra quem não sabe, é antigo. Não me recordo agora quem foi que disse que quando isso acontecer não será com um 'BANG!' e sim com um gemido. De dor e lentamente, com certeza. Mas a sensação é de que essa decadência já começou há muito tempo (aliás, desde o começo do Universo: a entropia é um processo irreverssível, sabiam?). Mas a vida não se dá por vencida e novas estrelas continuam nascendo, assim como novos bebês e novos modelos de carros. É como já dizia o menestrel Belchior na canção "Como Nossos Pais": o novo sempre vem (apesar das inevitáveis resistências).

Este suposto 'fim do mundo' que ocorreria em 21 de dezembro de 2012, na minha opinião, não passou de um malentendido devido à interpretação equivocada (inocente ou proposital?) da mídia em geral com relação ao calendário maia.




Não podemos saber com certeza o motivo das tais inscrições em pedra baseadas na observação precisa dos astros (os maias eram exímios astrônomos, mesmo sem possuir telescópios) terminarem abruptamente naquela data fatídica. Pode até ser que arqueólogos encontrem outros calendários de pedra contendo a continuação das previsões astronômicas a partir daí. Ou não.

Mas isso nem é tão importante assim se você pode acreditar que este 'fim do mundo' não é necessariamente o fim no sentido literal. Na verdade pode ser o início de um novo 'começo', aquela tal Era de Aquário que o Zodíaco determina sem muita precisão em torno de nosso novo século (pra quem acredita em horóscopo) e que é tão cara aos esotéricos de plantão e que vem sendo proclamada desde os anos 1960 do século passado por 'hippies', místicos e similares (não me pergunte se a Lua está na sétima casa ou se Júpiter está alinhado com Marte) com ansiosa antecipação e principalmente bastante fé.





Quem sabe? Pode ser que realmente estejamos entrando numa Nova Era de paz e harmonia. Sou meio cético quanto a isso; entretanto me identifico com Caetano Veloso quando este se diz pessimista a curto prazo mas otimista a longo prazo. Admito que é um 'salto de fé' digno de uma Olimpíada, mas não é esse tipo de coisa que faz as pessoas acreditarem que o sol vai nascer amanhã e que o dia de hoje será melhor do que o de ontem? Pois é.

Então é isso aí: aproveitando a oportunidade concedida pelo Ano Novo que se avizinha vamos torcer para que o 'fim' seja mais um 'começo' e que tudo será melhor daqui pra frente (ainda que com um pé atrás...).

Pois que venha portanto a tão badalada Nova Era, com suas promessas de encanto e felicidade. Amém!



POST SCRIPTUM:



Falando com toda a seriedade (a maioria das pessoas leva esses assuntos na brincadeira, as vezes eu mesmo), nossa cultura ocidental tem o costume de ridicularizar ou diminuir todo tipo de informação derivada de civilizações mais antigas, com base no pensamento "científico" e/ou "racional" predominante em nossa era atual, esquecendo que tudo é uma questão de "modos" de linguagem que remetem a visões de mundo diferentes e nem sempre compatíveis. 






Além do mais, "fim do mundo" não precisa necessariamente ser interpretado literalmente: as "coisas" e pessoas podem continuar todas por aí e, ainda assim, um certo tipo de "mundo" acabar por completo. Ah, e não nos esqueçamos que diversos povos da antiguidade eram excelentes astrônomos, ainda que esta atividade estivesse ligada principalmente à atividades religiosas, mas nem por isso estariam incorretas do ponto de vista científico moderno. 



Mais respeito e um entendimento filosófico mais aprofundado com relação a outros povos e culturas é uma das maiores carências de nossa civilização atual (sem falar em solidariedade, honestidade, coerência, etc, etc, etc; mas isso já é outro assunto. Ou não?).


Mas não fiquem tristes se tudo isso não passar de mais uma jogada de 'marketing' da mídia e dos 'podres poderes' que nos oprimem nas sombras ou mesmo em plena luz do dia...  

  

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

SETE LOCAIS PARA VISITAR ANTES DE MORRER





Ainda que seja impossível resumir em uma lista as maravilhas que o mundo possui, fizemos uma seleção de alguns lugares para onde toda pessoa deveria viajar, pelo menos uma vez na vida.

(Claro, se você tiver grana suficiente para tal...)



O TAJ MAHAL



























Este imenso complexo foi levantado pelo imperador Shah Jahan em memória de sua esposa favorita, Arjumand Bano, mais conhecida como Mumtaz Mahal, que morreu ao dar a luz ao seu 14º filho.
Em um misto de arquitetura mongol e elementos islâmicos, persas, turcos e indianos, a construção é Patrimônio da Humanidade e faz parte da lista das novas Sete Maravilhas do Mundo.



A ACRÓPOLE






























A atual Acrópole está muito longe do que foi no passado, mas vale lembrar que a construção foi símbolo do nascimento da democracia grega. O principal elemento do complexo arqueológico é o Parthenon, dedicado à deusa Athena.


NAZCA






























Se você não tem medo de altura ou de aviões, não pode deixar de visitar Nazca, no Peru, lugar famoso por abrigar as enormes figuras gravadas no solo e que são até hoje um grande mistério arqueológico de nossa história. Ninguém sabe como, quando e porque essas imagens foram feitas.



A GRANDE MURALHA DA CHINA






























Construída para defender o império chinês de invasões, a muralha tem hoje cerca de 9 mil quilômetros de extensão. No passado, a gigantesca estrutura alcançava os incríveis 20 mil quilômetros. Assim como o Taj Mahal, a muralha também faz parte das Sete Maravilhas do Mundo.



MACHU PICCHU






























Obra impressionante de arquitetura e engenharia, a área é Patrimônio da Humanidade desde 1983. O santuário histórico oficial de Machu Picchu é alcançado através do Caminho Inca, composto por um conjunto de edificações que foi levantado no século XV. Não se sabe, no entanto, se o local foi um centro de defesa, um templo cerimonial ou uma cidade.



A ESFINGE E AS PIRÂMIDES DO EGITO






























Destino clássico para aventureiros e amantes da história antiga, o Egito e sua esfinge, suas pirâmides, seus monumentos reais, suas histórias e seus mistérios banhados pelo rio Nilo, é ponto obrigatório de visita. Destaque para as pirâmides de Gizé, o único conjunto de maravilhas do mundo antigo que ainda está de pé.



CENTRO ESPACIAL KENNEDY






























A chegada do homem à Lua, o robô explorador de Marte e o telescópio espacial Hubble: todos surgiram a partir do centro de operações da NASA na Flórida, mais especificamente no Cabo Canaveral, denominado Centro Espacial Kennedy. Melhor que isso só uma visita à própria Lua (o que, com certeza, não será nenhum absurdo num futuro não muito distante).


[Adaptado de um artigo publicado no portal MSN]




POST-SCRIPTUM:



E por minha conta:



RIO DE JANEIRO






























Obviamente, uma visita ao Rio de Janeiro não pode faltar nesta lista, que de sete vira oito, mas pra eu que já estou aqui não conta, né? (Só é preciso tomar cuidado com as balas perdidas...)

Aliás, no meu entender, não poderiam faltar também visitas a outros locais deveras interessantes, como o rio Amazonas, as pirâmides maias e aztecas na América Central e no México, Nova York, Hollywood, o Kremlin em Moscou, Paris, o Coliseu de Roma, o Vaticano, Tóquio, as savanas africanas, Jerusalém, Casablanca, o Outback australiano, os vulcões da Islândia, o Caribe, etc, etc, etc.

Mas aí, só ganhando sozinho na Mega Sena. Ou sendo deputado ou senador. Ou, pelo menos, parente de um...


sábado, 10 de abril de 2010

A BÍBLIA

























Faz-se urgentemente necessário parar de ler a Bíblia como se fosse uma descrição textual de fatos consumados. Tal interpretação é um grande equívoco, ou deveria ser considerada como tal, pelo menos entre aquelas pessoas que, como eu, não a vêem como uma "revelação divina", a não ser em um sentido metafórico e alegórico.

Muitas de suas passagens, desde que abstraídas do contexto referente à questão das intervenções divinas, podem realmente ser consideradas como relatos mais ou menos fidedignos de acontecimentos históricos, conforme demonstram inúmeros exemplos arqueológicos. 

Porém, em sua maior parte, ela deve ser interpretada como contendo alegorias e metáforas para a transmissão e preservação de certas idéias de cunho filosófico, algumas comprovadamente herdadas de fontes bem mais antigas e adaptadas por seus redatores, incluindo-se aí preceitos éticos e conceitos metafísicos (e mesmo de noções de higiene e profilaxia que pareceriam rudimentares aos nossos olhos modernos), que a população a que era direcionada, na época, por diversos motivos teria dificuldades em compreender ou praticar, a não ser que envoltas no véu do mistério, bem como um dos principais veículos da manifestação artística, pela via literária, de um povo proibido por sua própria crença de fazer esculturas de si mesmo e de sua divindade, além, é claro, de ser uma excelente ferramenta de controle social e político, no âmbito coletivo (como também de conforto psicológico, no âmbito individual), em momentos de crise, uma circunstância que não era incomum no dia-a-dia dos hebreus.

É neste contexto, portanto, que volto a insistir: A Bíblia é um livro que precisa ser lido com seriedade, PRINCIPALMENTE no se refere ao seu aspecto mitológico.

Pois eu entendo o mito não como uma "mentira", mas como um símbolo manifesto do inconsciente coletivo, portanto dotado de uma verdade psicológica relevante e autêntica.

Assim como entendo o valor do sentimento religioso como uma realidade psíquica sujeita a uma metodologia de estudo própria e fundamentalmente filosófica, cujo estatuto estaria para a ciência na mesma proporção que a arte, por exemplo.

E, embora os três (o mistério, a ciência e a arte) estejam em perpétuo conflito ideológico, a filosofia não se deixa prender por nenhum de seus parâmetros conceituais, transitando entre eles e servindo como "fio de Ariadne" que põe em contato suas respectivas verdades, aparentemente contraditórias.

O exemplo mais simples é o de que todas as religiões ditas primitivas procuravam explicar certos fenômenos atmosféricos (a chuva, o relâmpago, etc.) através de 'racionalizações' mágicas (e é claro que não se resumiam só a isso, certamente).

Além do mais, no início do pensamento filosófico na Grécia, entre os Pré-socráticos (mais ou menos no século 6 a.C.), o que veio a ser considerado como 'racional' estava ainda vinculado a hipóteses e explicações um tanto quanto 'místicas' na aparência, apesar da maioria destes filósofos poderem já ser considerados como ateus, pelo menos para os padrões da religiosidade oficial grega da época.

Resumindo: a Bíblia e, por extensão, qualquer texto de inspiração religiosa, entre tantos outros produzidos pelas mais diversas culturas na Antiguidade (como, por exemplo, o Alcorão, o Tao Te Ching, os Upanishads, o Bhagavad Gita, etc.), enquanto produtos da cultura humana e material de pesquisa sociológico e antropológico, estão longe de ser inúteis.

Entretanto, há que separar o Antigo do Novo Testamento, com vistas a uma melhor compreensão de ambos. No meu entender, se pusermos de lado certas idiossincrasias inevitáveis, é possível argumentar que, nas produções literárias que caracterizam tanto um quanto o outro, estão presentes motivações políticas e religiosas bastante similares, pelo menos a princípio, já que a raiz de muito do que prega o cristianismo e suas derivações seculares, como por exemplo no aspecto da igualdade perante a lei ou da atitude fraternal ante a necessidade dos menos favorecidos, já estar presente no judaísmo, sendo antes uma questão de envolvimento pessoal maior ou menor, decorrente muitas vezes de sutis diferenças de interpretação dadas à lei mosaica pelas diversas facções políticas e religiosas existentes à época da dominação romana na Palestina, quando teria surgido Jesus, que muitos supõe ter sido integrante da seita conhecida como 'essênios', cujos preceitos seriam semelhantes aos que ele teria divulgado.

Por outro lado, não há como escapar do fato de que os conteúdos simbólicos presentes nos dois Testamentos produziram resultados diferentes, e até certo ponto inusitados e surpreendentes, ao longo da história, que divergem em maior ou menor grau de sua proposta inicial, quando analisadas no contexto de sua inserção e adaptação a outras culturas que não a especificamente judaica.

Nesta perspectiva pode-se dizer que o Antigo Testamento cumpriu seu papel com mais eficiência e durante um tempo maior (apesar de toda sua ambivalência e contradição interna), sendo mais fiel ao que se propunha, ou seja, criar um forte vínculo cultural e étnico que servisse como estímulo psico-social à perseverança diante de antagonismos de todo tipo, enquanto circunscrito aos judeus, reforçado pelo Talmude e por tradições místicas ligadas à Cabala durante a Diáspora, pelo menos até o advento do Holocausto e da criação do estado de Israel.

Além do mais, enquanto fundamento do cristianismo e um dos pilares da civilização ocidental (juntamente com o legado da cultura greco-romana), o Antigo Testamento teve preservado muito de seu simbolismo exterior pelo ‘status quo’ dominante ao longo da história, enquanto que seu simbolismo esotérico foi perpetuado por geração após geração de místicos (inclusive cristãos e muçulmanos) e cultivado zelosamente por instituições semi-clandestinas e fraternidades pseudo-secretas, ao lado de outras tradições arcaicas das mais variadas origens.

Já no caso do Novo Testamento, por mais que este possa ser redimido por uma interpretação que valorize os elementos revolucionários de generosidade e tolerância universais contidos em sua mensagem - o que não é irrelevante, muito pelo contrário, mas, em minha modesta opinião, de aplicação quase impossível, na prática -, não resta dúvida de que o mesmo foi e tem sido, pelo menos desde a promulgação do Édito de Constantino em 321, vítima da mais abjeta deturpação e manipulação possíveis, até o ponto de quase total descaracterização de sua suposta intenção original, cujo cerne seria, penso eu, promover a convivência pacífica e a boa-vontade entre os homens, algo que pouquíssimas vezes (na realidade quase nunca), o cristianismo institucional, seja em sua vertente católica ou protestante, praticou de forma franca e sem subterfúgios.

Se bem que para sermos totalmente justos há que reconhecermos também que nenhuma outra religião institucional derivada da Bíblia, seja a judaica ou a islamica, praticou seus ensinamentos éticos de forma coerente, em todos os tempos e em todos os lugares onde prosperaram, talvez, suponho, em virtude da própria incoerência, patente ou aparente, inerente tanto à seus textos quanto à 'relação conflituosa' entre a Divindade Única e seu séquito.   

Voltando ao Novo Testamento, talvez em virtude mesmo daquela dificuldade de concretização total e absoluta de sua doutrina, intrinsecamente exigida pela mesma a qualquer custo e, mais ainda, em espírito de sincera devoção, entusiasmo juvenil e arrebatamento espiritual, impermeável, portanto, a qualquer tipo de hipocrisia, interesse egoísta ou veleidade material, ou seja, tudo aquilo que nos torna demasiadamente humanos, talvez, repito, em virtude de tudo isso é que a “boa nova” presente nos Evangelhos seja um ideal inatingível, uma promessa sem esperança de realização, pelo menos enquanto o homem não encontrar os meios necessários para transcender sua própria natureza animal, se é que tal coisa é desejável ou mesmo possível, algo que é, no mínimo, discutível sob vários aspectos.

Que fique claro que não duvido absolutamente da sinceridade de algum crente isolado, mas nunca em minha vida encontrei um que não tivesse deslizes, brechas ou dúvidas em sua fé, por mínimas que fossem. Honestamente, não me arriscaria a 'por a mão no fogo' por nenhum deles...

Aliás, pode-se afirmar categoricamente que exista algo como uma 'natureza humana' imutável?

Ou o ser humano é capaz de construir-se e desconstruir-se a seu bel-prazer, influenciado por suas experiências, sejam elas materiais ou espirituais?

Será que o ideal professado por Jesus não tinha mais a ver com a humildade em aceitar a própria imperfeição de cada um e, ainda assim, procurar fazer sempre o melhor possível do que com a arrogância em propalar uma suposta superioridade, conforme fez a igreja romana e, posteriormente, as confissões protestantes, durante vários séculos?

E os judeus, será que realmente seguem as leis mosaicas ou, em sua maioria, ainda idolatram o 'bezerro de ouro'?

E quanto a certos fundamentalistas muçulmanos que identificam assassinato com zelo religioso?

É possível justificar com total honestidade intelectual tais comportamentos através de textos considerados sagrados por seus seguidores na atualidade, sejam eles a Bíblia, o Alcorão ou qualquer outro?

E será que arrogar-se como crente, praticante ou não, de uma determinada fé religiosa, ou, analogamente, como ateu, é garantia de atitudes e comportamentos éticos perante a vida e o mundo?

Ou será que o ser humano é naturalmente hipócrita, egoísta e imbecil?

Questões e mais questões...


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O MECANISMO DE ANTICÍTERA: CALCULADORA ASTRONÔMICA DA GRÉCIA ANTIGA






















(Condensado e traduzido a partir do artigo “Decoding the ancient Greek astronomical calculator known as the Antikythera Mechanism”, publicado na revista Nature #444, pp. 587-591, de 30 de novembro de 2006, da autoria de T. Freeth, Y. Bitsakis, X. Moussas, J. H. Seiradakis, A. Tselikas, H. Mangou, M. Zafeiropoulou, R. Hadland, D. Bate, A. Ramsey, M. Allen, A. Crawley, P. Hockley, T. Malzbender, D. Gelb, W. Ambrisco e M. G. Edmunds)



O mecanismo de Anticítera é um dispositivo único, construído na Grécia em torno do final do século II A.C., que permitia calcular e exibir informações celestes, particularmente ciclos como as fases da lua e um calendário lunar-solar.

Calendários eram extremamente importantes para as sociedades antigas, tanto no que se referia à regulação das atividades agrícolas quanto na fixação de festividades religiosas. Os eclipses e os movimentos planetários eram por vezes interpretados como augúrios, mas podemos supor que a invariável regularidade dos ciclos da astronomia deve ter sido filosoficamente atraente em um mundo incerto e violento.

Batizado com o nome do local de sua descoberta em 1901 em meio aos destroços de um naufrágio romano ocorrido na Antiguidade (cerca do séc. I A.C.), o mecanismo de Anticítera é tecnicamente mais complexo do que qualquer dispositivo conhecido que tenha sido construído até pelo menos um milênio depois.

Suas funções específicas permaneceram controversas durante várias décadas em virtude do estado fragmentário de suas engrenagens e das inscrições em suas faces, após ter permanecido submerso por tantos séculos.























Em decorrência de exaustivas pesquisas, efetuadas por intermédio de tomografia radiográfica de alta resolução dos fragmentos encontrados, foi possível reconstruir o mecanismo e decifrar suas inscrições numéricas. Sua função seria a de prever eclipses lunares e solares usando como base os ciclos de progressão aritmética babilônicos. As inscrições dão respaldo também à suposição de exibição mecânica das posições planetárias, uma parte do artefato que se supõe tenha-se perdido no referido naufrágio.

No século II A.C., Hiparco desenvolveu uma teoria para explicar as irregularidades do movimento aparente da lua pelo céu, as quais seriam causadas por sua órbita elíptica. Podemos encontrar uma aplicação prática desta teoria na utilização do mecanismo, revelando um inesperado grau de sofisticação técnica para o período.


http://www.nature.com/nature/journal/v444/n7119/abs/nature05357.html