sexta-feira, 5 de março de 2010

ESPÍRITO E MATÉRIA





































Eu não diria todos, mas a grande maioria dos teístas acredita que a sua visão metafísica seja a única capaz de autorizar o estabelecimento de uma realidade não-material a partir de conceitos que, apesar de marginalmente relacionados com a experiência empírica, não encontram espaço no paradigma tradicional que rege as atuais ciências acadêmicas. Não é bem o caso. 

A filosofia pós-estruturalista, entendida de uma forma mais ampla, amparada pela psicologia analítica, pela antropologia cultural e pelos estudos de Cantor, tem espaço para desenvolvimentos pós-metafísicos, intuídos a partir de uma ontologia compreendida em termos matemáticos, que não prescindem do reconhecimento de dimensões da realidade que poderiam ser, de certa forma, caracterizadas como 'espirituais' (no sentido que se pode encontrar em certas concepções do assim-chamado misticismo oriental, ou mesmo em certos pensadores pré-socráticos).

O desafio é tornar este desenvolvimento consequente ao momento histórico, interpretando-o num contexto paradoxal em que se manifestariam simultaneamente tanto a matéria quanto o espírito (entendido como uma manifestação do psiquismo humano), e buscando uma sincera disposição ética, tanto individual quanto coletiva, em que se fundamentar.

O fato de o mundo ser eminentemente materialista no sentido comum do termo também não é impedimento a que busquemos, pelo menos, e de forma eminentemente pragmática, por alguns momentos de tranquilidade espiritual na correria do dia-a-dia. 

Temos que superar a crença industrialista de que somos análogos a máquinas que, uma vez programadas e acionadas (estimuladas), continuam invariavelmente em seu trajeto até a morte, como que ligadas no 'piloto-automático'.

A idealização de perfeição que, a meu ver, melhor representa a natureza é a de perfeita liberdade. Chegar aonde chegou dentro de meros 13,5 bilhões de anos a partir da explosão de uma quase singularidade, ainda que cerceada pela determinação imposta pelos parâmetros supostamente aleatórios de sua condição inicial, só com muita liberdade de atuação.

Como dizia Gandhi, "de nada adianta a liberdade se não temos liberdade de errar". Entretanto, pelo menos no caso da humanidade, uma verdade parece ser inescapável: em quaisquer circunstâncias onde se exercite a liberdade, assim como em decorrência de toda ação perpetrada no âmbito material, sempre haverá consequências.

Que existam tais consequências é o preço que todos pagamos, seja o homem ou a natureza, por nossos 'erros' e 'acertos'?

Podemos imaginar que tal situação seja verdadeira tanto para o homem quanto para a natureza, em decorrência da inexorabilidade cega da entropia, ou mesmo por conta de seu oposto, o fenômeno da complexidade, onde a vida encontra seu nicho?

Seria a natureza capaz de 'errar' de forma tão patente, ou é tão somente a visão limitada de alguns que os leva a enxergar a humanidade como um câncer a ser extirpado da face da Terra ou um vírus para o qual o universo ainda não encontrou a vacina?

Neste cenário, não caberia mais humildade em relação a tudo aquilo que desconhecemos no âmbito espiritual (o aspecto psíquico que define os seres humanos como tal e, quiçá, a própria vida)? Ou mesmo em relação à própria matéria (todo 'o resto'), essa realidade sobre a qual supomos saber tanto, mas que, no entanto, sabemos tão pouco, haja vista, por exemplo, as recentes especulações da cosmologia a respeito da matéria e da energia escura?

Até que ponto espírito e matéria seriam fenômenos distintos?

Afinal que sabemos nós realmente sobre perfeição ou imperfeição para além (e aquém) dos limites do meramente humano?