Mostrando postagens com marcador Freud. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Freud. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O SER E O EVENTO (1)





[Parte 1 da Introdução do livro "O SER E O EVENTO" de autoria de ALAIN BADIOU]


Admitamos que hoje, na escala mundial, seja possível começar a análise do estado da filosofia pela suposição dos três enunciados que se seguem:

1. Heidegger é o último filósofo universalmente reconhecível.

2. A figura da racionalidade científica é conservada como paradigma, de maneira dominante, pelos dispositivos de pensamento, sobretudo norte-americanos, que se seguiram às mutações matemáticas, às da lógica e aos trabalhos do círculo de Viena.

3. Está em desenvolvimento uma doutrina pós-cartesiana do sujeito, cuja origem pode ser atribuída a práticas não filosóficas (a política, ou a relação instituída com as "doenças mentais"), e cujo regime de interpretação, marcado pelos nomes de Marx (e Lenin), de Freud (e Lacan), está enredado em operações, clínicas ou militantes, que excedem o discurso transmissível.

Que há de comum nestes três enunciados? Não há dúvida de que designam, cada um a sua maneira, o fecho de uma época inteira do pensamento e de seus desafios. Heidegger, no elemento da desconstrução da metafísica, pensa a época como regida por um esquecimento inaugural, e propõe um retorno grego. A corrente "analítica" anglo-saxã desqualifica a maior parte das frases da filosofia clássica como desprovidas de sentido, ou limitadas ao exercício livre de um jogo de linguagem. Marx anunciava o fim da filosofia, e sua realização prática. Lacan fala de "antifilosofia", e prescreve ao imaginário a totalização especulativa.

Por outro lado, o que há de incongruente nestes enunciados salta aos olhos. A posição paradigmática da ciência, tal como, até em sua negação anarquizante, ela organiza o pensamento anglo-saxão, é assinalada por Heidegger como um efeito último, e niilista, da disposição metafísica, ao passo que Freud e Marx conservam seus ideais, e que o próprio Lacan reconstituía nela, pela lógica e a topologia, os esteios de eventuais matemas. A ideia de uma emancipação, ou de uma salvação, é proposta por Marx ou Lenin no modo de uma revolução social, mas é considerada por Freud ou Lacan com um pessimismo cético, considerada por Heidegger na antecipação retroativa do "retorno dos deuses", enquanto, grosso modo, os americanos se contentam com o consenso em torno dos procedimentos da democracia representativa.

Há, portanto, acordo geral quanto a convicção de que nenhuma sistemática especulativa é concebível, e de que está encerrada a época em que a proposição de uma doutrina do nó ser/não-ser/pensamento (se admitirmos que é desse nó que, desde Parmênides, se origina o que chamamos "filosofia") podia ser feita na forma de um discurso acabado. O tempo do pensamento está aberto para um regime de apreensão diferente.

Há desacordo quanto à questão de saber se essa abertura, cuja essência é encerrar a idade metafísica, se indica como revolução, como retorno, ou como crítica.

Minha própria intervenção nessa conjuntura consiste em traçar nela uma diagonal, pois o trajeto de pensamento que tento passa por três pontos suturados, cada um, num dos três lugares que os enunciados acima designam. 

- Com Hidegger, vamos sustentar que é do ângulo da questão ontológica que se sustenta a re-qualificação da filosofia como tal.

- Com a filosofia analítica, afirmaremos que a revolução matemático-lógica de Frege-Cantor fixa orientações novas para o pensamento.

- Admitiremos, por fim, que nenhum aparato conceitual é pertinente se ele não for homogêneo às orientações teórico-práticas da doutrina moderna do sujeito, ela própria interior a processos práticos (clínicos ou políticos).

Esse trajeto remete a periodizações imbricadas,
cuja unificação, a meu ver arbitrária, conduziria à escolha unilateral de uma das três orientações contra as demais. Vivemos uma época complexa, se não confusa, visto que as rupturas e as continuidades de que ela se entretece não se deixam subsumir sob um vocabulário único. Não há hoje "uma" revolução (ou "um" retorno, ou "uma" crítica). Eu tenderia a resumir assim o múltiplo temporal descompassado que organiza nossa situação:

1. Somos contemporâneos de uma terceira época da ciência, após a grega e a galileana. A cesura nomeável que abre esta terceira época não é (como no caso da grega) uma invenção - a das matemáticas demonstrativas -, nem (como a galileana) um corte - aquele que matematiza o discurso físico. É uma reorganização, a partir da qual se revelam a natureza da base matemática da racionalidade e o caráter da decisão de pensamento que a estabelece.

2. Somos igualmente contemporâneos de uma segunda época da doutrina do Sujeito, que não é mais o sujeito fundador, centrado e reflexivo, cujo tema se estende de Descartes a Hegel, e ainda permanece legível até Marx e Freud (e até Husserl e Sartre). O sujeito contemporâneo é vazio, clivado, a-substancial, irreflexivo. Aliás, ele pode apenas ser suposto no tocante a processos particulares cujas condições são rigorosas.

3. Somos, por fim, contemporâneos de um começo no que diz respeito à doutrina da verdade, depois que sua relação de consecutividade orgânica com o saber se desfez. Percebemos retroativamente que, até agora, reinou absoluta o que chamarei aqui a veridicidade; e, por estranho que isso possa parecer, convém dizer que a verdade é uma palavra nova na Europa (e alhures). De resto, esse tema da verdade atravessa Heidegger (que é o primeiro a subtraí-lo ao saber), os matemáticos (que no fim do século XIX romperam tanto com o objeto quanto com a adequação) e as teorias modernas do sujeito (que excentram a verdade de sua pronunciação subjetiva).

A tese inicial de minha empreitada, aquela a partir da qual dispomos o imbricamento das periodizações, extraindo o sentido de cada uma, é a seguinte: a ciência do ser-enquanto-ser existe desde os gregos, pois esse é o estatuto e o sentido das matemáticas. Somente hoje, porém, temos os meios de saber tal coisa. Dessa tese decorre que a filosofia não tem por centro a ontologia - a qual existe como disciplina exata e separada -, mas circula entre essa ontologia, as teorias modernas do sujeito e sua própria história. O complexo contemporâneo das condições da filosofia abarca, por certo, tudo a que se referem meus três enunciados primeiros: a história do pensamento "ocidental", as matemáticas pós-cantorianas, a psicanálise, a arte contemporânea e a política. A filosofia nem coincide com nenhuma dessas condições, nem elabora sua totalidade. Ela deve apenas propor um quadro conceitual onde possa se refletir a compossibilidade contemporânea desses elementos. Só o pode fazer - pois é isso que a despoja de toda ambição fundadora, em que se perderia - designando entre suas próprias condições, e como situação discursiva singular, a própria ontologia, sob a forma das matemáticas puras. É isso, propriamente, o que a liberta, e a consagra finalmente ao zelo das verdades.

     

domingo, 13 de abril de 2014

FREUD JÁ NÃO EXPLICA MAIS


[Texto de autoria de Miguel Falabella]



Sarita abandonou a psicanálise. Telefonou-me de madrugada, parecendo muito feliz com a decisão.

- Freud já não explica mais nada, meu anjo - ela disse, mais ansiosa do que o habitual. - Era um escritor muito habilidoso, mas eu não posso mais perder tempo investigando nada.

- Você não gosta mais de fazer terapia?

- Não se trata disso. Tenho o outro tipo de urgência.

Ela, agora, segundo suas próprias palavras, repõe substâncias químicas que seu organismo é incapaz de produzir. Tem dormido bem e a angústia mudou-se para endereço ignorado.

Depois, disse que com a medicação vive constantemente numa frequência baixa, que lhe proporciona grande bem estar.




Sarita não está mais conseguindo absorver o mundo e a rapidez com que se desenrola o novelo das civilizações, eu penso. Ela está paralisada, como muitos de nós, tentando adivinhar um mundo que ela já não conhece e que é rápido demais para seu entendimento.

Digo a ela que não concordo. Quer dizer, concordo, em parte, mas gosto das interpretações e dos caminhos da psicanálise. Gosto de percorrer as vielas escuras da mente, quase sempre se encontra alguém interessante com quem você gostaria de trocar uma ou duas palavras.

Literatura, meu bem. Literatura - ela disse, do outro lado da linha. Uma prática das elites, não tem nada a ver com gente normal.

Eu achei melhor não me estender, mas Sarita não se deu por vencida e ainda falou por um longo tempo. Em determinado momento, eu deixei de ouvir e fui visitar o futuro assombrado que ela anunciava, povoado por uma humanidade dopada e feliz.

Freud já não explica mais nada, então? A aventura do conhecimento interior dissolve-se com a pílula, na saliva amarga das bocas. Um mundo novo, sem dúvida.

Adormeci olhando para os céus, com medo de um meteoro perdido qualquer viesse a se chocar com a Terra, na noite mesma em que eu descobri que felicidade podia-se não desejar, ainda que estivesse ali, ao alcanca de todos.


POST-SCRIPTUM:

      

quarta-feira, 19 de março de 2014

MICHEL FOUCAULT



[Adaptado de uma reportagem publicada no caderno 'Prosa & Verso' do jornal O GLOBO, em 11.01.2014]


No ano em que se completam três décadas da morte do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) presto aqui minha homenagem aquele que foi o pensador libertário das marginalidades sociais e das minorias culturais, raciais e sexuais.

Foucault expunha uma visão da cultura e da História que não pretendia explicar o presente pelo passado. Preferia investigar os discursos que condicionam as formas de ver e julgar, e analisar a maneira pela qual a cultura contemporânea determina as condições de possibilidade do novo. Construiu assim sua arqueologia da cultura ocidental.


POST-SCRIPTUM:


A seguir um trecho de declarações feitas pelo filósofo, em entrevista concedida ao "Jornal da Tarde", numa visita ao Brasil poucos dias depois do assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes da ditadura militar em 1975:

"A dialética mestre-escravo, segundo Hegel, é o mecanismo pelo qual o poder do mestre se esvazia pelo fato mesmo de seu exercício. A certa altura ele se encontra na dependência do escravo, não tendo mais poder porque cessou de exercê-lo. 

Quero mostrar o oposto: que o poder se reforça pelo seu próprio exercício - não passa sub-repticiamente para o outro lado. Desde 1831, a Europa não parou de pensar que a derrubada do capitalismo era iminente. Isso muito antes de Marx. E ele está aí. Não digo que ele nunca será desenraizado. Mas que o custo de sua derrubada não é o que imaginamos.

Se essas lutas são feitas em nome de alguma essência do homem, tal como ela foi construída no pensamento do século XVIII, eu diria que essas lutas estão perdidas. Porque elas serão conduzidas em nome do homem abstrato, do homem 'normal', do homem 'de boa saúde', que é o precipitado de uma série de poderes.

Agora, se quisermos fazer a crítica desses poderes, não se deve efetuá-la em nome de uma ideia do homem construída a partir desses poderes. Quando o marxismo vulgar fala do homem completo, do homem reconciliado com ele mesmo, de que se trata? Do homem 'normal', do homem 'equilibrado'. Quando se formou a imagem desse homem? A partir de um saber e de um poder psiquiátrico, médico, um poder 'normalizador'. 

Fazer crítica política em nome desse humanismo significa reintroduzir na arma do combate aquilo contra o qual combatemos."



quinta-feira, 6 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (5)




[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


Aonde tudo isso nos leva?

"(...) suponhamos o ato analítico a partir do momento seletivo em que o psicanalisante passa a psicanalista".

Isso quer dizer que o ato de que se trata agora não é o de César atravessando o Rubicão. Agora, César é o analisante e o Rubicão, o momento em que diz: "Sou psicanalista". 


É disso que se trata. Antes, era analisante, paciente; agora, analista. Não tem nada a ver com o exercício profissional, com o exercício da psicanálise como prática social.

É um instante, um instante que só se deduz de uma análise, um instante em que se muda de posição. É isso o que Lacan interpreta para dizer à comunidade analítica que o analista se esquece desse momento.


Há, portanto, algo fatalmente difícil para um analista em dizer "sou". De modo geral, a comunidade leiga também lhe cobra essa definição: você é psiquiatra, psicólogo, pode dar receitas? Ela não tem de saber o que é um analista, mas há problemas quando o próprio psicanalista não sabe.

Esse momento em que poderia dizer "sou analista" está, como diz Lacan, "esquecido".



POST-SCRIPTUM:

E então? Não tem certeza de nada? Não sabe o que fazer de sua vida? Tudo parece inútil e sem sentido? Qual o objetivo disso tudo?

Cruze o Rubicão: seja seu próprio analista!

E relaxe fumando um 'baseado' do bom, ao lado de companhias agradáveis, uma garrafa de vinho e música de qualidade...

(Se não for possível ter todos esses itens ao mesmo tempo não tem problema: um ou dois já são suficientes)

Quem sabe você não se surpreende?

quarta-feira, 5 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (4)




[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


Se pensamos no Rubicão, vemos que o ato tem a ver com o corte que instala um antes e um depois. Ele tem uma ligação estreita e estrutural com a questão da temporalidade, pois não se passa a vida fazendo um ato.

Um ato é um instante, é o momento em que se salta. Sua temporalidade é a de um instante, precisamente o que o neurótico não consegue. O neurótico, sobretudo o obsessivo, considera que o "bom momento" jamais chega: a água está fria, molha os sapatos, melhor esperar a primavera porque o tempo será mais bonito, melhor pedir permissão, o que me dirão depois, já fiz uma vez e não deu em nada, enfim...




O que é a neurose? É o relato da negação do ato. E podemos fazer o esforço de situar como a questão se verifica não apenas na obsessão, em que é cintilante, mas também na histeria e na fobia.

O que é o perverso? É o sujeito que se engana a respeito de um ato. É alguém que quer ter um saber fazer sobre o ato, e isso o precipita a fazer muitas coisas diante das quais o neurótico certamente recua. 

Mas não se trata de um ato basicamente porque a dimensão do Outro é estritamente necessária para a perversão, e, de maneira geral, alguém pode se perguntar diante de que o acting out é perverso, a quem se endereça.



Toda a lógica da sessão, da sessão curta, da pontuação, a lógica dessa maneira tão especial com que Lacan utilizava tempo, é inteiramente solidária à sua concepção de ato.

O grande texto de Lacan sobre o ato é o novo sofisma, o texto sobre os prisioneiros que tem de tomar a decisão de sair. Valendo-se dele, Lacan formula os tempos lógicos: o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir, que constituem sua teoria do ato.  

POST-SCRIPTUM:

Continua...

domingo, 2 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (3)


[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


O que distingue um ato de uma ação? Um ato não é equiparável a uma ação porque as coordenadas são coordenadas simbólicas, ou seja, o ato é significativo, significa, é interpretável.

Lacan repetidamente exemplifica o que seria um ato: o momento em que César atravessa o Rubicão. Não creiam que saltar por cima do Rubicão é algo semelhante à travessia dos Andes. Nada disso, não é necessário nenhum esforço físico para atravessar o Rubicão, basta um salto.

Por isso o que é o ato? Não há nenhuma ação grandiosa em César que permita dizer que ele passou para a História por causa dela. Trata-se simplesmente do fato de que o Rubicão demarcava o limite que não podia ser atravessado pelo exército da República. César, então, desafia as leis da República, indo além das coordenadas simbólicas que regiam as leis da época.

 

De fato, antes de atravessar o Rubicão, César era um soldado da República; depois, tornou-se um rebelde. Não é mais o mesmo.

Pois bem, esse é o exemplo utilizado por Lacan para explicar que um ato se mede pelas coordenadas simbólicas, não representa nenhuma ação, nenhum gasto físico. 

Entende-se, contudo, que, para ultrapassar as leis, devemos tê-las no horizonte, devemos situar o Outro e ir além dele. Isso permite pressupor que o Outro sempre acompanha a dimensão do ato, precisamente para que se vá além dele. Não há ato sem o Outro.


Deve-se traçar o limite, para se ver depois como retraçá-lo. É preciso a lei simbólica para que se possa ver como transgredi-la, como ultrapassá-la. Não há ato de outra forma.


POST-SCRIPTUM:

Continua...


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O ATO ANALÍTICO (2)


[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


Passemos a 1912. "Recordar, repetir e elaborar" é a segunda grande entrada para a questão do ato no ensino de Freud. Nesse texto, há uma mudança de perspectiva.

Freud não se contradiz, mas é importante reconhecer que ele elabora o ato de outro lugar, baseando-se no que se opõe à rememoração.

Ele introduz a famosa expressão agieren, termo traduzido em inglês por Strachey como acting out. Agieren provém do latim agere: ato, atuação, ativo, atividade, ator, atriz.



A mesma raiz abarca essas diferentes modalidades do ato. Quando Freud o trabalha em "Recordar, repetir e elaborar", não o faz como o ato interpretável, mas sim como o ato que se opõe à rememoração que desenbocaria na interpretação.

Em outros termos, situa no ato algo contrário à lógica do inconsciente, uma vez que o inconsciente tem uma maneira de repetir-se e o ato, outra. Lacan aborda essas duas formas de repetição em O Seminário, livro 11, ao estabelecer a diferença entre tykhé e automaton.

Essas são, portanto, as duas grandes perspectivas de Freud sobre o ato: na condição de interpretável, remete a "A psicopatologia da vida cotidiana"; como o que se opõe ao inconsciente, a "Recordar, repetir e elaborar".



POST-SCRIPTUM:

Continua...

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O ATO ANALÍTICO (1)



[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria] 


O tema do ato está presente em Freud e tem duas grandes entradas. A primeira está situada no começo de seu ensino, em  "A psicopatologia de vida cotidiana", de 1901. É um grande escrito sobre o ato, que pode ser posto na mesma série de outras formações do inconsciente, ou seja, em série com "A interpretação dos sonhos" (1900) e "Os chistes e sua relação com inconsciente" (1905), três textos que compõe a primeira tópica de Freud e a grande variedade que traz ao mundo: a ideia de que o inconsciente é interpretável, não se manifesta a céu aberto a não ser em seus retornos, em suas formações, sendo por meio desses que se pode explicar a hipótese do inconsciente.




Assim, é na perspectiva do ato falho ou do ato sintomático que o ato surge na psicanálise freudiana. "A psicopatologia da vida cotidiana" é uma grande classificação - não inteiramente segura - dos atos. 

Freud é guiado pela idéia de que os atos não são inocentes, não são meros movimentos e tem uma significação. Esta é a porta pela qual o ato entra na psicanálise. A partir de então, ninguém pode mais dizer que tomou um ônibus errado para ir a sua sessão porque dormiu pouco e estava cansado; ou que pega sua chave de casa ao chegar ao consultório do analista por hábito. Todos esses hábitos são interpretáveis, do mesmo modo que um sonho.

POST-SCRIPTUM:

Continua...

sábado, 22 de janeiro de 2011

PENSAMENTOS




Em primeiro lugar nasceu o Caos" - Hesíodo







"Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como as do arco e da lira" - Heráclito






"A causa da existência de todas as coisas é o redemoinho incessante a que chamo necessidade; e tudo acontece de acordo com a necessidade. Dessa forma, a criação é constantemente criada e recriada" - Demócrito






"O homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são tal como são e das que não são tal como não são" - Protágoras





"O que está embaixo é igual ao que está em cima, e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar o milagre de uma só coisa" - A Tábua de Esmeralda




"A analogia dos contrários é a relação que vai da luz à sombra, do vértice ao abismo, do pleno ao vazio. A alegoria, mãe de todos os dogmas, é a mentira da verdade e a verdade da mentira" - Eliphas Levi



"Lá, o olho não alcança, nem a fala, nem a mente, não sabemos ou sequer entendemos como poderia ser ensinado" - Os Upanishads




"Homens sem sabedoria deliciam-se na análise da simples letra dos Vedas" - Os Vedas




"A letra mata, o espírito vivifica" - Paulo de Tarso





"Só sei que nada sei" - Sócrates




"Não há esperança sem medo nem medo sem esperança" - Spinoza




"Que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; mas se tiver que explicar a alguém, não sei" - Santo Agostinho




"O Tempo e o Espaço são modos pelos quais pensamos, e não condições nas quais vivemos" - Albert Einstein





"A Natureza ama esconder-se" - Heráclito





"O Tao que pode ser expresso não é o Tao eterno" - Tao Te Ching




"Deus é uma esfera cujo centro está em toda parte, e a circunferência em lugar nenhum" - Hermes Trimegistus




"Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento? O homem não lhe conhece o caminho; nem se acha ela na terra dos viventes" - Livro de Jó, 28:12




"I'm looking for the face I had 
Before the world was made" - Yeats ("The Winding Stair")




"A primeira sephirah é Keter, a Coroa, origem de tudo, vácuo primordial. Primeiro criou um ponto, que se tornou o Pensamento, onde imprimiu todas as figuras. Era e não era, encerrado no nome e esquecido no nome, o Não-Movente, que não é corpo, não tem figura, forma, peso, quantidade ou qualidade, e não vê, não sente, não é apreendido pela sensibilidade, não é um lugar, nem um tempo ou um espaço, não é alma, inteligência, imaginação, opinião, número, ordem, medida, substância, eternidade, não é treva nem luz, não é erro nem verdade" - Casaubon ("O Pêndulo de Foucoult", de Umberto Eco)




"No ponto em repouso do mundo em mutação, nem carne nem ausência de carne; nem ida nem volta: no ponto em repouso há dança, mas nem interrupção nem movimento. E não se chame de fixo o lugar em que o passado e o futuro se encontram. Nem movimento de vinda ou de volta, nem ascenção nem declínio. Se não ouvesse o ponto, o ponto em repouso, não haveria dança, e só há dança" - T. S. Elliot



"A Natureza é partes sem um todo. Isto é talvez o tal mistério de que falam" - Alberto Caeiro (vulgo Fernando Pessoa)




"Salomão disse: 'Não há nada de novo sobre a terra'. E tanto assim quanto Platão imaginou, 'que todo conhecimento é apenas recordação'; tanto assim Salomão sentenciou, 'que toda novidade não passa de esquecimento'" - Francis Bacon ("Essays LVIII")




"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que a as mentiras" - Nietzsche




"As maiores almas são capazes dos maiores vícios tanto quanto das maiores virtudes" - Descartes




"Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos, pois, reciprocamente as nossas tolices" - Voltaire



"Senhor, que tolos são esses mortais..." - William Shakespeare, em "Sonhos de Uma Noite de Verão"




"A Igreja diz que a Terra é achatada, mas eu sei que é redonda, porque eu vi sua sombra na Lua, e eu tenho mais fé numa sombra do que na Igreja" - Fernão de Magalhães




"Jamais houve um vislumbre de evidência de que os Estados cristãos sejam menos belicosos que os demais. De fato, algumas das guerras mais ferozes foram devidas a conflitos entre diferentes tipos de cristianismo" - Bertrand Russell



"Parece-me que a questão decisiva da espécie humana é a de saber se, e em que medida, o seu desenvolvimento cultural será bem-sucedido em dominar o obstáculo à convivência representado pelos impulsos humanos de agressão e de autoaniquilação" - Sigmund Freud




"Para seguir a trilha do conhecimento é preciso ser muito imaginativo. Na trilha do conhecimento, nada é tão claro quanto gostaríamos que fosse" - Don Juan Matus ("A Erva do Diabo", de Carlos Castañeda)



"A natureza é um templo em que pilastras vivas por vezes emitem palavras confusas, e nele o homem passa por florestas de símbolos que o observam com um olhar familiar" - Charles Baudelaire




"Crê naqueles que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram" - André Gide



"Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade" - Carl Gustav Jung



"Se cuidarmos da liberdade, a verdade cuida de si mesma" - Richard Rorty




"O passado mostra, invariavelmente, que, quando a liberdade de um povo desaparece, ela não se vai com um estrondo, mas envolta pelo silêncio dos que se sentem confortáveis com os cuidados que estão recebendo. Esse é o extremo perigo da tendência ao estatismo" - Richard Weaver




"A imaginação é a mais importante das faculdades humanas" - Albert Einstein



"Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; trata-se, entretanto, de transformá-lo" - Karl Marx 




"A Ciência deve começar com os mitos e com a revisão crítica dos mitos" - Karl Popper



"A leitura histórica da tradição nos mostra que os grandes filósofos deixaram a sua marca e influenciaram o desenvolvimento da filosofia na medida em que tiveram idéias originais, foram criativos, abrindo novas possibilidades para o pensamento, mas também na medida em que tiveram bons leitores, isto é, discípulos que souberam, inclusive criticamente, interpretar seu pensamento, tomá-los como ponto de partida para novos desenvolvimentos e encontrar novas dimensões e novas aplicações de suas obras. Encontramos o melhor exemplo disso no período clássico com Platão em relação a Sócrates e, por sua vez, com Aristóteles em relação a Platão. Filosofias que pareciam praticamente extintas, como o ceticismo antigo, ressurgem com novo vigor porque encontram novos leitores; o início do período moderno é um exemplo disso. Assim tradição e criação não se excluem, mas se fecundam mutuamente" - Danilo Marcondes



"Quando Platão tentou abarcar a alma (psyche), recorreu tanto ao mito quanto ao pensamento racional meticuloso. Precisou dos dois caminhos. Plotino recorre ao mito quando discute a alma. Freud também utilizou dois caminhos. Sua linguagem racional é intercalada de imagens míticas, digna dos pré-socráticos" - J. Hillman




"Uma generalização feita não pelo mero prazer de generalizar, mas para resolver problemas previamente existentes, é sempre uma generalização frutífera" - Henri Lebesgue




"Quanto mais a matéria é, em aparência, positiva e sólida, mais sutil e laborioso é o trabalho da imaginação" - Charles Baudelaire



"Se o mundo dos sentidos não se ajusta às matemáticas, tanto pior para o mundo dos sentidos" - Bertrand Russell




"Quando você pode medir algo sobre o qual está falando e expressá-lo em números, você sabe alguma coisa sobre ele" - Lord Kelvin




"Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - Antoine Lavoisier 



"Não pode haver nenhuma certeza apodítica na ciência, nenhuma certeza conclusiva além do alcance da crítica" - Peter Medawar



"A realidade é meramente uma ilusão, ainda que uma muito persistente" - Albert Einstein




"Em termos de tecnologia, o que quer que possa ser imaginado eventualmente será construído" - Andrew S. Grove ("Only the Paranoid Survive")




"Existe um limite para os nossos poderes de observação e para o mínimo de perturbação que acompanha o nosso ato de observação, um limite que é inerente à natureza das coisas e que nunca pode ser vencido pelo aperfeiçoamento da técnica e da habilidade do observador" - Paul Dirac



"Dizer que a história da razão é discontínua pode levar a pensar que, afinal, esta não indica nada de muito preciso, claro ou rigoroso e que, talvez, seja um mito que a cultura ocidental inventou para si mesma. Mas pode significar também algo bem mais importante: que a razão não é a estrutura universal do espírito humano e sim um meio precioso de que dispomos para criar, julgar e avaliar conhecimentos, para dar sentido às coisas, às situações e aos acontecimentos e para transformar nossa existência individual e coletiva" - Marilena Chauí




"Deve-se compreender que há 'mais' e não 'menos' em uma organização quantitativa do real que em uma descrição qualitativa da experiência" - Gaston Bachelard



"Quem não se sentiu chocado com a teoria quântica, não pode tê-la compreendido" - Niels Bohr



"A teoria quântica é sobre a compatibilidade de dois opostos aparentemente irreconciliáveis" - Paul Strathern




"Aprendemos que a verdade é de diferentes tipos, nem todos completamente compatíveis" - Peter Medawar




"Mesmo que se compreenda que o significado de um conceito jamais será definido com precisão absoluta, alguns conceitos são parte integrante dos métodos da ciência, pelo fato de representarem, pelo menos por algum tempo, o resultado final do desenvolvimento do pensamento humano desde um passado assaz remoto; eles podem mesmo ter sido herdados e são, qualquer que seja o caso, instrumentos indispensáveis na execução do trabalho científico em nosso tempo" - Werner Heisenberg



"A compreensão dos fenômenos naturais, dos mais simples aos mais profundos, deveria apenas fortalecer nossa espiritualidade. A racionalidade e a espiritualidade são aspectos complementares" - Marcelo Gleiser



"A Ciência pode impor limites ao conhecimento, mas não deve impor limites à imaginação" - Bertrand Russell




"Só mesmo a obscuridade pode servir de proteção para o que é absurdo" - John Locke




"A primeira obrigação da inteligência é desconfiar de si mesma" - Stanislaw J. Lec




"Não saber do que se fala é uma grande vantagem da qual não se deve abusar" - Régis Debray




"Estude! Não para saber uma coisa a mais, mas para sabê-la melhor" - Sêneca



"Entre compreender e não compreender há um número bastante grande de classes, nas quais 9/10 das pessoas se incluem bastante comodamente" - G. C. Lichtenberg



"A lucidez crônica torna as pessoas mal-humoradas e rabugentas" - Jorge Luis Gutierrez



"A seriedade ontológica precisa de um humor diabólico ou fenomenológico" - Gilles Deleuze




"A retórica, por um lado, é um composto da ciência analítica e da política, por outro, é semelhante ora à dialética, ora aos discursos sofísticos" - Aristóteles



"Sem a loucura que é o homem? Mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?" - Fernando Pessoa




"Honro a filosofia, odeio os filósofos" - Ludwig Boltzmann




"O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem" - Vladimir Lênin



"Em geral, pensa-se que o nacional-socialismo significa apenas brutalidade e terror. Mas isso não é verdade. O nacional-socialismo - e, mais amplamente, o fascismo - também significa um ideal, ou ideais que persistem hoje sob outras bandeiras: o ideal da vida como arte, o culto da beleza, o fetichismo da coragem, a dissolução da alienação em sentimentos extáticos de comunidade, o repúdio ao intelecto, a família humana (sob a paternidade de líderes). Esses ideais são vívidos e comoventes para muitas pessoas porque seu conteúdo corresponde a um ideal romântico ao qual muitos continuam ligados e que se expressa em diversas formas de dissidência cultural e de promoção de novas formas de comunidade, como a cultura jovem e do rock, a terapia primal, a antipsiquiatria e a crença no oculto" - Susan Sontag




"Há, soltas no mundo, palavras demais, não querendo dizer absolutamente nada" - Millôr Fernandes




"Há uma tempestade de merda chegando!" - Norman Mailer




"Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução..." - Carlos Drummond de Andrade




"Somos todos impostores!" - Roger-Pol Droit



"Os egípcios conheciam a eletricidade?" - Peter Kolosimo




"Dreams are like angels, they keep bad at bay" - Frankie Goes To Hollywood




"O filho-da-puta só prospera onde existe uma massa ignara de idiotas" - Lobão



"Existem três coisas de que você precisa abrir mão: julgar, controlar e ser o dono da verdade. Livre-se das três, e você terá a mente íntegra e vibrante de uma criança" - Hugh Prather



"O propósito da vida não é ser feliz. É ser útil, ser honrado, ser compassivo, fazer a diferença entre ter vivido e ter vivido bem" - Ralph Waldo Emerson




"Talvez eu devesse ter lutado menos e perguntado mais!" - Steven Rogers (Captain America #125, vol. 1, May 1970: "Captured in Vietnam!"; by Stan Lee & Gene Colan)



"Ou você é parte da solução, ou é parte do problema" - Eldridge Cleaver




"Nada se cria, tudo se copia" - Abelardo Barbosa (Chacrinha)




"Seguramente, existem três coisas boas na vida: um uísque antes, e um cigarro depois!" - Anônimo






POST-SCRIPTUM:






O Pensador ('Le Penseur'), uma das mais famosas obras de arte do mundo, é criação do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917).