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domingo, 27 de abril de 2014

O JESUS JUDEU (2)


[Trecho extraído e editado do capítulo 6 ("O Jesus dos Evangelhos Sinópticos: curandeiro e mestre carismático e entusiasta escatológico") do livro AS VÁRIAS FACES DE JESUS de autoria de GEZA VERMES, publicado pela Editora RECORD]



As leis alimentares (kosher versus não kosher)
constituem uma segunda área do suposto conflito de Jesus com a Torá de Moisés, mas a afirmativa de que ele aboliu a distinção entre puro e impuro está baseada numa incompreensão crassa de um dito sutil: "Não há nada no exterior do homem que, penetrando nele, o possa tornar impuro; mas o que sai do homem, isso é o que o torna impuro... Não entendei que tudo o que vem de fora, entrando no homem, não pode torná-lo impuro, porque nada disso entra no coração, mas no estômago, e sai para a fossa?" (Mc 7:15, 18-19; Mt 15:11, 17-18). 

O significado patente dessas palavras é que a corrupção não vem pelo alimento enquanto tal, mas quando se negligencia profundamente uma proibição divina, uma interpretação ética costumeira de um preceito legal. Essa moralização da Lei se enraíza, sem contar os profetas bíblicos, no autor da Carta de Aristéia na primeira metade do século II a.C., segundo a qual Deus não é honrado por oferendas e sacrifícios, mas por pureza d'alma e convicções sagradas.

A mesma ideia é essencial ao ensinamento partilhado por Filo de Alexandria e por Jesus, que identifica os Dez Mandamentos como o epítome da Lei (Leis Especiais I,I; Mc 10:17-19; Mt 19:16-19; Lc 18:18-20), ou a assim chamada Regra de Ouro - "Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles" - que sob formas variantes vai de Tobias (4:15) e Filo (Hupothética 7:6) até Ilel, um destacado mestre judeu à virada da era (bShabbat 31a), e o próprio Jesus (Mt 7:12; Lc 6;31).

Para voltarmos às leis dietéticas, o comentário do editor do Evangelho de Marcos 7:19 - "Assim, ele declarava puros todos os alimentos" - é um comentário secundário que nada tinha a ver com Jesus, e só era significativo e benéfico para a igreja gentílica-cristã à qual o Evangelho era em última análise dirigido. A dificuldade da cristandade judaica com os convertidos gentios prospectivos nos Atos dos Apóstolos e a disputa de Paulo com Pedro em Antioquia demonstram que, na primeira geração cristã, ninguém estava ciente de que Jesus tivesse declarado todo alimento puro!

Tão espúria quanto as duas precedentes, a terceira prova da afirmação de Jesus da sua superioridade sobre a Lei reside em seus ditos reunidos no Sermão da Montanha, conhecidos como "antíteses" (Mt 5:21-48). Nestes, um antigo preceito do Velho Testamento, por exemplo, "Não matarás", é introduzido com as palavras, "Ouviste que foi dito aos antigos", e seguido pela proclamação de Jesus, "Eu, porém, vos digo" outra coisa, tal como "todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá que responder no tribunal" (Mt 5:21-2).

 Entretanto, quando objetivamente analisadas, as suas declarações reforçam e esclarecem, em vez de contradizerem a Torá. Ao proibir a raiva, Jesus não permite o assassinato, mas garante que a sua raiz seja arrancada.

Tomar as antíteses por uma "ruptura da letra da Lei", como fez Ernst Käsemann, um estudioso alemão do Novo Testamento, revela a extraordinária cegueira de que teólogos de um certo tipo são presa.



POST-SCRIPTUM:
















sábado, 26 de abril de 2014

O JESUS JUDEU (1)



[Trecho extraído e editado do capítulo 6 ("O Jesus dos Evangelhos Sinópticos: curandeiro e mestre carismático e entusiasta escatológico") do livro AS VÁRIAS FACES DE JESUS de autoria de GEZA VERMES, publicado pela Editora RECORD]



A maioria dos títulos sob os quais Jesus foi abordado, especialmente "senhor", "profeta" e "Messias", implica uma função de professor, o que por sua vez suscita a questão da posição exata de Jesus em relação ao judaísmo tal como compreendido e praticado no seu tempo.

A tradição cristã nutrida por Paulo e João sempre afirmou que, como mensageiro de Deus, ele situava-se acima e considerava-se dissociado da degenerada religião judaica da Palestina do primeiro século, cujos representantes lhe deram, previsivelmente, uma recepção tão hostil. Assim, para justificar nossa posição básica, de que Jesus de Nazaré era inteiramente judeu em seus papéis de mestre, exorcista e pregador, profeta e filho de Deus, teremos de investigar os seus pronunciamentos sobre a Lei de Moisés, que está no coração da religião que ele ensinava e praticava.

Os evangelistas retratam Jesus implicitamente como um judeu profundamente ligado às leis e aos costumes de seu povo, e alguns dos seus ditos mais obviamente autênticos confirmam essa imagem. Os evangelhos atestam a sua presença nas sinagogas galiléias e no Templo de Jerusalém. Contam-nos que ele fez a refeição da Páscoa pouco antes de ser preso. Suas roupas eram como a dos fariseus (Mt 23:5), com as tradicionais franjas na orla da veste (Mt 9:20; Lc 8:44; Mc 6:56; Mt 14:36; Dt 22:12). O seu respeito pela legislação ritual é revelado na história do leproso já curado por ele, a quem ele ordenou submeter-se ao julgamento dos sacerdotes e oferecer o sacrifício prescrito no Templo (Mc 1:44; Mt 8:4; Lc 5:14).

Tal conduta está em perfeita harmonia com o ensinamento de Jesus sobre a validade permanente da Torá, que foi preservado em duas versões. A primeira está em Mateus: "Porque em verdade vos digo, até que passem o céu e a terra, não será omitido nenhum i, uma só vírgula da Lei" (Mt 5:18), e o segundo, quase idêntico, em Lucas: " É mais fácil passar o céu e a terra do que uma só vírgula cair da Lei" (Lc 16:17).

Mais uma vez, a melhor garantia da autenticidade dessa afirmação é a sua própria sobrevivência no Novo Testamento face ao profundo embaraço por ela causado na igreja antinomiana dos gentios, o que deu aos Evangelhos de Mateus e Lucas um lugar permanente.

Admitidamente, foram feitas tentativas, tanto na igreja primitiva, quanto no cristianismo posterior, de eviscerar a afirmação de Cristo da permanência da Torá, e de insinuar que a bifurcação dos caminhos entre o judaísmo centrado na Lei e a nova religião espiritual cristã teria sido iniciada pelo próprio Jesus.

Afirma-se que, para demonstrar a sua superioridade em relação à religião do Velho Testamento, ele desdenhou duas das obrigações mais fundamentais impostas pela Lei, a observância do Sabá e das regras dietéticas da Bíblia, e que se considerou maior do que Moisés, cujos preceitos sentiu-se livre para abolir e substituir. Nenhuma dessas acusações é capaz de resistir a um exame objetivo.

Em nossa discussão sobre Jesus como curandeiro e exorcista, já encontramos a crítica de que, ao curar os doentes no Sabá, Jesus quebrou a Lei. A questão de curar no dia de descanso é levantada explicitamente pelos próprios Evangelhos (Mc 3:4; Mt 12:10; Lc 6:9), bem como nos debates de rabinos fora do Novo Testamento. Os evangelistas fazem Jesus respondê-la afirmativamente através da sua ação, e isto está em conformidade com a opinião dos rabinos, para os quais salvar uma vida suplanta os preceitos do Sabá.

Em todo caso, a forma de curar através de palavras ditas ou pelo toque, que Jesus adotou, na verdade não contava como "trabalho" proibido no Sabá. Sabemos pelos evangelistas que a única questão que realmente preocupou as pessoas escrupulosas no seu ambiente galileu foi o grau de severidade de uma doença que pudesse justificar o "trabalho" terapêutico, por exemplo, de transportar e administrar remédios.

Mesmo a esse respeito, porém, o chefe de uma sinagoga citado por Lucas não pôs a culpa no curandeiro, mas naqueles que buscavam a cura no Sabá: "Há seis dias nos quais se deve trabalhar; portanto, vinde nesses dias para serdes curados, e não no Sabá!" (Lc 13:14).

Rabinos esclarecidos na Mixná defendem a leniência e defendem que se houvesse alguma dúvida sobre o caráter potencialmente letal de uma doença, já era o bastante para sobrepujar os preceitos do Sabá (mYomma 8:6). Na verdade, mesmo a afirmação aparentemente mais chocante de Jesus sobre o Sabá ser feito para o homem e não o homem para o Sabá (Mc 2:27) não excede a opinião expressa por um rabino do segundo século d.C.: "O Sabá vos foi entregue e não vós ao Sabá." (Mekihlta sobre Ex. 31:14).


POST-SCRIPTUM:







Continua... 




  

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O PAPA E O PECADO



["A CARNE NÃO É TERRITÓRIO DO PECADO" por JUAN ARIAS, correspondente do 'El País' no Brasil e autor de "Jesus, esse grande desconhecido", entre outros livros; publicado originalmente no caderno 'PROSA E VERSO' do Jornal O GLOBO em 27.07.2013] 


Nunca se disse tanto que o catolicismo, para se salvar da sangria que o assola, precisa voltar a suas raízes, a suas origens, que começam na Palestina com os ensinamentos do profeta judeu Jesus de Nazaré.







Com o Papa Francisco voltou-se a falar ainda mais sobre a urgente necessidade de a Igreja recuperar suas essências. Ela nasceu, na visão de Jesus, como uma abertura do judaísmo a outros grupos não judeus em nome de um Deus que era pai de toda a Humanidade.






Quando se diz que o cristianismo deve se desprender da influência que recebeu no século IV do Império Romano e da contaminação platônica da filosofia grega com Santo Agostinho, pouco se fala de um ponto fundamental: recuperar a teologia do corpo, a ideia de que, como sempre defendeu o judaísmo que influenciou as primeiras comunidades cristãs, não existe diferença entre corpo e alma.





Até Paulo de Tarso, a dignidade do corpo é inseparável da atribuída à alma ou ao espírito. Só com a influência helênica o cristianismo se contamina e começa a ver o corpo como a 'prisão' do espírito e, portanto, 'território do pecado', influenciando fortemente a ética sexual.




Para Santo Agostinho, já influenciado pela filosofia grega, o homem é "uma alma racional que tem um corpo mortal". O corpo passa a ser secundário e perigoso para a santidade.




Por sua vez, a cultura judaica, na qual bebeu o primeiro cristianismo, foi diametralmente oposta à da Igreja de hoje. No judaísmo não existe a vergonha pelo corpo e, em consequência, pela sexualidade. Para o judaísmo, o pecado original não é o sexo.





Esse divórcio entre corpo e alma contaminou todo o universo da sexualidade na Igreja e acabou caindo sobre a mulher, considerada objeto de tentação sexual e, por isso, afastada do sacerdócio que lhe havia sido inato nas primeiras comunidades cristãs, quando nem o corpo nem o sexo eram vistos como território do mal.





E assim a mulher continua sem poder ser dona de seu corpo, com todas as consequências que isso traz.





O dualismo entre corpo e alma, introduzido no cristianismo a partir do século II, quando se distancia de suas raízes judaicas, acabou condicionando toda a ética sexual da Igreja até hoje.





Só no Concílio Vaticano II defendeu-se, por exemplo, que a sexualidade, além de um instrumento de procriação, pode ser um novo modo de comunicação humana.





O Papa Inocêncio III chegou a sustentar que o Espírito Santo se ausentava do quarto quando um casal mantinha relações sexuais, já que, segundo ele, o ato sexual, ainda que lícito, "envergonha Deus".





Diz-se que Francisco é o Papa do 'do corpo', que não teme o contato físico. Em seus quatro meses de pontificado, beijou mais pessoas, crianças e adultos, do que outros Papas em toda sua vida. 





Talvez seja essa falta de medo do tato, da corporeidade, que faz Francisco ser amigo de muitos judeus, para os quais o corpo não é inimigo da alma, e sim o grande companheiro das relações verdadeiramente humanas e não só espirituais ou sublimadas.





Se analisarmos os sacramentos da Igreja, em sua origem, são todos sacramentos 'do corpo'. São realidades que se transmitem por meio do corpo, desde a eucaristia até o batismo ou a extrema-unção. A graça sempre atravessa o corpo, que é 'obra de Deus', e não 'instrumento do demônio', como defenderam tantos teólogos conservadores. Falando a uma devota que se gabava de dar sempre esmolas a um mendigo, Francisco perguntou: "Quando entrega a moeda ao irmão mendigo, você a joga ou a coloca nas mãos dele, tocando nelas?"                                   




O Papa que se despojou de todos os símbolos de poder de uma Igreja que se envergonha do corpo e coloca a virgindade acima do matrimônio busca o contato corporal com as pessoas. Ele pediu aos sacerdotes que tirem a poeira da antiga prática cristã de pousar as mãos sobre a cabeça dos fiéis para abençoá-los. Francisco entendeu que, para ter credibilidade e responder aos novos desafios apresentados pela ciência e a ética modernas, a Igreja não pode continuar a se refugiar no medo da corporeidade, nem continuar a defender que o corpo é a fonte do pecado. Ela deve abrir novos caminhos do que ele chama de 'teologia do encontro'.





Quando se refere ao ecumenismo, às diferenças que separam até os que se professam filhos de um mesmo Deus, Francisco dá o exemplo de que nas veias de crentes e não crentes "corre o mesmo sangue" e, por isso, devemos nos sentir parte de uma mesma 'família'. Todo o resto, para ele, é ideologia.





Sua fonte de inspiração, na verdade, é Jesus de Nazaré, que escandalizou os próprios apóstolos pelo pouco medo que tinha do tato, da corporalidade. Ele se deixava lavar os pés por uma prostituta e curava os doentes 'tocando-os' fisicamente. E até usava sua saliva para curar os cegos.




CLEMENTINA DE JESUS

O medo do corpo, da sexualidade, do abraço com o irmão, levou a Igreja a se converter em uma religião 'asséptica', com vocação mais para anjos do que para humanos? Pois bem, a essência do cristianismo não é a 'encarnação' e a 'ressurreição', esta última não só das almas mas também dos corpos? E os corpos estão atravessados pela sexualidade e pelo prazer do encontro. Juntos, corpo e alma se salvam ou se condenam.





CARLINHOS DE JESUS


POST-SCRIPTUM:



Concordo entusiasticamente com a opinião do jornalista e escritor Juan Arias em relação à necessidade urgente da Igreja católica acomodar-se aos tempos atuais e tornar-se mais 'humana' e menos 'celestial', bem como com sua simpatia e otimismo para com o Papa Francisco I. Infelizmente, todos nós sabemos que "uma andorinha só não faz verão". Existe no seio da Igreja uma forte resistência conservadora que dificilmente aceitará aquilo que eles consideram como 'modernismos sacrílegos'. Entretanto, a postura do novo Papa em relação aos gays e a todo tipo de intolerância, por exemplo, alimenta esperanças de uma possível abertura da Igreja para um cristianismo real e não apenas 'de fachada'. Sonhar não custa nada... 




segunda-feira, 4 de março de 2013

RELIGIÃO X CIÊNCIA: A "OUTRA LÓGICA"


                                                                                            "Noli foras ire, in interiore homine habitat veritas" 

         (adágio alquimista) 




Pois é, a visão estritamente científica (vide tópico anterior) dá a entender que não se deve misturar "alhos com bugalhos". Até aí nenhuma surpresa: é o que se deve esperar da ciência convencional. O que não quer dizer que esta seja a dona da verdade e que outras posições até mesmo opostas não devam ser consideradas.








Que fique bem claro e que não haja margem para mal-entendidos: no contexto geral eu concordo com  grande parte das declarações do professor (novamente, vide tópico anterior); evidentemente a pesquisa científica deve continuar. A descoberta do 'bóson de Higgs' é uma peça fundamental para o desenvolvimento da física na medida em que o próximo passo das pesquisas de alto nível envolverá muito provavelmente um maior empenho no sentido da tentativa de confirmação empírica da 'Teoria das Cordas', por exemplo (uma das consequências inevitáveis dos atuais experimentos).









Além do que, paralelamente traz um benefício extra e imprevisto (ainda que, sou forçado a admitir, este seja um insight pessoal): o de "abrir portas" inéditas à especulação filosófica. Talvez até no sentido de reabilitar e consolidar o estudo da metafísica em bases estritamente científicas, tanto na teoria (uma 'mitofísica') quanto, - quem sabe? -, na prática (hein!?!), mesmo admitindo-se as evidentes dificuldades inerentes ao manuseio de partículas tão elusivas (calma gente, humor e credibilidade não precisam necessariamente ser auto excludentes).








Mas isso ainda é assunto para ficção-científica, apesar de pertinente. A questão é outra: tem a ver com a guerra surda que a cultura oficial vem travando a séculos contra os poderes da imaginação e que pode levar, eventualmente, à falência do sistema educacional institucionalizado em nível global - alguns sintomas sociais e políticos ao redor do mundo já dão sinais disso - e consequentemente a uma 'desvalorização dos ativos', digamos assim, da assim-chamada Civilização Ocidental (com letras maiúsculas, por favor!). Num paralelo talvez não muito feliz, pode-se dizer que, na bolsa de valores cósmica, as ações do empreendimento CIVILIZATION INC. estão certamente em baixa...






Mas o que isso tem a ver com o título desta postagem? Nada? Talvez tudo. Ignoremos por um momento o 'nada' e concentremo-nos no 'tudo'. Para quem não percebeu ainda e indo além das consequências óbvias, completar o quadro de partículas do 'Modelo Padrão' também significa dar sentido, dar autenticidade, dar legitimidade, enfim, admitir sem dúvidas ou restrições a verdade incontestável desta 'jornada sagrada', a Ciência, que se representa com total isenção e consciência tranquila (alguém aí falou em bomba atômica?).








Em imperfeita sincronia temos a trama paralela e profana que é a vida política, social e econômica não-oficiais, este drama quase shakespeariano que experimentamos como a tão decantada - e decadente - vida cotidiana. 'Deus não joga dados'? Pode apostar que sim! 









Tudo parece muito confuso (e quem disser que não, é muito ingênuo ou está de má fé). Mas ao mesmo tempo é divertido e surpreendente. Quem pode negar a semelhança simbólica - dentro dos parâmetros de uma abordagem apoiada nas mais recentes descobertas de campo de diversas especialidades acadêmicas tão zelosamente cientes de seu positivismo e de sua razão "ciumenta e poderosa" (que Iavé não nos ouça!) - quem pode negar, repetimos, que essa pretensão cientificista a uma verdade única e soberana não tem conotações nítidas e nada sutis com um fenômeno de dimensões religiosas?









O que é a busca científica da tão propalada 'Teoria de Tudo' - que reconhecidamente resolveria problemas importantes como conciliar a teoria quântica com a relatividade geral - do que, também, a renovação do ciclo mítico do Santo Graal?  







"Lógica única?" - poderíamos perguntar a Aristóteles, usando a imaginação a fim de libertar o potencial criativo de uma "outra lógica". Essa mesma imaginação tantas vezes defenestrada, desqualificada e desmoralizada ao longo de uma história do pensamento que se acredita muito correta e, em decorrência, séria demais.








Tudo isso para finalmente dizer que, sim, é possível fazer ciência da religião, bem como ter um sentimento de religiosidade autêntica na nossa relação com a physis, incluindo "no pacote" o respeito ao meio-ambiente, a produção responsável de riquezas e bem-estar para usufruto mútuo de toda a humanidade, a prática de atividades intelectuais e/ou lúdicas (as artes, a matemática, o ócio irresponsável ou a mera diversão), bem como, e acima de tudo, o respeito pelos outros seres humanos, vivos ou mortos.









Neste devir que o dia-a-dia confirma como ciclos dentro de ciclos há que se dar um crédito quase arquetípico à matemática de Cantor e à sua Teoria dos Conjuntos, com seus infinitos dentro de infinitos ainda maiores, ou ao Teorema da Incompletude de Godel, por exemplo, bem como às intuições geniais de homens como Heráclito, Sócrates, Platão, Aristóteles, DaVinci, Giordano Bruno, Galileu, Newton, Freud, Jung, Hegel, Marx, Durkheim, Weber, Nietzsche, Darwin, Plank, Einstein, Bohr e Teilhard de Chardin (entre tantos outros) para citar apenas alguns gigantes aparentemente tão díspares entre si. 







"Samba do crioulo doido?" A Escola de Samba Unidos do Paradoxo apresenta seu enredo para este ano...









Religião? Ciência? Arte? Política? Tais conceitos, assim como os de lógica, racionalidade, evolução, acaso, complexidade, caos, estrutura, ser, vida, morte e Deus, por exemplo, entre tantos outros, já estão há algum tempo passando por revisões inevitavelmente necessárias, desde que as sementes de tal iniciativa foram plantadas nos dois últimos séculos (XIX e XX) por artistas, acadêmicos, filósofos, escritores e até mesmo cientistas que, cada um a seu modo, nos dias de hoje, podemos considerar legítimos herdeiros culturais de movimentos como o Romantismo, o Simbolismo e o Surrealismo, por exemplo, ainda que necessariamente num contexto de pós-modernidade "barroca".








Mas o que é isso que me dizem? O pós-modernismo é uma moda ultrapassada que não chegou realmente a lugar nenhum? O desconstrutivismo é um beco sem saída dentro de um labirinto onde o Minotauro joga cartas com Sísifo? Não importa: como se dizia no século passado, "a luta continua". O problema é a dificuldade cada vez maior em identificar contra quem e o que lutar...






Tá feia a coisa? Tá. Só que não adianta ficar se lamentando ou pondo a culpa nos outros; todos somos responsáveis, em maior ou menor grau, por este vazio inconveniente (digamos assim, para não sermos acusados de exagerados) que já se instalou há um bom tempo nos corações e mentes dos homens e mulheres de nosso tempo. 







Inconveniente este que só se agrava na medida em que o liberalismo triunfante e sem adversários enreda a tudo e a todos, inclusive a si mesmo, nas armadilhas da lógica de mercado, e que não tem pudores ou preconceitos contra a ciência ou a religião.








Que o digam Bill Gates ou o 'bispo' Macedo, para citar dois exemplos bem afastados tanto em termos geográficos quanto em relação às atividades em questão, numa comparação aparentemente estapafúrdia mas ainda assim que remete ao mesmo raciocínio financeiro-especulativo. Vai dizer que não?








Não nos deixemos iludir por nossa própria miopia intelectual: qualquer coisa que poderia ser designada como "espírito" (seja no sentido filosófico quanto religioso), há muito se retirou da nossa realidade mundana e diuturna, ou daquilo a que ainda poderíamos nos referir como "alma do mundo". O dinheiro é o único Deus que é levado a sério: temos que admitir isso se não quisermos passar por hipócritas.








Tal desencantamento funesto, seja em que sentido se prefira acolher, vai continuar nos levando à falência civilizatória e não há argumentos que possam negá-lo. A esperança, de uma forma geral, está em vias de se tornar moribunda, já que o futuro só é considerado no curto prazo dos investimentos monetários, enquanto que a preocupação com as gerações vindouras insensivelmente se dilui num 'projeto às avessas', embasado numa ilusão consumista imediata e idiota.







O fato é que a Modernidade não cumpriu as promessas do Iluminismo e cabe a todos nós darmos uma parada estratégica e analisarmos em profundidade e com consciência crítica (a mais radical possível) os eventuais desvios e as possíveis correções de rumo. 






Aprender com o erro e não ter vergonha de tentar de novo! Pois não podemos continuar nos enganando: vivemos uma intensa crise civilizatória que exige, antes de mais nada e acima de tudo, uma refundação de nossas raízes judaico-cristãs, helenísticas e romanas, conforme sugere Jean-Claude Guillebaud em seu livro "A REINVENÇÃO DO MUNDO", não sem levar em conta toda a autocrítica que se processou no século XX e que precisa continuar, num processo que não pode prescindir das contribuições do Islã, das culturas orientais, da África negra e dos povos indígenas que sobrevivem a duras penas.







Uma refundação de princípios, mas não por um viés nostálgico, ou na aposta sempre provada como ineficaz pela História numa 'terceira via' apaziguante e condescendente, ou muito menos numa derrelição total que conduziria invariavelmente (como já está fazendo lentamente, mas em aceleração constante) a um 'vale-tudo' estúpido que é, em última instância, genocida e suicida. Alguém se habilita a discordar?   







Refundação, sim, pois como diria Nietzsche, "como pudemos nós esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte?". Ou de forma menos poética Pierre Legendre: "A humanidade está sendo acossada pela necessidade de se alicerçar para poder viver".  









Imbuídos de uma compreensão sagaz ou de uma intuição inconsciente, sabemos que a informação sofre necessariamente um processo comprovado e contínuo de disseminação que não pode ser detido, e cuja flecha do tempo corre oposta àquela que orienta a inevitável decadência decorrente da entropia; assim sendo, temos que manter acesa a chama da Imaginação, acima de toda controvérsia ilusória entre Ciência e Religião, propondo e apresentando um diálogo fecundo entre idéias, algumas geniais, outras "mucho locas", mas acima de tudo visando um maior e melhor entendimento do homem e do mundo.







Mais sobre o assunto futuramente, quando pretendo discutir as idéias do físico indiano Amit Goswami em seu livro "O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE". Paz à todos!







POST-SCRIPTUM:




"O que está embaixo é igual ao que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar o milagre de uma só coisa." (A Tábua de Esmeralda)