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quarta-feira, 15 de abril de 2015

O SER E O EVENTO (1)





[Parte 1 da Introdução do livro "O SER E O EVENTO" de autoria de ALAIN BADIOU]


Admitamos que hoje, na escala mundial, seja possível começar a análise do estado da filosofia pela suposição dos três enunciados que se seguem:

1. Heidegger é o último filósofo universalmente reconhecível.

2. A figura da racionalidade científica é conservada como paradigma, de maneira dominante, pelos dispositivos de pensamento, sobretudo norte-americanos, que se seguiram às mutações matemáticas, às da lógica e aos trabalhos do círculo de Viena.

3. Está em desenvolvimento uma doutrina pós-cartesiana do sujeito, cuja origem pode ser atribuída a práticas não filosóficas (a política, ou a relação instituída com as "doenças mentais"), e cujo regime de interpretação, marcado pelos nomes de Marx (e Lenin), de Freud (e Lacan), está enredado em operações, clínicas ou militantes, que excedem o discurso transmissível.

Que há de comum nestes três enunciados? Não há dúvida de que designam, cada um a sua maneira, o fecho de uma época inteira do pensamento e de seus desafios. Heidegger, no elemento da desconstrução da metafísica, pensa a época como regida por um esquecimento inaugural, e propõe um retorno grego. A corrente "analítica" anglo-saxã desqualifica a maior parte das frases da filosofia clássica como desprovidas de sentido, ou limitadas ao exercício livre de um jogo de linguagem. Marx anunciava o fim da filosofia, e sua realização prática. Lacan fala de "antifilosofia", e prescreve ao imaginário a totalização especulativa.

Por outro lado, o que há de incongruente nestes enunciados salta aos olhos. A posição paradigmática da ciência, tal como, até em sua negação anarquizante, ela organiza o pensamento anglo-saxão, é assinalada por Heidegger como um efeito último, e niilista, da disposição metafísica, ao passo que Freud e Marx conservam seus ideais, e que o próprio Lacan reconstituía nela, pela lógica e a topologia, os esteios de eventuais matemas. A ideia de uma emancipação, ou de uma salvação, é proposta por Marx ou Lenin no modo de uma revolução social, mas é considerada por Freud ou Lacan com um pessimismo cético, considerada por Heidegger na antecipação retroativa do "retorno dos deuses", enquanto, grosso modo, os americanos se contentam com o consenso em torno dos procedimentos da democracia representativa.

Há, portanto, acordo geral quanto a convicção de que nenhuma sistemática especulativa é concebível, e de que está encerrada a época em que a proposição de uma doutrina do nó ser/não-ser/pensamento (se admitirmos que é desse nó que, desde Parmênides, se origina o que chamamos "filosofia") podia ser feita na forma de um discurso acabado. O tempo do pensamento está aberto para um regime de apreensão diferente.

Há desacordo quanto à questão de saber se essa abertura, cuja essência é encerrar a idade metafísica, se indica como revolução, como retorno, ou como crítica.

Minha própria intervenção nessa conjuntura consiste em traçar nela uma diagonal, pois o trajeto de pensamento que tento passa por três pontos suturados, cada um, num dos três lugares que os enunciados acima designam. 

- Com Hidegger, vamos sustentar que é do ângulo da questão ontológica que se sustenta a re-qualificação da filosofia como tal.

- Com a filosofia analítica, afirmaremos que a revolução matemático-lógica de Frege-Cantor fixa orientações novas para o pensamento.

- Admitiremos, por fim, que nenhum aparato conceitual é pertinente se ele não for homogêneo às orientações teórico-práticas da doutrina moderna do sujeito, ela própria interior a processos práticos (clínicos ou políticos).

Esse trajeto remete a periodizações imbricadas,
cuja unificação, a meu ver arbitrária, conduziria à escolha unilateral de uma das três orientações contra as demais. Vivemos uma época complexa, se não confusa, visto que as rupturas e as continuidades de que ela se entretece não se deixam subsumir sob um vocabulário único. Não há hoje "uma" revolução (ou "um" retorno, ou "uma" crítica). Eu tenderia a resumir assim o múltiplo temporal descompassado que organiza nossa situação:

1. Somos contemporâneos de uma terceira época da ciência, após a grega e a galileana. A cesura nomeável que abre esta terceira época não é (como no caso da grega) uma invenção - a das matemáticas demonstrativas -, nem (como a galileana) um corte - aquele que matematiza o discurso físico. É uma reorganização, a partir da qual se revelam a natureza da base matemática da racionalidade e o caráter da decisão de pensamento que a estabelece.

2. Somos igualmente contemporâneos de uma segunda época da doutrina do Sujeito, que não é mais o sujeito fundador, centrado e reflexivo, cujo tema se estende de Descartes a Hegel, e ainda permanece legível até Marx e Freud (e até Husserl e Sartre). O sujeito contemporâneo é vazio, clivado, a-substancial, irreflexivo. Aliás, ele pode apenas ser suposto no tocante a processos particulares cujas condições são rigorosas.

3. Somos, por fim, contemporâneos de um começo no que diz respeito à doutrina da verdade, depois que sua relação de consecutividade orgânica com o saber se desfez. Percebemos retroativamente que, até agora, reinou absoluta o que chamarei aqui a veridicidade; e, por estranho que isso possa parecer, convém dizer que a verdade é uma palavra nova na Europa (e alhures). De resto, esse tema da verdade atravessa Heidegger (que é o primeiro a subtraí-lo ao saber), os matemáticos (que no fim do século XIX romperam tanto com o objeto quanto com a adequação) e as teorias modernas do sujeito (que excentram a verdade de sua pronunciação subjetiva).

A tese inicial de minha empreitada, aquela a partir da qual dispomos o imbricamento das periodizações, extraindo o sentido de cada uma, é a seguinte: a ciência do ser-enquanto-ser existe desde os gregos, pois esse é o estatuto e o sentido das matemáticas. Somente hoje, porém, temos os meios de saber tal coisa. Dessa tese decorre que a filosofia não tem por centro a ontologia - a qual existe como disciplina exata e separada -, mas circula entre essa ontologia, as teorias modernas do sujeito e sua própria história. O complexo contemporâneo das condições da filosofia abarca, por certo, tudo a que se referem meus três enunciados primeiros: a história do pensamento "ocidental", as matemáticas pós-cantorianas, a psicanálise, a arte contemporânea e a política. A filosofia nem coincide com nenhuma dessas condições, nem elabora sua totalidade. Ela deve apenas propor um quadro conceitual onde possa se refletir a compossibilidade contemporânea desses elementos. Só o pode fazer - pois é isso que a despoja de toda ambição fundadora, em que se perderia - designando entre suas próprias condições, e como situação discursiva singular, a própria ontologia, sob a forma das matemáticas puras. É isso, propriamente, o que a liberta, e a consagra finalmente ao zelo das verdades.

     

sexta-feira, 20 de março de 2015

SOMOS VIÁVEIS? (1)

    




  [ARNALDO BLOCH; O GLOBO - SEGUNDO CADERNO; 07.03.2015]

Um dos traços característicos da espécie humana é a crença de que, entre os demais seres vivos conhecidos, estamos no topo da evolução. Nossas capacidades de refletir sobre nós mesmos, formular hipóteses, destrinchar as causas naturais para os fenômenos e nossa consciência, que permite transcender o simples viver, são consideradas valiosas. Mas nunca perguntamos: valiosas para quem e para quê?
O planeta se lixa para nós. O Cosmo não está nem aí. Os animais são esculachados. As florestas, montanhas, geleiras; os mares, os rios - estão indo para o brejo. Resta, então, a hipótese de que somos valiosos para nós mesmos. De que nossa busca é o estágio em que o Universo toma consciência de si, num processo que ainda está na infância, mas resultará, um dia, em algo grande para nós e para o todo.


Mas, se olharmos com cuidado, a julgar pelo ponto a que chegamos, nem essa hipótese (sermos valiosos para nós) se sustenta. No máximo, pode-se considerar que um indivíduo pode ser feliz por um tempo determinado, mas nem isso é uma obra que a espécie realizou: é um benefício que a vida, a natureza, conferem a um ser, e pelo qual deveríamos agradecer humildemente.

De resto, que evolução é esta que o humano alcançou? Mesmo dentro de nossas conceituações do que seja bom ou mal para a Humanidade, qualquer progresso que se verifique está, sempre, sub judice. A própria ideia de progresso vive em xeque: o crescimento irrefreado, que é o ideal de qualquer pensamento econômico aceito, é obviamente destinado ao desastre. Mesmo se deixarmos de lado os sinais claros de que esse paradigma está destruindo a vida em sociedade, é uma questão de matemática rudimentar: a Terra tem uma determinada extensão. Logo, a multiplicação de objetos, edificações, veículos, propriedades, e da população, tem um limite. De espaço, de recursos, de energia, de meios, de motivação.

Mesmo assim, o crescimento, puro e simples, infinito, é o único que vale para qualquer índice que calcule a prosperidade de uma nação, como se não houvesse um horizonte final (em outras palavras, danem-se as próximas gerações, o que importa é o mundo agora). Se há um discurso e um movimento planetários em prol da preservação ou até conceitos malucos como o do descrecimento, a comunidade das nações não dá qualquer sinal de que possa haver uma concórdia sobre as providências no sentido de uma decisiva mudança de postura global.

Falam mais alto as paixões, a sede de potência e de acúmulo, guiados pela certeza da morte, e a compulsão pela otimização do gozo numa corrida contra o relógio que leva a tumba.

POST-SCRIPTUM:


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domingo, 13 de abril de 2014

O LIVRO NEGRO DO CAPITALISMO




[Editado a partir de um texto da autoria de EMIR SADER]



Em tempos de regressão conservadora como os atuais, a "baderna" voltou ao vocabulário cotidiano, não pela voz dos militares - que, depois de cumprir seu papel de "restabelecimento da ordem e da disciplina", deixaram a função na mão de civis - mas de órgãos da grande imprensa e de ex-comunistas, em guerra contra os pobres.

Bradar pela ordem é um dos mecanismos básicos da direita - aquela que privilegia a ordem em detrimento da justiça, segundo Norberto Bobbio - e portanto a "baderna" é parte integrante do vocabulário da direita. Faz parte do mecanismo de buscar bodes expiatórios para o fracasso de sua civilização, vitoriosa na virada do século.

Se a esquerda assume o que foi a URSS como proposta fracassada de sociedade socialista, assume e tira consequências, a direita se esquiva dos monstros que criou.


Afinal de contas, as duas guerras mundiais foram guerras interimperialistas e, portanto, seus milhões de mortos, pertencem, com justiça, ao Livro Negro do Capitalismo, porque foram uma expressão da feroz disputa de mercados entre as potências capitalistas. Assim como o nazismo, o fascismo, o franquismo, o salazarismo foram expressões exacerbadas de sociedades capitalistas.

Ou foram o que?


POST-SCRIPTUM:

Esta postagem é em "homenagem" ao ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que renunciou ao cargo e que já vai tarde.

E que não volte tão cedo!






quarta-feira, 19 de março de 2014

MICHEL FOUCAULT



[Adaptado de uma reportagem publicada no caderno 'Prosa & Verso' do jornal O GLOBO, em 11.01.2014]


No ano em que se completam três décadas da morte do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) presto aqui minha homenagem aquele que foi o pensador libertário das marginalidades sociais e das minorias culturais, raciais e sexuais.

Foucault expunha uma visão da cultura e da História que não pretendia explicar o presente pelo passado. Preferia investigar os discursos que condicionam as formas de ver e julgar, e analisar a maneira pela qual a cultura contemporânea determina as condições de possibilidade do novo. Construiu assim sua arqueologia da cultura ocidental.


POST-SCRIPTUM:


A seguir um trecho de declarações feitas pelo filósofo, em entrevista concedida ao "Jornal da Tarde", numa visita ao Brasil poucos dias depois do assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes da ditadura militar em 1975:

"A dialética mestre-escravo, segundo Hegel, é o mecanismo pelo qual o poder do mestre se esvazia pelo fato mesmo de seu exercício. A certa altura ele se encontra na dependência do escravo, não tendo mais poder porque cessou de exercê-lo. 

Quero mostrar o oposto: que o poder se reforça pelo seu próprio exercício - não passa sub-repticiamente para o outro lado. Desde 1831, a Europa não parou de pensar que a derrubada do capitalismo era iminente. Isso muito antes de Marx. E ele está aí. Não digo que ele nunca será desenraizado. Mas que o custo de sua derrubada não é o que imaginamos.

Se essas lutas são feitas em nome de alguma essência do homem, tal como ela foi construída no pensamento do século XVIII, eu diria que essas lutas estão perdidas. Porque elas serão conduzidas em nome do homem abstrato, do homem 'normal', do homem 'de boa saúde', que é o precipitado de uma série de poderes.

Agora, se quisermos fazer a crítica desses poderes, não se deve efetuá-la em nome de uma ideia do homem construída a partir desses poderes. Quando o marxismo vulgar fala do homem completo, do homem reconciliado com ele mesmo, de que se trata? Do homem 'normal', do homem 'equilibrado'. Quando se formou a imagem desse homem? A partir de um saber e de um poder psiquiátrico, médico, um poder 'normalizador'. 

Fazer crítica política em nome desse humanismo significa reintroduzir na arma do combate aquilo contra o qual combatemos."



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MANIFESTAÇÃO POPULAR OU GUERRA CIVIL?



Antes de tudo quero esclarecer que não apoio a velha tradição do "olho por olho, dente por dente". 

A morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes, Santiago Andrade, foi um acontecimento lamentável que poderia ter sido evitado.



A "autoridade" pública provocou, em certa medida, novas manifestações de protesto ao aumentar o preço das passagens de ônibus municipais para R$ 3,00, mesmo sabendo que existem estudos que comprovam que o valor de R$ 2,50 já seria suficiente para cobrir as despesas das empresas. Ou seja, deveria, isto sim, BAIXAR o preço anterior de R$ 2,75 para R$2,50 e não AUMENTAR para R$ 3,00!!!

Quer dizer que foi uma provocação? Claro! E não esperava-se consequências? É óbvio que sim, até mesmo contava-se com elas.


 


O que os governos municipal e estadual do Rio de Janeiro queriam era só uma desculpa para endurecer contra os manifestantes, "descer o cacete", lançar bombas de gás e dar tiros com balas de borracha (que podem aleijar e até mesmo matar, sabiam?).

Só que eles não sonhavam que seus desejos seriam atendidos com tanta precisão. Os dois idiotas que participaram do atentado com o tal "rojão" que matou o jornalista "entregaram de bandeja" tudo que as "autoridades" queriam e muito mais.



O resultado é um inocente morto, os dois patetas na cadeia por uma boa temporada e o governo tirando uma de "bom moço", levando sua pseudojustiça "até as últimas consequências".

E A PASSAGEM CONTINUA A TRÊS REAIS!!! Maravilha, né? Fala sério...

 

Quando de minha postagem sobre o livro "Groucho-Marxismo", de Bob Black, ao conclamar os anarquistas a se unirem, estava naturalmente sendo irônico (pra quem não entendeu), até mesmo porque o anarquismo não possui uma única vertente, uma "doutrina codificada" (axé, Bakunin!) que una todos os que pensam diferente da mesmice entranhada nos corações e mentes das massas.

É, na verdade, um paradoxo, conclamar os anarquistas a se unirem, a não ser por breves momentos e por causas específicas. E é claro que eu sei disso.



  


Que ninguém se iluda: o sistema não vai cair se você jogar uma bomba nele. Ele simplesmente te joga 10, 100, 1.000 bombas e ainda conta com o apoio natural da mídia e da população, chocadas com a morte de alguém cujo único interesse era registrar fatos, informar no interesse até mesmo e principalmente dos manifestantes nos casos de violência policial.

Estes rapazes que agora serão tratados como criminosos comuns não passam de "bucha de canhão" numa estratégia imbecil e equivocada, incentivada sabe-se lá por quais interesses escusos.




Quanto pior, melhor? É, o PT já pensou assim também e olha aonde ele chegou. Bem alto, né? Só que, quanto maior a altura, maior a queda...

Resumindo, tudo tem sua hora e seu lugar. O movimento de rebelião tem sangue nas mãos e deu vários passos atrás com todo esse quadro lamentável.

O sistema ainda vai cair. Mas será de podre, sob seu próprio peso, e não sob pauladas e pedradas ou mesmo em consequência de "coquetéis moltov" ou fogos de artifício.

Li, não me lembro onde, que dar a outra face não é sinal de fraqueza, mas de protesto; pode bater o quanto quiser: daqui não saio, daqui ninguém me tira!

Que o exemplo de Gandhi e de Nelson Mandela nos inspirem no futuro e não o de uma dupla de garotos irresponsáveis e mal orientados.


POST-SCRIPTUM:

A luta continua. Mas é uma luta de consciências e não uma guerra civil. Infelizmente, parece que tem gente interessada na segunda opção...

E, com certeza, não é com isso que o povo brasileiro sonha.  



sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ESQUERDA, DIREITA: BABACAS, MARCHEM!

Groucho-Marxismo


[EDITADO E ADAPTADO A PARTIR DO ARTIGO "RITOS DE ESQUERDA" PUBLICADO NO LIVRO "GROUCHO-MARXISMO" DA AUTORIA DE BOB BLACK E PUBLICADO PELA ED. CONRAD]



Na astronomia, "revolução" se refere a uma volta ao mesmo lugar. Para a esquerda, parece significar mais ou menos a mesma coisa. O esquerdismo é literalmente reacionário. Assim como os generais estão sempre uma guerra atrasados, os esquerdistas estão sempre em busca de uma revolução.



Eles a vêem como bem-vinda porque sabem que já nasceu fracassada. São vanguardistas porque estão sempre atrás de seu tempo. Como todos os líderes, os esquerdistas são menos intragáveis quando seguem seus seguidores, mas, em certas crises, eles tomam a frente para fazer o sistema funcionar.

Se a metáfora esquerda/direita tem algum significado, ele só pode ser que a esquerda fica à esquerda da mesma coisa da qual a direita fica à direita. Mas e se "revolução" significar sair da linha?



Se não houvesse direita, a esquerda teria que inventá-la - e ela muitas vezes o fez (exemplos: a histeria calculada com os nazistas e a KKK, que concede a esses covardes retardados a notoriedade de que precisam). A direita, da mesma forma, precisa da esquerda: sua definição operacional é sempre "anticomunismo" ou seus vários sinônimos baratos. Assim, a esquerda e a direita pressupõem e recriam uma à outra.



Um efeito negativo dos tempos difíceis é que eles tornam a oposição fácil demais, como (por exemplo) a atual crise econômica, que é encaixada em categorias marxistas arcaicas, populistas ou sindicalistas. A esquerda, portanto, se posiciona para cumprir seu papel histórico de reformista desses males incidentais (embora agonizantes), os quais, devidamente abordados, escondem as injustiças essenciais do sistema: a hierarquia, o moralismo, a burocracia, a mão-de-obra assalariada, a monogamia, o governo, o dinheiro (o marxismo poderá ser um dia algo mais do que a maneira mais sofisticada de o capital pensar sobre si mesmo?).


O desemprego é ruim. Mas a isto não se segue, fora do dogma direito-esquerdista, que o emprego seja bom. Não é. O "direito ao trabalho", talvez um slogan adequado em 1848, está obsoleto. As pessoas não precisam de trabalho. Nós precisamos é da satisfação das necessidades de subsistência, por um lado, e, por outro, de oportunidades de atividade criativa, de convivência, educativa, diversificada e apaixonante.



A mais de cinquenta anos atrás, estimou-se que 5% do trabalho existente na época atenderia às necessidades mínimas de sobrevivência, um índice que deve ser mais baixo hoje; obviamente, ramos inteiros de atividade não servem para nada mais do que atender às finalidades predatórias do comércio e da coerção. 



Essa é uma infra-estrutura ampla a ser modificada para criar um mundo de liberdade, comunidade e prazer no qual a "produção" de usos-valores seja o "consumo" de atividades gratificantes livres. Transformar o trabalho em brincadeira é um projeto para um proletariado que rejeita essa condição, não para esquerdistas que não têm mais o que conduzir.


O pragmatismo, como um rápido olhar no seu funcionamento torna óbvio, é uma armadilha ilusória. A utopia não passa de senso-comum. A escolha entre o "pleno emprego" e o desemprego  - escolha à qual a esquerda e a direita colaboram entre si para nos confinar - é a escolha entre o Gulag e a sarjeta. Não admira que, depois desses anos todos, uma população sufocada e sofredora esteja cansada da mentira democrática. Há cada vez menos pessoas que querem trabalhar  - até entre aquelas que têm motivos para temer o desemprego - e cada vez mais pessoas que querem fazer maravilhas.



Por favor, vamos fazer barulho para obter concessões, redução de impostos, amostras grátis, pão e circo - por que não morder a mão que nos alimenta, se seu sabor é excelente? -mas sem ilusões.

A pérola (sur)racional da verdade dentro da mística ostra marxista é esta: a "classe trabalhadora" é o lendário "agente revolucionário", mas somente se, parando de trabalhar, abolir as classes. "Ativismo" é idiotice quando enriquece nossos inimigos e lhes dá poder.



O esquerdismo, esse parasita de símbolos doloridos, teme a deflagração do incêndio que vai consumir seus partidos e sindicatos junto com as corporações, exércitos e igrejas atualmente controlados por seu ostensivo oponente.

Hoje em dia, você precisa ser estranho para ser efetivo. O esquerdismo cinzento, com suas listas de antagonismos obrigatórios (contra issismos, aquilismos e aquiloutrismos) não tem nenhum humor, nenhuma imaginação; portanto, não pode preparar revoluções, só golpes, que mudam as mentiras, mas não a vida.



Mas o ímpeto de criar é também um ímpeto destrutivo. Mais um esforço, esquerdistas, se quiserem ser revolucionários! Se vocês não se revoltarem contra o trabalho, estarão trabalhando contra a revolta.


POST-SCRIPTUM:






ANARQUISTAS DO MUNDO, UNÍ-VOS! (Mas sem sindicatos ou partidos, ok?)



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

P.U.T.A. (PARTIDO UNIFICADO DOS TRABALHADORES ASSALARIADOS)




..."Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam"...


(Steve Jobs)



















POST-SCRIPTUM:



Apenas algumas informações que penso serem pertinentes a uma reflexão mais aprofundada neste momento em que se aproximam as próximas eleições em nosso país...


Quanto à suposta (ostensiva?) propaganda político-partidária, convenhamos: antes PUTA que PT, sem dúvida alguma!


[Quem quiser saber mais sobre o PARTIDO UNIFICADO DOS TRABALHADORES ASSALARIADOS é só visitar a página do P.U.T.A. no FACEBOOK, ok?]



segunda-feira, 24 de junho de 2013

E FEZ-SE A LUZ...




Ao que tudo indica o povo brasileiro finalmente acordou de seu sono letárgico de tantos séculos (!!!). Tal expressão já está até virando lugar-comum, mas é a manifestação da mais pura verdade: é só ter olhos para ver e ouvidos para ouvir as reivindicações mais do que justas das ruas.




Apesar de algumas declarações infelizes e por que não dizer imbecis de algumas figuras públicas, a verdade está aí, na cara de todos, e não adianta tentar "tapar o sol com a peneira". Chupa, cambada de proxenetas exploradora do suor alheio! A hora do acerto de contas tarda mas chega...






A seguir uma lista de reivindicações bem práticas e objetivas numa resposta óbvia e fácil àqueles que 'acusam' este movimento espontâneo de indignação do povo brasileiro de não ter direção ou pautas concretas. Que fique claro que são apenas sugestões, mas acredito que qualquer pessoa sensata e bem intencionada há de concordar pelo menos com a maioria delas:







1) Transporte público subsidiado, com reduções gradativas no preço das passagens de ônibus, metrô e trem até o patamar de R$ 1,50, no máximo. Tal redução poderia ir-se processando ao longo de um período determinado razoável, digamos aproximadamente uns cinco anos, acompanhada de um projeto emergencial tipo 'economia de guerra' planificada (como feito, por exemplo, na Alemanha pós-guerras mundiais ou na antiga União Soviética), objetivando a substituição, também gradativa, dos veículos de transporte coletivo movidos a combustíveis fósseis por outros, mais modernos e não poluentes, movidos por energia elétrica (tipo trens suspensos em tubos ou monotrilho); ampliação e modernização das linhas de metrô já existentes nas metrópoles de todo o país e criação de novas; implantação imediata dos ônibus elétricos articulados, com mais conforto e segurança; organização mais inteligente do trânsito de carros particulares através da determinação de escalas, com dias determinados para finais de placas pré-selecionadas, além da criação e ampliação de (muito) mais ciclovias;










2) Intensificação dos investimentos públicos na educação formal com a construção de mais escolas e a contratação de mais professores, como também incentivo maciço à criação de escolas especiais voltadas à criação e desenvolvimento de novas tecnologias, mais baratas e mais eficientes, que visem prioritariamente o bem-estar da população trabalhadora em geral. Idem no que se refere à saúde pública, com a construção de mais hospitais federais, estaduais e municipais com atendimento digno e de 'padrão FIFA', além da contratação de mais médicos e de outros profissionais da saúde;








3) Aumento gradativo porém substancial no salário dos professores de todos os níveis, mas com prioridade aos do ensino fundamental e médio, bem como dos outros servidores públicos ligados à educação;







4) Extinção gradativa porém IRREVOGÁVEL da Polícia Militar, uma instituição arcaica e dispensável, na medida em que já existe uma Polícia Civil;








5) Redução imediata dos impostos em todos os níveis, acompanhada da extinção gradativa daqueles considerados abusivos;








6) Criação de uma comissão apartidária, composta por representantes notáveis e eminentes da sociedade civil, convidados a participar por seu saber notório e moral comprovadamente ilibada, bem como por representantes eleitos diretamente nas comunidades e bairros das maiores cidades do país e membros indicados do Ministério Público, visando a cobrança e a fiscalização de toda e qualquer medida que afete direta ou indiretamente a população em geral (como transporte público, saúde e educação, por exemplo);








7) Demissão imediata do presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) e o fim da notória e constrangedora, além de claramente inconstitucional, "cura gay";







8) Prisão imediata dos condenados no "Mensalão" e em outras falcatruas com o dinheiro público, bem como, e em caráter emergencial, a convocação de julgamento sumário pelo STF por crimes contra o povo de notórios salafrários como os senhores Paulo Maluf, José Sarney, Fernando Collor de Mello e Lula, entre outros;





  

9) Rejeição imediata da PEC-37, que viria a cercear o poder de investigação do Ministério Público e legitimar a roubalheira institucional;







10) Convocação de plebiscitos regulares (de preferência mensais ou, pelo menos, semestrais), visando a revogação e/ou a criação de leis que afetem a vida da população brasileira.




Aí estão dez reivindicações que, em minha opinião, impõem-se como mais urgentes e consequentes para o apaziguamento da justa ira de um povo que já não aguenta mais ser explorado e enganado por uma elite econômica e política sem o mínimo de consciência social e ética.






(E se der pra incluir no "pacote" a legalização da cannabis sativa, vulgo maconha, melhor ainda...)







Quanto ao 'vandalismo', não passa de um sintoma temporário, inevitável e periférico, resultado de uma situação patológica que a maioria dos governantes deste país ignorou por mais de 500 anos e que os poderosos querem usar como justificativa para esvaziar e combater um movimento autêntico, justo e espontâneo, calando a voz indignada do povo.








Solicitando humildemente uma 'licença poética' para responder a todo este estado de coisas deixo aqui e agora as palavras imortais de Chico Buarque: "Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...". Ou de uma forma menos educada e mais contundente, como diria o 'rapper' Emicida: "Fodam-se vocês!". Com todo o respeito...








POST-SCRIPTUM:


E você? Vai ficar aí parado? 






VAI PRÁ RUA!!!