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quarta-feira, 30 de abril de 2014

SAUDADES DO FUTURO (2)




[Editado de um texto de Arnaldo Jabor publicado no Segundo Caderno do jornal O GLOBO]


A cultura patriarcal/estatal desde a colônia nos garantiu durante o populismo janguista até 64, que o Estado faria uma revolução tropical e transcendental (vide os delírios de Darcy Ribeiro, por exemplo), de modo a tirar o país da "alienação" e salvar, pela arte, os oprimidos. A cultura era uma política. O golpe de 64 foi uma porrada na utopia. Mas houve uma vantagem: a derrota nos "ajudou" a ver o atraso de nossas certezas. A ditadura e a depressão dos derrotados nos mostraram que o buraco era mais embaixo e que as forças da História eram mais labirínticas. A esquerda começou a se autocriticar (nem toda, claro - vide os soviéticos que ainda vicejam por aí).

Nos anos 1970, a contracultura ampliou repertórios e códigos artísticos, pela loucura do "desbunde" e da subcultura hippie. Houve uma virada mais antropológica que ideológica.



De cabeça para baixo, vimos mais. Valíamos pelo que "não" tínhamos e, se antes éramos vítimas imaginárias do capitalismo, agora éramos vítimas reais da ditadura e passamos a ter uma nova meta: a liberdade.

Surgiu um novo ente: o mercado. Se Lênin disse que nada existe fora do poder, o capital respondia que nada existia fora do mercado. Para onde ir? O trauma da globalização foi mais profundo que a derrota de 64; ficamos mais informados politicamente, mais cultos, embora, para os mais burros, tenha renascido um neonacionalismo rancoroso e feroz, a ideologia cultural do "bode-preto" reforçando conceitos superados: um "mix" de farrapos de esquerda, azedume "punk", pálida tristeza e anseios regressistas.

De repente, outra porrada no voluntarismo de intelectuais e artistas: não há mais futuro. Subitamente o presente nos atacou com uma enxurrada de vida liberada pela era digital na internet.

Sempre falávamos na democratização da cultura, das artes... Pois ela está aí... e não foi o Estado nem o ministério, nem anseios neorromânticos. 

Ela está aí... Bill Gates, Jobs, as redes, os microchips mudaram o mundo... Quem diria?



E agora a mutação é mais intrincada porque não há "uma" ideia nova, uma escola, uma tendência. A mutação atual é a "contribuição milionária" de todos os desejos expressivos. Mudaram todos os suportes, as formas se multiplicam sem parar criando novas significações.

Sabíamos que a era digital mudaria tudo, desde o mundo árabe até a poesia de Shakespeare? Mais uma vez, as coisas criam os homens... Todo mundo pode fazer arte, poesia e a internet é o novo parnaso digital.

Reação romântica: como fazer arte sem futuro, sem finalidade? Sem a ideia de "eterno"? Que será do artista demiurgo, aqueles "poucos falando para muitos"? Agora, em que todos criam para todos, o que é "importante", como dizíamos? O que terá hoje ou amanhã o prefixo"Ur" (alemão) - as coisas fundadoras? Onde está a totalidade?

  

Há uma revolução de meios sem uma clareza de fins. Como será o mundo árabe? Como será a grande arte? Ainda haverá? Os meios justificam fins desconhecidos. E, vamos combinar, que mesmo na louvação das irrelevâncias, ainda dorme talvez o desejo de um sentido. Olha a encrenca... A própria ideia de um debate sobre esta dúvida já é antiga.

Se fosse proposta a um jovem blogueiro, ele diria: "Pra quê?"


POST-SCRIPTUM:


 




sábado, 15 de março de 2014

VIDEOGAMES




[Publicado no jornal O DIA em 19.02.2014]


Jogos eletrônicos podem fazer bem a jovens. A conclusão é da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). Em testes, verificou-se que 'games' desenvolveram a habilidade do cérebro, como a percepção de contraste, útil para quem dirige à noite.

Ao contrário do que se pensava, a diversão pode tratar uma deficiência visual chamada ambliopia, que causa a perda de visão de profundidade. Jogos de ação tiveram os melhores resultados.


POST-SCRIPTUM:

Taí mais um motivo para infindáveis discussões. Nada contra os videogames, mas tem uma molecada por aí que exagera na dose e esquece da vida. 

domingo, 1 de setembro de 2013

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL



O Instituto de Tecnologia de Tóquio desenvolveu um robô que consegue aprender, 'pensar' e agir por conta próopria.

A invenção utiliza um sistema de inteligência artificial chamado "self-replicating neural network" (rede neural autorreplicante).

Segundo os cientistas, a máquina consegue fazer atividades que nunca realizou antes, do mesmo modo que um ser humano agiria na mesma situação, ou seja, ela é capaz de tomar decisões e fazer tentativas baseadas em suas experiências prévias.

A cada nova situação, a inteligência artificial cria um registro, como se o robô a 'aprendesse'.



 



POST-SCRIPTUM:

Parece que o mundo de "Eu, Robô", imaginado por Isaac Asimov, está cada vez mais próximo de nossa realidade cotidiana.

Fico torcendo (sinceramente, com pouca esperança) para que tal invenção não venha a ser usada para fins militares, mas tenho minhas dúvidas se as "Três Leis da Robótica" algum dia sairão dos livros e serão aplicadas no mundo real...




segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O MECANISMO DE ANTICÍTERA: CALCULADORA ASTRONÔMICA DA GRÉCIA ANTIGA






















(Condensado e traduzido a partir do artigo “Decoding the ancient Greek astronomical calculator known as the Antikythera Mechanism”, publicado na revista Nature #444, pp. 587-591, de 30 de novembro de 2006, da autoria de T. Freeth, Y. Bitsakis, X. Moussas, J. H. Seiradakis, A. Tselikas, H. Mangou, M. Zafeiropoulou, R. Hadland, D. Bate, A. Ramsey, M. Allen, A. Crawley, P. Hockley, T. Malzbender, D. Gelb, W. Ambrisco e M. G. Edmunds)



O mecanismo de Anticítera é um dispositivo único, construído na Grécia em torno do final do século II A.C., que permitia calcular e exibir informações celestes, particularmente ciclos como as fases da lua e um calendário lunar-solar.

Calendários eram extremamente importantes para as sociedades antigas, tanto no que se referia à regulação das atividades agrícolas quanto na fixação de festividades religiosas. Os eclipses e os movimentos planetários eram por vezes interpretados como augúrios, mas podemos supor que a invariável regularidade dos ciclos da astronomia deve ter sido filosoficamente atraente em um mundo incerto e violento.

Batizado com o nome do local de sua descoberta em 1901 em meio aos destroços de um naufrágio romano ocorrido na Antiguidade (cerca do séc. I A.C.), o mecanismo de Anticítera é tecnicamente mais complexo do que qualquer dispositivo conhecido que tenha sido construído até pelo menos um milênio depois.

Suas funções específicas permaneceram controversas durante várias décadas em virtude do estado fragmentário de suas engrenagens e das inscrições em suas faces, após ter permanecido submerso por tantos séculos.























Em decorrência de exaustivas pesquisas, efetuadas por intermédio de tomografia radiográfica de alta resolução dos fragmentos encontrados, foi possível reconstruir o mecanismo e decifrar suas inscrições numéricas. Sua função seria a de prever eclipses lunares e solares usando como base os ciclos de progressão aritmética babilônicos. As inscrições dão respaldo também à suposição de exibição mecânica das posições planetárias, uma parte do artefato que se supõe tenha-se perdido no referido naufrágio.

No século II A.C., Hiparco desenvolveu uma teoria para explicar as irregularidades do movimento aparente da lua pelo céu, as quais seriam causadas por sua órbita elíptica. Podemos encontrar uma aplicação prática desta teoria na utilização do mecanismo, revelando um inesperado grau de sofisticação técnica para o período.


http://www.nature.com/nature/journal/v444/n7119/abs/nature05357.html