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sexta-feira, 23 de maio de 2014

O ENIGMA DE HERÁCLITO




“Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois o enganaram meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco.” - fragmento 56


A filosofia, da forma como se manifesta entre os pré-socráticos, por seu conteúdo inaugural, tem em comum com a religião grega os mesmos pressupostos, ou seja, a imaginação poética e a intuição da analogias, uma vez que a instauração do questionamento filosófico não se deu pelo rompimento radical com sua herança mitológica,  já que o homem grego não compreendia seus deuses como pertencentes a um mundo sobrenatural, sem embargo de reconhecermos em seu discurso algo totalmente diferente do discurso dos poetas.

Não obstante, cada um, a sua maneira, é obscuro, sinuoso, truncado e, portanto, de difícil compreensão. Por outro lado, apesar da maior dificuldade que apresentam para seu entendimento, têm a vantagem de abranger inúmeros significados simultaneamente.

Sendo assim, nada nos impede de imaginar que uma das chaves para a compreensão do enigma proposto por Heráclito seja o fato de que, segundo as lendas, Homero era cego. Portanto, a continuarmos nesta linha de raciocínio, mesmo tendo sido considerado o mais sábio entre os gregos, este não poderia supor que se tratava de algo tão vulgar quanto a cata de piolhos a resposta à questão colocada pelos tais meninos com o evidente propósito de pilheriar.

Entretanto, não devemos entender a intenção do filósofo, ao enunciar a citada proposição, de forma tão simplória, sob a pena de, também nós, cairmos na armadilha da ilusão.  Até mesmo porque esta não chega nem a ser uma compreensão óbvia, sendo, antes, uma transcrição literal: aquilo que os meninos largam são exatamente aqueles piolhos que eles veem, pegam e matam. Aqueles que eles não veem não podem ser pegos e, portanto, continuam com eles, escondidos.

É evidente que este enigma não aponta apenas para a mera atividade de catar piolhos, pois, como nos diz o próprio Heráclito “não devemos julgar apressadamente as grandes coisas” (fragmento 47). Outras vias de entendimento apontam para uma descrição radical da forma como esse filósofo compreende o movimento de realização das potencialidades vitais, sendo, portanto, bem mais sutis e instigantes.

Num primeiro momento podemos tentar compreender aquilo que Heráclito nos propõe “mais ou menos” como uma metáfora da ilusão dos homens “quanto ao conhecimento das coisas visíveis”. Outrossim, como deixamos claro acima, devemos estar atentos ao fato de que essa compreensão pode dar-se ao nível de variados e diferentes contextos.

O homem está sempre a procura de “pegar” tudo aquilo que vê, ou seja, adquirir um conhecimento imediatista e superficial a respeito do mundo material (as “coisas visíveis”). Esta atitude equivocada leva-o a enganar-se da mesma maneira que o mais sábio de todos os helenos. Agindo assim, afasta-se daquilo que é realmente importante e que não é tão visível, estando, portanto, escondido como os piolhos que não são vistos nem pegos pelos meninos e que, apesar de tudo, “trazemos conosco”, nossos valores e crenças.

Elaborando um pouco mais, podemos dizer que, ao dedicar-se ao assim chamado “mundo sensível”; ao assumir uma postura eminentemente empírica frente ao conhecimento; ao sobrevalorizar um modus operandi essencialmente analítico, o homem está simplesmente a “catar piolhos”, pegando o que vê para, em seguida, “matar” e largar como faria a um pequeno e insignificante inseto, em decorrência mesmo dessa atitude indiferente e desapaixonada associada à atividade de detectar coisas menores.

Desta feita, ao persistir neste caminho, aliena-se, na mesma proporção e com a mesma intensidade, do que seria a sua realidade interior, o “mundo inteligível”. Ou seja, enquanto permanece cego e iludido, apartado de sua autenticidade, despojado de sua espontaneidade e descrente de sua intuição, sendo apenas mais um em meio aos entes, não se apercebe daquela unidade de que compartilha em sua manifestação mais radical que, em síntese, é o Ser. 




POST-SCRIPTUM:



"Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Lógos" (fragmento 45)



  

UM EQUILÍBRIO PRECÁRIO ENTRE O BEM E O MAL


[Texto de Moisés Efraym]


Há muitas implicações decorrentes de uma sentença do tipo "um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal". 

Estas implicações devem, em todo caso, passar por uma investigação acerca das noções de "equilíbrio precário" e "bem" e "mal". É sobre estas noções que se desenrola, de forma geral, o desenvolvimento da abordagem mítica da realidade, como característica inerentemente humana, de elucidação fenomenológica, nas comunidades originárias.

Uma primeira interpretação da expressão "equilíbrio precário" revela uma relação paradoxal, remetendo-nos a palavra "equilíbrio" à ideia de igualdade e a palavra "precário" à ideia de instabilidade; somos, portanto, levados a uma conclusão que deverá fundir, em forma de compreensão, uma dicotomia que manifeste uma unidade inteligível. De que forma é possível esta unidade?

Não por acaso, a sentença "um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal" está intimamente ligada às mais variadas formas assumidas pelo mito em lugares e épocas diferentes. 


Independentemente das possíveis explicações sobre a origem dos mitos, o paradoxo da relação acima citada perpassa a todos sob a forma de um "paradigma imanente". 

Qualquer tentativa de conciliação da dicotomia aludida seria inútil, pois ela só existe se a realidade - como no mito - se torna objeto de investigação pelo homem. Nesse processo de investigação o homem carece de promover uma "ruptura" na maneira de ser da realidade que lhe permita nomear, isoladamente, o complexo fenomênico que o circunda.

A inocência inerente à composição mito-poética desenvolve o caráter simbólico da maneira de ser do real, sem habilitar-se, entretanto, à compreensão da unidade manifesta no "paradigma imanente" que a fundamenta.

Por estar incondicionalmente sujeita a essa limitação, a explicação mítica tende à multiplicidade, antropomorfizada na forma de deuses, semideuses e heróis, e à dicotomia que tem por base o ser humano e suas convicções e sentimentos e também a oposição aparente das diferentes manifestações da natureza tidas como acontecimentos externos ao homem e que se manifestam conforme seu caráter agradável ou desagradável, segundo o julgamento e sensações individuais (o "quente" em oposição ao "frio" ou, tendo como referencial o homem, o "bem" em oposição ao "mal"). 

    

O "paradigma imanente" (que manifesta a unidade do real) e a dicotomia estabelecida pelo mito podem ser verificados na relação entre as mitologias nórdica e grega, por exemplo. 

Atendo-se não à explicação fenomênica do mito mas aos "lugares míticos" pode-se estabelecer a relação que perpassa as diferentes mitologias e está diretamente atada à noção de confronto entre "bem" e "mal".

Asgard e Olimpo representam, respectivamente, nas mitologias nórdica e grega, a "morada dos deuses"; nestes "lugares" residem os soberanos na hierarquia divina. Nifleheim e Tártaro estão em oposição direta àqueles primeiros. Há similitudes e distinções entre as duas manifestações de mitologia que carecem de esclarecimento. Entretanto, não rompem de forma absoluta com a dicotomitização do real que, certamente, compõem a base destas.

Por não dispor de nenhuma fonte prévia de explicação para os fenômenos naturais, a mitologia, fazendo uso dos aspectos inerentes às relações humanas e à personalização em seu caráter individual, interpretou a realidade circundante como resultante de um conflito divino que ensejaria, então, o movimento fenomênico observado.   

  

Tanto nos Eddas nórdicos quanto na Teogonia grega a harmonia reinante no mundo divino é rompida por dissenções havidas entre seus representantes. Esta ruptura cria uma tensão, uma "relação de oposição" entre seres divinos, que possibilita a realidade em sua dinâmica conhecida.

Gaia, a "Mãe Terra", para os gregos e Midgard para os nórdicos, representam o ponto de equilíbrio dessa tensão. Aí se observa, de forma alternada, a atuação das forças do bem e do mal. Na instância "superior" (Olimpo, Asgard) estão os representantes máximos das forças do bem (Zeus, Odin), na "inferior", os representantes máximos das forças do mal (Hades, Surtur).


Hades recebeu de presente de Zeus o reino subterrâneo por apoiar este na luta contra a tirania do próprio pai (Cronos). Quanto a oposição entre Odin e Surtur, esta estava predestinada desde o início dos tempos.

Ainda sobre as mitologias nórdica e grega, existem, respectivamente, o Valhalla e os Campos Elísios, onde hão de fazer morada, após a morte "neste mundo", as almas merecedoras.

O "paradigma imanente" ou unidade do real observa-se na ligação necessária entre essas instâncias. Sem essa ligação a explicação a respeito da realidade, mesmo na multiplicidade estabelecida pelo mito, perde o sentido.


POST-SCRIPTUM:


A forma de ser das coisas na realidade é tão enigmática que, apesar de todo avanço científico-tecnológico e de todo desenvolvimento do pensamento filosófico, a maioria da população ocidental continua encarando o caráter fenomênico da realidade como um "equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal", haja visto sua continuidade na base, por exemplo, das três religiões monoteístas atuais (judaica, cristã e maometana).




domingo, 27 de abril de 2014

O JESUS JUDEU (2)


[Trecho extraído e editado do capítulo 6 ("O Jesus dos Evangelhos Sinópticos: curandeiro e mestre carismático e entusiasta escatológico") do livro AS VÁRIAS FACES DE JESUS de autoria de GEZA VERMES, publicado pela Editora RECORD]



As leis alimentares (kosher versus não kosher)
constituem uma segunda área do suposto conflito de Jesus com a Torá de Moisés, mas a afirmativa de que ele aboliu a distinção entre puro e impuro está baseada numa incompreensão crassa de um dito sutil: "Não há nada no exterior do homem que, penetrando nele, o possa tornar impuro; mas o que sai do homem, isso é o que o torna impuro... Não entendei que tudo o que vem de fora, entrando no homem, não pode torná-lo impuro, porque nada disso entra no coração, mas no estômago, e sai para a fossa?" (Mc 7:15, 18-19; Mt 15:11, 17-18). 

O significado patente dessas palavras é que a corrupção não vem pelo alimento enquanto tal, mas quando se negligencia profundamente uma proibição divina, uma interpretação ética costumeira de um preceito legal. Essa moralização da Lei se enraíza, sem contar os profetas bíblicos, no autor da Carta de Aristéia na primeira metade do século II a.C., segundo a qual Deus não é honrado por oferendas e sacrifícios, mas por pureza d'alma e convicções sagradas.

A mesma ideia é essencial ao ensinamento partilhado por Filo de Alexandria e por Jesus, que identifica os Dez Mandamentos como o epítome da Lei (Leis Especiais I,I; Mc 10:17-19; Mt 19:16-19; Lc 18:18-20), ou a assim chamada Regra de Ouro - "Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles" - que sob formas variantes vai de Tobias (4:15) e Filo (Hupothética 7:6) até Ilel, um destacado mestre judeu à virada da era (bShabbat 31a), e o próprio Jesus (Mt 7:12; Lc 6;31).

Para voltarmos às leis dietéticas, o comentário do editor do Evangelho de Marcos 7:19 - "Assim, ele declarava puros todos os alimentos" - é um comentário secundário que nada tinha a ver com Jesus, e só era significativo e benéfico para a igreja gentílica-cristã à qual o Evangelho era em última análise dirigido. A dificuldade da cristandade judaica com os convertidos gentios prospectivos nos Atos dos Apóstolos e a disputa de Paulo com Pedro em Antioquia demonstram que, na primeira geração cristã, ninguém estava ciente de que Jesus tivesse declarado todo alimento puro!

Tão espúria quanto as duas precedentes, a terceira prova da afirmação de Jesus da sua superioridade sobre a Lei reside em seus ditos reunidos no Sermão da Montanha, conhecidos como "antíteses" (Mt 5:21-48). Nestes, um antigo preceito do Velho Testamento, por exemplo, "Não matarás", é introduzido com as palavras, "Ouviste que foi dito aos antigos", e seguido pela proclamação de Jesus, "Eu, porém, vos digo" outra coisa, tal como "todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá que responder no tribunal" (Mt 5:21-2).

 Entretanto, quando objetivamente analisadas, as suas declarações reforçam e esclarecem, em vez de contradizerem a Torá. Ao proibir a raiva, Jesus não permite o assassinato, mas garante que a sua raiz seja arrancada.

Tomar as antíteses por uma "ruptura da letra da Lei", como fez Ernst Käsemann, um estudioso alemão do Novo Testamento, revela a extraordinária cegueira de que teólogos de um certo tipo são presa.



POST-SCRIPTUM:
















A FILOSOFIA DE PLATÃO



Podemos reconhecer uma relação entre o culto grego da memória e a metafísica platônica na hipótese da reminiscência. Platão coloca o problema de como o homem, enquanto ser concreto que existe no tempo e no espaço, pode conhecer as essências incorpóreas e atemporais.

Tal possibilidade só é exequível se supomos que ele possui algo também incorpóreo e indestrutível, de natureza semelhante às 'Ideias', ou seja, uma alma, também pura forma imortal. Essa alma já teria contemplado as essências antes de se prender ao corpo ao qual está provisoriamente vinculada, no qual ela esquece aquele conhecimento anterior.

Entretanto, os sentidos apreendem objetos que são cópias imperfeitas daquelas essências que a alma contemplara, o que permite que ela vá se lembrando das 'Ideias'. Desta forma, o conhecimento seria, na verdade, reconhecimento, reminiscência, retorno, através de etapas sucessivas.




Segundo Platão, o mais elevado de todos os conhecimentos seria o conhecimento do Bem, que se atinge ao fim de uma escalada que leva às 'Ideias' ou essências. Este seria, como o sol, a fonte de toda a luz, fazendo com que os objetos possam ser conhecidos e que nós possamos conhecê-los. 

Assim, tal conhecimento seria superior à Arte, na medida em que esta permanece no nível das sensações, sendo desta forma, impossível a construção de um conhecimento seguro e estável à partir da mesma, uma vez que as sensações fornecem evidências apenas momentâneas e individuais.

Daí, temos que a Arte não passaria de mero simulacro, ou seja, cópia da cópia, uma vez que os objetos da Natureza só existem por participação em, ou imitações das 'Idéias' (o Demiurgo a tudo molda, baseado em modelos perfeitos e impecáveis). Por outro lado, a Arte lida com o Belo e está subordinada ao Bem e ao Verdadeiro. A beleza fica no domínio do sensível e este mantém-se na aparência, ao passo que o Verdadeiro e o Justo residem no interior das coisas.




A alegoria da caverna ilustra uma experiência interior que muitos se recusam a empreender. Mas não se deve reduzir esta experiência à mera libertação individual. O prisioneiro só se evade para voltar, pois é a volta que dá sentido à fuga. Saber em que mundo se vive permite que se viva nele de outra maneira, como homem livre e não mais como prisioneiro manipulado pelos exibidores de marionetes.

Mas é ainda mais difícil anunciar a boa nova da libertação. Quando o filósofo volta a descer até os prisioneiros corre o risco de não ser ouvido e, se insiste, de até ser morto, como o foi Sócrates.
Esta atitude de fidelidade ao conhecimento é o que diferencia a vida justa da vida injusta.


POST-SCRIPTUM:






sábado, 26 de abril de 2014

O JESUS JUDEU (1)



[Trecho extraído e editado do capítulo 6 ("O Jesus dos Evangelhos Sinópticos: curandeiro e mestre carismático e entusiasta escatológico") do livro AS VÁRIAS FACES DE JESUS de autoria de GEZA VERMES, publicado pela Editora RECORD]



A maioria dos títulos sob os quais Jesus foi abordado, especialmente "senhor", "profeta" e "Messias", implica uma função de professor, o que por sua vez suscita a questão da posição exata de Jesus em relação ao judaísmo tal como compreendido e praticado no seu tempo.

A tradição cristã nutrida por Paulo e João sempre afirmou que, como mensageiro de Deus, ele situava-se acima e considerava-se dissociado da degenerada religião judaica da Palestina do primeiro século, cujos representantes lhe deram, previsivelmente, uma recepção tão hostil. Assim, para justificar nossa posição básica, de que Jesus de Nazaré era inteiramente judeu em seus papéis de mestre, exorcista e pregador, profeta e filho de Deus, teremos de investigar os seus pronunciamentos sobre a Lei de Moisés, que está no coração da religião que ele ensinava e praticava.

Os evangelistas retratam Jesus implicitamente como um judeu profundamente ligado às leis e aos costumes de seu povo, e alguns dos seus ditos mais obviamente autênticos confirmam essa imagem. Os evangelhos atestam a sua presença nas sinagogas galiléias e no Templo de Jerusalém. Contam-nos que ele fez a refeição da Páscoa pouco antes de ser preso. Suas roupas eram como a dos fariseus (Mt 23:5), com as tradicionais franjas na orla da veste (Mt 9:20; Lc 8:44; Mc 6:56; Mt 14:36; Dt 22:12). O seu respeito pela legislação ritual é revelado na história do leproso já curado por ele, a quem ele ordenou submeter-se ao julgamento dos sacerdotes e oferecer o sacrifício prescrito no Templo (Mc 1:44; Mt 8:4; Lc 5:14).

Tal conduta está em perfeita harmonia com o ensinamento de Jesus sobre a validade permanente da Torá, que foi preservado em duas versões. A primeira está em Mateus: "Porque em verdade vos digo, até que passem o céu e a terra, não será omitido nenhum i, uma só vírgula da Lei" (Mt 5:18), e o segundo, quase idêntico, em Lucas: " É mais fácil passar o céu e a terra do que uma só vírgula cair da Lei" (Lc 16:17).

Mais uma vez, a melhor garantia da autenticidade dessa afirmação é a sua própria sobrevivência no Novo Testamento face ao profundo embaraço por ela causado na igreja antinomiana dos gentios, o que deu aos Evangelhos de Mateus e Lucas um lugar permanente.

Admitidamente, foram feitas tentativas, tanto na igreja primitiva, quanto no cristianismo posterior, de eviscerar a afirmação de Cristo da permanência da Torá, e de insinuar que a bifurcação dos caminhos entre o judaísmo centrado na Lei e a nova religião espiritual cristã teria sido iniciada pelo próprio Jesus.

Afirma-se que, para demonstrar a sua superioridade em relação à religião do Velho Testamento, ele desdenhou duas das obrigações mais fundamentais impostas pela Lei, a observância do Sabá e das regras dietéticas da Bíblia, e que se considerou maior do que Moisés, cujos preceitos sentiu-se livre para abolir e substituir. Nenhuma dessas acusações é capaz de resistir a um exame objetivo.

Em nossa discussão sobre Jesus como curandeiro e exorcista, já encontramos a crítica de que, ao curar os doentes no Sabá, Jesus quebrou a Lei. A questão de curar no dia de descanso é levantada explicitamente pelos próprios Evangelhos (Mc 3:4; Mt 12:10; Lc 6:9), bem como nos debates de rabinos fora do Novo Testamento. Os evangelistas fazem Jesus respondê-la afirmativamente através da sua ação, e isto está em conformidade com a opinião dos rabinos, para os quais salvar uma vida suplanta os preceitos do Sabá.

Em todo caso, a forma de curar através de palavras ditas ou pelo toque, que Jesus adotou, na verdade não contava como "trabalho" proibido no Sabá. Sabemos pelos evangelistas que a única questão que realmente preocupou as pessoas escrupulosas no seu ambiente galileu foi o grau de severidade de uma doença que pudesse justificar o "trabalho" terapêutico, por exemplo, de transportar e administrar remédios.

Mesmo a esse respeito, porém, o chefe de uma sinagoga citado por Lucas não pôs a culpa no curandeiro, mas naqueles que buscavam a cura no Sabá: "Há seis dias nos quais se deve trabalhar; portanto, vinde nesses dias para serdes curados, e não no Sabá!" (Lc 13:14).

Rabinos esclarecidos na Mixná defendem a leniência e defendem que se houvesse alguma dúvida sobre o caráter potencialmente letal de uma doença, já era o bastante para sobrepujar os preceitos do Sabá (mYomma 8:6). Na verdade, mesmo a afirmação aparentemente mais chocante de Jesus sobre o Sabá ser feito para o homem e não o homem para o Sabá (Mc 2:27) não excede a opinião expressa por um rabino do segundo século d.C.: "O Sabá vos foi entregue e não vós ao Sabá." (Mekihlta sobre Ex. 31:14).


POST-SCRIPTUM:







Continua... 




  

domingo, 20 de abril de 2014

MAIS CERVEJA, MENOS PÃO


[Editado a partir de um artigo publicado em GALILEO nº 223 de fevereiro de 2010]



Patrick McGovern é diretor do Laboratório Arqueológico Biomolecular do Museu da Universidade da Pensilvânia e autor do livro 'Uncorking the Past: The Quest for Wine, Beer and Other Alcoholic Beverages'.

Diferentemente do senso comum, que costuma ligar os bêbados a uma horda de bárbaros, McGovern defende que o álcool teve um importante papel no estabelecimento das primeiras civilizações. "Quando você tem que produzir álcool suficiente para toda a sua população, é necessário se assentar em algum lugar por todo o ano, cuidar das plantas." Com o tempo, os humanos começaram a construir casas, e esses assentamentos se tornaram vilas.




"Nossa agricultura surgiu para produzir álcool. Os primeiros assentamentos humanos surgiram depois do cultivo da cevada, e é mais fácil produzir cerveja do que pão, além de ser mais nutritiva." McGovern cita o exemplo do milho na América Latina. Antes de ser domesticado, o grão não servia para ser comido, ele só era consumido transformado em bebida fermentada. "Se olharmos para os grãos como arroz, cevada, trigo, milho e sorgo, eles todos podem ser transformados em bebidas. A motivação de sua domesticação foi poder consumi-los na forma de bebida alcoólica. Só depois passamos a fazer pães e massas", diz. 


 


Avançando um pouco no tempo, McGovern aponta o comércio das bebidas como grande impulsionador de intercâmbios culturais. "Enquanto os fenícios levavam o vinho em seus barcos, espalhavam sua cultura pelo Mediterrâneo." Eram vendidas a altos preços aos nobres egípcios e europeus - inclusive para os italianos e franceses, que mais tarde seriam os grandes produtores da bebida. Eles não transportavam só a cultura do vinho, mas sua indústria, o trabalho com metais e a cerâmica. Além, é claro, da mais importante contribuição de sua cultura para o mundo: o alfabeto latino.





O vinho tornou essas trocas bem mais fáceis. "Não acho que toda transferência cultural e tecnológica tem de ser pela força, ela pode ser guiada simplesmente pelo prazer. Quando vamos para outros países experimentar suas bebidas, as pessoas podem ser muito amigáveis, ficamos interessadas por suas ideias e cultura", diz McGovern.


POST-SCRIPTUM:


Quem já leu os quadrinhos de 'Astérix, o gaulês' tem uma boa ideia a respeito do que o professor McGovern está falando...

  




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

FENDA NA RAZÃO



Dentre os inúmeros objetivos pretendidos originalmente por este 'blog' sempre esteve a divulgação da cultura em todos (ou pelo menos quase todos...) os seus matizes.   

E um dos mais importantes é a discussão da filosofia, tanto de per se quanto nas manifestações literárias da atualidade pós-moderna a respeito do assunto.

É, portanto, consciente de que não poderia dizer de melhor forma que humildemente passo a palavra ao poeta Alberto Pucheu em sua análise do livro "Um Sábio Não Tem Idéia", da autoria de François Julien e publicado pela Ed. Martins Fontes:

[TEXTO EDITADO DE UMA CRÍTICA PUBLICADA NO CADERNO LITERÁRIO DO JORNAL 'O GLOBO'] 




Já em seu princípio, na Grécia, a filosofia se esforçou por estabelecer uma diferença específica em relação às possibilidades do pensamento até então.

As quatro alteridades fundamentais da filosofia, supostamente estabelecidas: a sabedoria, a poesia, a sofística e a política.

Nada disso é tão simples. Aristóteles chamava boa parte dos pensadores anteriores a ele de filósofos, incluindo até mesmo Hesíodo. Protágoras, no diálogo homônimo escrito por Platão, relaciona o próprio Hesíodo não só à poesia como também à sofística. Se lembrarmos que, posteriormente, Diógenes Laércio afirmou que "sofista" era outro nome para "sábio", "poeta" e "filósofo", a confusão estaria completa. 



Ou melhor: no momento do frescor da filosofia, a encruzilhada tornava as efervescentes experiências do pensamento indiscerníveis.

Além disso, se Platão escreveu sobre o poeta, sobre o sofista e sobre o político, por que não teria elaborado o diálogo sobre o filósofo, conforme o anunciado?

A não ser que, falando dessas supostas alteridades, esteja o tempo todo pensando a filosofia e a impossibilidade de sua apreensão isolada.

 


Esses termos, com o tempo, tornaram-se gastos e perderam complexidades importantes. Isso ocorreu pela insistência de quase toda a tradição ocidental em defini-los uns contra os outros, compartimentando o que, mesmo em Platão, era de definição controversa.

Eis o grande mérito do filósofo e sinólogo francês François Julien: mostrar um fundo de experiência e de pensamento que, por não ter vingado em nossa História, a filosofia enquanto metafísica não pôde conceber.

Um dos preconceitos contra os quais o livro se lança é o de que a sabedoria teria sido superada pela filosofia, como se sua anterioridade cronológica fosse imaturidade de pensamento.



O que ele mostra é justamente a radicalidade dessa experiência na própria condição de possibilidade da filosofia e que foi apagada pelo privilégio da razão européia. Julien retira a sabedoria da perspectiva mística e exótica, afastando-a dos lugares-comuns que as apressadas tentativas de aproximação entre o Ocidente e o Oriente suscitam.

Abrindo uma fenda na razão, transforma-a no que seria sua própria condição de possibilidade, saindo do jogo contraditório entre razão e seu oposto. Trata-se de demarcar uma lógica da sabedoria.



François Julien mantém um diálogo vivo e tenso entre a filosofia e o pensamento chinês.

"Um Sábio Não Tem Idéia", por sua originalidade e força, tem a difícil capacidade de sulcar caminhos impensados e propulsores.




POST-SCRIPTUM:

Um livro extraordinário e indispensável para quem quer ampliar seus horizontes, que busca resgatar um tipo de experiência e de pensamento não absorvidos pela filosofia convencional do Ocidente. 

E que as fendas na razão um dia recuperem a verdadeira Sabedoria!

 

domingo, 9 de outubro de 2011

A LOUCURA É A FONTE DA SABEDORIA



[Adaptado do capítulo I do livro "O NASCIMENTO DA FILOSOFIA" de autoria de GIORGIO COLLI, publiado pela Editora da UNICAMP em 1996, traduzido por Federico Carotti]



Platão chama "filosofia" - o amor à sabedoria - à própria busca, à própria atividade educativa, ligada a uma expressão escrita, à forma literária do diálogo. 

E Platão olha reverente o passado, um mundo em que existiram os verdadeiros "sábios". Por outro lado, a filosofia posterior, a nossa filosofia, é apenas uma continuação, um desenvolvimento da forma literária introduzida por Platão; contudo, esta surge como fenômeno da decadência, na medida em que "o amor à sabedoria" está mais abaixo da "sabedoria".

O amor à sabedoria, para Platão, não significava de fato a aspiração a algo nunca atingido, mas sim uma tendência a recuperar aquilo que já fora realizado e vivido.





Portanto, não há um desenvolvimento contínuo, homogêneo, da sabedoria à filosofia. O que dá origem a esta última é uma reforma expressiva, é a intervenção de uma nova forma literária, um filtro através do qual condiciona-se o conhecimento de todo o precedente.

A tradição, em grande parte oral, da sabedoria, já obscura e escassa pela distância dos tempos, já evanescente e tênue para o próprio Platão, mostra-se, a nossos olhos, francamente falsificada pela inserção da literatura filosófica.

Por outro lado, é muito incerta a extensão temporal dessa época da sabedoria: nela está compreendida a chamada idade pré-socrática, ou seja, os séculos V e VI a.C., mas a origem mais distante nos escapa. É preciso recorrer à mais remota tradição da poesia e da religião grega, mas a interpretação dos dados não pode deixar de ser filosófica. 

Deve-se configurar, mesmo que de modo hipotético, uma interpretação do tipo daquela proposta por Nietzsche para expor a origem da tragédia. Quando um grande fenômeno oferece uma documentação histórica suficiente apenas em sua parte final, só resta a tentativa de interpolar, no que se refere a sua totalidade, certas imagens e conceitos, escolhidos e entendidos como símbolos na tradição religiosa.





Nietzsche parte, como se sabe, das imagens de dois deuses gregos, Dionísio e Apolo, e, aprofundando estética e metafisicamente os conceitos de dionisíaco e apolíneo, esboça, em primeiro lugar, uma doutrina sobre o surgimento e a decadência da tragédia grega; depois uma interpretação geral da grecidade e até uma nova visão de mundo. Assim, igual perspectiva parece abrir-se quando se considera, em vez do nascimento da tragédia, a origem da sabedoria.  

São ainda os mesmos deuses, Apolo e Dionísio, que se encontram no retroceder ao longo das sendas da sabedoria grega. Mas, nessa esfera, a caracterização de Nietzsche deve ser modificada; além disso, a prioridade deve ser concedida a Apolo, e não a Dionísio. De fato, se cabe atribuir a alguém o domínio sobre a sabedoria, é ao deus de Delfos.





Em Delfos se manifesta a vocação dos gregos para o conhecimento: sábio é quem lança a luz na obscuridade, desfaz os nós, manifesta o desconhecido, determina o incerto. Para essa civilização arcaica, o conhecimento do futuro do homem e do mundo pertence à sabedoria. Apolo simboliza esse olho penetrante, seu culto celebra a sabedoria.

Outros povos conheceram, exaltaram a arte divinatória, mas nenhum povo a elevou a símbolo decisivo, pelo qual, no mais alto grau, a potência exprime-se em conhecimento, como aconteceu entre os gregos. Adivinhar implica conhecer o futuro e manifestar, comunicar tal conhecimento. Isso ocorre através da palavra do deus, do oráculo. 

Na palavra manifesta-se ao homem a sabedoria do deus, e a forma, a ordem, o nexo em que se apresentam as palavras revela que não se tratam de palavras humanas, e sim de palavras divinas. Daí o caráter exterior do oráculo: a ambiguidade, a obscuridade, as alusões de árdua decifração, a incerteza.

O deus, portanto, conhece o porvir, manifesta-o ao homem, mas parece não querer que este o compreenda. Há um elemento de maldade, de crueldade na imagem de Apolo, que se reflete na comunicação da sabedoria. E, de fato, diz Heráclito, um sábio: "o senhor, a quem pertence o oráculo que está em Delfos, não diz nem oculta, mas acena".





A esfera do conhecimento e da sabedoria liga-se com muito mais naturalidade a Apolo do que a Dionísio. Dionísio associa-se ao conhecimento enquanto divindade eleusínia: a iniciação aos mistérios de Elêusis culminava numa "epopsia", visão mística de beatitude e purificação que de certa forma pode ser chamada de conhecimento. 

No entanto, o êxtase dos mistérios, na medida em que é alcançado através de um despojamento completo das condições do indivíduo, na medida em que nele o sujeito cognoscente não se distingue do objeto conhecido, deve ser considerado como o pressuposto do conhecimento, e não o próprio conhecimento. 

Pelo contrário, o conhecimento e a sabedoria manifestam-se por meio da palavra, e é em Delfos que é proferida a palavra divina, é Apolo, e certamente não Dionísio, que fala pela sacerdotisa. A palavra de Apolo é uma expressão  em que se manifesta um conhecimento; as palavras de adivinhação na Grécia primitiva reúnem-se em discursos, desenvolvem-se em discussões, elaboram-se no abstrato da razão, símbolos iluminadores de todo o fenômeno da sabedoria.






Outro elemento frágil na interpretação de Nietzsche está em apresentar os impulsos apolíneo e dionisíaco como antitéticos. 

Os estudos mais recentes sobre a religião grega ressaltaram uma origem asiática e nórdica do culto de Apolo. Aqui surge uma nova relação entre Apolo e a sabedoria. Um fragmento de Aristóteles nos informa que Pitágoras - justamente um sábio - foi denominado pelos crotoniatas como Apolo hiperbóreo. 





Os hiperbóreos eram, para os gregos, um povo fabuloso do extremo norte. Daí parece provir o caráter místico, extático, de Apolo, manifestando-se no arrebatamento da pítia, nas palavras delirantes do oráculo délfico.

Nas planícies nórdicas e da Ásia central atesta-se uma longa persistência do xamanismo, uma técnica particular de êxtase. Os xamãs atingem uma exaltação mística, uma condição extática, na qual são capazes de executar curas milagrosas, ver o futuro e profetizar.





Este é o pano de fundo do culto délfico de Apolo. Uma passagem célebre e decisiva de Platão nos ilumina a esse respeito. Trata-se do discurso sobre a "mania", sobre a loucura, que Sócrates desenvolve no Fedro. Logo no início, contrapõe-se a loucura à moderação, ao autocontrole, e, numa inversão paradoxal para nós, modernos, exalta-se a primeira como superior e divina.

Diz o texto: "os maiores dentre os bens chegam a nós por meio da loucura, que é concedida por um dom divino...de fato, a profetisa de Delfos e a sacerdotisa de Dodona, enquanto possuídas pela loucura, proporcionaram à Grécia muitas e belas coisas, tanto para os indivíduos quanto para a comunidade". Coloca-se em evidência, portanto, desde o início, a ligação entre "mania" e Apolo.





Em seguida, distinguem-se quatro tipos de loucura: a profética, a dos mistérios, a poética e a erótica, as duas últimas variantes das duas primeiras. A loucura profética e a dos mistérios são inspiradas por Apolo ou por Dionísio (ainda que este último não seja citado por Platão). 

No Fedro, em primeiro plano está a "mania" profética, tanto que, para Platão, a natureza divina e decisiva da "mania" é atestada pelo fato de essa mania constituir o fundamento do culto délfico. Platão funda seu juízo numa etimologia: a "mântica", isto é, a arte divinatória, deriva de "mania" e é sua expressão mais autêntica.

Portanto, a perspectiva de Nietzsche deve ser não só ampliada, mas também modificada. Apolo não é o deus da medida, da harmonia, mas do arrebatamento, da loucura. Nietzsche considera a loucura pertinente apenas a Dionísio e, além disso, delimita-a como embriaguez. 

Aqui, uma testemunha com o peso de Platão sugere-nos, pelo contrário, que Apolo e Dionísio possuem uma afinidade fundamental, justamente no terreno da "mania"; juntos eles esgotam a esfera da loucura, e não faltam bases para formular a hipótese - atribuindo a palavra e o conhecimento a Apolo, e a imediatez da vida a Dionísio - de que a loucura poética é obra do primeiro, e a erótica, do segundo.

Concluindo, se uma pesquisa sobre as origens da sabedoria na Grécia arcaica leva-nos em direção ao oráculo délfico, ao significado complexo do deus Apolo, a "mania" mostra-se-nos ainda mais primordial, pano de fundo do fenômeno da adivinhação. A loucura é a matriz da sabedoria.     




POST-SCRIPTUM:






Giorgio Colli (1917-1979) é conhecido sobretudo pela edição crítica das obras de Nietzsche, publicada na Alemanha, França e Itália, e por uma edição hoje clássica do Organon, de Aristóteles, tendo dedicado os últimos anos de sua vida à edição dos textos pré-socráticos.

É interessante perceber como o autor interliga a origem da filosofia - identificando-a como um novo gênero literário "inventado" por Platão - com a decadência da antiga sabedoria já então fragmentada e quase esquecida, derivada essencialmente da religião grega, seus mistérios e tradições orais.

Apoiado principalmente em Nietzsche, ele identifica um paralelo originário entre os primeiros refinamentos do pensamento abstrato grego - aquilo que, no ocidente, viria a ser chamado de "razão" ou "racionalidade" - e a tradição poético-religiosa da Grécia antiga, um manancial de sabedoria que permeia toda a sua rica mitologia, relacionada por sua vez com a "mania", ou "loucura" divina.  





Aliás, tal paralelo, penso eu, cabe ao estudo da mitologia e das tradições religiosas de qualquer povo, pois todas as culturas humanas sobre a face da Terra desenvolveram algum tipo peculiar de sabedoria ligada não somente aos cuidados com a esfera do transcendente como com a esfera do dia-a-dia, do conhecimento prático e utilitário, e o que é mais interessante: em todas elas ambas as esferas estão intimamente relacionadas, de uma forma ou de outra.

Uma passagem específica do texto chamou minha atenção por um aspecto curioso: a necessidade de ir procurar tão longe uma tradição religiosa que explique o "transe divinatório" das pitonisas délficas, ou seja, num suposto xamanismo nórdico ou centro-asiático, quando a vizinhança geográfica do Mediterrâneo com a África dá subsídio a hipóteses muito mais plausíveis, em minha modesta opinião.        

E viva a "loucura"!