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segunda-feira, 2 de junho de 2014

"VITÓRIA" A QUALQUER CUSTO


[Editado de um texto de Ignacio Cano, sociólogo e professor da UERJ, publicado no jornal O GLOBO]


Os moradores de áreas carentes são as principais vítimas da criminalidade violenta. Por isso, e também pelo fato de que eles não têm acesso à segurança privada, o Estado deveria considerar a proteção dessas populações a sua primeira prioridade. 

Entretanto, as políticas tradicionais de segurança pública historicamente visaram à nossa proteção, à dos moradores do asfalto, contra os perigos provenientes das favelas.

É justamente por isso que as autoridades manifestam-se constantemente no sentido de que a morte de alguns inocentes na luta contra o crime é lamentável, mas inevitável para travar essa "guerra".

O fato é que esses inocentes sempre tombam nos mesmos lugares, lugares em que a vida vale bem menos e o braço do Estado nem sempre respeita a lei.

Façamos o exercício de imaginar uma porta de uma casa no Leblon ensanguentada por um menino morto por um disparo de policial. Talvez possamos imaginar também pedidos de desculpas de autoridades e até alguma renúncia.

A questão real que se coloca é se a política de segurança tem como objetivo a minimização dos tiroteios e, sobretudo, a proteção dos moradores de áreas violentas, ou uma suposta vitória militar sem importar o custo.

Essa "vitória" alcançada a despeito da insegurança e mesmo da integridade daqueles que supostamente se pretende proteger seria o equivalente de uma Delegacia Antissequestro que, regularmente, acabasse com a vida dos reféns junto com a dos sequestradores.



POST-SCRIPTUM:


E a guerra civil continua...



segunda-feira, 28 de abril de 2014

PACIFICAÇÃO?


[Texto de autoria de Márvio dos Anjos publicado no jornal DESTAK em 25.04.2014]



O termo "pacificação" se consagrou, mesmo representando mais um desejo do que um fato. Houve redução da criminalidade em certas áreas da cidade. Mas ainda temos casos como o do bailarino DG, morto pelas costas no Pavão-Pavãozinho.

À lúcida mãe de DG, quem poderá falar que o morro está pacificado?

Precisamos lidar com o fato de que essas comunidades ocupadas vivem em estado de sítio. O sucesso seria que elas se transformassem em bairros, que tivessem vida de bairros, e não a impressão de uma normalidade patrocinada por uma contenção armada de fuzis.

O sempre ponderado secretário de Segurança José Mariano Beltrame jamais vendeu sua pacificação como milagrosa, mas já é tempo de vermos que o resultado da ocupação militar ainda não é paz, não efetuou prisões suficientes - o que fez os traficantes migrarem para outras regiões, como Niterói e a Baixada - e não merece o termo consagrado.

Não seria leviano a ponto de condenar totalmente a implantação das UPPs porque se trata do único programa que realmente diminuiu os índices de criminalidade. Mas a vida não se conta só por números. Histórias como a de DG mostram que a polícia ainda sobe um morro pacificado pronta para a guerra, num desmentimento categórico dessa paz armada.


POST-SCRIPTUM:


Pacificação ou ocupação militar? Estamos em guerra civil?


  

quinta-feira, 20 de março de 2014

DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!





[Foto de Napoleão F. da Silva]



Entrevista com o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, ao jornal O Globo. Estamos todos no inferno. Não há solução, pois não conhecemos nem o problema.




O GLOBO: Você é do PCC?


- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…


O GLOBO: – Mas… a solução seria…


- Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.


O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?


- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.


O GLOBO: – O que mudou nas periferias?


- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.


O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?


- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa?


O GLOBO: – Mas… não haveria solução?


- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco…na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi cheentrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

REFERÊNCIAS (Wikipédia):

Inferno é a primeira parte da "Divina Comédia" de Dante Alighieri, sendo as outras duas o Purgatório e o Paraíso. Está dividido em trinta e quatro cantos (uma divisão de longas poesias), possuindo um canto a mais que as outras duas partes, que serve de introdução ao poema. A viagem de Dante é uma alegoria através do que é essencialmente o conceito medieval de Inferno, guiada pelo poeta romano Virgílio. No poema, o inferno é descrito com nove círculos de sofrimento localizados dentro da Terra. Foi escrito no início do século XIV.

O Portal do Inferno não tem portas ou cadeados, somente um arco com um aviso que adverte: uma vez dentro, deve-se abandonar toda a esperança de rever o céu, pois de lá não se pode voltar. A alma só tem livre-arbítrio enquanto viva, portanto, viva se decide pelo céu ou pelo inferno. Depois de morta, perde a capacidade de raciocinar e tomar decisões.



POST-SCRIPTUM:


A entrevista é meio antiga, do tempo do Lula, mas a realidade é a mesma até hoje. E como é!


O que fazer? Chorar???


VOTE NULO! ESTAMOS TODOS NO INFERNO!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

FIM OU COMEÇO?


[Adaptado de uma notícia publicada no jornal EXTRA]

A delegacia do Catete continua investigando a agressão a um adolescente espancado e preso, nu, a um poste com um a trava de bicicleta, na Av. Rui Barbosa, no Flamengo. A delegada Monique Vidal, abriu inquérito para apurar o crime de lesão corporal.

Nas redes sociais, internautas apoiaram a ação: "Acordem seus tapados... quem anda no Flamengo sabe... isso aí é ladrão que assalta senhoras e mulheres todos os dias... ele tem uma gangue... fizeram foi pouco... faltou álcool e isqueiro para 'esterilizar' o meliante..."

Pelas ruas do bairro da Zona Sul, moradores também reclamaram que a quantidade de usuários de 'crack' no Flamengo aumentou consideravelmente, trazendo a sensação de insegurança e desconforto:

   - A polícia não faz nada. Aí, chega um grupo de pessoas, que deve ter sido assaltada por alguns deles, e mete a porrada. É o jeito que arrumaram para se defender. Fazer o que? - afirmou um morador do bairro, que preferiu não se identificar.

POST-SCRITUM:

"Os Vingadores" tupiniquins? 

O fim não virá numa explosão pirotécnica de fogos de artifício, mas talvez num surdo gemido de agonia, melancólico e agonizante, lento e interminável...

Ou quem sabe um improvável cruzamento do "super-homem" de Nietzsche com o "cristo cósmico" de Teilhard de Chardin virá salvar a todos no último instante?

Não percam os próximos episódios!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MANIFESTAÇÃO POPULAR OU GUERRA CIVIL?



Antes de tudo quero esclarecer que não apoio a velha tradição do "olho por olho, dente por dente". 

A morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes, Santiago Andrade, foi um acontecimento lamentável que poderia ter sido evitado.



A "autoridade" pública provocou, em certa medida, novas manifestações de protesto ao aumentar o preço das passagens de ônibus municipais para R$ 3,00, mesmo sabendo que existem estudos que comprovam que o valor de R$ 2,50 já seria suficiente para cobrir as despesas das empresas. Ou seja, deveria, isto sim, BAIXAR o preço anterior de R$ 2,75 para R$2,50 e não AUMENTAR para R$ 3,00!!!

Quer dizer que foi uma provocação? Claro! E não esperava-se consequências? É óbvio que sim, até mesmo contava-se com elas.


 


O que os governos municipal e estadual do Rio de Janeiro queriam era só uma desculpa para endurecer contra os manifestantes, "descer o cacete", lançar bombas de gás e dar tiros com balas de borracha (que podem aleijar e até mesmo matar, sabiam?).

Só que eles não sonhavam que seus desejos seriam atendidos com tanta precisão. Os dois idiotas que participaram do atentado com o tal "rojão" que matou o jornalista "entregaram de bandeja" tudo que as "autoridades" queriam e muito mais.



O resultado é um inocente morto, os dois patetas na cadeia por uma boa temporada e o governo tirando uma de "bom moço", levando sua pseudojustiça "até as últimas consequências".

E A PASSAGEM CONTINUA A TRÊS REAIS!!! Maravilha, né? Fala sério...

 

Quando de minha postagem sobre o livro "Groucho-Marxismo", de Bob Black, ao conclamar os anarquistas a se unirem, estava naturalmente sendo irônico (pra quem não entendeu), até mesmo porque o anarquismo não possui uma única vertente, uma "doutrina codificada" (axé, Bakunin!) que una todos os que pensam diferente da mesmice entranhada nos corações e mentes das massas.

É, na verdade, um paradoxo, conclamar os anarquistas a se unirem, a não ser por breves momentos e por causas específicas. E é claro que eu sei disso.



  


Que ninguém se iluda: o sistema não vai cair se você jogar uma bomba nele. Ele simplesmente te joga 10, 100, 1.000 bombas e ainda conta com o apoio natural da mídia e da população, chocadas com a morte de alguém cujo único interesse era registrar fatos, informar no interesse até mesmo e principalmente dos manifestantes nos casos de violência policial.

Estes rapazes que agora serão tratados como criminosos comuns não passam de "bucha de canhão" numa estratégia imbecil e equivocada, incentivada sabe-se lá por quais interesses escusos.




Quanto pior, melhor? É, o PT já pensou assim também e olha aonde ele chegou. Bem alto, né? Só que, quanto maior a altura, maior a queda...

Resumindo, tudo tem sua hora e seu lugar. O movimento de rebelião tem sangue nas mãos e deu vários passos atrás com todo esse quadro lamentável.

O sistema ainda vai cair. Mas será de podre, sob seu próprio peso, e não sob pauladas e pedradas ou mesmo em consequência de "coquetéis moltov" ou fogos de artifício.

Li, não me lembro onde, que dar a outra face não é sinal de fraqueza, mas de protesto; pode bater o quanto quiser: daqui não saio, daqui ninguém me tira!

Que o exemplo de Gandhi e de Nelson Mandela nos inspirem no futuro e não o de uma dupla de garotos irresponsáveis e mal orientados.


POST-SCRIPTUM:

A luta continua. Mas é uma luta de consciências e não uma guerra civil. Infelizmente, parece que tem gente interessada na segunda opção...

E, com certeza, não é com isso que o povo brasileiro sonha.