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quarta-feira, 20 de março de 2013

VIDA FORA DA TERRA




A análise de uma amostra de rocha pelo robô Curiosity encontrou evidências de que Marte pode ter sido ambiente propício para a vida microbiana em eras passadas, afirmou a agência espacial americana (Nasa). Cientistas descobriram nitrogênio, hidrogênio, oxigênio, fósforo, carbono e enxofre, alguns dos elementos essenciais para a presença da vida, em uma amostra de rocha sedimentar coletada e triturada.
Segundo a equação de Drake, as chances de existir vida fora da Terra são de 50%. Muitos ficam com a metade que não autoriza esta possibilidade e consideram perda de tempo e recursos as pesquisas nesse campo.
Entretanto, determinar percentuais nessa área é algo bem arriscado. Por exemplo, se você considerar as variações daquela mesma equação os resultados podem ser tanto entusiásticos quanto decepcionantes.
De qualquer forma, uma experiência de "contato imediato" com vida inteligente fora da Terra ou mesmo a descoberta de vida primitiva (bactérias, por exemplo) transformaria profundamente nosso modo de ver o mundo, talvez alterando imprevisivelmente nossa civilização ou, pelo menos, nos dando uma nova perspectiva com relação às pesquisas biológicas, entre outras consequências (filosóficas, científicas ou religiosas) que tal acontecimento porventura poderia desencadear.

E só isso (é pouco?) já é o bastante para se considerar o assunto importante e digno de pesquisas.




POST-SCRIPTUM:




Sou dos que torcem pelos 50% a favor da existência de vida extraterrestre (seja de que tipo for) e que apoiam tanto a discussão quanto a pesquisa científica sobre o tema, desde que com a devida seriedade e, por favor, sem superficialidades ou proposições absurdas (exceção feita ao cinema, à literatura e aos 'comics').

Opa, acho que me expressei mal: nem sempre os filmes e livros de ficção científica (ou mesmo alguns gibis) são superficiais ou absurdos. Já houve diversos casos em que o assunto foi tratado com seriedade nestas mídias. O que eu quis dizer é que o artista pode 'viajar na maionese' sem se preocupar tanto com detalhes de ordem técnica ou científica. 

"Nictu Klaatu Barada!", como diria o alienígena do filme 'O Dia Em Que A Terra Parou' (o original, bem entendido, de 1951), dirigido por Robert Wise.








sábado, 29 de dezembro de 2012

E O MUNDO NÃO ACABOU...




Salve, salve, minha gente, estamos aí de novo depois de uma longa ausência.

Alguém poderia pensar que eu estava deprimido com a possibilidade de o mundo acabar mesmo e que resolví abandonar tudo para aproveitar e 'curtir' a vida, fazendo as coisas que sempre tive vontade de fazer mas não tinha coragem (aliás, aquele seriado da TV Globo, "COMO APROVEITAR O FIM DO MUNDO", foi realmente muito legal e engraçado, não?). Ou então para me preparar espiritualmente para encarar o derradeiro final de tudo. Nada a ver...






Se bem que lá no fundo (no bom sentido, é claro), talvez eu desejasse inconscientemente que o mundo fosse mesmo para o beleléu; tá feia a coisa! Mas sempre resta uma esperança...

Na verdade eu precisei me ausentar por motivos puramente pessoais que nem valem a pena mencionar; voltemos, portanto, ao 'fim do mundo'. Esse papo, pra quem não sabe, é antigo. Não me recordo agora quem foi que disse que quando isso acontecer não será com um 'BANG!' e sim com um gemido. De dor e lentamente, com certeza. Mas a sensação é de que essa decadência já começou há muito tempo (aliás, desde o começo do Universo: a entropia é um processo irreverssível, sabiam?). Mas a vida não se dá por vencida e novas estrelas continuam nascendo, assim como novos bebês e novos modelos de carros. É como já dizia o menestrel Belchior na canção "Como Nossos Pais": o novo sempre vem (apesar das inevitáveis resistências).

Este suposto 'fim do mundo' que ocorreria em 21 de dezembro de 2012, na minha opinião, não passou de um malentendido devido à interpretação equivocada (inocente ou proposital?) da mídia em geral com relação ao calendário maia.




Não podemos saber com certeza o motivo das tais inscrições em pedra baseadas na observação precisa dos astros (os maias eram exímios astrônomos, mesmo sem possuir telescópios) terminarem abruptamente naquela data fatídica. Pode até ser que arqueólogos encontrem outros calendários de pedra contendo a continuação das previsões astronômicas a partir daí. Ou não.

Mas isso nem é tão importante assim se você pode acreditar que este 'fim do mundo' não é necessariamente o fim no sentido literal. Na verdade pode ser o início de um novo 'começo', aquela tal Era de Aquário que o Zodíaco determina sem muita precisão em torno de nosso novo século (pra quem acredita em horóscopo) e que é tão cara aos esotéricos de plantão e que vem sendo proclamada desde os anos 1960 do século passado por 'hippies', místicos e similares (não me pergunte se a Lua está na sétima casa ou se Júpiter está alinhado com Marte) com ansiosa antecipação e principalmente bastante fé.





Quem sabe? Pode ser que realmente estejamos entrando numa Nova Era de paz e harmonia. Sou meio cético quanto a isso; entretanto me identifico com Caetano Veloso quando este se diz pessimista a curto prazo mas otimista a longo prazo. Admito que é um 'salto de fé' digno de uma Olimpíada, mas não é esse tipo de coisa que faz as pessoas acreditarem que o sol vai nascer amanhã e que o dia de hoje será melhor do que o de ontem? Pois é.

Então é isso aí: aproveitando a oportunidade concedida pelo Ano Novo que se avizinha vamos torcer para que o 'fim' seja mais um 'começo' e que tudo será melhor daqui pra frente (ainda que com um pé atrás...).

Pois que venha portanto a tão badalada Nova Era, com suas promessas de encanto e felicidade. Amém!



POST SCRIPTUM:



Falando com toda a seriedade (a maioria das pessoas leva esses assuntos na brincadeira, as vezes eu mesmo), nossa cultura ocidental tem o costume de ridicularizar ou diminuir todo tipo de informação derivada de civilizações mais antigas, com base no pensamento "científico" e/ou "racional" predominante em nossa era atual, esquecendo que tudo é uma questão de "modos" de linguagem que remetem a visões de mundo diferentes e nem sempre compatíveis. 






Além do mais, "fim do mundo" não precisa necessariamente ser interpretado literalmente: as "coisas" e pessoas podem continuar todas por aí e, ainda assim, um certo tipo de "mundo" acabar por completo. Ah, e não nos esqueçamos que diversos povos da antiguidade eram excelentes astrônomos, ainda que esta atividade estivesse ligada principalmente à atividades religiosas, mas nem por isso estariam incorretas do ponto de vista científico moderno. 



Mais respeito e um entendimento filosófico mais aprofundado com relação a outros povos e culturas é uma das maiores carências de nossa civilização atual (sem falar em solidariedade, honestidade, coerência, etc, etc, etc; mas isso já é outro assunto. Ou não?).


Mas não fiquem tristes se tudo isso não passar de mais uma jogada de 'marketing' da mídia e dos 'podres poderes' que nos oprimem nas sombras ou mesmo em plena luz do dia...  

  

domingo, 13 de fevereiro de 2011

BIG BANG POETRY




In an Universe
Doomed by entropy,
That cruel and cold 
Unavoidable death

Will dark matter 
Add enough to total mass 
So gravity wins over 
Inflationary expansion?





Forces centrifugal 
Giving way to centripetal, 
Reversing the arrow of time
In a Big Crunch?

Through the nexus of 
A supreme singularity
Into the heart of 
An all-consuming Black Hole






Something called Reality 
(Relatively speaking)
Would fold into itself 
To greet patient Oblivion


When extremities shall meet
Yesterday becomes tomorrow
The all that is nothing, 
The nothing that is all...




Will the mother 
Of all White Holes 
Throw 'It' elsewhere/elsewhen 
In a reverse motion?

Or will the explosive Universe,
Going beyond
Its own event’s horizon,
Get unimaginably bigger and cooler?





To die...  
At last... 
As a timeless and infinite void, 
Devoid of all light and heat?

Or is a cosmological constant 
Reigning over?
Is a systolic/diastolic cosmic metabolism 
The rule?






Will the fabric of reality 
Tear itself apart 
By it's own 
never-ending growth?

Does Eternal Return 
Have anything to do 
With conventional concepts 
Of beginning and end?





Maybe it's all parts 
And no whole
As in the poet's intuition 
About the so-called mystery

Or it could be 
A circular "motu continuo":
The Ouroboros 
Eating its own tail





Be it a non-dimensional zero, 
A complex fractal infinity,
Or even an unthinkable 
Combination of both

According to Heisenberg 
And Bohr’s way
Ying and Yang must preserve 
The equilibrium of the Tao





So, from victorious death
New life must rise 
Again and again 
As ever and ever

Pehaps escaping 
Through myriad Worm Holes
Or replicating itself 
In probability clouds





After No-time 
In No-space,
That never manifested 
Non-being,

(By a Mystery Ineffable 
Fueled by Forces Unknown)
Surfaces from 
The deep Beyond





Creating an Anomaly 
In Hyperspace
And thus igniting 
The eternal Big Bang

A collapsing Chaos 
That died as a Null
Is born again 
As a radiant Unity






Multiplying itself 
In an expanding Cosmos
And generating space-time 
By Necessity

Bringing on inexorable 
Patterns of Order
While opening Fields 
Of interaction




Granted by Chance, 
Blind and mighty,
Creating the Possibility 
Of transformation

Primordial axions 
Coalesce!
Weightless photons 
Coruscate!



Where is all 
The Antimatter 
That should 
Be/Not-be?

What is 
Dark Energy 
And its supposed 
Antigravity?




Why is 
General Relativity 
Incompatible with 
Quantum Mechanics?

Give! 
Me! 
My!
Higg's boson!




Supersimetry, supergravity, superstrings,
Eleven dimensions, p-branas, M-theory,
Mesons and gluons, 
Leptons and quarks

Up, Down 
And Strange! 
Charm, Top 
And Bottom!




If Physics was a religion
All its priests would be praying 
To their gods and saints
In mathemathics' Heaven

Aristotle, Galileo, Newton 
Maxwell, Plank, Einstein
Dirac, Feynman, Hawking
Etcetera, etcetera, etcetera




Heartly pleading 
For the 'Holy Grail' 
Of an unified theory 
Of Everything

In a Multiverse 
Of impossible possibilities, 
Parallel worlds, 
Transfinite sets and open totalities




Schrödinger’s cat dreams 
About imaginary numbers,
Half-dead, half-alive 
Inside a hidden variable

When Energy 
Becomes Mass 
By polarization into 
Opposite particles

And wave patterns 
Interfere among themselves
There is just one thing for sure:
Uncertainty...



Arte: 'DEVIRES', desenho de Aroldo Lacerda




POST-SCRIPTUM:


De vez em quanto gosto de me arriscar a traçar algumas linhas poéticas, seja em português ou em inglês. Neste caso, trata-se de uma tentativa 'filosófica' de abordar a cosmologia a partir de alguns conceitos da física teórica.

BECOMING = DEVIR [do latim ‘devenire’] - Verbo intransitivo; vir a ser, tornar-se, devenir.






domingo, 22 de agosto de 2010

A QUESTÃO PITAGÓRICA




[Capítulo I do livro “PITÁGORAS E OS PITAGÓRICOS – UMA BREVE HISTÓRIA” (Ed. Loyola, S. Paulo, 2007 – ISBN: 978-85-15-03301-0), da autoria de Charles H. Kahn, professor de filosofia na University of Pennsylvania, especialista em Filosofia Antiga e História da Teoria Política]



Pitágoras não é apenas o nome mais famoso na história da filosofia antes de Sócrates e Platão; ele é também uma das figuras mais fascinantes e misteriosas da Antiguidade.

Pitágoras foi celebrado nas tradições antigas como matemático e filósofo da matemática, e seu nome continua associado a um importante teorema da geometria plana. Aristóteles afirma que a própria filosofia de Platão foi profundamente influenciada pelo ensinamento pitagórico(1), e autores posteriores consideraram Pitágoras o criador da tradição platônica na filosofia. Na literatura da Antiguidade tardia, Pitágoras surge como um gênio único, o pai fundador da matemática, da música, da astronomia e da filosofia.

Um platônico moderno, o matemático e filósofo do século XX A. N. Whitehead, descreveu Pitágoras como o primeiro pensador a valorizar a função das idéias matemáticas no pensamento abstrato: “Ele insistiu na importância da máxima generalidade no raciocínio e percebeu a importância do número como auxiliar na construção de qualquer representação das condições envolvidas na ordem da natureza”(2).

Whitehead está ecoando os antigos relatos que creditavam a Pitágoras a invenção da própria noção de filosofia, a primeira descrição da natureza como um cosmos ou todo ordenado, a descoberta da esfericidade da Terra, o desenvolvimento da teoria dos proporcionais na matemática, a identificação dos cinco sólidos regulares e a descoberta das razões numéricas subjacentes às concordâncias musicais básicas(3). Como ele é representado como a maior mente científica da Grécia primitiva, se não de toda a Antiguidade, seus admiradores antigos vieram a enxergá-lo como a fonte de toda a sabedoria, o “príncipe e pai da filosofia divina”, nas palavras de Jâmblico(4).

Há, porém, o outro lado da imagem. Algumas das primeiras referências a Pitágoras são ambíguas ou satíricas. Heráclito ataca-o como charlatão inteligente: seu saber é grande, mas sua sabedoria é fraudulenta(5). Eduard Zeller, na sua grande história da filosofia grega, publicada no século XIX, reconheceu que a comunidade pitagórica era antes de tudo uma seita e culto, e que, no primeiro século após sua morte, Pitágoras era conhecido, acima de tudo, pelo ensinamento da imortalidade e da reencarnação(6). Zeller era cético quanto às conquistas científicas de Pitágoras, e seu ceticismo foi reforçado pelo trabalho crítico de vários estudiosos mais recentes.

Mas o julgamento mais extremado foi o de Erick Frank, que afirmou que “todas as descobertas atribuídas ao próprio Pitágoras ou aos seus discípulos por autores posteriores foram, na realidade, a conquista de certos matemáticos do sul da Itália na época de Platão”, um século inteiro após Pitágoras, e que estes matemáticos não tinham nenhuma ligação essencial com os "pitagóricos genuínos que são atestados (...), desde o século VI, como uma seita religiosa similar àquela dos órficos”(7).

Uma conclusão muito mais moderada, mas tendendo na mesma direção, foi obtida por Walter Burkert, em seu monumental estudo Weisheit und Wissenschaft, publicado em 1962 (com uma tradução revista para o inglês em 1972), que transformou nossa compreensão das tradições antigas em torno de Pitágoras e sua escola(8). Burkert rastreia a cosmologia pitagórica e sua filosofia dos números, relatadas por Aristóteles, até o tempo de Filolau, em meados ou fins do século V, mas não encontra nenhum indício que o ligue ao fundador da escola. O próprio Pitágoras, na visão de Burkert, é uma figura xamanística, um líder espiritual e organizador carismático (como Moisés, talvez), que exerceu uma grande influência na vida cívica da Magna Grécia, mas que não contribuiu com nada para a matemática ou a filosofia.

Há dois problemas distintos aqui. Um é a questão estritamente histórica referente à extensão de nosso conhecimento ou nossa ignorância a respeito de Pitágoras e sua escola. O outro é uma questão filosófica mais complexa, referente ao conceito mesmo do que seja “pitagórico” e sua reverberação ao longo dos tempos. Por que a figura de Pitágoras atingiu tamanho prestígio? E em que sentido certos aspectos influentes da obra de Platão são peculiarmente “pitagóricos”?

Burkert demonstrou conclusivamente que a concepção de filosofia pitagórica que é tida como certa na Antiguidade tardia é essencialmente o trabalho de Platão e de seus discípulos imediatos. Mas por que estes pensadores eram atraídos por Pitágoras e por que é justamente o elemento pitagórico no pensamento de Platão que prevaleceu tão poderosamente na Antiguidade e que ressurge em tantos desenvolvimentos modernos na ciência e nas artes?

Há dois aglomerados de idéias bem diferentes que explicam a persistente vitalidade da tradição pitagórica. O primeiro, enfatizado em nossa citação de Whitehead, é a tentativa de compreender e explicar a natureza das coisas em termos matemáticos. Como relata Aristóteles, os pitagóricos começam observando as razões numéricas das consonâncias musicais ou harmoniai e, ao encontrarem muitos pontos de correspondência entre os números e o mundo, concluíram que “o céu todo é harmonia e número”(9). Esta noção de uma rede de ligações entre a música, a matemática e os fenômenos celestes, que é resumida na noção da música das esferas, constitui um dos dois princípios fundamentais do pensamento pitagórico.

O outro aglomerado de idéias é a concepção da alma como imortal, e portanto potencialmente divina, já que na tradição grega a imortalidade é o atributo distintivo dos deuses. No pensamento pitagórico, a imortalidade é concebida em função da transmigração das almas (com a noção relacionada de parentesco entre todos os seres viventes) e também na possibilidade de purificação e libertação do ciclo do renascimento, da escravidão da forma corporal. (É esta concepção do pós-vida que é comum às tradições órfica e pitagórica.) Essa visão pitagórica da alma é desenvolvida mais sistematicamente no Fédon de Platão, mas surge também na doutrina da recordação em outros diálogos e nos mitos platônicos do julgamento e da preexistência no Fédon, na República e no Fedro.

Por outro lado, a concepção matemático-musical do cosmos recebe sua expressão mais definitiva no Timeu de Platão, no qual a alma do mundo é estruturada pelas razões musicais e o corpo do mundo é organizado a partir de triângulos elementares. A engenhosa geometria e a elaborada aritmética do Timeu são certamente invenção do próprio Platão, assim como a reinterpretação da recordação e da imortalidade em função da compreensão cognitiva das Formas eternas é do próprio Platão. Mas em ambos os casos Platão está trabalhando com temas que, na origem, são inequivocamente pitagóricos.

E foi primariamente por meio destes dois diálogos, o Fédon e o Timeu, que as idéias pitagóricas tornaram-se uma influência tão poderosa no pensamento de séculos posteriores, não apenas na Antiguidade, mas, novamente, no Renascimento e para além, chegando até o nosso tempo.

O envolvimento mútuo das tradições platônica e pitagórica é muito mais complexo e extenso do que isto, como veremos. Mas o Fédon e o Timeu podem servir como emblemas para o que é mais vital e duradouro na contribuição pitagórica para o pensamento ocidental: por um lado, uma compreensão matemática do mundo da natureza; por outro lado, uma concepção do destino humano que aponta para além do mundo visível e para além do corpo mortal, para uma forma superior de vida. É a combinação destas duas concepções que é distintamente pitagórica, mas também distintamente platônica.



(1) ARISTÓTELES, Metafísica, A 6.


(2) A. N. WHITEHEAD, Science and the Modern World, New York, Macmillan, 1925, 41.


(3) Ver, por exemplo, Diógenes LAÉRCIO, VIII 8 e 48; JÂMBLICO, Vita Pythagorica 58, 115-121, 159.


(4) JÂMBLICO, VP 2.


(5) HERÁCLITO, fr. 129: “Pitágoras, filho de Mnesarco, perseguiu a investigação (historie) mais longe do que qualquer outra pessoa e, escolhendo aquilo de que gostava destas composições, produziu uma sabedoria própria, muito saber (polymatheie) e velhacaria ardilosa (kakotechnie)”.


(6) E. ZELLER, Die Philosophie der Greichen in ihrer geschichtlichen Entwicklung, Leipzig, 1892, I.i, 325.


(7) E. FRANK, Platon und die sogenannten Pythagoreer, Halle, 1923, vi.


(8) W. BURKERT, Lore and science in ancient pythagoreanism [tradução inglesa de E. L. Minar Jr., revista pelo autor], Mass., Cambridge, 1972 [Ed. original alemã: Weisheit und Wissencraft: Studien zu Pythagoras, Philolaos und Platon, Nürnberg, 1962].


(9) ARISTÓTELES, op. cit., A 6, 986a3.







quarta-feira, 14 de julho de 2010

HÁ VIDA FORA DA TERRA OU ESTAMOS SÓS?



["NOVOS MUNDOS - EM BUSCA DE NOVAS TERRAS" por Timothy Ferris; publicado em 'National Geographic Brasil', no. 117, de dezembro de 2009]



Foram necessários milhares de anos para que nós, seres humanos, explorássemos nosso próprio planeta, e séculos para que aprendêssemos algo a respeito dos planetas vizinhos, mas hoje novos mundos estão sendo descobertos toda semana. Até agora os astrônomos já identificaram mais de 370 “exoplanetas”, ou seja, corpos celestes girando em torno de outras estrelas além do Sol. Alguns são tão estranhos que confirmam um famoso comentário do biólogo J. B. S. Haldane, segundo o qual “o universo não é só mais bizarro do que imaginamos, mas também mais bizarro do que conseguimos imaginar”.

A 260 anos-luz da Terra, há, por exemplo, uma espécie de “Saturno quente”, que gira em torno de sua estrela com tal velocidade que um ano ali dura menos de três dias. Em volta de outra estrela, a 150 anos-luz, descobriu-se um “Júpiter quente” cuja atmosfera superior está sendo arrancada com tanta força que o planeta exibe uma cauda como se fosse um cometa.

Em meio a esses exemplares exóticos, os cientistas estão empenhados em descobrir indícios de planetas semelhantes à Terra, que giram em torno de suas estrelas a uma distância conveniente – com uma temperatura nem muito alta nem muito baixa – para manter a vida tal como a conhecemos. Identificar um planeta tão pequeno e pálido como o nosso em meio ao brilho de sua estrela é como tentar distinguir um vagalume em uma explosão de fogos e detectar sua influência gravitacional sobre a estrela é como ouvir um grilo durante um tornado. No entanto, aperfeiçoando sem cessar as tecnologias já disponíveis, os astrônomos estão cada vez mais próximos do dia em que vão topar com uma outra Terra.

Apenas 11 exoplanetas, todos eles de grande porte, brilhantes e distantes de suas estrelas, foram até hoje fotografados. A maioria dos outros foi detectada graças ao uso de uma técnica baseada no efeito Doppler, que analisa o espectro da luz emitida pela estrela a fim de detectar indícios de que ela está sendo deslocada pela força gravitacional de seus planetas. Os astrônomos hoje podem dizer quando uma estrela altera sua posição normal em apenas 1 metro por segundo – a velocidade de um ser humano caminhando. Isto é suficiente para identificar a presença de um planeta gigante em órbita distante ou de um planeta pequeno próximo da estrela, mas não algo parecido com a Terra, em órbita a 150 milhões de quilômetros do Sol. A Terra altera a posição do Sol em 10 centímetros por segundo, ou seja, a velocidade de um bebê engatinhando. E uma diferença tão ínfima ainda não pode ser distinguida na luz emitida por estrelas distantes.

Outra técnica se baseia na verificação de ligeiras variações periódicas no brilho da estrela, que devem ocorrer sempre que um planeta do sistema passa diante dela e bloqueia uma fração de sua luminosidade. No máximo, um décimo de todos os sistemas planetários está orientado de tal modo que esses minieclipses, os “trânsitos”, sejam visíveis da Terra. Isso significa que os pesquisadores precisam monitorar muitas estrelas a fim de captar apenas alguns trânsitos. O satélite francês Corot descobriu assim sete exoplanetas – um deles é apenas 70% maior que o nosso.

O satélite americano Kepler é o sucessor mais ambicioso do Corot. Lançado do cabo Canaveral em março de 2009, o Kepler é basicamente uma grande câmera digital com uma abertura de 95 centímetros e um detector de 95 megapixels. Ele faz fotos a cada 30 minutos, captando a luz de mais de 100 mil estrelas em uma única região do céu, entre as estrelas de Deneb e Vega. Computadores monitoram o brilho desses milhares de estrelas ao longo do tempo, alertando os pesquisadores quando ocorre ligeiro obscurecimento que poderia indicar o trânsito de algum planeta.

Os cientistas que trabalham com o Kepler só anunciam a presença de algum planeta depois de o trânsito ter sido registrado pelo menos três vezes. Se conseguirem descobrir um planeta rochoso com o tamanho aproximado ao da Terra e numa órbita habitável – nem tão próxima da estrela, a ponto de toda sua água ser vaporizada, nem tão distante, a ponto de ela congelar –, eles terão encontrado o que, de acordo com os biólogos, poderia ser um refúgio propício à vida.

As candidatas mais promissoras talvez sejam as estrelas anãs, menores que o Sol. Há uma profusão dessas estrelas, e suas vidas são longas e estáveis, emitindo um fluxo constante de radiação para qualquer planeta dotado de vida que esteja orbitando nas zonas habitáveis do sistema. Quanto menos brilhante é a estrela, mais próximas ficam as zonas habitáveis, de modo que a observação dos trânsitos pode dar resultado em bem menos tempo. Um planeta mais próximo também exerce uma atração gravitacional mais forte sobre a estrela, o que torna mais fácil confirmar sua presença com a técnica Doppler. Na verdade, o planeta mais promissor já encontrado – a “super-Terra” Gliese 581 d, com massa sete vezes maior que a do nosso planeta – orbita na zona habitável de uma estrela anã vermelha que tem apenas um terço da massa de nosso Sol.

Caso planetas similares à Terra sejam achados no interior das zonas habitáveis de outras estrelas, um telescópio espacial específico, projetado para detectar sinais de vida, poderia no futuro captar o espectro da luz emitida por tais planetas e examiná-lo em busca de possíveis “bioassinaturas”, como a presença na atmosfera de metano, ozônio e oxigênio. Não seria uma tarefa fácil.

Enquanto se debatem com o intimidante desafio de efetuar análises químicas de planetas que nem sequer conseguem ver, os cientistas empenhados na busca de vida extraterrestre não podem descartar a possibilidade de que ela seja muito diferente daquela que conhecemos. A evolução biológica é tão intrinsecamente imprevisível que mesmo se a vida surgisse em um planeta idêntico ao nosso na mesma época em que apareceu aqui, a vida nesse planeta certamente seria hoje muito diversa da terrestre.

Como disse certa vez o biólogo Jacques Monod, a vida evolui não apenas em função da necessidade – do funcionamento universal das leis naturais – como também do acaso, da intervenção imprevisível de incontáveis acidentes. O acaso manifestou-se muitas vezes na história de nosso planeta, e de forma dramática no caso das várias extinções em massa, criando assim espaço para o desenvolvimento de novas formas de vida. Alguns desses acidentes parecem ter sido causados pela colisão de cometas e asteróides com a Terra – o mais recente desses acidentes foi o impacto, há 65 milhões de anos, que exterminou os dinossauros. Por esse motivo, os cientistas não buscam apenas por exoplanetas parecidos com a Terra atual mas por aqueles que se assemelhem a versões passadas. “A Terra moderna pode ser o pior modelo para usarmos na busca de vida em outras partes”, diz Caleb Scharf, diretor do Centro de Astrobiologia da Universidade Colúmbia.

Não foi nada fácil aos primeiros exploradores fazer uma idéia da profundeza dos oceanos, mapear o lado oculto da Lua ou distinguir indícios da presença de oceanos sob as superfícies congeladas das luas de Júpiter – e também não será fácil encontrar vida nos planetas de outras estrelas. Mas agora temos bons motivos para crer que devem haver bilhões de tais planetas, e eles guardam a promessa de expansão não só do horizonte do conhecimento humano mas também da imaginação humana.

Durante milhares de anos, nós conhecíamos tão pouco a respeito do universo que priorizamos nossas fantasias, em detrimento da realidade. (Como escreveu o filósofo espanhol Miguel de Unamuno, o misticismo dos visionários religiosos do passado surgiu de uma “intolerável disparidade entre a imensidão de seus desejos e a estreiteza da realidade”.) Agora, com os avanços da ciência, tornou-se mais que evidente que a assombrosa criatividade da natureza supera em muito a nossa. E já se descortinam inumeráveis mundos novos, cada qual com a sua história.

Sempre se achou, ao longo da história, que só havia um planeta como a Terra no universo. Mas logo talvez haja outra Terra. E outra. E mais outra. No fim de 2009, o número de exoplanetas (que giram em torno de uma estrela que não seja o Sol) conhecidos era de 373. Nos últimos anos, foram achados 13 planetas rochosos com dimensões similares à Terra e girando em torno de estrelas parecidas com o Sol.

Além de nosso Sol, já se comprovou que 316 outras estrelas são orbitadas por um ou mais planetas. Não é fácil imaginar suas distâncias: com exceção das mais próximas, a luz delas levou séculos para chegar até nós. Os planetas se formam do disco de gás e resíduos sólidos que circunda uma estrela recém-formada. Entre os diversos tipos de estrela, algumas são ainda muito jovens e quentes para que haja a possibilidade de contarem com planetas parecidos com a Terra.

Os braços de nossa galáxia espiralam a partir de uma barra central de estrelas com 27 mil anos-luz de comprimento. Nosso sistema solar está situado em um braço menor, o de Órion, assim chamado por estar próximo dessa constelação. A maioria dos exoplanetas até agora encontrados gira em torno de estrelas situadas a uma distância de até 400 anos-luz do sistema solar. O satélite Kepler, da NASA, agora está monitorando estrelas até 6 mil anos-luz distantes do braço de Órion. Estrelas parecidas com o Sol, situadas no intervalo de 600 a 1,8 mil anos-luz da Terra, são consideradas as mais promissoras.

“Não há nada que impeça uma infinidade de mundos”, escreveu o filósofo grego Epicuro 23 séculos atrás. Hoje, com as imagens cada vez mais nítidas de regiões remotas do espaço, essa idéia voltou a ganhar peso. Uma visão panorâmica de nossa galáxia, a Via Láctea, refulge com mais de 100 bilhões de estrelas – e bilhões delas provavelmente contam com seus próprios sistemas solares. Com instrumentos precisos, os astrônomos esperam descobrir planetas semelhantes à Terra – alguns, talvez, com todas as condições para a vida.




POST-SCRIPTUM:




'The Truth Is Out There'. Ou não?

Eu não diria a "Verdade" - existiria tal quimera, a não ser num sentido metafórico e exclusivamente pessoal? -, mas pelo menos mais uma parte do quebra-cabeça que permitirá ao homem compreender melhor este Universo surpreendente em que vivemos.