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sexta-feira, 24 de abril de 2015

O SER E O EVENTO (2)



[Introdução; O SER E O EVENTO; ALAIN BADIOU; Jorge Zahar Editor; Editora UFRJ]



O enunciado (filosófico) segundo o qual as matemáticas são a ontologia - a ciência-do-ser-enquanto-ser - foi a réstia de luz que iluminou a cena especulativa que, em minha Teoria do Sujeito, eu havia limitado, pressupondo pura e simplesmente que "havia" subjetivação. A compatibilidade desta tese com uma ontologia possível me preocupava, pois a força - e a absoluta fraqueza - do "velho marxismo", do materialismo dialético, fora postular tal compatibilidade sob a forma da generalidade das leis da dialética, isto é, afinal da contas, do isomorfismo entre a dialética da natureza e a dialética da história. Sem dúvida, esse isomorfismo (hegeliano) era natimorto. Quando nos batemos, até hoje, do lado de Prigogine e da física atômica para encontrar aí corpúsculos dialéticos, não passamos de sobreviventes de uma batalha que nunca foi seriamente travada senão sob as injunções um tanto brutais do Estado stalinista. A Natureza e sua dialética nada tem a ver com isso. Mas que o processo-sujeito seja compatível com o que é pronunciável - ou pronunciado - do ser, eis uma dificuldade séria, que, aliás, eu havia apontado na pergunta feita sem rodeios por Jacques-Alain Miller a Lacan em 1964: "Qual é sua ontologia?" Nosso mestre, esperto, respondeu por uma alusão ao não-ente, o que era apropriado, mas curto. Da mesma maneira, Lacan, cuja obsessão matemática só fez crescer com o tempo, havia indicado que a lógica pura era "ciência do real". O real continua sendo, contudo, uma categoria do sujeito.

Tateei durante vários anos em torno dos impasses da lógica - uma exegese cerrada dos teoremas de Lowënhein-Gödel, de Tarski - sem ultrapassar o quadro da Teoria do Sujeito senão pela sutileza técnica. Sem me dar conta, eu continuava sob o domínio de uma tese logicista, que sustenta que a necessidade dos enunciados lógico-matemáticos é formal, porquanto resulta da erradicação de todo efeito de sentido, e que, de todo modo, não convém interrogar sobre aquilo por que esses enunciados são responsáveis, fora de sua consistência. Eu me enredava na consideração de que, supondo que há um referente do discurso lógico-matemático, não escapávamos da alternativa de pensá-lo, seja como "objeto" obtido por abstração (empirismo), seja como Ideia supra-sensível (platonismo), dilema em que nos encurrala a distinção anglo-saxã universalmente reconhecida entre as ciências "formais" e as ciências "empíricas". Nada disso era coerente com a clara doutrina lacaniana segundo a qual o real é o impasse da formalização. Eu estava no caminho errado.


Foi finalmente ao acaso de pesquisas bibliográficas e técnicas sobre o par discreto/contínuo que passei a pensar que era preciso mudar de terreno, e formular, quanto às matemáticas, uma tese radical. Pois o que me pareceu constituir a essência do famoso "problema do contínuo" era que tocávamos aí um obstáculo intrínseco ao pensamento matemático, em que se dizia o impossível próprio que lhe funda o domínio. Considerando bem os paradoxos aparentes das investigações recentes sobre a relação entre um múltiplo e o conjunto de suas partes, acabei por pensar que só havia aí figuras inteligíveis se admitíssemos de antemão que o Múltiplo seja, para os matemáticos, não um conceito (formal) construído e transparente, mas um real cujo descompasso interior, e o impasse, a teoria manifestava.


Cheguei então à certeza de que era preciso postular que as matemáticas escrevem aquilo que, do próprio ser, é pronunciável no campo de uma teoria pura do Múltiplo. Toda a história do pensamento racional pareceu-me esclarecer-se a partir do momento em que adotávamos a hipótese de que as matemáticas, longe de serem um jogo sem objeto, extraem a severidade excepcional da sua lei do fato de estarem condenadas a sustentar o discurso ontológico. Por uma inversão da questão kantiana já não se tratava de perguntar: "Como a matemática pura é possível?" e de responder: graças ao sujeito transcendental. Mas sim: sendo a matemática pura ciência do ser, como um sujeito é possível?





quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ESTRANHEZA QUÂNTICA: O ABISMO E A PONTE


[Editado do cap. I do livro "O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE" da autoria de AMIT GOSWAMI, publicado pela EDITORA ROSA DOS TEMPOS]


Enfrentamos hoje na física um grande dilema. Na física quântica - a nova física - descobrimos um marco teórico que funciona. Explica um sem-número de experimentos de laboratório, e muito mais.

A física quântica deu origem a tecnologias de imensa utilidade, tais como as de transistores, lasers e supercondutores. Ainda assim, não conseguimos extrair sentido da matemática da física quântica sem sugerir uma interpretação dos resultados experimentais que numerosos indivíduos só podem considerar como paradoxal, ou mesmo inaceitável.

Vejamos, como exemplo, as propriedades quânticas seguintes: 

a) Um objeto quântico (como, por exemplo, um elétron) pode estar no mesmo instante, em mais de um lugar (a propriedade da onda);

b) Não podemos dizer que um objeto quântico se manifeste na realidade comum espaço-tempo até que o observemos como uma partícula (o colapso da onda);

c) Um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico);

d) A manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato - pouco importando a distância que os separa (ação quântica à distância).



Não podemos ligar a física quântica a dados experimentais sem utilizar alguns esquemas de representação, e a interpretação depende da filosofia com que encaramos os dados. A filosofia que há séculos domina a ciência ( o materialismo físico) supõe que só a matéria - que consiste de átomos ou, em última análise, de partículas elementares - é real. Tudo mais são fenômenos secundários da matéria, apenas uma dança dos átomos constituintes. Essa visão do mundo é também denominada de realismo porque se presume que os objetos sejam reais e independentes dos sujeitos, nós, ou da maneira como os observamos.


A ideia, contudo, de que todas as coisas são constituídas de átomos é uma suposição não provada. Não se baseia em prova direta no tocante a todas as coisas. Quando a nova física nos desafia com uma situação que parece paradoxal, quando vista da perspectiva do realismo materialista, tendemos a ignorar a possibilidade de que os paradoxos possam estar surgindo por causa da falsidade de nossa suposição não comprovada. (Tendemos a esquecer que uma suposição mantida por longo tempo não se transforma, por isso, em verdade, e, não raro, não gostamos que nos lembrem disso.)

 

Atualmente, numerosos físicos desconfiam que há alguma coisa de errado no realismo materialista, mas têm medo de sacudir o barco que lhes serviu tão bem, por tanto tempo. Não se dão conta de que o bote está à deriva e precisa de novo rumo, sob uma nova visão do mundo.

Há, por acaso, uma alternativa ao realismo materialista? Essa tese esforça-se, sem sucesso, a despeito de seus modelos de computador, para explicar a existência da mente, em especial o fenômeno de uma autoconsciência causalmente potente.

"O que é consciência?"

O realismo materialista tenta ignorar a pergunta com um encolher de ombros e com a resposta arrogante de que ela nenhuma importância tem. Se, contudo, estudamos, por menor que seja a seriedade, todas as teorias que a mente consciente constrói (incluindo as que a negam), então a consciência tem, de fato, importância.


POST-SCRIPTUM:

Eu escutei
E olhei
Com olhos bem abertos.
Verti minha alma
No mundo
Procurando o desconhecido 
No conhecido.
E canto em altos brados
O meu assombro!

- Rabindranath Tagore






domingo, 13 de fevereiro de 2011

BIG BANG POETRY




In an Universe
Doomed by entropy,
That cruel and cold 
Unavoidable death

Will dark matter 
Add enough to total mass 
So gravity wins over 
Inflationary expansion?





Forces centrifugal 
Giving way to centripetal, 
Reversing the arrow of time
In a Big Crunch?

Through the nexus of 
A supreme singularity
Into the heart of 
An all-consuming Black Hole






Something called Reality 
(Relatively speaking)
Would fold into itself 
To greet patient Oblivion


When extremities shall meet
Yesterday becomes tomorrow
The all that is nothing, 
The nothing that is all...




Will the mother 
Of all White Holes 
Throw 'It' elsewhere/elsewhen 
In a reverse motion?

Or will the explosive Universe,
Going beyond
Its own event’s horizon,
Get unimaginably bigger and cooler?





To die...  
At last... 
As a timeless and infinite void, 
Devoid of all light and heat?

Or is a cosmological constant 
Reigning over?
Is a systolic/diastolic cosmic metabolism 
The rule?






Will the fabric of reality 
Tear itself apart 
By it's own 
never-ending growth?

Does Eternal Return 
Have anything to do 
With conventional concepts 
Of beginning and end?





Maybe it's all parts 
And no whole
As in the poet's intuition 
About the so-called mystery

Or it could be 
A circular "motu continuo":
The Ouroboros 
Eating its own tail





Be it a non-dimensional zero, 
A complex fractal infinity,
Or even an unthinkable 
Combination of both

According to Heisenberg 
And Bohr’s way
Ying and Yang must preserve 
The equilibrium of the Tao





So, from victorious death
New life must rise 
Again and again 
As ever and ever

Pehaps escaping 
Through myriad Worm Holes
Or replicating itself 
In probability clouds





After No-time 
In No-space,
That never manifested 
Non-being,

(By a Mystery Ineffable 
Fueled by Forces Unknown)
Surfaces from 
The deep Beyond





Creating an Anomaly 
In Hyperspace
And thus igniting 
The eternal Big Bang

A collapsing Chaos 
That died as a Null
Is born again 
As a radiant Unity






Multiplying itself 
In an expanding Cosmos
And generating space-time 
By Necessity

Bringing on inexorable 
Patterns of Order
While opening Fields 
Of interaction




Granted by Chance, 
Blind and mighty,
Creating the Possibility 
Of transformation

Primordial axions 
Coalesce!
Weightless photons 
Coruscate!



Where is all 
The Antimatter 
That should 
Be/Not-be?

What is 
Dark Energy 
And its supposed 
Antigravity?




Why is 
General Relativity 
Incompatible with 
Quantum Mechanics?

Give! 
Me! 
My!
Higg's boson!




Supersimetry, supergravity, superstrings,
Eleven dimensions, p-branas, M-theory,
Mesons and gluons, 
Leptons and quarks

Up, Down 
And Strange! 
Charm, Top 
And Bottom!




If Physics was a religion
All its priests would be praying 
To their gods and saints
In mathemathics' Heaven

Aristotle, Galileo, Newton 
Maxwell, Plank, Einstein
Dirac, Feynman, Hawking
Etcetera, etcetera, etcetera




Heartly pleading 
For the 'Holy Grail' 
Of an unified theory 
Of Everything

In a Multiverse 
Of impossible possibilities, 
Parallel worlds, 
Transfinite sets and open totalities




Schrödinger’s cat dreams 
About imaginary numbers,
Half-dead, half-alive 
Inside a hidden variable

When Energy 
Becomes Mass 
By polarization into 
Opposite particles

And wave patterns 
Interfere among themselves
There is just one thing for sure:
Uncertainty...



Arte: 'DEVIRES', desenho de Aroldo Lacerda




POST-SCRIPTUM:


De vez em quanto gosto de me arriscar a traçar algumas linhas poéticas, seja em português ou em inglês. Neste caso, trata-se de uma tentativa 'filosófica' de abordar a cosmologia a partir de alguns conceitos da física teórica.

BECOMING = DEVIR [do latim ‘devenire’] - Verbo intransitivo; vir a ser, tornar-se, devenir.






domingo, 31 de maio de 2009

NADA NASCE DO NADA?





Gostaria de discutir o conceito de nada subentendido em afirmações do tipo "nada nasce do nada"; podemos definir com exatidão o conceito de "nada"? Em princípio, a intuição mais imediata que poderíamos ter a respeito do mesmo seria pensar em termos de não-existência em oposição à existência; ou seja, o “nada” seria então um “não-conceito”. Mas, se ele é pensável de alguma forma, deveríamos ser capazes de conceituá-lo; ou não?

É isso que, com algum esforço de imaginação, pretendemos tentar aqui, tomando de empréstimo algumas das idéias derivadas das meditações de Heidegger, Nietzsche e Wittgenstein, por exemplo, bem como da filosofia do Existencialismo, da Mecânica Quântica na Física, da Teoria dos Conjuntos e da Álgebra Booleana na Matemática, do Taoísmo chinês e das intuições poéticas de Hesíodo, Heráclito e Parmênides.

Primeiramente vamos imaginar que, mesmo enquanto algo que “não é”, o Nada possa se pensado como algo que “é”, na medida em que ele é pronunciável, ou seja, existe a possibilidade de se dizer alguma coisa a seu respeito; por mais absurdo que pareça, e contra toda lógica convencional, poderíamos propor-lhe uma “identidade”, a título de exercício de abstração, que pudesse ser definida?

Tendo em vista esta proposta, o Nada, enquanto “inexistente”, poderia ser “classificado”? E como fazê-lo? Seria lícito começar nos indagando de que maneira a não-existência se manifestaria enquanto idéia, ou como produto do pensamento, dentro dos limites que nossa imaginação permite conceber o Nada enquanto algo que “é”, ainda que contra toda intuição que nos leva a afirmar que ele “não é”.

Neste contexto, portanto, caberia fazermos as seguintes perguntas:

Seria o Nada um componente extrafísico da realidade, algo como a exdrúxula "matéria escura" do Universo (à qual os físicos atribuem inclusive "gravidade negativa"), concomitante à existência empírica, porém, para quase todos os efeitos, virtualmente indetectável?

Ou seria algo como um estado quântico da matéria, uma alternativa à existência material?

Seria o Nada passível de constituir-se como uma "antirealidade" física (em analogia à antimatéria) localizada numa dimensão à parte da existência convencional?

Ou seria tão somente a representação de uma idéia sem substância, mera convenção linguística, e, portanto apenas simbólico da ausência total?

Seria o Nada a "essência última" da realidade, sendo todo o resto uma "mera ilusão"?

Ou seria ele próprio apenas um produto de nossa imaginação delirante, não tendo qualquer sentido prático ou teórico?

Essas perguntas abrem um leque de possibilidades filosóficas. Uma resposta estritamente “racional” seria a de que "tanto faz": o Nada, por definição, não existe, como já observamos.

Entretanto, "alguma coisa" existe em contrapartida a “coisa nenhuma” e está em perpétua tensão conceitual com a não-existência pela via da relação de oposição bem concreta entre a vida e a morte, por exemplo; portanto, algum Nada participa da existência humana em seu aspecto tanto psíquico quanto físico, na medida em que a morte é um evento observável e, até certo ponto, quantificável enquanto parte integrante e indissociável do fenômeno da vida; ele tem sem dúvida um sentido simbólico e gramatical, mas tem também um sentido existencial e trágico, o que me permite tratá-lo – o Nada – como "alguma coisa" atualizável, pelo menos em teoria.

O próximo passo seria admitir que o Nada possuísse uma "existência" bizarra e peculiar, participando efetiva e simultaneamente na elaboração de minhas definições de atual e potencial, real e imaginário, concreto e abstrato, adquirindo, assim, características paradoxais tanto de absoluto quanto de relativo; um nada "impuro", híbrido, tautológico enquanto gerador de infinitos positivos e negativos auto-aniquilantes e ainda assim atualizáveis, imóvel enquanto condição e "ponto de partida" de todo movimento, simultaneamente transcendente e imanente a si próprio, capaz de desdobrar-se e projetar-se em emanações contínuas, contaminadas por um movimento de negação da negação (e portanto de superação da superação); circular e perpétuo, simultaneamente ascendente e descendente, centrífugo e centrípeto, acumulativo e dissipativo, desviante e autoreferente; imbuído, portanto, da tendência a vir a ser tudo, ou melhor, qualquer coisa.

Teríamos então, em nossas mãos, expressando-nos poeticamente, o Kaos descrito na "Teogonia" de Hesíodo, mas inserido em um equilíbrio dinâmico e bipolar, melhor representado, talvez, pelo símbolo taoísta da dualidade yin/yang (positivo/negativo), pleno de vida, mas também de morte, com potencial tanto para a criação quanto para a destruição, em tensão e em movimento, capaz de realizar pequenas mudanças ou grandes transformações, o "paradoxo original".

Tudo isso nos leva a pensar nos pares virtuais partícula/antipartícula da física, surgindo e se aniquilando em seguida no vácuo quântico, que é, por definição, um "espaço vazio". Mas o espaço é também um campo, ainda segundo as definições da física e, de acordo com o princípio da incerteza de Heisenberg, nenhum campo pode medir precisamente zero, pois sempre haverá uma incerteza mínima, que pode ser imaginada como uma variação minúscula que vai de um valor ligeiramente superior a zero (positivo) a outro ligeiramente inferior a zero (negativo), mas nunca efetivamente zero.

Como não podemos ter o “nada” manifestado como presença, já que ele é a própria definição de ausência, temos pares de partículas virtuais entrando e saindo da realidade, o que explica as oscilações mínimas acima e abaixo de zero, um exemplo típico da manifestação daquele equilíbrio dinâmico que descrevemos acima.

O “nada”, ou melhor, o “vazio”, é também um conceito pertinente à Teoria dos Conjuntos na matemática. O conjunto vazio dá origem, no que poderia ser descrito como uma espécie de "mágica" determinada pela axiomática, a partir de sua própria admissão, a toda infinidade numérica natural. Ele é o “pano de fundo” a partir do qual qualquer apresentação de um evento se faz possível, como diria o filósofo francês Alain Badiou.

Por outro lado o algarismo “zero”, apesar de aritmeticamente simbolizar a ausência total é, paradoxalmente, ainda segundo a Teoria dos Conjuntos, elemento de um conjunto unitário. Este "monoteísmo cabalístico" de uma lógica aparentemente surrealista tem o potencial para gerar uma infinidade de "deuses" aritméticos: { } = 0; {0} = 1; {0, 0} = 2; {0,0,0} = 3; e assim sucessivamente.

Por outro lado, podemos entender a sequência dos números inteiros, positivos e negativos, como um truísmo onde 0 = 0, já que tanto o infinito positivo quanto o infinito negativo tendem a anular-se mutuamente (+1-1 = 0; +2-2 = 0; +3-3 = 0; etc, etc, etc).

Só para reforçar nossa argumentação, podemos citar também a forma como se representam os algarismos na lógica binária (utilizando-se apenas as cifras 0 e 1), que é utilizada como ponto de partida para qualquer tecnologia baseada na eletricidade; o “um” simboliza um circuito fechado e o “zero”, um circuito aberto, ou seja, a passagem livre ou não de uma corrente elétrica, analogamente à existência e à não-existência, o “ser” e o “não-ser”. Por exemplo, na conversão do sistema decimal para o binário, temos que: 0 = 0000, 1 = 0001, 2 = 0010, 3 = 0011, 4 = 0100, 5 = 0101, 6 = 0110, 7 = 0111, 8 = 1000, 9 = 1001 e 10 = 1010, obedecendo-se sempre ao mesmo raciocínio de alternância de “zeros” e “uns” na sequência que se pretenda representar.

O matemático indiano Pingala apresentou a primeira descrição conhecida de um sistema numérico binário no século III a.C. e um conjunto de 64 hexagramas, análogos a números binários, foi utilizado pelos antigos chineses no texto clássico do “I Ching”. Conjuntos similares de combinações binárias foram utilizados em sistemas africanos de adivinhação tais como o “Ifá”, bem como na geomancia praticada na Idade Média.

O sistema numérico binário moderno foi documentado de forma abrangente por Leibnitz no século XVIII e em 1854, o matemático britânico George Boole publicou um artigo fundamental detalhando um sistema lógico que se tornaria essencial para o desenvolvimento do sistema binário, particularmente em sua aplicação a circuitos eletrônicos.

O sistema binário é base para a álgebra booleana, que permite fazer operações lógicas e aritméticas usando-se apenas dois dígitos ou dois estados (sim ou não, verdadeiro ou falso, tudo ou nada, 1 ou 0, ligado ou desligado). Toda eletrônica digital e computação está baseada nesse sistema binário e na lógica de Boole, que permite representar por circuitos eletrônicos digitais (portas lógicas) os números e caracteres, além de realizar operações lógicas e aritméticas. Os programas de computadores são codificados sob forma binária e armazenados nas mídias (memórias, discos, etc.) sob esse formato.

Ainda neste contexto aparentemente onírico, mas nem por isso menos real, temos os surpreendentes conjuntos dos números irracionais e o dos números imaginários, os quais, apesar de sua existência simbólica na representação de relações abstratas, são indispensáveis aos cálculos necessários para a construção de uma bem concreta usina hidroelétrica, por exemplo.

Tudo isso nos leva a pensar que talvez devamos concordar com Nietzsche, para quem "a concretude só foi inventada para se adaptar às exigências da lógica” e não o contrário, ou seja, a Matemática, com seus “zeros” e “uns”, infinitos positivos e negativos, cálculos diferenciais e integrais, raízes quadradas sem coeficientes reais, “pi”, “aleph” e outras abstrações simbólicas, tem uma existência mais concreta, parafraseando Shakespeare, do que supõe a nossa vã lógica intuitiva.

Eis aí "Deus". Agora posso afirmar que ele existe e é binário; mas porque só um (que na verdade é dois)? Não, ele é também a síntese decorrente de uma dialética trágica que nos remete à admissão do terceiro excluído de Aristóteles no contexto de uma lógica paraconsistente, portanto três. Uma "Santíssima Trindade"?

Aliás, posso recorrer a tantos deuses ou atributos divinos (os números naturais não passam da repetição do mesmo "1", 'ad infinitum') quanto achar necessário para me manter "no bom combate". Projeto-me neles e quero ser "sua imagem e semelhança"; eles e eu somos o falso fingindo ser verdadeiro; somos, simultaneamente, os autores e os atores de uma peça de teatro ("play", em inglês, que também significa jogo, brincadeira) tanto particular quanto coletiva. Mas é um jogo só aparentemente sem regras, muito divertido, mas ao mesmo tempo muito sério; um campo de batalha para guerreiros que se querem imortais e um terreno fértil para a semeadura da glória e do horror.

Assim sendo, à nenhuma instância é lícito reivindicar uma tal autoridade que seja capaz de negar o direito ao desvario da poesia ("poiesis" = criação), essa matriz virtual de toda mitologia, que permite fazer convergir, ao mesmo tempo, por exemplo, o alfa e o ômega do cristianismo, o "übermench" de Nietzsche, os avatares do Hinduísmo, ou mesmo a infinidade de messias e heróis forjadores de lendas, reais ou imaginários, que estão sempre presentes em qualquer cultura, manifestações do Ser de Heidegger, concretizado em alguns entes privilegiados, "mais privilegiados" que a maioria.

Dizem que a vida imita a arte; cabe a nós, imbuídos de certa indiferença trágica, fazermos com que este adágio seja algo mais do que simples palavras para que possamos dar sentido à existência, nos perpetuando em espírito da forma como indica Krishna ao incentivar Arjuna para a guerra contra seus primos no mito do "Bhagavad Gita", alegoria da busca pela realização completa de nosso potencial enquanto seres vivos.

Não podemos nos esquecer também que, como disse Protágoras (e de certa maneira ele tinha razão), "o homem é a medida de todas as coisas". E que é a partir do homem que há de surgir o "para-além-do-homem", desde que escolha as ferramentas mais eficazes à sua disposição neste percurso. A matemática, a música, a poesia e a filosofia estão, sem sombra de dúvida, entre elas, ainda que o intercambio entre as mesmas não seja atualmente tão fecundo quanto já foi ou ainda pode vir a ser.


POST-SCRIPTUM:


Viagem pouca é bobagem; aliás essa cannabis é mesmo da melhor qualidade...




terça-feira, 26 de maio de 2009

FÍSICA QUÂNTICA




























A física quântica surgiu no início do século XX como resultado da tentativa da ciência em explicar a natureza naquilo que ela tem de menor: os constituintes básicos da matéria. É uma parte da física que se costuma considerar como sendo não-intuitiva. Isso significa que muito de seu conteúdo parece não ser absolutamente verdadeiro. Por exemplo, a dualidade onda-partícula diz que tais constituintes básicos se comportam ora como partículas ora como ondas. Portanto, em certo sentido, a realidade pode ser descrita como sendo contínua e descontínua simultaneamente.

A descontinuidade se dá entre uma partícula e outra, sejam elas fótons, elétrons, prótons, etc. Estas são como pequenos "pacotes" digitais (em latim ‘quanta’, plural de ‘quantum’, daí o nome ‘quântica’), discretos e descontínuos entre si. Quanto ao aspecto da continuidade, uma analogia com as ondas do mar pode falicitar a compreensão, mas não é estritamente rigorosa; entretanto não há nada de absurdo em sua aplicabilidade, assim como numa analogia com as ondas de TV ou rádio. A diferença objetiva é que tratam-se de ondas de probabilidade e não há porque complicar demasiadamente uma descrição que por si só já é dificil de ser compreendida. O fato é que tais "pacotes" se comportam ora como partícula, ora como onda, e é esse o cerne da questão.

Esta é uma afirmação no mínimo estranha, bizarra. Mas é o que acontece na natureza em seu aspecto mais fundamental. Analogamente, no nosso dia-a-dia podemos ter a impressão de que vivemos num planeta de superfície plana, como decorrência de uma noção intuitiva, mas tal noção não corresponde à realidade, já que nosso mundo é sabidamente arredondado, esferoidal.





























No mundo em que vivemos ondas são muito diferentes de objetos. Porém se tivéssemos o tamanho de átomos tudo se comportaria como uma onda de vez em quando e como partícula em outras vezes. Essa é uma das consequências mais bizarras da física quântica, mais corretamente chamada de mecânica quântica por ser algo como uma contraposição a assim chamada mecânica clássica (a física newtoniana que rege o nosso mundo macroscópico do dia-a-dia), a qual, por sua vez, tem esse nome por uma questão de coerência histórica, uma vez que o estudo dos movimentos da matéria é chamado de mecânica desde os primórdios da física enquanto disciplina dedicada a explicar os fenômenos da natureza. Além do mais, a mecânica quântica não é exatamente uma ‘outra’ física, sendo mais especificamente uma decorrência do estudo continuado de um aspecto dessa mesma disciplina científica.

Note-se que a mecânica clássica, a partir das descobertas da mecânica quântica, não deixou de ter valor de uma hora pra outra. A questão é que os fenômenos quânticos só se tornam perceptíveis em dimensões de tamanho muitíssimo pequenas, sendo os mesmos individualmente insignificantes para nossa experiência diária.

A mecânica clássica passou, assim, a ser considerada como apenas uma aproximação suficientemente adequada para lidar com nossa realidade cotidiana, que ocorre numa escala dita macroscópica porque cercada por objetos que podemos enxergar sem a ajuda de lentes ou microscópios atômicos. Já a mecânica quântica lida com coisas tremendamente pequenas, que se comportam de forma completamente diversa e, por não ser intuitiva, chegou até mesmo a ser considerada como uma falsa teoria. O próprio Einstein (que, ironicamente, foi um dos que mais contribuíram para o seu advento) acreditava que a mesma estava provavelmente equivocada. Mas com o passar do tempo percebeu-se que ela explicava tão bem o resultado das experiências que não havia como fugir de suas conclusões, por mais estranhas que pudessem parecer a primeira vista.

























Todo objeto em nosso universo é feito de átomos, até algum tampo atrás considerados como a menor unidade possível de matéria. Entretanto, hoje sabe-se que os átomos são feitos de coisas menores chamadas quarks e elétrons, mas não se tem certeza se os quarks são também feitos de coisas ainda menores. Os átomos, elétrons, quarks e fótons (outra coisa muito pequena sobre a qual ainda pouco se sabe, a não ser que é aquilo de que é composta toda forma de radiação eletromagnética, inclusive a luz) tem um comportamento bizarro: nunca podemos saber exatamente onde estão. Não é por falta de instrumentos mais potentes, mas sim em decorrência de uma lei da física chamada “princípio da incerteza de Heinsenberg”, que diz que nunca saberemos a exata posição dessas partículas.

Nunca saberemos onde os elétrons individuais de um átomo estão exatamente. Isto é algo que se nos afigura, no mínimo, como deveras estranho, mas que deve ser compreendido para que se possa melhor assimilar suas consequências. Há elétrons que inclusive somem de um lugar e reaparecem em outro, algo como uma espécie de teletransporte. Simplesmente não há como saber que caminho seguiram para ir de cá para lá; só sabemos que eles se comportam desta forma.

Este é um dos fenômenos mais bizarros na mecânica quântica, mas há outros tão ou até mesmo mais estranhos do que esse. Há elementos radioativos, como o urânio, por exemplo, cujos átomos explodem sem mais nem menos, como que “do nada”. Nunca podemos saber quais átomos vão explodir ou quando, só que alguns vão e outros não. Aparentemente não existe uma causa direta que explique o fato deles explodirem, mas eles explodem mesmo assim e de forma totalmente aleatória. Isto irritou tanto a Einstein que ele chegou a declarar que "Deus não joga dados com o universo" por não se conformar com a imprevisibilidade inerente à natureza, o que levou Niels Bohr, outro eminente físico, reconhecido como um dos principais formuladores da nova teoria, a responder de forma irônica que “Deus é o próprio jogo”.

A partir de tais considerações, portanto, podemos dizer que a conclusão mais importante decorrente da descrição da realidade que a mecânica quântica fornece é a de que existe um fator de indeterminação na natureza, que se torna mais patente na esfera do extremamente pequeno, mais precisamente no nível atômico, que não é derivado da imprecisão dos instrumentos, mas sim de uma característica inerente à própria realidade.

Exatamente: tal indeterminação não é decorrente da imprecisão dos instrumentos. Tanto que tem o nome de "princípio da incerteza" e não de "teoria da incerteza". E essa é uma conclusão a que chegaram os físicos a partir de experimentos reproduzíveis e não de meras hipóteses, sendo esta indeterminação passível de ser comprovado matemática e empiricamente.

Mas existem alguns problemas. Estamos, sem dúvida, falando sobre o que podemos observar, mas não em termos totalmente objetivos, na medida em que esta observação é feita por inferição indireta, a partir de impressões fotográficas em placas de materiais quimicamente tratados, por exemplo; não é como se você apontasse um microscópio eletrônico para um átomo e o observasse diretamente. Além do mais, há também a questão decorrente do fato de que toda observação necessariamente altera o estado da partícula observada, seja sua posição ou sua velocidade; e a partir da medição de uma pode-se extrapolar a outra com alguma margem de erro, porém nunca ambas ao mesmo tempo e com precisão absoluta.

Segundo o princípio da incerteza é ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL determinar ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula. Quanto mais precisa for a medição de um dos fatores invariavelmente mais imprecisa deverá ser a do outro. E isso não depende da qualidade ou da capacidade de qualquer instrumento, é uma característica da natureza da matéria.




























Mas e daí? Em que isso interfere na nossa rotina diária?

Essa é uma pergunta muito pertinente. À primeira vista a resposta teria que ser “absolutamente nada”. Afinal de contas as primeiras formulações da mecânica quântica aconteceram no início do século passado e de lá pra cá isso não afetou a vida de quase ninguém, ou pelo menos a de quem não tinha conhecimento de sua existência.

Mas paremos para pensar com mais atenção. Mesmo depois de tanto tempo ainda estão sendo avaliadas as sutis implicações filosóficas, e por que não dizer, também, as consequências psicológicas e culturais decorrentes dessa verdadeira revolução científica, as quais provavelmente só se farão sentir de forma ampla e consistente depois de devidamente digeridas pelo imaginário popular da humanidade, o que demanda um certo período de amadurecimento.

Obviamente, e como sempre, a arte chegou na frente. O movimento literário e nas artes plásticas conhecido como Surrealismo nunca escondeu a influência que sofreu das ideias da mecânica quântica, usando e abusando de suas implicações, entre elas a de que a interpretação da realidade fornecida pela mesma nos leva a conclusão de que, de certa forma, todos nós vivemos imersos numa grande ilusão, algo similar a noção de “maya” professada pelo hinduísmo.

Seria lícito ir tão longe, a ponto de especularmos se tudo em nosso mundo não passaria efetivamente de apenas mais uma construção da mente, gerada a partir da interpretação de dados colhidos pelos órgãos dos sentidos e processados no cérebro, numa elaboração coletiva que decorre, provavelmente, de nossa programação genética comum?

Que cada um medite sobre isso e tire o melhor proveito que puder.