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sexta-feira, 23 de maio de 2014

UM EQUILÍBRIO PRECÁRIO ENTRE O BEM E O MAL


[Texto de Moisés Efraym]


Há muitas implicações decorrentes de uma sentença do tipo "um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal". 

Estas implicações devem, em todo caso, passar por uma investigação acerca das noções de "equilíbrio precário" e "bem" e "mal". É sobre estas noções que se desenrola, de forma geral, o desenvolvimento da abordagem mítica da realidade, como característica inerentemente humana, de elucidação fenomenológica, nas comunidades originárias.

Uma primeira interpretação da expressão "equilíbrio precário" revela uma relação paradoxal, remetendo-nos a palavra "equilíbrio" à ideia de igualdade e a palavra "precário" à ideia de instabilidade; somos, portanto, levados a uma conclusão que deverá fundir, em forma de compreensão, uma dicotomia que manifeste uma unidade inteligível. De que forma é possível esta unidade?

Não por acaso, a sentença "um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal" está intimamente ligada às mais variadas formas assumidas pelo mito em lugares e épocas diferentes. 


Independentemente das possíveis explicações sobre a origem dos mitos, o paradoxo da relação acima citada perpassa a todos sob a forma de um "paradigma imanente". 

Qualquer tentativa de conciliação da dicotomia aludida seria inútil, pois ela só existe se a realidade - como no mito - se torna objeto de investigação pelo homem. Nesse processo de investigação o homem carece de promover uma "ruptura" na maneira de ser da realidade que lhe permita nomear, isoladamente, o complexo fenomênico que o circunda.

A inocência inerente à composição mito-poética desenvolve o caráter simbólico da maneira de ser do real, sem habilitar-se, entretanto, à compreensão da unidade manifesta no "paradigma imanente" que a fundamenta.

Por estar incondicionalmente sujeita a essa limitação, a explicação mítica tende à multiplicidade, antropomorfizada na forma de deuses, semideuses e heróis, e à dicotomia que tem por base o ser humano e suas convicções e sentimentos e também a oposição aparente das diferentes manifestações da natureza tidas como acontecimentos externos ao homem e que se manifestam conforme seu caráter agradável ou desagradável, segundo o julgamento e sensações individuais (o "quente" em oposição ao "frio" ou, tendo como referencial o homem, o "bem" em oposição ao "mal"). 

    

O "paradigma imanente" (que manifesta a unidade do real) e a dicotomia estabelecida pelo mito podem ser verificados na relação entre as mitologias nórdica e grega, por exemplo. 

Atendo-se não à explicação fenomênica do mito mas aos "lugares míticos" pode-se estabelecer a relação que perpassa as diferentes mitologias e está diretamente atada à noção de confronto entre "bem" e "mal".

Asgard e Olimpo representam, respectivamente, nas mitologias nórdica e grega, a "morada dos deuses"; nestes "lugares" residem os soberanos na hierarquia divina. Nifleheim e Tártaro estão em oposição direta àqueles primeiros. Há similitudes e distinções entre as duas manifestações de mitologia que carecem de esclarecimento. Entretanto, não rompem de forma absoluta com a dicotomitização do real que, certamente, compõem a base destas.

Por não dispor de nenhuma fonte prévia de explicação para os fenômenos naturais, a mitologia, fazendo uso dos aspectos inerentes às relações humanas e à personalização em seu caráter individual, interpretou a realidade circundante como resultante de um conflito divino que ensejaria, então, o movimento fenomênico observado.   

  

Tanto nos Eddas nórdicos quanto na Teogonia grega a harmonia reinante no mundo divino é rompida por dissenções havidas entre seus representantes. Esta ruptura cria uma tensão, uma "relação de oposição" entre seres divinos, que possibilita a realidade em sua dinâmica conhecida.

Gaia, a "Mãe Terra", para os gregos e Midgard para os nórdicos, representam o ponto de equilíbrio dessa tensão. Aí se observa, de forma alternada, a atuação das forças do bem e do mal. Na instância "superior" (Olimpo, Asgard) estão os representantes máximos das forças do bem (Zeus, Odin), na "inferior", os representantes máximos das forças do mal (Hades, Surtur).


Hades recebeu de presente de Zeus o reino subterrâneo por apoiar este na luta contra a tirania do próprio pai (Cronos). Quanto a oposição entre Odin e Surtur, esta estava predestinada desde o início dos tempos.

Ainda sobre as mitologias nórdica e grega, existem, respectivamente, o Valhalla e os Campos Elísios, onde hão de fazer morada, após a morte "neste mundo", as almas merecedoras.

O "paradigma imanente" ou unidade do real observa-se na ligação necessária entre essas instâncias. Sem essa ligação a explicação a respeito da realidade, mesmo na multiplicidade estabelecida pelo mito, perde o sentido.


POST-SCRIPTUM:


A forma de ser das coisas na realidade é tão enigmática que, apesar de todo avanço científico-tecnológico e de todo desenvolvimento do pensamento filosófico, a maioria da população ocidental continua encarando o caráter fenomênico da realidade como um "equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal", haja visto sua continuidade na base, por exemplo, das três religiões monoteístas atuais (judaica, cristã e maometana).




quinta-feira, 27 de março de 2014

O MAIOR RIVAL DO SUPERMAN


[Texto de autoria de Marco Moretti, publicado originalmente na revista Wizmania nº 43, em abril de 2007]


Na esteira do sucesso do Superman, lançado em quadrinhos em 1938, nos anos seguintes passaram a surgir novos super-heróis fantasiados por intermédio de editoras pequenas e variadas.

Na maioria das vezes, essas criações não passavam de plágios baratos do Homem de Aço, como o Wonder Man, criado pelo lendário Will Eisner pra revista Wonder Comics, em maio de 1939. Antes porém que Eisner chegasse a ser processado pela DC Comics, Wonder Man foi tirado de circulação logo após sua estréia. Foi só então que Eisner partiu pra criação de seu mais famoso (e mais original) personagem, o Spirit.

Contudo, a maior imitação ao Superman ainda estava por vir. Indubitavelmente, essa honra coube ao Capitão Marvel, que surgiu na Whiz Comics, em fevereiro de 1940. Filhote da então prestigiosa Fawcett Publications, o Capitão Marvel chegou a ser o campeão de vendas da categoria na década de 40. Criado pelo artista C. C. Beck e o roteirista Bill Parker, suas aventuras tinham mais humor que as do concorrente e um apelo direto junto aos garotos, que se identificaram de imediato com o alter ego insuspeito do herói, o menino Billy Batson.

Como o Superman, ele tinha força descomunal e a capacidade de voar, além de contar com poderes mágicos que eram invocados com a palavra "Shazam", sempre pronunciada quando Batson se transformava no "Mais Poderoso Mortal do Mundo".




Da mesma maneira que o Homem de Aço, que vira e mexe, enfrentava Lex Luthor, Marvel tinha como arquiinimigo um cientista malévolo (e maluco), o Dr. Silvana. Para completar, o Capitão Marvel também dispunha de um uniforme característico, com capa e um relâmpago dourado como símbolo, tão marcante como o "S" do Superman.

As semelhanças entre os dois personagens eram por demais evidentes pra que a DC aceitasse passivamentea imitação e decidiu processar a Fawcett por plágio.

A batalha judicial se arrastou por mais de uma década e foi somente em 1953 que a justiça chegou a uma decisão. Após idas e vindas entre tribunais de primeira e segunda instância, a Fawcett acabou capitulando e aceitou para de publicar as histórias do Capitão Marvel.

Foram necessários mais 20 anos pra que a DC adquirisse os direitos sobre o personagem e o revivesse em uma revista mensal, apropriadamente chamada de 'Shazam!'.

Foi somente a partir de então que o herói passou a ocupar seu lugar de direito entre os maiores super-heróis de todos os tempos. E quase em pé de igualdade com seu maior rival.



  


POST-SCRIPTUM:

Infelizmente a nova revista do Capitão Marvel lançada na década de 70, agora publicado pela DC Comics, teve vida curta. Os tempos eram outros e a ingenuidade inerente a suas histórias não fez mais sucesso. 

Porém, revisado em alguns pontos há alguns anos, o herói agora faz parte da Liga da Justiça. Nada mal para o velho Capitão, que começou como um suposto plágio do Último Filho de Krypton, hein? 


sexta-feira, 21 de março de 2014

O PODER DA ILUSÃO



[Texto de autoria de Paulo Blank]


Budha e Narciso me parecem duas posturas diferentes que podemos ter frente ao poder e a ilusão. Na história de ambos sempre me impressionou a diferença com que trataram de uma situação muito parecida. Enquanto um deles sairia pelo caminho da iluminação, o outro mergulhava para sempre no engano.

Enquanto um negava a oferta de realização dos desejos em troca de permanecer no caminho da ilusão, o outro, iludido, entregou-se ao engano e perdeu qualquer possibilidade de lidar com a realidade, ficando aprisionado em suas fantasias de poder. Em ambos, podemos reconhecer dois caminhos diferentes que somos obrigados a percorrer em nossa vida e, da escolha que fazemos, depende o rumo que ela toma.

Tirésias, o adivinho cego da mitologia grega, previu que a ninfa Liríope teria um filho que só chegaria à idade adulta se não viesse a conhecer o próprio rosto. Foi assim que Narciso veio ao mundo e cresceu deixando atrás de si um rastro que marcava a sua caminhada por uma vida sem face.

Por onde passava, pessoas de ambos os sexos se apaixonavam pelo jovem e ele, orgulhoso da própria beleza e embevecido pelo seu poder sobre os outros, não correspondia aos amantes capazes até mesmo de matar-se pelo seu amor.

Um dia, o jovem mancebo deparou-se com um lago de águas límpidas no meio de seu caminho. Narciso aproximou-se, olhou, debruçou-se, e o que viu espelhado deixou-o enlouquecido. Um belo jovem olhava para ele de dentro do espelho de água clara.





Narciso enxergou a própria face, mas, não sabendo que era sua, apaixonou-se pelo jovem que julgou ver no reflexo do lago. Fascinado pela imagem que não conseguia tocar, sofrendo na própria carne o mesmo sentimento que despertava nos outros, Narciso caiu prisioneiro de uma ilusão que, até os dias de hoje, conta o mito, o mantém prisioneiro de seu engano.

No outro lado do andar dos homens, vamos encontrar Budha. Em sua busca de iluminação, ele defrontou-se com Maya Papyam, deus do reino dos desejos, capaz de alimentar as fantasias de poder de qualquer mortal. 

A todo custo, Maya queria tirar Budha de seu objetivo. Mas Budha já conhecia bem esse caminho. Seu pai já tentara afatá-lo da realidade através da fantasia de um mundo onde todos eram etrnamente belos e a velhice e a morte não tinham lugar. Foi para fugir desta ficção que Budha tentou rasgar a cortina de ilusões que habita em nós na medida em que nos lançamos com avidez no mundo das aparências e do poder.

Meditando à beira de um lago, o príncipe Gautama viu diante de si o reflexo da própria imagem. Defrontado com Mara, a potência do desejo que assumia as feições de Budha e lhe oferecia poder e riqueza sem fim, Budha, reunindo o resto de suas forças, exclama olhando para a própria imagem que tudo aquilo era ilusão, derrotando Maya Papyam, o poderoso deus dos enganos.

Pensando em Budha e Narciso como duas tendências de nossas mentes, não há como não reconhecer nestas forças um desafio permanente. Ou optamos por Narciso, e nos transformamos em seres iludidos com o poder que ignora as consequências de seus gestos e desconhece o amor e a delicadeza frente ao outro, ou aprendemos com Budha o mistério da ilusão do próprio eu e confrontamos Mara para, uma vez mais, tentarmos renovar os nossos objetivos de estar neste mundo.


POST-SCRIPTUM:

Boa sorte a cada um e a todos em sua busca pela iluminação.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

FENDA NA RAZÃO



Dentre os inúmeros objetivos pretendidos originalmente por este 'blog' sempre esteve a divulgação da cultura em todos (ou pelo menos quase todos...) os seus matizes.   

E um dos mais importantes é a discussão da filosofia, tanto de per se quanto nas manifestações literárias da atualidade pós-moderna a respeito do assunto.

É, portanto, consciente de que não poderia dizer de melhor forma que humildemente passo a palavra ao poeta Alberto Pucheu em sua análise do livro "Um Sábio Não Tem Idéia", da autoria de François Julien e publicado pela Ed. Martins Fontes:

[TEXTO EDITADO DE UMA CRÍTICA PUBLICADA NO CADERNO LITERÁRIO DO JORNAL 'O GLOBO'] 




Já em seu princípio, na Grécia, a filosofia se esforçou por estabelecer uma diferença específica em relação às possibilidades do pensamento até então.

As quatro alteridades fundamentais da filosofia, supostamente estabelecidas: a sabedoria, a poesia, a sofística e a política.

Nada disso é tão simples. Aristóteles chamava boa parte dos pensadores anteriores a ele de filósofos, incluindo até mesmo Hesíodo. Protágoras, no diálogo homônimo escrito por Platão, relaciona o próprio Hesíodo não só à poesia como também à sofística. Se lembrarmos que, posteriormente, Diógenes Laércio afirmou que "sofista" era outro nome para "sábio", "poeta" e "filósofo", a confusão estaria completa. 



Ou melhor: no momento do frescor da filosofia, a encruzilhada tornava as efervescentes experiências do pensamento indiscerníveis.

Além disso, se Platão escreveu sobre o poeta, sobre o sofista e sobre o político, por que não teria elaborado o diálogo sobre o filósofo, conforme o anunciado?

A não ser que, falando dessas supostas alteridades, esteja o tempo todo pensando a filosofia e a impossibilidade de sua apreensão isolada.

 


Esses termos, com o tempo, tornaram-se gastos e perderam complexidades importantes. Isso ocorreu pela insistência de quase toda a tradição ocidental em defini-los uns contra os outros, compartimentando o que, mesmo em Platão, era de definição controversa.

Eis o grande mérito do filósofo e sinólogo francês François Julien: mostrar um fundo de experiência e de pensamento que, por não ter vingado em nossa História, a filosofia enquanto metafísica não pôde conceber.

Um dos preconceitos contra os quais o livro se lança é o de que a sabedoria teria sido superada pela filosofia, como se sua anterioridade cronológica fosse imaturidade de pensamento.



O que ele mostra é justamente a radicalidade dessa experiência na própria condição de possibilidade da filosofia e que foi apagada pelo privilégio da razão européia. Julien retira a sabedoria da perspectiva mística e exótica, afastando-a dos lugares-comuns que as apressadas tentativas de aproximação entre o Ocidente e o Oriente suscitam.

Abrindo uma fenda na razão, transforma-a no que seria sua própria condição de possibilidade, saindo do jogo contraditório entre razão e seu oposto. Trata-se de demarcar uma lógica da sabedoria.



François Julien mantém um diálogo vivo e tenso entre a filosofia e o pensamento chinês.

"Um Sábio Não Tem Idéia", por sua originalidade e força, tem a difícil capacidade de sulcar caminhos impensados e propulsores.




POST-SCRIPTUM:

Um livro extraordinário e indispensável para quem quer ampliar seus horizontes, que busca resgatar um tipo de experiência e de pensamento não absorvidos pela filosofia convencional do Ocidente. 

E que as fendas na razão um dia recuperem a verdadeira Sabedoria!

 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O PAPA E O PECADO



["A CARNE NÃO É TERRITÓRIO DO PECADO" por JUAN ARIAS, correspondente do 'El País' no Brasil e autor de "Jesus, esse grande desconhecido", entre outros livros; publicado originalmente no caderno 'PROSA E VERSO' do Jornal O GLOBO em 27.07.2013] 


Nunca se disse tanto que o catolicismo, para se salvar da sangria que o assola, precisa voltar a suas raízes, a suas origens, que começam na Palestina com os ensinamentos do profeta judeu Jesus de Nazaré.







Com o Papa Francisco voltou-se a falar ainda mais sobre a urgente necessidade de a Igreja recuperar suas essências. Ela nasceu, na visão de Jesus, como uma abertura do judaísmo a outros grupos não judeus em nome de um Deus que era pai de toda a Humanidade.






Quando se diz que o cristianismo deve se desprender da influência que recebeu no século IV do Império Romano e da contaminação platônica da filosofia grega com Santo Agostinho, pouco se fala de um ponto fundamental: recuperar a teologia do corpo, a ideia de que, como sempre defendeu o judaísmo que influenciou as primeiras comunidades cristãs, não existe diferença entre corpo e alma.





Até Paulo de Tarso, a dignidade do corpo é inseparável da atribuída à alma ou ao espírito. Só com a influência helênica o cristianismo se contamina e começa a ver o corpo como a 'prisão' do espírito e, portanto, 'território do pecado', influenciando fortemente a ética sexual.




Para Santo Agostinho, já influenciado pela filosofia grega, o homem é "uma alma racional que tem um corpo mortal". O corpo passa a ser secundário e perigoso para a santidade.




Por sua vez, a cultura judaica, na qual bebeu o primeiro cristianismo, foi diametralmente oposta à da Igreja de hoje. No judaísmo não existe a vergonha pelo corpo e, em consequência, pela sexualidade. Para o judaísmo, o pecado original não é o sexo.





Esse divórcio entre corpo e alma contaminou todo o universo da sexualidade na Igreja e acabou caindo sobre a mulher, considerada objeto de tentação sexual e, por isso, afastada do sacerdócio que lhe havia sido inato nas primeiras comunidades cristãs, quando nem o corpo nem o sexo eram vistos como território do mal.





E assim a mulher continua sem poder ser dona de seu corpo, com todas as consequências que isso traz.





O dualismo entre corpo e alma, introduzido no cristianismo a partir do século II, quando se distancia de suas raízes judaicas, acabou condicionando toda a ética sexual da Igreja até hoje.





Só no Concílio Vaticano II defendeu-se, por exemplo, que a sexualidade, além de um instrumento de procriação, pode ser um novo modo de comunicação humana.





O Papa Inocêncio III chegou a sustentar que o Espírito Santo se ausentava do quarto quando um casal mantinha relações sexuais, já que, segundo ele, o ato sexual, ainda que lícito, "envergonha Deus".





Diz-se que Francisco é o Papa do 'do corpo', que não teme o contato físico. Em seus quatro meses de pontificado, beijou mais pessoas, crianças e adultos, do que outros Papas em toda sua vida. 





Talvez seja essa falta de medo do tato, da corporeidade, que faz Francisco ser amigo de muitos judeus, para os quais o corpo não é inimigo da alma, e sim o grande companheiro das relações verdadeiramente humanas e não só espirituais ou sublimadas.





Se analisarmos os sacramentos da Igreja, em sua origem, são todos sacramentos 'do corpo'. São realidades que se transmitem por meio do corpo, desde a eucaristia até o batismo ou a extrema-unção. A graça sempre atravessa o corpo, que é 'obra de Deus', e não 'instrumento do demônio', como defenderam tantos teólogos conservadores. Falando a uma devota que se gabava de dar sempre esmolas a um mendigo, Francisco perguntou: "Quando entrega a moeda ao irmão mendigo, você a joga ou a coloca nas mãos dele, tocando nelas?"                                   




O Papa que se despojou de todos os símbolos de poder de uma Igreja que se envergonha do corpo e coloca a virgindade acima do matrimônio busca o contato corporal com as pessoas. Ele pediu aos sacerdotes que tirem a poeira da antiga prática cristã de pousar as mãos sobre a cabeça dos fiéis para abençoá-los. Francisco entendeu que, para ter credibilidade e responder aos novos desafios apresentados pela ciência e a ética modernas, a Igreja não pode continuar a se refugiar no medo da corporeidade, nem continuar a defender que o corpo é a fonte do pecado. Ela deve abrir novos caminhos do que ele chama de 'teologia do encontro'.





Quando se refere ao ecumenismo, às diferenças que separam até os que se professam filhos de um mesmo Deus, Francisco dá o exemplo de que nas veias de crentes e não crentes "corre o mesmo sangue" e, por isso, devemos nos sentir parte de uma mesma 'família'. Todo o resto, para ele, é ideologia.





Sua fonte de inspiração, na verdade, é Jesus de Nazaré, que escandalizou os próprios apóstolos pelo pouco medo que tinha do tato, da corporalidade. Ele se deixava lavar os pés por uma prostituta e curava os doentes 'tocando-os' fisicamente. E até usava sua saliva para curar os cegos.




CLEMENTINA DE JESUS

O medo do corpo, da sexualidade, do abraço com o irmão, levou a Igreja a se converter em uma religião 'asséptica', com vocação mais para anjos do que para humanos? Pois bem, a essência do cristianismo não é a 'encarnação' e a 'ressurreição', esta última não só das almas mas também dos corpos? E os corpos estão atravessados pela sexualidade e pelo prazer do encontro. Juntos, corpo e alma se salvam ou se condenam.





CARLINHOS DE JESUS


POST-SCRIPTUM:



Concordo entusiasticamente com a opinião do jornalista e escritor Juan Arias em relação à necessidade urgente da Igreja católica acomodar-se aos tempos atuais e tornar-se mais 'humana' e menos 'celestial', bem como com sua simpatia e otimismo para com o Papa Francisco I. Infelizmente, todos nós sabemos que "uma andorinha só não faz verão". Existe no seio da Igreja uma forte resistência conservadora que dificilmente aceitará aquilo que eles consideram como 'modernismos sacrílegos'. Entretanto, a postura do novo Papa em relação aos gays e a todo tipo de intolerância, por exemplo, alimenta esperanças de uma possível abertura da Igreja para um cristianismo real e não apenas 'de fachada'. Sonhar não custa nada... 




segunda-feira, 4 de março de 2013

RELIGIÃO X CIÊNCIA: A "OUTRA LÓGICA"


                                                                                            "Noli foras ire, in interiore homine habitat veritas" 

         (adágio alquimista) 




Pois é, a visão estritamente científica (vide tópico anterior) dá a entender que não se deve misturar "alhos com bugalhos". Até aí nenhuma surpresa: é o que se deve esperar da ciência convencional. O que não quer dizer que esta seja a dona da verdade e que outras posições até mesmo opostas não devam ser consideradas.








Que fique bem claro e que não haja margem para mal-entendidos: no contexto geral eu concordo com  grande parte das declarações do professor (novamente, vide tópico anterior); evidentemente a pesquisa científica deve continuar. A descoberta do 'bóson de Higgs' é uma peça fundamental para o desenvolvimento da física na medida em que o próximo passo das pesquisas de alto nível envolverá muito provavelmente um maior empenho no sentido da tentativa de confirmação empírica da 'Teoria das Cordas', por exemplo (uma das consequências inevitáveis dos atuais experimentos).









Além do que, paralelamente traz um benefício extra e imprevisto (ainda que, sou forçado a admitir, este seja um insight pessoal): o de "abrir portas" inéditas à especulação filosófica. Talvez até no sentido de reabilitar e consolidar o estudo da metafísica em bases estritamente científicas, tanto na teoria (uma 'mitofísica') quanto, - quem sabe? -, na prática (hein!?!), mesmo admitindo-se as evidentes dificuldades inerentes ao manuseio de partículas tão elusivas (calma gente, humor e credibilidade não precisam necessariamente ser auto excludentes).








Mas isso ainda é assunto para ficção-científica, apesar de pertinente. A questão é outra: tem a ver com a guerra surda que a cultura oficial vem travando a séculos contra os poderes da imaginação e que pode levar, eventualmente, à falência do sistema educacional institucionalizado em nível global - alguns sintomas sociais e políticos ao redor do mundo já dão sinais disso - e consequentemente a uma 'desvalorização dos ativos', digamos assim, da assim-chamada Civilização Ocidental (com letras maiúsculas, por favor!). Num paralelo talvez não muito feliz, pode-se dizer que, na bolsa de valores cósmica, as ações do empreendimento CIVILIZATION INC. estão certamente em baixa...






Mas o que isso tem a ver com o título desta postagem? Nada? Talvez tudo. Ignoremos por um momento o 'nada' e concentremo-nos no 'tudo'. Para quem não percebeu ainda e indo além das consequências óbvias, completar o quadro de partículas do 'Modelo Padrão' também significa dar sentido, dar autenticidade, dar legitimidade, enfim, admitir sem dúvidas ou restrições a verdade incontestável desta 'jornada sagrada', a Ciência, que se representa com total isenção e consciência tranquila (alguém aí falou em bomba atômica?).








Em imperfeita sincronia temos a trama paralela e profana que é a vida política, social e econômica não-oficiais, este drama quase shakespeariano que experimentamos como a tão decantada - e decadente - vida cotidiana. 'Deus não joga dados'? Pode apostar que sim! 









Tudo parece muito confuso (e quem disser que não, é muito ingênuo ou está de má fé). Mas ao mesmo tempo é divertido e surpreendente. Quem pode negar a semelhança simbólica - dentro dos parâmetros de uma abordagem apoiada nas mais recentes descobertas de campo de diversas especialidades acadêmicas tão zelosamente cientes de seu positivismo e de sua razão "ciumenta e poderosa" (que Iavé não nos ouça!) - quem pode negar, repetimos, que essa pretensão cientificista a uma verdade única e soberana não tem conotações nítidas e nada sutis com um fenômeno de dimensões religiosas?









O que é a busca científica da tão propalada 'Teoria de Tudo' - que reconhecidamente resolveria problemas importantes como conciliar a teoria quântica com a relatividade geral - do que, também, a renovação do ciclo mítico do Santo Graal?  







"Lógica única?" - poderíamos perguntar a Aristóteles, usando a imaginação a fim de libertar o potencial criativo de uma "outra lógica". Essa mesma imaginação tantas vezes defenestrada, desqualificada e desmoralizada ao longo de uma história do pensamento que se acredita muito correta e, em decorrência, séria demais.








Tudo isso para finalmente dizer que, sim, é possível fazer ciência da religião, bem como ter um sentimento de religiosidade autêntica na nossa relação com a physis, incluindo "no pacote" o respeito ao meio-ambiente, a produção responsável de riquezas e bem-estar para usufruto mútuo de toda a humanidade, a prática de atividades intelectuais e/ou lúdicas (as artes, a matemática, o ócio irresponsável ou a mera diversão), bem como, e acima de tudo, o respeito pelos outros seres humanos, vivos ou mortos.









Neste devir que o dia-a-dia confirma como ciclos dentro de ciclos há que se dar um crédito quase arquetípico à matemática de Cantor e à sua Teoria dos Conjuntos, com seus infinitos dentro de infinitos ainda maiores, ou ao Teorema da Incompletude de Godel, por exemplo, bem como às intuições geniais de homens como Heráclito, Sócrates, Platão, Aristóteles, DaVinci, Giordano Bruno, Galileu, Newton, Freud, Jung, Hegel, Marx, Durkheim, Weber, Nietzsche, Darwin, Plank, Einstein, Bohr e Teilhard de Chardin (entre tantos outros) para citar apenas alguns gigantes aparentemente tão díspares entre si. 







"Samba do crioulo doido?" A Escola de Samba Unidos do Paradoxo apresenta seu enredo para este ano...









Religião? Ciência? Arte? Política? Tais conceitos, assim como os de lógica, racionalidade, evolução, acaso, complexidade, caos, estrutura, ser, vida, morte e Deus, por exemplo, entre tantos outros, já estão há algum tempo passando por revisões inevitavelmente necessárias, desde que as sementes de tal iniciativa foram plantadas nos dois últimos séculos (XIX e XX) por artistas, acadêmicos, filósofos, escritores e até mesmo cientistas que, cada um a seu modo, nos dias de hoje, podemos considerar legítimos herdeiros culturais de movimentos como o Romantismo, o Simbolismo e o Surrealismo, por exemplo, ainda que necessariamente num contexto de pós-modernidade "barroca".








Mas o que é isso que me dizem? O pós-modernismo é uma moda ultrapassada que não chegou realmente a lugar nenhum? O desconstrutivismo é um beco sem saída dentro de um labirinto onde o Minotauro joga cartas com Sísifo? Não importa: como se dizia no século passado, "a luta continua". O problema é a dificuldade cada vez maior em identificar contra quem e o que lutar...






Tá feia a coisa? Tá. Só que não adianta ficar se lamentando ou pondo a culpa nos outros; todos somos responsáveis, em maior ou menor grau, por este vazio inconveniente (digamos assim, para não sermos acusados de exagerados) que já se instalou há um bom tempo nos corações e mentes dos homens e mulheres de nosso tempo. 







Inconveniente este que só se agrava na medida em que o liberalismo triunfante e sem adversários enreda a tudo e a todos, inclusive a si mesmo, nas armadilhas da lógica de mercado, e que não tem pudores ou preconceitos contra a ciência ou a religião.








Que o digam Bill Gates ou o 'bispo' Macedo, para citar dois exemplos bem afastados tanto em termos geográficos quanto em relação às atividades em questão, numa comparação aparentemente estapafúrdia mas ainda assim que remete ao mesmo raciocínio financeiro-especulativo. Vai dizer que não?








Não nos deixemos iludir por nossa própria miopia intelectual: qualquer coisa que poderia ser designada como "espírito" (seja no sentido filosófico quanto religioso), há muito se retirou da nossa realidade mundana e diuturna, ou daquilo a que ainda poderíamos nos referir como "alma do mundo". O dinheiro é o único Deus que é levado a sério: temos que admitir isso se não quisermos passar por hipócritas.








Tal desencantamento funesto, seja em que sentido se prefira acolher, vai continuar nos levando à falência civilizatória e não há argumentos que possam negá-lo. A esperança, de uma forma geral, está em vias de se tornar moribunda, já que o futuro só é considerado no curto prazo dos investimentos monetários, enquanto que a preocupação com as gerações vindouras insensivelmente se dilui num 'projeto às avessas', embasado numa ilusão consumista imediata e idiota.







O fato é que a Modernidade não cumpriu as promessas do Iluminismo e cabe a todos nós darmos uma parada estratégica e analisarmos em profundidade e com consciência crítica (a mais radical possível) os eventuais desvios e as possíveis correções de rumo. 






Aprender com o erro e não ter vergonha de tentar de novo! Pois não podemos continuar nos enganando: vivemos uma intensa crise civilizatória que exige, antes de mais nada e acima de tudo, uma refundação de nossas raízes judaico-cristãs, helenísticas e romanas, conforme sugere Jean-Claude Guillebaud em seu livro "A REINVENÇÃO DO MUNDO", não sem levar em conta toda a autocrítica que se processou no século XX e que precisa continuar, num processo que não pode prescindir das contribuições do Islã, das culturas orientais, da África negra e dos povos indígenas que sobrevivem a duras penas.







Uma refundação de princípios, mas não por um viés nostálgico, ou na aposta sempre provada como ineficaz pela História numa 'terceira via' apaziguante e condescendente, ou muito menos numa derrelição total que conduziria invariavelmente (como já está fazendo lentamente, mas em aceleração constante) a um 'vale-tudo' estúpido que é, em última instância, genocida e suicida. Alguém se habilita a discordar?   







Refundação, sim, pois como diria Nietzsche, "como pudemos nós esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte?". Ou de forma menos poética Pierre Legendre: "A humanidade está sendo acossada pela necessidade de se alicerçar para poder viver".  









Imbuídos de uma compreensão sagaz ou de uma intuição inconsciente, sabemos que a informação sofre necessariamente um processo comprovado e contínuo de disseminação que não pode ser detido, e cuja flecha do tempo corre oposta àquela que orienta a inevitável decadência decorrente da entropia; assim sendo, temos que manter acesa a chama da Imaginação, acima de toda controvérsia ilusória entre Ciência e Religião, propondo e apresentando um diálogo fecundo entre idéias, algumas geniais, outras "mucho locas", mas acima de tudo visando um maior e melhor entendimento do homem e do mundo.







Mais sobre o assunto futuramente, quando pretendo discutir as idéias do físico indiano Amit Goswami em seu livro "O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE". Paz à todos!







POST-SCRIPTUM:




"O que está embaixo é igual ao que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar o milagre de uma só coisa." (A Tábua de Esmeralda)