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sábado, 29 de março de 2014

ENSINAR A PENSAR?


[Texto de autoria do professor RICARDO CORRÊA BARBOSA]


Pode-se ensinar filosofia, mas não a pensar. 

Aliás, em suas lições de Lógica, Kant nos deixou uma palavra importante sobre isso: 

"Ninguém que não possa filosofar pode-se chamar de filósofo. Mas filosofar é algo que só se pode aprender pelo exercício e pelo uso próprio da razão. Como é que se poderia, aprender Filosofia? Todo pensador filosófico constrói, por assim dizer, sua obra própria sobre os destroços de uma obra alheia; mas jamais se erigiu uma que tenha sido estável em todas as suas partes. (...) quem quer aprender a filosofar tem o direito de considerar todos os sistemas da Filosofia tão-somente como uma história do uso da razão e como objeto do exercício de seu talento filosófico."

"O verdadeiro filósofo, portanto, na qualidade de quem pensa por si mesmo, tem que fazer um uso livre e pessoal de sua razão, não um uso servilmente imitativo."

Nestas linhas de Kant, ouve-se o eco de sua conhecida resposta à pergunta sobre o que é Aufklärung: - pensar por si mesmo, ter a coragem de fazer uso próprio da própria razão.

Assim, o que o filosofar exige é antes a formação de uma atitude - uma atitude diante do pensamento.

Exercício sem medo, coisa de quem sabe que é na água que se aprende a nadar.


POST-SCRIPTUM:


E, concomitantemente, por aqueles que sabem que este aprendizado exige que a reflexão solitária desague na discussão em comum, na busca do melhor argumento...

E com razão.


quarta-feira, 19 de março de 2014

MICHEL FOUCAULT



[Adaptado de uma reportagem publicada no caderno 'Prosa & Verso' do jornal O GLOBO, em 11.01.2014]


No ano em que se completam três décadas da morte do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) presto aqui minha homenagem aquele que foi o pensador libertário das marginalidades sociais e das minorias culturais, raciais e sexuais.

Foucault expunha uma visão da cultura e da História que não pretendia explicar o presente pelo passado. Preferia investigar os discursos que condicionam as formas de ver e julgar, e analisar a maneira pela qual a cultura contemporânea determina as condições de possibilidade do novo. Construiu assim sua arqueologia da cultura ocidental.


POST-SCRIPTUM:


A seguir um trecho de declarações feitas pelo filósofo, em entrevista concedida ao "Jornal da Tarde", numa visita ao Brasil poucos dias depois do assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes da ditadura militar em 1975:

"A dialética mestre-escravo, segundo Hegel, é o mecanismo pelo qual o poder do mestre se esvazia pelo fato mesmo de seu exercício. A certa altura ele se encontra na dependência do escravo, não tendo mais poder porque cessou de exercê-lo. 

Quero mostrar o oposto: que o poder se reforça pelo seu próprio exercício - não passa sub-repticiamente para o outro lado. Desde 1831, a Europa não parou de pensar que a derrubada do capitalismo era iminente. Isso muito antes de Marx. E ele está aí. Não digo que ele nunca será desenraizado. Mas que o custo de sua derrubada não é o que imaginamos.

Se essas lutas são feitas em nome de alguma essência do homem, tal como ela foi construída no pensamento do século XVIII, eu diria que essas lutas estão perdidas. Porque elas serão conduzidas em nome do homem abstrato, do homem 'normal', do homem 'de boa saúde', que é o precipitado de uma série de poderes.

Agora, se quisermos fazer a crítica desses poderes, não se deve efetuá-la em nome de uma ideia do homem construída a partir desses poderes. Quando o marxismo vulgar fala do homem completo, do homem reconciliado com ele mesmo, de que se trata? Do homem 'normal', do homem 'equilibrado'. Quando se formou a imagem desse homem? A partir de um saber e de um poder psiquiátrico, médico, um poder 'normalizador'. 

Fazer crítica política em nome desse humanismo significa reintroduzir na arma do combate aquilo contra o qual combatemos."



terça-feira, 13 de julho de 2010

HOMENS E ANIMAIS



































Não penso ser o caso de comparações entre exemplos particulares, até porque, efetivamente, não existe igualdade na natureza; o que há são características genéticas e morfológicas que, mais ou menos, assemelham os indivíduos de uma suposta mesma espécie a um padrão genérico convencionado.

Tal padrão é, até certo ponto, inegavelmente arbitrário, mas nem por isso absurdo na medida em que se fundamenta nos pressupostos lógicos de uma racionalidade eminentemente técnica que tem-se mostrado muito útil na resolução de problemas, com maior ou menor grau de sucesso, no âmbito de várias ciências (física, química, biologia, antropologia, etc.), ao longo da história do pensamento.

Mais precisamente desde, pelo menos, o Renascimento (ou talvez mesmo antes), porém com maior ênfase a partir do advento do Iluminismo e com profundas raízes fincadas no Idealismo (ainda que às vezes de forma sutil e em outras tantas vezes de forma constrangedoramente envergonhada ou até mesmo não-admitida).

Somos, portanto, segundo esta perspectiva e ainda que sob o regime de uma admissão relutante, animais sim, também sujeitos a instintos como todos os demais, mas, e aí se introduz a diferença crucial, de um tipo especial: animal humano, aristotélico-platônico, racional. Mas será que somos tão 'especiais' assim?

Ainda que a própria vida de vez em quando nos prove que esta classificação não é de forma alguma absoluta e nem mesmo a mais plausível ou muito menos a única possível, ainda assim, há que se admitir um diferencial óbvio e inescapável.

Sejam quais forem os parâmetros, o homem não é necessariamente melhor ou pior que os outros animais, mas fundamentalmente diferente num sentido bem claro. E o que nos permite apontar essa clareza de forma tão veemente é a habilidade que possui o homem de saber manipular códigos e signos em geral com complexidade e eficiencia ímpar, apesar de ser evidente que o homo sapiens não é absolutamente a única espécie dotada de capacidade criativa, comunicação (nem tão rudimentar em alguns casos, ainda que não-verbal) e hierarquia social.      

Porém, é justamente por ser capaz de dominar tão eficientemente linguagens as mais variadas possíveis que ao homem é dado legar informação e conhecimento, em quantidade e sofisticação incomparável, às gerações futuras. Este animal insólito e surpreendente é, portanto, e definitivamente, um criador de cultura. E essa é sua dádiva e sua maldição.

A própria possibilidade de concepção de um julgamento ético ou moral a respeito da 'violência', da 'crueldade' ou do 'egoísmo' humanos é uma evidencia mais que suficiente: sem uma cultura estruturada de tal e qual forma não haveria lugar para este tipo de avaliação, até porque na natureza, entre os outros animais, e ainda sob um ponto de vista inescapavelmente humano, essa é a regra impessoal e amoral.

Nesse sentido, não há como simplesmente negar esse componente diferenciador (a cultura) e pretender voltar a ser animal não-humano, 'besta-fera', mas também não é o caso de abandonar completamente certos instintos básicos e inegavelmente úteis à manutenção do indivíduo e da espécie ou, ainda, abnegadamente render-se a tradições culturais que levam a pensar o homem de forma negativa e pessimista. 

O que ocorre, efetivamente, e dessa 'nova fé' precisamos nos imbuir, é um constante aprendizado com vistas à evolução progressiva, inspirado na aposta vital e existencial de que é possível superar os impasses colocados pela próprias circunstâncias biológicas, políticas e tecnológicas. Ou seja - e as transformações psicossociais decorrentes de novas descobertas e propostas até então inéditas dentro do própirio ambiente cultural garantem tal possibilidade -, é preciso abrir mão de um certo 'esquema de pensamento' ultrapassado e abraçar um novo paradigma que permita a superação dos atuais desafios à criatividade e à própria sobrevivência do homem e do mundo em outros níveis de entendimento.

Não obstante a submissão cega proposta pela teologia tradicional aos "desígnios superiores" de divindades inescrutáveis (sem mesmo discutí-los ou procurar compreender a possibilidade da atuação de estruturas e forças impessoais e exteriores a nossa percepção limitada), de qualquer forma ou sob qualquer outro ponto de vista diferente, penso ser quase inescapável, para alguns, supor que o suicídio seja a opção mais honesta e corajosa, ainda que muitos prefiram simplesmente "assistir a tudo de cima do muro" ou hedonística e egocentricamente "curtir" a vida sem maiores preocupações, talvez por mera ignorância ou sincera perplexidade diante do reinado sombrio de que todos somos súditos nos dias atuais.

Para alguns tal estado de coisas seria o reflexo de um momento específico no ciclo cósmico da existência e que ora se manifesta como decadência (mas também como renovação), conhecido no hinduísmo como Kali Yuga. Outros talvez o interpretem como a aproximação do 'fim do mundo', ou coisa que o valha. E outros tantos simplesmente não admitem sentido algum à existencia e, sendo assim, "tanto faz como tanto fez".

Entretanto, tudo tem seu preço, e o mundo que nossos filhos e netos herdarão no futuro depende em muito do esforço que cada um de nós estiver disposto a fazer para torná-lo melhor desde já, a fim de garantir que haja um 'depois' tanto para a humanidade quanto para os outros animais. Até porque corremos o risco de que, muito em breve, os únicos seres vivos a habitarem nosso planeta sejam as baratas e as bactérias.

"E daí?", dirão alguns. "Eu só quero saber do meu, o resto que se dane", dirão outros (ou provavelmente os mesmos). É lastimável que, mesmo não sendo maioria (assim espero), provavelmente constituam uma parcela considerável da população mundial. Este tipo de 'comportamento-resposta' aos desafios do mundo - misto de indiferença com egoísmo -, não é inédito na história, mas não deixa sempre de nos surpreender a capacidade humana para a imbecilidade.     

POST-SCRIPTUM:


Este já é outro assunto, o qual, assim nos parece, tem pouco a ver com o suposto conflito 'homem x animal', ao qual talvez retornemos no futuro.


sábado, 8 de maio de 2010

DUALIDADES E SIMETRIAS



































"Parece-me que a questão decisiva da espécie humana é a de saber se, e em que medida, o seu desenvolvimento cultural será bem-sucedido em dominar o obstáculo à convivência representado pelos impulsos humanos de agressão e de autoaniquilação" - Sigmund Freud


Existe uma discussão milenar, velada ou explícita, presente em quase todas as manifestações culturais da humanidade, seja nas artes, nas ciências, nas religiões ou na filosofia, a respeito do real valor da emoção, no sentido em que esta é percebida como as tais tão criticadas ‘paixões humanas’, supostamente a origem (ou, pelo menos, uma delas) da irracionalidade, em contraposição a razão, fundamento do ‘logos’ (palavra grega da qual deriva o termo ‘lógica’) e, portanto, de todo e qualquer discurso, filosófico ou não.

Românticos e sensualistas a parte, é indiscutível que a segunda (a razão) tem tido uma significativa vantagem sobre a primeira (a emoção) nesta comparação, ao longo dos tempos.

Afinal, devem as paixões ser suprimidas ou estimuladas pelo homem?

Do meu ponto de vista, nem uma coisa nem outra.

Estas deveriam ser, antes de tudo, aceitas e compreendidas, objetivando-se o desenvolvimento de um equilíbrio, o mais harmonioso possível, no interior da alma humana.

Indiscutivelmente tal equilíbrio não é possível sem o auxílio das ferramentas do intelecto, porém, para que  seja concretizado, há que se ampliar, necessariamente, o âmbito de abordagem do entendimento racional – valorizando-se a suposta ‘irracionalidade’ da mitologia clássica ou do zen-budismo, por exemplo, bem como o potencial da imaginação para criar ou descobrir o novo na literatura, na física teórica ou na comunicação entre os homens, suas relações de produção e interação com o meio ambiente – através da admissão de lógicas alternativas àquela praticada convencionalmente (aristotélico-cartesiana).

Como disse Grant Morrisson: "Não existem dualidades. Apenas simetrias". Ou seja, o conflito entre opostos é apenas ilusório. Eles se complementam necessariamente e um não existe sem o outro, assim como a luz e a sombra. E toda a relatividade, todo o "cinza" do universo, é resultante daquela tensão, real ou aparente, que gera energia potencial entre todos os pólos (ou melhor, simetrias) possíveis e imagináveis, viabilizando, assim, aquilo a que chamamos de realidade. 

Metafísica? Talvez, se entendida a partir de versões equivocadas da pós-modernidade que se distanciam do horizonte conceitual fundamental em que se formou a compreensão histórica da modernidade e de sua relação com a racionalidade, atualmente postas em questão.

Parafraseando Arnold Gehlen (para discordar das conclusões do mesmo e concordar com J. Habermas), apesar de admitir que “as premissas do Iluminismo (Aufklärung) estão mortas”, ainda assim suas consequências continuam em curso e elas não são ‘apenas’ de cunho social, mas também, e eminentemente, de cunho cultural. Admitir que tal discussão esteja obsoleta em nome de um suposto pós-Iluminismo é tornar-se cúmplice, mesmo que involuntariamente, de um evidente contra-Iluminismo. E, como já dizia minha avó, "quem anda pra trás é carangueijo".

Bem diferente é buscar novos entendimentos a partir de um olhar crítico às conquistas intelectuais do passado. Até porque, síntese dialética tem a ver com superação por assimilação e incorporação e não mera rejeição e negação, função da antítese: admitir a irracionalidade não significa, necessariamente, abrir mão da racionalidade.

E que não se diga que a dialética está superada, baseando-se em argumentos no mínimo discutíveis, sob o risco de empobrecimento do pensamento. Ela é, certamente, uma ferramenta limitada (como todas o são, em última análise), mas ainda assim extremamente útil ao processo de reflexão, desde que acompanhada de outras tantas possibilidades instrumentais e não cotejada como verdade única e absoluta.