Mostrando postagens com marcador sentido da vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sentido da vida. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de março de 2015

SOMOS VIÁVEIS? (1)

    




  [ARNALDO BLOCH; O GLOBO - SEGUNDO CADERNO; 07.03.2015]

Um dos traços característicos da espécie humana é a crença de que, entre os demais seres vivos conhecidos, estamos no topo da evolução. Nossas capacidades de refletir sobre nós mesmos, formular hipóteses, destrinchar as causas naturais para os fenômenos e nossa consciência, que permite transcender o simples viver, são consideradas valiosas. Mas nunca perguntamos: valiosas para quem e para quê?
O planeta se lixa para nós. O Cosmo não está nem aí. Os animais são esculachados. As florestas, montanhas, geleiras; os mares, os rios - estão indo para o brejo. Resta, então, a hipótese de que somos valiosos para nós mesmos. De que nossa busca é o estágio em que o Universo toma consciência de si, num processo que ainda está na infância, mas resultará, um dia, em algo grande para nós e para o todo.


Mas, se olharmos com cuidado, a julgar pelo ponto a que chegamos, nem essa hipótese (sermos valiosos para nós) se sustenta. No máximo, pode-se considerar que um indivíduo pode ser feliz por um tempo determinado, mas nem isso é uma obra que a espécie realizou: é um benefício que a vida, a natureza, conferem a um ser, e pelo qual deveríamos agradecer humildemente.

De resto, que evolução é esta que o humano alcançou? Mesmo dentro de nossas conceituações do que seja bom ou mal para a Humanidade, qualquer progresso que se verifique está, sempre, sub judice. A própria ideia de progresso vive em xeque: o crescimento irrefreado, que é o ideal de qualquer pensamento econômico aceito, é obviamente destinado ao desastre. Mesmo se deixarmos de lado os sinais claros de que esse paradigma está destruindo a vida em sociedade, é uma questão de matemática rudimentar: a Terra tem uma determinada extensão. Logo, a multiplicação de objetos, edificações, veículos, propriedades, e da população, tem um limite. De espaço, de recursos, de energia, de meios, de motivação.

Mesmo assim, o crescimento, puro e simples, infinito, é o único que vale para qualquer índice que calcule a prosperidade de uma nação, como se não houvesse um horizonte final (em outras palavras, danem-se as próximas gerações, o que importa é o mundo agora). Se há um discurso e um movimento planetários em prol da preservação ou até conceitos malucos como o do descrecimento, a comunidade das nações não dá qualquer sinal de que possa haver uma concórdia sobre as providências no sentido de uma decisiva mudança de postura global.

Falam mais alto as paixões, a sede de potência e de acúmulo, guiados pela certeza da morte, e a compulsão pela otimização do gozo numa corrida contra o relógio que leva a tumba.

POST-SCRIPTUM:


Resultado de imagem para capitalismo selvagem




quarta-feira, 30 de abril de 2014

SAUDADES DO FUTURO (2)




[Editado de um texto de Arnaldo Jabor publicado no Segundo Caderno do jornal O GLOBO]


A cultura patriarcal/estatal desde a colônia nos garantiu durante o populismo janguista até 64, que o Estado faria uma revolução tropical e transcendental (vide os delírios de Darcy Ribeiro, por exemplo), de modo a tirar o país da "alienação" e salvar, pela arte, os oprimidos. A cultura era uma política. O golpe de 64 foi uma porrada na utopia. Mas houve uma vantagem: a derrota nos "ajudou" a ver o atraso de nossas certezas. A ditadura e a depressão dos derrotados nos mostraram que o buraco era mais embaixo e que as forças da História eram mais labirínticas. A esquerda começou a se autocriticar (nem toda, claro - vide os soviéticos que ainda vicejam por aí).

Nos anos 1970, a contracultura ampliou repertórios e códigos artísticos, pela loucura do "desbunde" e da subcultura hippie. Houve uma virada mais antropológica que ideológica.



De cabeça para baixo, vimos mais. Valíamos pelo que "não" tínhamos e, se antes éramos vítimas imaginárias do capitalismo, agora éramos vítimas reais da ditadura e passamos a ter uma nova meta: a liberdade.

Surgiu um novo ente: o mercado. Se Lênin disse que nada existe fora do poder, o capital respondia que nada existia fora do mercado. Para onde ir? O trauma da globalização foi mais profundo que a derrota de 64; ficamos mais informados politicamente, mais cultos, embora, para os mais burros, tenha renascido um neonacionalismo rancoroso e feroz, a ideologia cultural do "bode-preto" reforçando conceitos superados: um "mix" de farrapos de esquerda, azedume "punk", pálida tristeza e anseios regressistas.

De repente, outra porrada no voluntarismo de intelectuais e artistas: não há mais futuro. Subitamente o presente nos atacou com uma enxurrada de vida liberada pela era digital na internet.

Sempre falávamos na democratização da cultura, das artes... Pois ela está aí... e não foi o Estado nem o ministério, nem anseios neorromânticos. 

Ela está aí... Bill Gates, Jobs, as redes, os microchips mudaram o mundo... Quem diria?



E agora a mutação é mais intrincada porque não há "uma" ideia nova, uma escola, uma tendência. A mutação atual é a "contribuição milionária" de todos os desejos expressivos. Mudaram todos os suportes, as formas se multiplicam sem parar criando novas significações.

Sabíamos que a era digital mudaria tudo, desde o mundo árabe até a poesia de Shakespeare? Mais uma vez, as coisas criam os homens... Todo mundo pode fazer arte, poesia e a internet é o novo parnaso digital.

Reação romântica: como fazer arte sem futuro, sem finalidade? Sem a ideia de "eterno"? Que será do artista demiurgo, aqueles "poucos falando para muitos"? Agora, em que todos criam para todos, o que é "importante", como dizíamos? O que terá hoje ou amanhã o prefixo"Ur" (alemão) - as coisas fundadoras? Onde está a totalidade?

  

Há uma revolução de meios sem uma clareza de fins. Como será o mundo árabe? Como será a grande arte? Ainda haverá? Os meios justificam fins desconhecidos. E, vamos combinar, que mesmo na louvação das irrelevâncias, ainda dorme talvez o desejo de um sentido. Olha a encrenca... A própria ideia de um debate sobre esta dúvida já é antiga.

Se fosse proposta a um jovem blogueiro, ele diria: "Pra quê?"


POST-SCRIPTUM:


 




terça-feira, 29 de abril de 2014

SAUDADES DO FUTURO (1)


[Editado de um texto de Arnaldo Jabor publicado no Segundo Caderno do jornal O GLOBO]


Sempre falamos em "cultura brasileira", mas não sabemos exatamente o que é isso, hoje em dia. Cultura é o que? Uma senhora grega, de camisola, segurando uma tocha? Cultura é uma índia, negra e portuguesa, de cocar e saiote? Cultura é um museu erudito e paralítico que rima com "sepultura"? Fazemos boquinha elegante para falar em "cultura" mas sempre sobra um gosto de alguma coisa em crise, que deve ser salva.

Na tradição de bacharéis colonizados de cartola e fraque, sempre amamos as "coisas do espírito", "a alma minha gentil" ou o "vai-se a primeira pomba despertada", as poesias com que nos embriagávamos nos botequins da República Velha, em meio à febre amarela e à varíola. 

A impotência política para superar nosso atraso endêmico nos levou a uma supervalorização da "cultura artística". Era nossa ilusão e consolo: "somos pobres, mas com uma cultura rica...". Senti isso em minha juventude, quando um companheiro me disse: "Não temos nada, mas somos o sal da terra". Fazíamos arte, filmes, música como se salvássemos o país. Agora a web é uma cachoeira de criações artísticas. Acabam os poucos artistas criando para muitos.

Antes, o subdesenvolvimento nos dava uma "superioridade" sobre os "falsos problemas europeus", como o absurdismo do teatro de Beckett ou Ionesco, o "existencialismo alienado do social" ou o sinistro comercialismo americano. A pobreza era nossa maior riqueza. Vivíamos na divisão simplista entre "centro e periferia", colonia e metrópole, vítimas santificadas do imperialismo cruel.

Nossos defeitos institucionais seculares ficavam ocultos, já que a culpa era "dos outros". Chegamos a fazer a glamourização da incompetência. Era a poética da precariedade contra a técnica dos países ricos e "decadentes". Achávamos a miséria uma nova estética - o mito de que o tosco, o povo simples e até o burro são ungidos por uma "verdade sagrada".

Essa ideia reacionária rola até hoje, haja visto o carisma triunfal do ex-presidente operário. Minha geração, no cinema e na esquerda, achávamos que teríamos um futuro cultural que nos salvaria; havia um geist artístico em marcha a uma harmonia libertadora. Éramos os "sujeitos" que moldariam a História. Éramos hegelianos e não sabíamos.

No entanto, as mutações culturais mais visíveis (que não enxergávamos) vieram por "irrupções" de causas materiais, de relações de produção industriais e comerciais: a cultura do café e o Modernismo; o crash da bolsa em 29 contribuindo para nossa "identidade" na revolução de 30; a indústria fonográfica americana e o rádio projetando a música popular dos anos de ouro; a industrialização juscelinista possibilitando a arquitetura, a bossa nova, o Cinema Novo; a Philips e outras gravadoras veiculando a música dos anos 1960; a TV ensinando o povo a falar e a ver o país. Não éramos marxistas e não sabíamos.


POST-SCRIPTUM:





 Continua...

 

quarta-feira, 19 de março de 2014

MICHEL FOUCAULT



[Adaptado de uma reportagem publicada no caderno 'Prosa & Verso' do jornal O GLOBO, em 11.01.2014]


No ano em que se completam três décadas da morte do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) presto aqui minha homenagem aquele que foi o pensador libertário das marginalidades sociais e das minorias culturais, raciais e sexuais.

Foucault expunha uma visão da cultura e da História que não pretendia explicar o presente pelo passado. Preferia investigar os discursos que condicionam as formas de ver e julgar, e analisar a maneira pela qual a cultura contemporânea determina as condições de possibilidade do novo. Construiu assim sua arqueologia da cultura ocidental.


POST-SCRIPTUM:


A seguir um trecho de declarações feitas pelo filósofo, em entrevista concedida ao "Jornal da Tarde", numa visita ao Brasil poucos dias depois do assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes da ditadura militar em 1975:

"A dialética mestre-escravo, segundo Hegel, é o mecanismo pelo qual o poder do mestre se esvazia pelo fato mesmo de seu exercício. A certa altura ele se encontra na dependência do escravo, não tendo mais poder porque cessou de exercê-lo. 

Quero mostrar o oposto: que o poder se reforça pelo seu próprio exercício - não passa sub-repticiamente para o outro lado. Desde 1831, a Europa não parou de pensar que a derrubada do capitalismo era iminente. Isso muito antes de Marx. E ele está aí. Não digo que ele nunca será desenraizado. Mas que o custo de sua derrubada não é o que imaginamos.

Se essas lutas são feitas em nome de alguma essência do homem, tal como ela foi construída no pensamento do século XVIII, eu diria que essas lutas estão perdidas. Porque elas serão conduzidas em nome do homem abstrato, do homem 'normal', do homem 'de boa saúde', que é o precipitado de uma série de poderes.

Agora, se quisermos fazer a crítica desses poderes, não se deve efetuá-la em nome de uma ideia do homem construída a partir desses poderes. Quando o marxismo vulgar fala do homem completo, do homem reconciliado com ele mesmo, de que se trata? Do homem 'normal', do homem 'equilibrado'. Quando se formou a imagem desse homem? A partir de um saber e de um poder psiquiátrico, médico, um poder 'normalizador'. 

Fazer crítica política em nome desse humanismo significa reintroduzir na arma do combate aquilo contra o qual combatemos."



quinta-feira, 6 de março de 2014

DEPRESSÃO



O indivíduo é acometido por uma tristeza profunda. O que antes era sinônimo de prazer passa a não ter mais importância. Falta disposição para tudo - trabalho, família, lazer, a pessoa perde a disposição de viver.

Projetada para ser a segunda causa de incapacitação na população mundial em 2020, a depressão, um distúrbio médico, crônico e recorrente, hoje ocupa o quinto lugar entre as causas de incapacidade por doença, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).



O tratamento consiste na combinação da farmacoterapia (antidepressivos combinados ou não com ansiolíticos ou calmantes) com aporte da psicoterapia, com tempo definido e limitado. Um grande avanço no tratamento da depressão foi o desenvolvimento dos inibidores seletivos de recaptura de serotonina (ISRS).

A depressão altera a função das substâncias cerebrais serotonina e noradrenalina - responsáveis pelo equilíbrio emocional.  O medicamento vai modificar a maneira como o cérebro produz e aproveita essas substâncias, sendo que o mais conhecido é a fluoxetina. Os efeitos colaterais são menores do que os dos remédios anteriores.

 


POST-SCRIPTUM:

Estamos acostumados a pensar que depressão não é doença grave, mas a verdade é que ela leva à incapacidade e afeta a qualidade de vida de forma mais grave do que muitas doenças que têm risco maior de morte.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ESQUERDA, DIREITA: BABACAS, MARCHEM!

Groucho-Marxismo


[EDITADO E ADAPTADO A PARTIR DO ARTIGO "RITOS DE ESQUERDA" PUBLICADO NO LIVRO "GROUCHO-MARXISMO" DA AUTORIA DE BOB BLACK E PUBLICADO PELA ED. CONRAD]



Na astronomia, "revolução" se refere a uma volta ao mesmo lugar. Para a esquerda, parece significar mais ou menos a mesma coisa. O esquerdismo é literalmente reacionário. Assim como os generais estão sempre uma guerra atrasados, os esquerdistas estão sempre em busca de uma revolução.



Eles a vêem como bem-vinda porque sabem que já nasceu fracassada. São vanguardistas porque estão sempre atrás de seu tempo. Como todos os líderes, os esquerdistas são menos intragáveis quando seguem seus seguidores, mas, em certas crises, eles tomam a frente para fazer o sistema funcionar.

Se a metáfora esquerda/direita tem algum significado, ele só pode ser que a esquerda fica à esquerda da mesma coisa da qual a direita fica à direita. Mas e se "revolução" significar sair da linha?



Se não houvesse direita, a esquerda teria que inventá-la - e ela muitas vezes o fez (exemplos: a histeria calculada com os nazistas e a KKK, que concede a esses covardes retardados a notoriedade de que precisam). A direita, da mesma forma, precisa da esquerda: sua definição operacional é sempre "anticomunismo" ou seus vários sinônimos baratos. Assim, a esquerda e a direita pressupõem e recriam uma à outra.



Um efeito negativo dos tempos difíceis é que eles tornam a oposição fácil demais, como (por exemplo) a atual crise econômica, que é encaixada em categorias marxistas arcaicas, populistas ou sindicalistas. A esquerda, portanto, se posiciona para cumprir seu papel histórico de reformista desses males incidentais (embora agonizantes), os quais, devidamente abordados, escondem as injustiças essenciais do sistema: a hierarquia, o moralismo, a burocracia, a mão-de-obra assalariada, a monogamia, o governo, o dinheiro (o marxismo poderá ser um dia algo mais do que a maneira mais sofisticada de o capital pensar sobre si mesmo?).


O desemprego é ruim. Mas a isto não se segue, fora do dogma direito-esquerdista, que o emprego seja bom. Não é. O "direito ao trabalho", talvez um slogan adequado em 1848, está obsoleto. As pessoas não precisam de trabalho. Nós precisamos é da satisfação das necessidades de subsistência, por um lado, e, por outro, de oportunidades de atividade criativa, de convivência, educativa, diversificada e apaixonante.



A mais de cinquenta anos atrás, estimou-se que 5% do trabalho existente na época atenderia às necessidades mínimas de sobrevivência, um índice que deve ser mais baixo hoje; obviamente, ramos inteiros de atividade não servem para nada mais do que atender às finalidades predatórias do comércio e da coerção. 



Essa é uma infra-estrutura ampla a ser modificada para criar um mundo de liberdade, comunidade e prazer no qual a "produção" de usos-valores seja o "consumo" de atividades gratificantes livres. Transformar o trabalho em brincadeira é um projeto para um proletariado que rejeita essa condição, não para esquerdistas que não têm mais o que conduzir.


O pragmatismo, como um rápido olhar no seu funcionamento torna óbvio, é uma armadilha ilusória. A utopia não passa de senso-comum. A escolha entre o "pleno emprego" e o desemprego  - escolha à qual a esquerda e a direita colaboram entre si para nos confinar - é a escolha entre o Gulag e a sarjeta. Não admira que, depois desses anos todos, uma população sufocada e sofredora esteja cansada da mentira democrática. Há cada vez menos pessoas que querem trabalhar  - até entre aquelas que têm motivos para temer o desemprego - e cada vez mais pessoas que querem fazer maravilhas.



Por favor, vamos fazer barulho para obter concessões, redução de impostos, amostras grátis, pão e circo - por que não morder a mão que nos alimenta, se seu sabor é excelente? -mas sem ilusões.

A pérola (sur)racional da verdade dentro da mística ostra marxista é esta: a "classe trabalhadora" é o lendário "agente revolucionário", mas somente se, parando de trabalhar, abolir as classes. "Ativismo" é idiotice quando enriquece nossos inimigos e lhes dá poder.



O esquerdismo, esse parasita de símbolos doloridos, teme a deflagração do incêndio que vai consumir seus partidos e sindicatos junto com as corporações, exércitos e igrejas atualmente controlados por seu ostensivo oponente.

Hoje em dia, você precisa ser estranho para ser efetivo. O esquerdismo cinzento, com suas listas de antagonismos obrigatórios (contra issismos, aquilismos e aquiloutrismos) não tem nenhum humor, nenhuma imaginação; portanto, não pode preparar revoluções, só golpes, que mudam as mentiras, mas não a vida.



Mas o ímpeto de criar é também um ímpeto destrutivo. Mais um esforço, esquerdistas, se quiserem ser revolucionários! Se vocês não se revoltarem contra o trabalho, estarão trabalhando contra a revolta.


POST-SCRIPTUM:






ANARQUISTAS DO MUNDO, UNÍ-VOS! (Mas sem sindicatos ou partidos, ok?)



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

FENDA NA RAZÃO



Dentre os inúmeros objetivos pretendidos originalmente por este 'blog' sempre esteve a divulgação da cultura em todos (ou pelo menos quase todos...) os seus matizes.   

E um dos mais importantes é a discussão da filosofia, tanto de per se quanto nas manifestações literárias da atualidade pós-moderna a respeito do assunto.

É, portanto, consciente de que não poderia dizer de melhor forma que humildemente passo a palavra ao poeta Alberto Pucheu em sua análise do livro "Um Sábio Não Tem Idéia", da autoria de François Julien e publicado pela Ed. Martins Fontes:

[TEXTO EDITADO DE UMA CRÍTICA PUBLICADA NO CADERNO LITERÁRIO DO JORNAL 'O GLOBO'] 




Já em seu princípio, na Grécia, a filosofia se esforçou por estabelecer uma diferença específica em relação às possibilidades do pensamento até então.

As quatro alteridades fundamentais da filosofia, supostamente estabelecidas: a sabedoria, a poesia, a sofística e a política.

Nada disso é tão simples. Aristóteles chamava boa parte dos pensadores anteriores a ele de filósofos, incluindo até mesmo Hesíodo. Protágoras, no diálogo homônimo escrito por Platão, relaciona o próprio Hesíodo não só à poesia como também à sofística. Se lembrarmos que, posteriormente, Diógenes Laércio afirmou que "sofista" era outro nome para "sábio", "poeta" e "filósofo", a confusão estaria completa. 



Ou melhor: no momento do frescor da filosofia, a encruzilhada tornava as efervescentes experiências do pensamento indiscerníveis.

Além disso, se Platão escreveu sobre o poeta, sobre o sofista e sobre o político, por que não teria elaborado o diálogo sobre o filósofo, conforme o anunciado?

A não ser que, falando dessas supostas alteridades, esteja o tempo todo pensando a filosofia e a impossibilidade de sua apreensão isolada.

 


Esses termos, com o tempo, tornaram-se gastos e perderam complexidades importantes. Isso ocorreu pela insistência de quase toda a tradição ocidental em defini-los uns contra os outros, compartimentando o que, mesmo em Platão, era de definição controversa.

Eis o grande mérito do filósofo e sinólogo francês François Julien: mostrar um fundo de experiência e de pensamento que, por não ter vingado em nossa História, a filosofia enquanto metafísica não pôde conceber.

Um dos preconceitos contra os quais o livro se lança é o de que a sabedoria teria sido superada pela filosofia, como se sua anterioridade cronológica fosse imaturidade de pensamento.



O que ele mostra é justamente a radicalidade dessa experiência na própria condição de possibilidade da filosofia e que foi apagada pelo privilégio da razão européia. Julien retira a sabedoria da perspectiva mística e exótica, afastando-a dos lugares-comuns que as apressadas tentativas de aproximação entre o Ocidente e o Oriente suscitam.

Abrindo uma fenda na razão, transforma-a no que seria sua própria condição de possibilidade, saindo do jogo contraditório entre razão e seu oposto. Trata-se de demarcar uma lógica da sabedoria.



François Julien mantém um diálogo vivo e tenso entre a filosofia e o pensamento chinês.

"Um Sábio Não Tem Idéia", por sua originalidade e força, tem a difícil capacidade de sulcar caminhos impensados e propulsores.




POST-SCRIPTUM:

Um livro extraordinário e indispensável para quem quer ampliar seus horizontes, que busca resgatar um tipo de experiência e de pensamento não absorvidos pela filosofia convencional do Ocidente. 

E que as fendas na razão um dia recuperem a verdadeira Sabedoria!

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

CHUVA DE TIJOLOS


[Editado e adaptado de um artigo da autoria de CORA RÓNAI: cora.blogspot.com]


Millôr dizia que viver é desenhar sem borracha. Dizia também que é como atravessar uma chuva de tijolos: a gente escapa da maioria deles, mas às vezes um acerta um ombro, às vezes pega meio de lado, às vezes parte um joelho. As marcas das tijoladas vão se acumulando, dentro e fora, até aquele tijolo que acerta em cheio.




Gosto dessa metáfora. Acredito em tijolos, e acredito em cacos de tijolo, nas sobras de um tijolo específico destinado a determinado passante que, sem propósito ou querer, acerta os outros à sua volta, aquilo que em linguagem de guerra os angloparlantes chamam de 'collateral damage'.

Não simpatizei com 2013. A quantidade de tijolos foi acima do suportável.


POST-SCRIPTUM:

Cora Rónai acertou o tijolo em cheio!





['Chupado' descaradamente da Wikipédia]

Cora Rónai começou sua carreira no jornalismo em Brasília. Trabalhou no Jornal de Brasília, no Correio Braziliense e nas sucursais da Folha de S. Paulo e do Jornal do Brasil. Em 1980 voltou para o Rio de Janeiro. Em 1982 deixou o Jornal do Brasil, ao qual retornaria alguns anos depois, para dedicar-se à literatura e ao teatro infantis. Nessas áreas, recebeu prêmios da ANLIJ e o Prêmio Mambembe.
Pioneira do jornalismo de tecnologia, lançou em 1987, no Jornal do Brasil, a primeira coluna sobre computação da grande imprensa brasileira. Usuária de computador pessoal desde 1986, adotava, já então, o estilo de escrita coloquial que caracteriza o seu trabalho, seja na área cultural, seja na área tecnológica.
Foi a primeira jornalista brasileira a criar um blog, o internETC., ativo desde 2001, e primeira a dedicar-se à fotografia digital como ferramenta de comunicação. Nos primórdios do Fotolog, a página que ilustrava com fotos do Rio de Janeiro e de suas viagens chegou a ser a mais visitada do mundo.
Em maio de 2006, consolidou seu trabalho como pioneira também no uso dos celulares com câmera lançando o livro Fala Foto, seleção de imagens realizadas ao longo de cinco anos com mais de uma dezena de diferentes aparelhos. Fala Foto, finalista do Prêmio Jabuti, foi o primeiro livro de fotos de celulares do mundo. Parte das fotos do livro foi exibida numa individual na Mercedes Viegas Arte Contemporânea, importante galeria carioca, outro feito inédito para instantâneos colhidos por celulares, sem pretensões artísticas.
No jornal O Globo, onde trabalha desde 1991, criou o caderno de tecnologia "Info etc.", que editou até 2008. Atualmente, além de colunista de "Tecnologia", é também cronista do "Segundo Caderno".
Recebeu o Prêmio Comunique-se de Melhor Jornalista de Informática em 2004, 2006 e 2008.
É conhecida também pela defesa incondicional do Rio de Janeiro, dos animais e do meio-ambiente.
Filha do tradutor Paulo Rónai e da arquiteta e professora Nora Tausz Rónai, manteve uma longa relação com o jornalista Millôr Fernandes. É mãe do empresário Paulo José e da jornalista Beatriz.

sábado, 29 de dezembro de 2012

E O MUNDO NÃO ACABOU...




Salve, salve, minha gente, estamos aí de novo depois de uma longa ausência.

Alguém poderia pensar que eu estava deprimido com a possibilidade de o mundo acabar mesmo e que resolví abandonar tudo para aproveitar e 'curtir' a vida, fazendo as coisas que sempre tive vontade de fazer mas não tinha coragem (aliás, aquele seriado da TV Globo, "COMO APROVEITAR O FIM DO MUNDO", foi realmente muito legal e engraçado, não?). Ou então para me preparar espiritualmente para encarar o derradeiro final de tudo. Nada a ver...






Se bem que lá no fundo (no bom sentido, é claro), talvez eu desejasse inconscientemente que o mundo fosse mesmo para o beleléu; tá feia a coisa! Mas sempre resta uma esperança...

Na verdade eu precisei me ausentar por motivos puramente pessoais que nem valem a pena mencionar; voltemos, portanto, ao 'fim do mundo'. Esse papo, pra quem não sabe, é antigo. Não me recordo agora quem foi que disse que quando isso acontecer não será com um 'BANG!' e sim com um gemido. De dor e lentamente, com certeza. Mas a sensação é de que essa decadência já começou há muito tempo (aliás, desde o começo do Universo: a entropia é um processo irreverssível, sabiam?). Mas a vida não se dá por vencida e novas estrelas continuam nascendo, assim como novos bebês e novos modelos de carros. É como já dizia o menestrel Belchior na canção "Como Nossos Pais": o novo sempre vem (apesar das inevitáveis resistências).

Este suposto 'fim do mundo' que ocorreria em 21 de dezembro de 2012, na minha opinião, não passou de um malentendido devido à interpretação equivocada (inocente ou proposital?) da mídia em geral com relação ao calendário maia.




Não podemos saber com certeza o motivo das tais inscrições em pedra baseadas na observação precisa dos astros (os maias eram exímios astrônomos, mesmo sem possuir telescópios) terminarem abruptamente naquela data fatídica. Pode até ser que arqueólogos encontrem outros calendários de pedra contendo a continuação das previsões astronômicas a partir daí. Ou não.

Mas isso nem é tão importante assim se você pode acreditar que este 'fim do mundo' não é necessariamente o fim no sentido literal. Na verdade pode ser o início de um novo 'começo', aquela tal Era de Aquário que o Zodíaco determina sem muita precisão em torno de nosso novo século (pra quem acredita em horóscopo) e que é tão cara aos esotéricos de plantão e que vem sendo proclamada desde os anos 1960 do século passado por 'hippies', místicos e similares (não me pergunte se a Lua está na sétima casa ou se Júpiter está alinhado com Marte) com ansiosa antecipação e principalmente bastante fé.





Quem sabe? Pode ser que realmente estejamos entrando numa Nova Era de paz e harmonia. Sou meio cético quanto a isso; entretanto me identifico com Caetano Veloso quando este se diz pessimista a curto prazo mas otimista a longo prazo. Admito que é um 'salto de fé' digno de uma Olimpíada, mas não é esse tipo de coisa que faz as pessoas acreditarem que o sol vai nascer amanhã e que o dia de hoje será melhor do que o de ontem? Pois é.

Então é isso aí: aproveitando a oportunidade concedida pelo Ano Novo que se avizinha vamos torcer para que o 'fim' seja mais um 'começo' e que tudo será melhor daqui pra frente (ainda que com um pé atrás...).

Pois que venha portanto a tão badalada Nova Era, com suas promessas de encanto e felicidade. Amém!



POST SCRIPTUM:



Falando com toda a seriedade (a maioria das pessoas leva esses assuntos na brincadeira, as vezes eu mesmo), nossa cultura ocidental tem o costume de ridicularizar ou diminuir todo tipo de informação derivada de civilizações mais antigas, com base no pensamento "científico" e/ou "racional" predominante em nossa era atual, esquecendo que tudo é uma questão de "modos" de linguagem que remetem a visões de mundo diferentes e nem sempre compatíveis. 






Além do mais, "fim do mundo" não precisa necessariamente ser interpretado literalmente: as "coisas" e pessoas podem continuar todas por aí e, ainda assim, um certo tipo de "mundo" acabar por completo. Ah, e não nos esqueçamos que diversos povos da antiguidade eram excelentes astrônomos, ainda que esta atividade estivesse ligada principalmente à atividades religiosas, mas nem por isso estariam incorretas do ponto de vista científico moderno. 



Mais respeito e um entendimento filosófico mais aprofundado com relação a outros povos e culturas é uma das maiores carências de nossa civilização atual (sem falar em solidariedade, honestidade, coerência, etc, etc, etc; mas isso já é outro assunto. Ou não?).


Mas não fiquem tristes se tudo isso não passar de mais uma jogada de 'marketing' da mídia e dos 'podres poderes' que nos oprimem nas sombras ou mesmo em plena luz do dia...  

  

sexta-feira, 6 de julho de 2012

FECHADO TEMPORARIAMENTE PARA REFORMAS




Dando um tempo, um booom tempo...



Nem é uma questão de assunto, mas há tempos venho percebendo que tanto eu quanto as outras pessoas (aliás o mundo todo em geral), anda meio louco... No mau sentido, claro.



Sei lá, tem alguma coisa muito estranha, muito esquisita acontecendo. Não é nada específico ou fácil de identificar (ou talvez até seja, mas parece que a própria percepção do problema dificulta sua definição e localização). 



Como eu disse, sei lá.



P0ST-SCRIPTUM:



Mais sobre o assunto em futuras postagens (ou não). 



Por enquanto, fuck it.

domingo, 12 de junho de 2011

TÔ DE SACO CHEIO






É muita aporrinhação de tudo que é lado, muitos compromissos pendentes pra resolver, pouco dinheiro pra gastar e pouca paciência pra poder aturar. Tô me sentindo meio como o velho Sísifo da lenda (para os menos informados, nada a ver com "sifú", mas até que dá pra traçar um paralelo nem tão forçado...) 




Isso prá não falar nas notícias, tanto nacionais quanto internacionais. É o mesmo marasmo de sempre: corrupção, enchente, terremoto, assassinato e por aí vai.




Podem dizer que ando meio depressivo e tal, mas resolví dar um tempo em tudo. Já que nada muda a minha volta, mudo eu.  




Fui, mas volto logo...




POST-SCRIPTUM:






LEVE DESESPERO
(Capital Inicial)

Eu não consigo mais me concentrar

Eu vou tentar alguma coisa para melhorar
É importante, todos me dizem
Mas nada me acontece como eu queria

Estou perdido, sei que estou

Cego para assuntos banais
Problemas do cotidiano
Eu já não sei como resolver

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Então é outra noite num bar

Um copo atrás do outro
Procuro trocados no meu bolso
Dá pra me arrumar um cigarro?

Eu não consigo mais me concentrar

Eu vou tentar alguma coisa para melhorar
Já estou vendo TV como companhia

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Talvez se você entendesse

O que está acontecendo
Poderia me explicar
Eu não saio do meu canto
As paredes me impedem
Eu só queria me divertir

As paredes me impedem

Já estou vendo TV como companhia

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

segunda-feira, 11 de abril de 2011

KARL MARX E 'A MISÉRIA DA FILOSOFIA'





Em fins do século XIX as reflexões de Karl Marx (1818-1883) sobre a história levaram-no a reconhecer a importância fundamental das questões ligadas à produção: não há sociedade que não consuma para sobreviver; e, para consumir, ela precisa, de algum modo, produzir.

Assim, não há como compreender a complexidade inerente a qualquer sociedade se não levarmos em conta os problemas ligados ao modo pelo qual ela organiza a sua produção e ao modo pelo qual nela se dá a apropriação da riqueza produzida. 






Esta é, em essência, a concepção da história elaborada por Marx, a qual corresponde com perfeita coerência à sua concepção do homem, cujos aspectos essenciais ele desenvolveu numa polêmica com o socialista utópico francês, Proudhon.

Advertia Marx, então, que "as relações de produção formam um todo" e que certa visão de conjunto torna-se indispensável para a avaliação do verdadeiro alcance de cada fenômeno observado na história. Marx se contrapunha, portanto, à ilusão que levava Proudhon a se basear, não na totalidade dinâmica das relações de produção, mas numa pretensa natureza humana imutável, para avaliar os problemas históricos da sociedade de seu tempo.






"O Sr. Proudhon não sabe que toda a história tem sido apenas uma transformação constante da natureza humana", escreveu Marx em seu livro 'A MISÉRIA DA FILOSOFIA'. 

Desde o seu nascimento, a Filosofia tratou de assuntos cruciais: a natureza das coisas, a natureza do homem, a ética, as formas de governo, a felicidade, o trabalho, o átomo, a economia, a liberdade, a justiça, o amor, a verdade, a vida, a morte, etc. Todos estes problemas são ainda hoje atuais. Nunca, nenhum deles foi equacionado definitivamente. Isso mostra que as questões realmente importantes são sempre retomadas e articuladas de modo novo ao longo da história humana.






A Filosofia é, portanto, um discurso vivo e inacabado, justamente porque se origina nas questões radicais de nossa existência, bem com da ciência, da política, da arte e da religião. Assim sendo, ela não pode ser neutra. Pelo contrário, deve revestir-se de um profundo sentido transformador e crítico da realidade, que surge a partir de concepções revolucionárias do homem e do mundo.

Tais concepções se colocam como contraponto ao discurso praticado pela tradição filosófica que situava a discussão no nível exclusivo de uma visão metafísica da realidade ou permanecia presa à estreiteza de um ponto de vista puramente contemplativo; em outras palavras, "a miséria da filosofia".






“Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; trata-se, entretanto, de transformá-lo”, escreveu Marx. Ou seja, sua proposta era de rompimento com práticas anteriores caracterizadas pela inércia e pelo conformismo com a situação que se apresentava e de participação no sentido de um engajamento em um verdadeiro movimento transformador das consciências em geral, e do curso de filosofia em particular, instaurando, assim, o pensar que quer ser agente e ator da transformação da realidade.

Alguns poderiam questionar, e muitos o fazem, a respeito da relevância do pensamento de Karl Marx para os dias de hoje, pelo menos fora dos meios acadêmicos. Nestes vetustos santuários da ortodoxia marxista, até onde sei, ele vai muito bem, obrigado (ou, pensando bem, talvez nem tanto...). Mas e no caldeirão da cultura globalizada, território por excelência do genérico, do virtual e do fugaz (qualidades essas que – e isto deve ser sempre enfatizado – não merecem à priori o rótulo de 'negativas', diga-se de passagem)?






Eu diria que, como tudo, depende. Depende, entre outros aspectos que se possa pensar, principalmente da interpretação que se dê a seus escritos e da relação dessa interpretação com a transformação das circunstâncias históricas, desde a época em que foram concebidos até os dias atuais.

Se o ponto de partida for o marxismo ortodoxo, ou seja, aquela velha ladainha maniqueísta dos partidos de esquerda tradicionais, não vale nem a pena começar a discutir, é pura perda de tempo. Esse tipo de ‘pensamento’ não vai além de alguns clichês e palavras de ordem decoradas em cartilhas fomentadoras do ódio e do ressentimento. E, além do mais, extremamente hipócritas.







Entretanto, se o ponto de partida for o pensamento vivo desse que foi, antes de tudo, um filósofo, e só depois um economista e um político, ou seja – como diria o mestre José Arthur Giannoti – , não o ‘marxismo’ (que diria respeito a tudo que foi feito, devida ou indevidamente, em nome de Karl Marx), mas o pensamento ‘marxiano’ (que nos remeteria ao que ele efetivamente escreveu), então a resposta só pode ser um sonoro sim, pois não há como entender o século XX e entrar no século XXI sem conhecer as revolucionárias idéias de Marx.



POST-SCRIPTUM:


Não obstante que, em sua maior parte, a doutrina marxista seja de 'segunda mão' – originária de interpretações dadas por dirigentes soviéticos como Lênin, Trotsky e Stálin, ou o chinês Mao Tsé-Tung –, a obra de Marx, incontestavelmente, trouxe contribuições originais para a filosofia, a sociologia, a economia política e a história, ainda que discordemos pontualmente de algumas (ou mesmo de muitas) de suas colocações. 







E, se há que se admitir que poucos, na verdade, ousaram desbravar a complexidade de sua obra, não há como negar que, toda vez que achamos que alguma coisa está errada em uma sociedade em que uma minoria tem muito dinheiro e a maior parte da população vive em dificuldade, e que os sonhos de consumo nos tornam apenas mais vazios, estamos pensando na companhia de Marx, de uma forma ou de outra.


(Agradecimentos especiais aos professores LEANDRO KONDER e OLINTO PEGORARO)