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domingo, 16 de março de 2014

A COPA DO CU DO MUNDO



[Editado a partir de um artigo publicado no jornal O GLOBO em 01.03.2014 da autoria de José Miguel Wisnik]


Numa sequência ao mesmo tempo divertida e contundente, na base do programa de auditório, joga-se com a iminência da realização, no Brasil, desse maior espetáculo da Terra, que é chamado nada mais nada menos do que a Copa do Cu do Mundo.

Todo o sentido crítico que se possa, toda a virada pelo avesso do padrão Fifa, exibido pela culatra, toda a remissão às misérias, às derrisões e aos terrores da doença brasileira, tudo está aí, nesse nome.

Mas também, no reconhecimento disso, a capacidade de afirmar a potência da cultura (com trocadilho), de rir das máscaras canastronas, de exercer o apetite de viver e, por incrível que pudesse ser e é, de marcar um lugar original no planeta. É claro que isso só pode ser afirmado em vista da grandeza artística do todo, e no modo como o espetáculo vai fundo na experiência social e vital do país.

A discutida camiseta da Adidas para a Copa, onde se estampa "I love Brazil" na forma de um coração-bunda, é uma versão limitada, mercadológica pitoresca e não assumida do fato de que se olha difusamente a Copa do Brasil como uma espécie de Copa do Cu do Mundo.

Não o quarto mundo, não o cu do mundo, mas a quarta dimensão do cu do mundo.

POST-SCRIPTUM:

"O futuro do Brasil é tão grandioso que não há abismo em que caiba." - Agostinho da Silva

Será mesmo? Espero sinceramente que sim, senão corremos o sério risco de atolar num esgoto metafórico...



domingo, 2 de março de 2014

ABSURDO



[Editado do artigo "Absurdo do absurdo" de Arnaldo Bloch, publicado no 'Segundo Caderno' do jornal O GLOBO em 01.02.2014]


No comando de um Brasil no qual as prisões emulam cenas de masmorras medievais, país em que o saneamento não chega a mais da metade da população e o modelo energético do futuro (e a propaganda totalitária que o acompanha) é todo calcado no petróleo, os discursos de Dilma pintando o Brasil como Terra Prometida (na esteira da balela da "Copa das Copas") soam como o absurdo dos absurdos.

Se a incomunicabilidade iminente vista pelo teatro de Ionesco nos anos 1950 era um alerta que denunciava a falência da linguagem, transformada numa colagem de fórmulas e convenções para preencher o vazio existencial e a falta do que dizer, o que vivemos hoje é uma exacerbação deste status, por um caminho inverso: o vazio está superlotado de informações que pretendem tudo esclarecer e explicar simultaneamente por todos os caminhos possíveis.

O absurdo saiu de uma dinâmica bidimensional, dualista, para um ambiente pseudoquântico, no qual todos os cenários de significados são passíveis de serem possíveis e lógicos, sem qualquer centralidade de valores, digamos, universais, aos quais se agregarem.


POST-SCRIPTUM:


Enquanto isso permanecemos empacados na perplexidade do existir, desde que haja carnaval, futebol e cerveja...