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sexta-feira, 23 de maio de 2014

O ENIGMA DE HERÁCLITO




“Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois o enganaram meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco.” - fragmento 56


A filosofia, da forma como se manifesta entre os pré-socráticos, por seu conteúdo inaugural, tem em comum com a religião grega os mesmos pressupostos, ou seja, a imaginação poética e a intuição da analogias, uma vez que a instauração do questionamento filosófico não se deu pelo rompimento radical com sua herança mitológica,  já que o homem grego não compreendia seus deuses como pertencentes a um mundo sobrenatural, sem embargo de reconhecermos em seu discurso algo totalmente diferente do discurso dos poetas.

Não obstante, cada um, a sua maneira, é obscuro, sinuoso, truncado e, portanto, de difícil compreensão. Por outro lado, apesar da maior dificuldade que apresentam para seu entendimento, têm a vantagem de abranger inúmeros significados simultaneamente.

Sendo assim, nada nos impede de imaginar que uma das chaves para a compreensão do enigma proposto por Heráclito seja o fato de que, segundo as lendas, Homero era cego. Portanto, a continuarmos nesta linha de raciocínio, mesmo tendo sido considerado o mais sábio entre os gregos, este não poderia supor que se tratava de algo tão vulgar quanto a cata de piolhos a resposta à questão colocada pelos tais meninos com o evidente propósito de pilheriar.

Entretanto, não devemos entender a intenção do filósofo, ao enunciar a citada proposição, de forma tão simplória, sob a pena de, também nós, cairmos na armadilha da ilusão.  Até mesmo porque esta não chega nem a ser uma compreensão óbvia, sendo, antes, uma transcrição literal: aquilo que os meninos largam são exatamente aqueles piolhos que eles veem, pegam e matam. Aqueles que eles não veem não podem ser pegos e, portanto, continuam com eles, escondidos.

É evidente que este enigma não aponta apenas para a mera atividade de catar piolhos, pois, como nos diz o próprio Heráclito “não devemos julgar apressadamente as grandes coisas” (fragmento 47). Outras vias de entendimento apontam para uma descrição radical da forma como esse filósofo compreende o movimento de realização das potencialidades vitais, sendo, portanto, bem mais sutis e instigantes.

Num primeiro momento podemos tentar compreender aquilo que Heráclito nos propõe “mais ou menos” como uma metáfora da ilusão dos homens “quanto ao conhecimento das coisas visíveis”. Outrossim, como deixamos claro acima, devemos estar atentos ao fato de que essa compreensão pode dar-se ao nível de variados e diferentes contextos.

O homem está sempre a procura de “pegar” tudo aquilo que vê, ou seja, adquirir um conhecimento imediatista e superficial a respeito do mundo material (as “coisas visíveis”). Esta atitude equivocada leva-o a enganar-se da mesma maneira que o mais sábio de todos os helenos. Agindo assim, afasta-se daquilo que é realmente importante e que não é tão visível, estando, portanto, escondido como os piolhos que não são vistos nem pegos pelos meninos e que, apesar de tudo, “trazemos conosco”, nossos valores e crenças.

Elaborando um pouco mais, podemos dizer que, ao dedicar-se ao assim chamado “mundo sensível”; ao assumir uma postura eminentemente empírica frente ao conhecimento; ao sobrevalorizar um modus operandi essencialmente analítico, o homem está simplesmente a “catar piolhos”, pegando o que vê para, em seguida, “matar” e largar como faria a um pequeno e insignificante inseto, em decorrência mesmo dessa atitude indiferente e desapaixonada associada à atividade de detectar coisas menores.

Desta feita, ao persistir neste caminho, aliena-se, na mesma proporção e com a mesma intensidade, do que seria a sua realidade interior, o “mundo inteligível”. Ou seja, enquanto permanece cego e iludido, apartado de sua autenticidade, despojado de sua espontaneidade e descrente de sua intuição, sendo apenas mais um em meio aos entes, não se apercebe daquela unidade de que compartilha em sua manifestação mais radical que, em síntese, é o Ser. 




POST-SCRIPTUM:



"Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Lógos" (fragmento 45)



  

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

FENDA NA RAZÃO



Dentre os inúmeros objetivos pretendidos originalmente por este 'blog' sempre esteve a divulgação da cultura em todos (ou pelo menos quase todos...) os seus matizes.   

E um dos mais importantes é a discussão da filosofia, tanto de per se quanto nas manifestações literárias da atualidade pós-moderna a respeito do assunto.

É, portanto, consciente de que não poderia dizer de melhor forma que humildemente passo a palavra ao poeta Alberto Pucheu em sua análise do livro "Um Sábio Não Tem Idéia", da autoria de François Julien e publicado pela Ed. Martins Fontes:

[TEXTO EDITADO DE UMA CRÍTICA PUBLICADA NO CADERNO LITERÁRIO DO JORNAL 'O GLOBO'] 




Já em seu princípio, na Grécia, a filosofia se esforçou por estabelecer uma diferença específica em relação às possibilidades do pensamento até então.

As quatro alteridades fundamentais da filosofia, supostamente estabelecidas: a sabedoria, a poesia, a sofística e a política.

Nada disso é tão simples. Aristóteles chamava boa parte dos pensadores anteriores a ele de filósofos, incluindo até mesmo Hesíodo. Protágoras, no diálogo homônimo escrito por Platão, relaciona o próprio Hesíodo não só à poesia como também à sofística. Se lembrarmos que, posteriormente, Diógenes Laércio afirmou que "sofista" era outro nome para "sábio", "poeta" e "filósofo", a confusão estaria completa. 



Ou melhor: no momento do frescor da filosofia, a encruzilhada tornava as efervescentes experiências do pensamento indiscerníveis.

Além disso, se Platão escreveu sobre o poeta, sobre o sofista e sobre o político, por que não teria elaborado o diálogo sobre o filósofo, conforme o anunciado?

A não ser que, falando dessas supostas alteridades, esteja o tempo todo pensando a filosofia e a impossibilidade de sua apreensão isolada.

 


Esses termos, com o tempo, tornaram-se gastos e perderam complexidades importantes. Isso ocorreu pela insistência de quase toda a tradição ocidental em defini-los uns contra os outros, compartimentando o que, mesmo em Platão, era de definição controversa.

Eis o grande mérito do filósofo e sinólogo francês François Julien: mostrar um fundo de experiência e de pensamento que, por não ter vingado em nossa História, a filosofia enquanto metafísica não pôde conceber.

Um dos preconceitos contra os quais o livro se lança é o de que a sabedoria teria sido superada pela filosofia, como se sua anterioridade cronológica fosse imaturidade de pensamento.



O que ele mostra é justamente a radicalidade dessa experiência na própria condição de possibilidade da filosofia e que foi apagada pelo privilégio da razão européia. Julien retira a sabedoria da perspectiva mística e exótica, afastando-a dos lugares-comuns que as apressadas tentativas de aproximação entre o Ocidente e o Oriente suscitam.

Abrindo uma fenda na razão, transforma-a no que seria sua própria condição de possibilidade, saindo do jogo contraditório entre razão e seu oposto. Trata-se de demarcar uma lógica da sabedoria.



François Julien mantém um diálogo vivo e tenso entre a filosofia e o pensamento chinês.

"Um Sábio Não Tem Idéia", por sua originalidade e força, tem a difícil capacidade de sulcar caminhos impensados e propulsores.




POST-SCRIPTUM:

Um livro extraordinário e indispensável para quem quer ampliar seus horizontes, que busca resgatar um tipo de experiência e de pensamento não absorvidos pela filosofia convencional do Ocidente. 

E que as fendas na razão um dia recuperem a verdadeira Sabedoria!

 

domingo, 9 de outubro de 2011

A LOUCURA É A FONTE DA SABEDORIA



[Adaptado do capítulo I do livro "O NASCIMENTO DA FILOSOFIA" de autoria de GIORGIO COLLI, publiado pela Editora da UNICAMP em 1996, traduzido por Federico Carotti]



Platão chama "filosofia" - o amor à sabedoria - à própria busca, à própria atividade educativa, ligada a uma expressão escrita, à forma literária do diálogo. 

E Platão olha reverente o passado, um mundo em que existiram os verdadeiros "sábios". Por outro lado, a filosofia posterior, a nossa filosofia, é apenas uma continuação, um desenvolvimento da forma literária introduzida por Platão; contudo, esta surge como fenômeno da decadência, na medida em que "o amor à sabedoria" está mais abaixo da "sabedoria".

O amor à sabedoria, para Platão, não significava de fato a aspiração a algo nunca atingido, mas sim uma tendência a recuperar aquilo que já fora realizado e vivido.





Portanto, não há um desenvolvimento contínuo, homogêneo, da sabedoria à filosofia. O que dá origem a esta última é uma reforma expressiva, é a intervenção de uma nova forma literária, um filtro através do qual condiciona-se o conhecimento de todo o precedente.

A tradição, em grande parte oral, da sabedoria, já obscura e escassa pela distância dos tempos, já evanescente e tênue para o próprio Platão, mostra-se, a nossos olhos, francamente falsificada pela inserção da literatura filosófica.

Por outro lado, é muito incerta a extensão temporal dessa época da sabedoria: nela está compreendida a chamada idade pré-socrática, ou seja, os séculos V e VI a.C., mas a origem mais distante nos escapa. É preciso recorrer à mais remota tradição da poesia e da religião grega, mas a interpretação dos dados não pode deixar de ser filosófica. 

Deve-se configurar, mesmo que de modo hipotético, uma interpretação do tipo daquela proposta por Nietzsche para expor a origem da tragédia. Quando um grande fenômeno oferece uma documentação histórica suficiente apenas em sua parte final, só resta a tentativa de interpolar, no que se refere a sua totalidade, certas imagens e conceitos, escolhidos e entendidos como símbolos na tradição religiosa.





Nietzsche parte, como se sabe, das imagens de dois deuses gregos, Dionísio e Apolo, e, aprofundando estética e metafisicamente os conceitos de dionisíaco e apolíneo, esboça, em primeiro lugar, uma doutrina sobre o surgimento e a decadência da tragédia grega; depois uma interpretação geral da grecidade e até uma nova visão de mundo. Assim, igual perspectiva parece abrir-se quando se considera, em vez do nascimento da tragédia, a origem da sabedoria.  

São ainda os mesmos deuses, Apolo e Dionísio, que se encontram no retroceder ao longo das sendas da sabedoria grega. Mas, nessa esfera, a caracterização de Nietzsche deve ser modificada; além disso, a prioridade deve ser concedida a Apolo, e não a Dionísio. De fato, se cabe atribuir a alguém o domínio sobre a sabedoria, é ao deus de Delfos.





Em Delfos se manifesta a vocação dos gregos para o conhecimento: sábio é quem lança a luz na obscuridade, desfaz os nós, manifesta o desconhecido, determina o incerto. Para essa civilização arcaica, o conhecimento do futuro do homem e do mundo pertence à sabedoria. Apolo simboliza esse olho penetrante, seu culto celebra a sabedoria.

Outros povos conheceram, exaltaram a arte divinatória, mas nenhum povo a elevou a símbolo decisivo, pelo qual, no mais alto grau, a potência exprime-se em conhecimento, como aconteceu entre os gregos. Adivinhar implica conhecer o futuro e manifestar, comunicar tal conhecimento. Isso ocorre através da palavra do deus, do oráculo. 

Na palavra manifesta-se ao homem a sabedoria do deus, e a forma, a ordem, o nexo em que se apresentam as palavras revela que não se tratam de palavras humanas, e sim de palavras divinas. Daí o caráter exterior do oráculo: a ambiguidade, a obscuridade, as alusões de árdua decifração, a incerteza.

O deus, portanto, conhece o porvir, manifesta-o ao homem, mas parece não querer que este o compreenda. Há um elemento de maldade, de crueldade na imagem de Apolo, que se reflete na comunicação da sabedoria. E, de fato, diz Heráclito, um sábio: "o senhor, a quem pertence o oráculo que está em Delfos, não diz nem oculta, mas acena".





A esfera do conhecimento e da sabedoria liga-se com muito mais naturalidade a Apolo do que a Dionísio. Dionísio associa-se ao conhecimento enquanto divindade eleusínia: a iniciação aos mistérios de Elêusis culminava numa "epopsia", visão mística de beatitude e purificação que de certa forma pode ser chamada de conhecimento. 

No entanto, o êxtase dos mistérios, na medida em que é alcançado através de um despojamento completo das condições do indivíduo, na medida em que nele o sujeito cognoscente não se distingue do objeto conhecido, deve ser considerado como o pressuposto do conhecimento, e não o próprio conhecimento. 

Pelo contrário, o conhecimento e a sabedoria manifestam-se por meio da palavra, e é em Delfos que é proferida a palavra divina, é Apolo, e certamente não Dionísio, que fala pela sacerdotisa. A palavra de Apolo é uma expressão  em que se manifesta um conhecimento; as palavras de adivinhação na Grécia primitiva reúnem-se em discursos, desenvolvem-se em discussões, elaboram-se no abstrato da razão, símbolos iluminadores de todo o fenômeno da sabedoria.






Outro elemento frágil na interpretação de Nietzsche está em apresentar os impulsos apolíneo e dionisíaco como antitéticos. 

Os estudos mais recentes sobre a religião grega ressaltaram uma origem asiática e nórdica do culto de Apolo. Aqui surge uma nova relação entre Apolo e a sabedoria. Um fragmento de Aristóteles nos informa que Pitágoras - justamente um sábio - foi denominado pelos crotoniatas como Apolo hiperbóreo. 





Os hiperbóreos eram, para os gregos, um povo fabuloso do extremo norte. Daí parece provir o caráter místico, extático, de Apolo, manifestando-se no arrebatamento da pítia, nas palavras delirantes do oráculo délfico.

Nas planícies nórdicas e da Ásia central atesta-se uma longa persistência do xamanismo, uma técnica particular de êxtase. Os xamãs atingem uma exaltação mística, uma condição extática, na qual são capazes de executar curas milagrosas, ver o futuro e profetizar.





Este é o pano de fundo do culto délfico de Apolo. Uma passagem célebre e decisiva de Platão nos ilumina a esse respeito. Trata-se do discurso sobre a "mania", sobre a loucura, que Sócrates desenvolve no Fedro. Logo no início, contrapõe-se a loucura à moderação, ao autocontrole, e, numa inversão paradoxal para nós, modernos, exalta-se a primeira como superior e divina.

Diz o texto: "os maiores dentre os bens chegam a nós por meio da loucura, que é concedida por um dom divino...de fato, a profetisa de Delfos e a sacerdotisa de Dodona, enquanto possuídas pela loucura, proporcionaram à Grécia muitas e belas coisas, tanto para os indivíduos quanto para a comunidade". Coloca-se em evidência, portanto, desde o início, a ligação entre "mania" e Apolo.





Em seguida, distinguem-se quatro tipos de loucura: a profética, a dos mistérios, a poética e a erótica, as duas últimas variantes das duas primeiras. A loucura profética e a dos mistérios são inspiradas por Apolo ou por Dionísio (ainda que este último não seja citado por Platão). 

No Fedro, em primeiro plano está a "mania" profética, tanto que, para Platão, a natureza divina e decisiva da "mania" é atestada pelo fato de essa mania constituir o fundamento do culto délfico. Platão funda seu juízo numa etimologia: a "mântica", isto é, a arte divinatória, deriva de "mania" e é sua expressão mais autêntica.

Portanto, a perspectiva de Nietzsche deve ser não só ampliada, mas também modificada. Apolo não é o deus da medida, da harmonia, mas do arrebatamento, da loucura. Nietzsche considera a loucura pertinente apenas a Dionísio e, além disso, delimita-a como embriaguez. 

Aqui, uma testemunha com o peso de Platão sugere-nos, pelo contrário, que Apolo e Dionísio possuem uma afinidade fundamental, justamente no terreno da "mania"; juntos eles esgotam a esfera da loucura, e não faltam bases para formular a hipótese - atribuindo a palavra e o conhecimento a Apolo, e a imediatez da vida a Dionísio - de que a loucura poética é obra do primeiro, e a erótica, do segundo.

Concluindo, se uma pesquisa sobre as origens da sabedoria na Grécia arcaica leva-nos em direção ao oráculo délfico, ao significado complexo do deus Apolo, a "mania" mostra-se-nos ainda mais primordial, pano de fundo do fenômeno da adivinhação. A loucura é a matriz da sabedoria.     




POST-SCRIPTUM:






Giorgio Colli (1917-1979) é conhecido sobretudo pela edição crítica das obras de Nietzsche, publicada na Alemanha, França e Itália, e por uma edição hoje clássica do Organon, de Aristóteles, tendo dedicado os últimos anos de sua vida à edição dos textos pré-socráticos.

É interessante perceber como o autor interliga a origem da filosofia - identificando-a como um novo gênero literário "inventado" por Platão - com a decadência da antiga sabedoria já então fragmentada e quase esquecida, derivada essencialmente da religião grega, seus mistérios e tradições orais.

Apoiado principalmente em Nietzsche, ele identifica um paralelo originário entre os primeiros refinamentos do pensamento abstrato grego - aquilo que, no ocidente, viria a ser chamado de "razão" ou "racionalidade" - e a tradição poético-religiosa da Grécia antiga, um manancial de sabedoria que permeia toda a sua rica mitologia, relacionada por sua vez com a "mania", ou "loucura" divina.  





Aliás, tal paralelo, penso eu, cabe ao estudo da mitologia e das tradições religiosas de qualquer povo, pois todas as culturas humanas sobre a face da Terra desenvolveram algum tipo peculiar de sabedoria ligada não somente aos cuidados com a esfera do transcendente como com a esfera do dia-a-dia, do conhecimento prático e utilitário, e o que é mais interessante: em todas elas ambas as esferas estão intimamente relacionadas, de uma forma ou de outra.

Uma passagem específica do texto chamou minha atenção por um aspecto curioso: a necessidade de ir procurar tão longe uma tradição religiosa que explique o "transe divinatório" das pitonisas délficas, ou seja, num suposto xamanismo nórdico ou centro-asiático, quando a vizinhança geográfica do Mediterrâneo com a África dá subsídio a hipóteses muito mais plausíveis, em minha modesta opinião.        

E viva a "loucura"!

sábado, 22 de janeiro de 2011

PENSAMENTOS




Em primeiro lugar nasceu o Caos" - Hesíodo







"Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como as do arco e da lira" - Heráclito






"A causa da existência de todas as coisas é o redemoinho incessante a que chamo necessidade; e tudo acontece de acordo com a necessidade. Dessa forma, a criação é constantemente criada e recriada" - Demócrito






"O homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são tal como são e das que não são tal como não são" - Protágoras





"O que está embaixo é igual ao que está em cima, e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar o milagre de uma só coisa" - A Tábua de Esmeralda




"A analogia dos contrários é a relação que vai da luz à sombra, do vértice ao abismo, do pleno ao vazio. A alegoria, mãe de todos os dogmas, é a mentira da verdade e a verdade da mentira" - Eliphas Levi



"Lá, o olho não alcança, nem a fala, nem a mente, não sabemos ou sequer entendemos como poderia ser ensinado" - Os Upanishads




"Homens sem sabedoria deliciam-se na análise da simples letra dos Vedas" - Os Vedas




"A letra mata, o espírito vivifica" - Paulo de Tarso





"Só sei que nada sei" - Sócrates




"Não há esperança sem medo nem medo sem esperança" - Spinoza




"Que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; mas se tiver que explicar a alguém, não sei" - Santo Agostinho




"O Tempo e o Espaço são modos pelos quais pensamos, e não condições nas quais vivemos" - Albert Einstein





"A Natureza ama esconder-se" - Heráclito





"O Tao que pode ser expresso não é o Tao eterno" - Tao Te Ching




"Deus é uma esfera cujo centro está em toda parte, e a circunferência em lugar nenhum" - Hermes Trimegistus




"Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento? O homem não lhe conhece o caminho; nem se acha ela na terra dos viventes" - Livro de Jó, 28:12




"I'm looking for the face I had 
Before the world was made" - Yeats ("The Winding Stair")




"A primeira sephirah é Keter, a Coroa, origem de tudo, vácuo primordial. Primeiro criou um ponto, que se tornou o Pensamento, onde imprimiu todas as figuras. Era e não era, encerrado no nome e esquecido no nome, o Não-Movente, que não é corpo, não tem figura, forma, peso, quantidade ou qualidade, e não vê, não sente, não é apreendido pela sensibilidade, não é um lugar, nem um tempo ou um espaço, não é alma, inteligência, imaginação, opinião, número, ordem, medida, substância, eternidade, não é treva nem luz, não é erro nem verdade" - Casaubon ("O Pêndulo de Foucoult", de Umberto Eco)




"No ponto em repouso do mundo em mutação, nem carne nem ausência de carne; nem ida nem volta: no ponto em repouso há dança, mas nem interrupção nem movimento. E não se chame de fixo o lugar em que o passado e o futuro se encontram. Nem movimento de vinda ou de volta, nem ascenção nem declínio. Se não ouvesse o ponto, o ponto em repouso, não haveria dança, e só há dança" - T. S. Elliot



"A Natureza é partes sem um todo. Isto é talvez o tal mistério de que falam" - Alberto Caeiro (vulgo Fernando Pessoa)




"Salomão disse: 'Não há nada de novo sobre a terra'. E tanto assim quanto Platão imaginou, 'que todo conhecimento é apenas recordação'; tanto assim Salomão sentenciou, 'que toda novidade não passa de esquecimento'" - Francis Bacon ("Essays LVIII")




"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que a as mentiras" - Nietzsche




"As maiores almas são capazes dos maiores vícios tanto quanto das maiores virtudes" - Descartes




"Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos, pois, reciprocamente as nossas tolices" - Voltaire



"Senhor, que tolos são esses mortais..." - William Shakespeare, em "Sonhos de Uma Noite de Verão"




"A Igreja diz que a Terra é achatada, mas eu sei que é redonda, porque eu vi sua sombra na Lua, e eu tenho mais fé numa sombra do que na Igreja" - Fernão de Magalhães




"Jamais houve um vislumbre de evidência de que os Estados cristãos sejam menos belicosos que os demais. De fato, algumas das guerras mais ferozes foram devidas a conflitos entre diferentes tipos de cristianismo" - Bertrand Russell



"Parece-me que a questão decisiva da espécie humana é a de saber se, e em que medida, o seu desenvolvimento cultural será bem-sucedido em dominar o obstáculo à convivência representado pelos impulsos humanos de agressão e de autoaniquilação" - Sigmund Freud




"Para seguir a trilha do conhecimento é preciso ser muito imaginativo. Na trilha do conhecimento, nada é tão claro quanto gostaríamos que fosse" - Don Juan Matus ("A Erva do Diabo", de Carlos Castañeda)



"A natureza é um templo em que pilastras vivas por vezes emitem palavras confusas, e nele o homem passa por florestas de símbolos que o observam com um olhar familiar" - Charles Baudelaire




"Crê naqueles que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram" - André Gide



"Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade" - Carl Gustav Jung



"Se cuidarmos da liberdade, a verdade cuida de si mesma" - Richard Rorty




"O passado mostra, invariavelmente, que, quando a liberdade de um povo desaparece, ela não se vai com um estrondo, mas envolta pelo silêncio dos que se sentem confortáveis com os cuidados que estão recebendo. Esse é o extremo perigo da tendência ao estatismo" - Richard Weaver




"A imaginação é a mais importante das faculdades humanas" - Albert Einstein



"Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; trata-se, entretanto, de transformá-lo" - Karl Marx 




"A Ciência deve começar com os mitos e com a revisão crítica dos mitos" - Karl Popper



"A leitura histórica da tradição nos mostra que os grandes filósofos deixaram a sua marca e influenciaram o desenvolvimento da filosofia na medida em que tiveram idéias originais, foram criativos, abrindo novas possibilidades para o pensamento, mas também na medida em que tiveram bons leitores, isto é, discípulos que souberam, inclusive criticamente, interpretar seu pensamento, tomá-los como ponto de partida para novos desenvolvimentos e encontrar novas dimensões e novas aplicações de suas obras. Encontramos o melhor exemplo disso no período clássico com Platão em relação a Sócrates e, por sua vez, com Aristóteles em relação a Platão. Filosofias que pareciam praticamente extintas, como o ceticismo antigo, ressurgem com novo vigor porque encontram novos leitores; o início do período moderno é um exemplo disso. Assim tradição e criação não se excluem, mas se fecundam mutuamente" - Danilo Marcondes



"Quando Platão tentou abarcar a alma (psyche), recorreu tanto ao mito quanto ao pensamento racional meticuloso. Precisou dos dois caminhos. Plotino recorre ao mito quando discute a alma. Freud também utilizou dois caminhos. Sua linguagem racional é intercalada de imagens míticas, digna dos pré-socráticos" - J. Hillman




"Uma generalização feita não pelo mero prazer de generalizar, mas para resolver problemas previamente existentes, é sempre uma generalização frutífera" - Henri Lebesgue




"Quanto mais a matéria é, em aparência, positiva e sólida, mais sutil e laborioso é o trabalho da imaginação" - Charles Baudelaire



"Se o mundo dos sentidos não se ajusta às matemáticas, tanto pior para o mundo dos sentidos" - Bertrand Russell




"Quando você pode medir algo sobre o qual está falando e expressá-lo em números, você sabe alguma coisa sobre ele" - Lord Kelvin




"Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - Antoine Lavoisier 



"Não pode haver nenhuma certeza apodítica na ciência, nenhuma certeza conclusiva além do alcance da crítica" - Peter Medawar



"A realidade é meramente uma ilusão, ainda que uma muito persistente" - Albert Einstein




"Em termos de tecnologia, o que quer que possa ser imaginado eventualmente será construído" - Andrew S. Grove ("Only the Paranoid Survive")




"Existe um limite para os nossos poderes de observação e para o mínimo de perturbação que acompanha o nosso ato de observação, um limite que é inerente à natureza das coisas e que nunca pode ser vencido pelo aperfeiçoamento da técnica e da habilidade do observador" - Paul Dirac



"Dizer que a história da razão é discontínua pode levar a pensar que, afinal, esta não indica nada de muito preciso, claro ou rigoroso e que, talvez, seja um mito que a cultura ocidental inventou para si mesma. Mas pode significar também algo bem mais importante: que a razão não é a estrutura universal do espírito humano e sim um meio precioso de que dispomos para criar, julgar e avaliar conhecimentos, para dar sentido às coisas, às situações e aos acontecimentos e para transformar nossa existência individual e coletiva" - Marilena Chauí




"Deve-se compreender que há 'mais' e não 'menos' em uma organização quantitativa do real que em uma descrição qualitativa da experiência" - Gaston Bachelard



"Quem não se sentiu chocado com a teoria quântica, não pode tê-la compreendido" - Niels Bohr



"A teoria quântica é sobre a compatibilidade de dois opostos aparentemente irreconciliáveis" - Paul Strathern




"Aprendemos que a verdade é de diferentes tipos, nem todos completamente compatíveis" - Peter Medawar




"Mesmo que se compreenda que o significado de um conceito jamais será definido com precisão absoluta, alguns conceitos são parte integrante dos métodos da ciência, pelo fato de representarem, pelo menos por algum tempo, o resultado final do desenvolvimento do pensamento humano desde um passado assaz remoto; eles podem mesmo ter sido herdados e são, qualquer que seja o caso, instrumentos indispensáveis na execução do trabalho científico em nosso tempo" - Werner Heisenberg



"A compreensão dos fenômenos naturais, dos mais simples aos mais profundos, deveria apenas fortalecer nossa espiritualidade. A racionalidade e a espiritualidade são aspectos complementares" - Marcelo Gleiser



"A Ciência pode impor limites ao conhecimento, mas não deve impor limites à imaginação" - Bertrand Russell




"Só mesmo a obscuridade pode servir de proteção para o que é absurdo" - John Locke




"A primeira obrigação da inteligência é desconfiar de si mesma" - Stanislaw J. Lec




"Não saber do que se fala é uma grande vantagem da qual não se deve abusar" - Régis Debray




"Estude! Não para saber uma coisa a mais, mas para sabê-la melhor" - Sêneca



"Entre compreender e não compreender há um número bastante grande de classes, nas quais 9/10 das pessoas se incluem bastante comodamente" - G. C. Lichtenberg



"A lucidez crônica torna as pessoas mal-humoradas e rabugentas" - Jorge Luis Gutierrez



"A seriedade ontológica precisa de um humor diabólico ou fenomenológico" - Gilles Deleuze




"A retórica, por um lado, é um composto da ciência analítica e da política, por outro, é semelhante ora à dialética, ora aos discursos sofísticos" - Aristóteles



"Sem a loucura que é o homem? Mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?" - Fernando Pessoa




"Honro a filosofia, odeio os filósofos" - Ludwig Boltzmann




"O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem" - Vladimir Lênin



"Em geral, pensa-se que o nacional-socialismo significa apenas brutalidade e terror. Mas isso não é verdade. O nacional-socialismo - e, mais amplamente, o fascismo - também significa um ideal, ou ideais que persistem hoje sob outras bandeiras: o ideal da vida como arte, o culto da beleza, o fetichismo da coragem, a dissolução da alienação em sentimentos extáticos de comunidade, o repúdio ao intelecto, a família humana (sob a paternidade de líderes). Esses ideais são vívidos e comoventes para muitas pessoas porque seu conteúdo corresponde a um ideal romântico ao qual muitos continuam ligados e que se expressa em diversas formas de dissidência cultural e de promoção de novas formas de comunidade, como a cultura jovem e do rock, a terapia primal, a antipsiquiatria e a crença no oculto" - Susan Sontag




"Há, soltas no mundo, palavras demais, não querendo dizer absolutamente nada" - Millôr Fernandes




"Há uma tempestade de merda chegando!" - Norman Mailer




"Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução..." - Carlos Drummond de Andrade




"Somos todos impostores!" - Roger-Pol Droit



"Os egípcios conheciam a eletricidade?" - Peter Kolosimo




"Dreams are like angels, they keep bad at bay" - Frankie Goes To Hollywood




"O filho-da-puta só prospera onde existe uma massa ignara de idiotas" - Lobão



"Existem três coisas de que você precisa abrir mão: julgar, controlar e ser o dono da verdade. Livre-se das três, e você terá a mente íntegra e vibrante de uma criança" - Hugh Prather



"O propósito da vida não é ser feliz. É ser útil, ser honrado, ser compassivo, fazer a diferença entre ter vivido e ter vivido bem" - Ralph Waldo Emerson




"Talvez eu devesse ter lutado menos e perguntado mais!" - Steven Rogers (Captain America #125, vol. 1, May 1970: "Captured in Vietnam!"; by Stan Lee & Gene Colan)



"Ou você é parte da solução, ou é parte do problema" - Eldridge Cleaver




"Nada se cria, tudo se copia" - Abelardo Barbosa (Chacrinha)




"Seguramente, existem três coisas boas na vida: um uísque antes, e um cigarro depois!" - Anônimo






POST-SCRIPTUM:






O Pensador ('Le Penseur'), uma das mais famosas obras de arte do mundo, é criação do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917).