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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ESTRANHEZA QUÂNTICA: O ABISMO E A PONTE


[Editado do cap. I do livro "O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE" da autoria de AMIT GOSWAMI, publicado pela EDITORA ROSA DOS TEMPOS]


Enfrentamos hoje na física um grande dilema. Na física quântica - a nova física - descobrimos um marco teórico que funciona. Explica um sem-número de experimentos de laboratório, e muito mais.

A física quântica deu origem a tecnologias de imensa utilidade, tais como as de transistores, lasers e supercondutores. Ainda assim, não conseguimos extrair sentido da matemática da física quântica sem sugerir uma interpretação dos resultados experimentais que numerosos indivíduos só podem considerar como paradoxal, ou mesmo inaceitável.

Vejamos, como exemplo, as propriedades quânticas seguintes: 

a) Um objeto quântico (como, por exemplo, um elétron) pode estar no mesmo instante, em mais de um lugar (a propriedade da onda);

b) Não podemos dizer que um objeto quântico se manifeste na realidade comum espaço-tempo até que o observemos como uma partícula (o colapso da onda);

c) Um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico);

d) A manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato - pouco importando a distância que os separa (ação quântica à distância).



Não podemos ligar a física quântica a dados experimentais sem utilizar alguns esquemas de representação, e a interpretação depende da filosofia com que encaramos os dados. A filosofia que há séculos domina a ciência ( o materialismo físico) supõe que só a matéria - que consiste de átomos ou, em última análise, de partículas elementares - é real. Tudo mais são fenômenos secundários da matéria, apenas uma dança dos átomos constituintes. Essa visão do mundo é também denominada de realismo porque se presume que os objetos sejam reais e independentes dos sujeitos, nós, ou da maneira como os observamos.


A ideia, contudo, de que todas as coisas são constituídas de átomos é uma suposição não provada. Não se baseia em prova direta no tocante a todas as coisas. Quando a nova física nos desafia com uma situação que parece paradoxal, quando vista da perspectiva do realismo materialista, tendemos a ignorar a possibilidade de que os paradoxos possam estar surgindo por causa da falsidade de nossa suposição não comprovada. (Tendemos a esquecer que uma suposição mantida por longo tempo não se transforma, por isso, em verdade, e, não raro, não gostamos que nos lembrem disso.)

 

Atualmente, numerosos físicos desconfiam que há alguma coisa de errado no realismo materialista, mas têm medo de sacudir o barco que lhes serviu tão bem, por tanto tempo. Não se dão conta de que o bote está à deriva e precisa de novo rumo, sob uma nova visão do mundo.

Há, por acaso, uma alternativa ao realismo materialista? Essa tese esforça-se, sem sucesso, a despeito de seus modelos de computador, para explicar a existência da mente, em especial o fenômeno de uma autoconsciência causalmente potente.

"O que é consciência?"

O realismo materialista tenta ignorar a pergunta com um encolher de ombros e com a resposta arrogante de que ela nenhuma importância tem. Se, contudo, estudamos, por menor que seja a seriedade, todas as teorias que a mente consciente constrói (incluindo as que a negam), então a consciência tem, de fato, importância.


POST-SCRIPTUM:

Eu escutei
E olhei
Com olhos bem abertos.
Verti minha alma
No mundo
Procurando o desconhecido 
No conhecido.
E canto em altos brados
O meu assombro!

- Rabindranath Tagore






segunda-feira, 21 de abril de 2014

ZARATUSTRA


[Editado do capítulo 1 do livro "O Zaratustra de Nietzsche" de autoria de Pierre Héber-Suffrin e publicado por Jorge Zahar Editor]


Por que iria um pensador alemão do século XIX falar-nos pela boca de um profeta iraniano do século VII antes de nossa era, e pôr-nos a sua escuta?

Nietzsche diz ter escolhido Zaratustra precisamente para que seu personagem diga "exatamente o contrário" do que disse o Zaratustra histórico. Assim, Nietzsche escolheu Zaratustra para opô-lo a Zaratustra.

E, de fato, ele os opõe radicalmente: de um lado, o papel do Zaratustra histórico consistiu, com efeito, na invenção de um dualismo de inspiração moral, dualismo que explicava todas as coisas pela ação de dois princípios em luta, dualismo moral para o qual um desses princípios é o Bem e o outro o Mal.

Essa invenção, Zaratustra a fez - segundo Nietzsche - extrapolando nossa experiência moral humana do bem e do mal, dando-lhes uma dimensão teológica (há um Deus Bem e um Deus Mal) e cosmológica (no universo, tudo se explica pela ação de um ou outro desses dois princípios, e por sua rivalidade).

Ora, por outro lado, precisamente, é esse dualismo e esse moralismo que Zaratustra, o personagem literário, vai rejeitar pois precisamente é a recusa desse dualismo e desse moralismo que constitui um ponto essencial do pensamento de Nietzsche.

Ele observa que Zaratustra foi o primeiro a pregar um dualismo e um moralismo que, recebidos depois, como herança, da Bíblia e da Grécia, impregnarão toda a nossa cultura.

Mas, por outro lado, o que interessa a Nietzsche é principalmente o fato de que Zaratustra foi o primeiro a VER esse dualismo moralista, o primeiro a descobrir claramente o fundamento moral de sua metafísica, a operar deliberadamente essa transposição do ético para o cósmico, a discernir a "genealogia" moral da sua concepção do mundo.

Ora, em linguagem nietzschiana, esse discernimento é sinceridade. Ser lúcido é, pois, ser sincero em relação a si mesmo, ter a coragem de suas opiniões, a coragem da verdade; é ter, antes da coragem de dizê-las, a coragem de pensá-las, de VÊ-LAS.

É por isso que Nietzsche o escolheu; em razão dessa sinceridade-lucidez que caracteriza o próprio Nietzsche, dessa sinceridade-lucidez que permitiu ao Zaratustra real ver o fundamento moral de sua metafísica e que, agora, o obriga logicamente a tornar-se o exato contrário do que ele era: o Zaratustra nietzschiano.   



POST-SCRIPTUM:







quinta-feira, 27 de março de 2014

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


[Editado de um artigo da autoria de José Miguel Wisnik, publicado no 'Segundo Caderno' do jornal O GLOBO em 12.02.2011]


Todos sabemos que a poesia não faz sucesso de massas. Walter Benjamin diz que o último caso, indissociável ao escândalo que provocou, é o de "As flores do Mal" de Baudelaire, que data de 1857.

Desde muito, o público de poesia tornou-se talvez o mais reduzido e esotérico entre todos os gêneros literários. Alguns fatos atestam, no entanto, a presença que a palavra poética chegou a ter no Brasil, e os efeitos inesperados e controvertidos que ela foi capaz de provocar.

Nenhum se compara aos rastros mirabolantes deixados pelo famigerado poema de Carlos Drummond de Andrade, o da "pedra no meio do caminho", publicado no seu livro de estréia, em 1930. Como pôde um poemeto obsessivo, circular, falando aparentemente de quase nada, ter mostrado essa potência de "bomba atômica", no dizer de Mário Quintana?

No poema a frase bate e rebate no objeto inexplicado que barra seu caminho, e dá voltas sobre si mesma sem sair do lugar: "No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra / no meio do caminho tinha uma pedra".

As boas consciências só se acalmam quando podem explicar o inexplicável, nomear o inominável, reduzindo o real a um sistema secundário de significados que o substitui e o apaga.

"No meio do caminho" desativava essa possibilidade: um poema sobre o puro limite, excessivamente literal, não se deixando metaforizar, e prendendo o leitor no mesmo círculo implacável em que estão presos, dentro dele, o sujeito e o objeto.

Pegos de surpresa nessa arapuca poética, os leitores tradicionalistas (numa época em que se dava, diga-se de passagem, importância à poesia) reagiram com irritação e deboche: o poema não fala de nada.

O mais curioso é que, numa fase posterior, consagrada pelo uso comum e adotada "a pedra no meio do caminho" quase como sinônimo de qualquer impasse, principalmente os triviais, inverteu-se o sinal: o poema fala de tudo.

Penso nisso quando vejo a estátua do poeta maior no banco de Copacabana.


POST-SCRIPTUM:

"No meio do caminho tinha uma pedra. / Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida das minhas retinas tão fatigadas."

Axé, Drummond!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MANIFESTAÇÃO POPULAR OU GUERRA CIVIL?



Antes de tudo quero esclarecer que não apoio a velha tradição do "olho por olho, dente por dente". 

A morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes, Santiago Andrade, foi um acontecimento lamentável que poderia ter sido evitado.



A "autoridade" pública provocou, em certa medida, novas manifestações de protesto ao aumentar o preço das passagens de ônibus municipais para R$ 3,00, mesmo sabendo que existem estudos que comprovam que o valor de R$ 2,50 já seria suficiente para cobrir as despesas das empresas. Ou seja, deveria, isto sim, BAIXAR o preço anterior de R$ 2,75 para R$2,50 e não AUMENTAR para R$ 3,00!!!

Quer dizer que foi uma provocação? Claro! E não esperava-se consequências? É óbvio que sim, até mesmo contava-se com elas.


 


O que os governos municipal e estadual do Rio de Janeiro queriam era só uma desculpa para endurecer contra os manifestantes, "descer o cacete", lançar bombas de gás e dar tiros com balas de borracha (que podem aleijar e até mesmo matar, sabiam?).

Só que eles não sonhavam que seus desejos seriam atendidos com tanta precisão. Os dois idiotas que participaram do atentado com o tal "rojão" que matou o jornalista "entregaram de bandeja" tudo que as "autoridades" queriam e muito mais.



O resultado é um inocente morto, os dois patetas na cadeia por uma boa temporada e o governo tirando uma de "bom moço", levando sua pseudojustiça "até as últimas consequências".

E A PASSAGEM CONTINUA A TRÊS REAIS!!! Maravilha, né? Fala sério...

 

Quando de minha postagem sobre o livro "Groucho-Marxismo", de Bob Black, ao conclamar os anarquistas a se unirem, estava naturalmente sendo irônico (pra quem não entendeu), até mesmo porque o anarquismo não possui uma única vertente, uma "doutrina codificada" (axé, Bakunin!) que una todos os que pensam diferente da mesmice entranhada nos corações e mentes das massas.

É, na verdade, um paradoxo, conclamar os anarquistas a se unirem, a não ser por breves momentos e por causas específicas. E é claro que eu sei disso.



  


Que ninguém se iluda: o sistema não vai cair se você jogar uma bomba nele. Ele simplesmente te joga 10, 100, 1.000 bombas e ainda conta com o apoio natural da mídia e da população, chocadas com a morte de alguém cujo único interesse era registrar fatos, informar no interesse até mesmo e principalmente dos manifestantes nos casos de violência policial.

Estes rapazes que agora serão tratados como criminosos comuns não passam de "bucha de canhão" numa estratégia imbecil e equivocada, incentivada sabe-se lá por quais interesses escusos.




Quanto pior, melhor? É, o PT já pensou assim também e olha aonde ele chegou. Bem alto, né? Só que, quanto maior a altura, maior a queda...

Resumindo, tudo tem sua hora e seu lugar. O movimento de rebelião tem sangue nas mãos e deu vários passos atrás com todo esse quadro lamentável.

O sistema ainda vai cair. Mas será de podre, sob seu próprio peso, e não sob pauladas e pedradas ou mesmo em consequência de "coquetéis moltov" ou fogos de artifício.

Li, não me lembro onde, que dar a outra face não é sinal de fraqueza, mas de protesto; pode bater o quanto quiser: daqui não saio, daqui ninguém me tira!

Que o exemplo de Gandhi e de Nelson Mandela nos inspirem no futuro e não o de uma dupla de garotos irresponsáveis e mal orientados.


POST-SCRIPTUM:

A luta continua. Mas é uma luta de consciências e não uma guerra civil. Infelizmente, parece que tem gente interessada na segunda opção...

E, com certeza, não é com isso que o povo brasileiro sonha.  



sábado, 10 de agosto de 2013

SEGUIDORES? SIM, OBRIGADO!



Devido a alguns insistentes pedidos de amigos e conhecidos, resolví mudar meu ponto de vista sobre o assunto e aceitar seguidores neste blog com pretenções à 'maldito' ou, pelo menos, 'alternativo'; portanto, eis aí: sirvam-se e, se possível, escrevam um comentariozinho ou outro, de vez em quando, ou, quem sabe, emitam uma opinião do tipo  'engraçado', 'interessante' ou 'legal' entre as opções pra clicar aí embaixo...


POST-SCRIPTUM:


Valeu, gente!

     

segunda-feira, 4 de março de 2013

RELIGIÃO X CIÊNCIA: A "OUTRA LÓGICA"


                                                                                            "Noli foras ire, in interiore homine habitat veritas" 

         (adágio alquimista) 




Pois é, a visão estritamente científica (vide tópico anterior) dá a entender que não se deve misturar "alhos com bugalhos". Até aí nenhuma surpresa: é o que se deve esperar da ciência convencional. O que não quer dizer que esta seja a dona da verdade e que outras posições até mesmo opostas não devam ser consideradas.








Que fique bem claro e que não haja margem para mal-entendidos: no contexto geral eu concordo com  grande parte das declarações do professor (novamente, vide tópico anterior); evidentemente a pesquisa científica deve continuar. A descoberta do 'bóson de Higgs' é uma peça fundamental para o desenvolvimento da física na medida em que o próximo passo das pesquisas de alto nível envolverá muito provavelmente um maior empenho no sentido da tentativa de confirmação empírica da 'Teoria das Cordas', por exemplo (uma das consequências inevitáveis dos atuais experimentos).









Além do que, paralelamente traz um benefício extra e imprevisto (ainda que, sou forçado a admitir, este seja um insight pessoal): o de "abrir portas" inéditas à especulação filosófica. Talvez até no sentido de reabilitar e consolidar o estudo da metafísica em bases estritamente científicas, tanto na teoria (uma 'mitofísica') quanto, - quem sabe? -, na prática (hein!?!), mesmo admitindo-se as evidentes dificuldades inerentes ao manuseio de partículas tão elusivas (calma gente, humor e credibilidade não precisam necessariamente ser auto excludentes).








Mas isso ainda é assunto para ficção-científica, apesar de pertinente. A questão é outra: tem a ver com a guerra surda que a cultura oficial vem travando a séculos contra os poderes da imaginação e que pode levar, eventualmente, à falência do sistema educacional institucionalizado em nível global - alguns sintomas sociais e políticos ao redor do mundo já dão sinais disso - e consequentemente a uma 'desvalorização dos ativos', digamos assim, da assim-chamada Civilização Ocidental (com letras maiúsculas, por favor!). Num paralelo talvez não muito feliz, pode-se dizer que, na bolsa de valores cósmica, as ações do empreendimento CIVILIZATION INC. estão certamente em baixa...






Mas o que isso tem a ver com o título desta postagem? Nada? Talvez tudo. Ignoremos por um momento o 'nada' e concentremo-nos no 'tudo'. Para quem não percebeu ainda e indo além das consequências óbvias, completar o quadro de partículas do 'Modelo Padrão' também significa dar sentido, dar autenticidade, dar legitimidade, enfim, admitir sem dúvidas ou restrições a verdade incontestável desta 'jornada sagrada', a Ciência, que se representa com total isenção e consciência tranquila (alguém aí falou em bomba atômica?).








Em imperfeita sincronia temos a trama paralela e profana que é a vida política, social e econômica não-oficiais, este drama quase shakespeariano que experimentamos como a tão decantada - e decadente - vida cotidiana. 'Deus não joga dados'? Pode apostar que sim! 









Tudo parece muito confuso (e quem disser que não, é muito ingênuo ou está de má fé). Mas ao mesmo tempo é divertido e surpreendente. Quem pode negar a semelhança simbólica - dentro dos parâmetros de uma abordagem apoiada nas mais recentes descobertas de campo de diversas especialidades acadêmicas tão zelosamente cientes de seu positivismo e de sua razão "ciumenta e poderosa" (que Iavé não nos ouça!) - quem pode negar, repetimos, que essa pretensão cientificista a uma verdade única e soberana não tem conotações nítidas e nada sutis com um fenômeno de dimensões religiosas?









O que é a busca científica da tão propalada 'Teoria de Tudo' - que reconhecidamente resolveria problemas importantes como conciliar a teoria quântica com a relatividade geral - do que, também, a renovação do ciclo mítico do Santo Graal?  







"Lógica única?" - poderíamos perguntar a Aristóteles, usando a imaginação a fim de libertar o potencial criativo de uma "outra lógica". Essa mesma imaginação tantas vezes defenestrada, desqualificada e desmoralizada ao longo de uma história do pensamento que se acredita muito correta e, em decorrência, séria demais.








Tudo isso para finalmente dizer que, sim, é possível fazer ciência da religião, bem como ter um sentimento de religiosidade autêntica na nossa relação com a physis, incluindo "no pacote" o respeito ao meio-ambiente, a produção responsável de riquezas e bem-estar para usufruto mútuo de toda a humanidade, a prática de atividades intelectuais e/ou lúdicas (as artes, a matemática, o ócio irresponsável ou a mera diversão), bem como, e acima de tudo, o respeito pelos outros seres humanos, vivos ou mortos.









Neste devir que o dia-a-dia confirma como ciclos dentro de ciclos há que se dar um crédito quase arquetípico à matemática de Cantor e à sua Teoria dos Conjuntos, com seus infinitos dentro de infinitos ainda maiores, ou ao Teorema da Incompletude de Godel, por exemplo, bem como às intuições geniais de homens como Heráclito, Sócrates, Platão, Aristóteles, DaVinci, Giordano Bruno, Galileu, Newton, Freud, Jung, Hegel, Marx, Durkheim, Weber, Nietzsche, Darwin, Plank, Einstein, Bohr e Teilhard de Chardin (entre tantos outros) para citar apenas alguns gigantes aparentemente tão díspares entre si. 







"Samba do crioulo doido?" A Escola de Samba Unidos do Paradoxo apresenta seu enredo para este ano...









Religião? Ciência? Arte? Política? Tais conceitos, assim como os de lógica, racionalidade, evolução, acaso, complexidade, caos, estrutura, ser, vida, morte e Deus, por exemplo, entre tantos outros, já estão há algum tempo passando por revisões inevitavelmente necessárias, desde que as sementes de tal iniciativa foram plantadas nos dois últimos séculos (XIX e XX) por artistas, acadêmicos, filósofos, escritores e até mesmo cientistas que, cada um a seu modo, nos dias de hoje, podemos considerar legítimos herdeiros culturais de movimentos como o Romantismo, o Simbolismo e o Surrealismo, por exemplo, ainda que necessariamente num contexto de pós-modernidade "barroca".








Mas o que é isso que me dizem? O pós-modernismo é uma moda ultrapassada que não chegou realmente a lugar nenhum? O desconstrutivismo é um beco sem saída dentro de um labirinto onde o Minotauro joga cartas com Sísifo? Não importa: como se dizia no século passado, "a luta continua". O problema é a dificuldade cada vez maior em identificar contra quem e o que lutar...






Tá feia a coisa? Tá. Só que não adianta ficar se lamentando ou pondo a culpa nos outros; todos somos responsáveis, em maior ou menor grau, por este vazio inconveniente (digamos assim, para não sermos acusados de exagerados) que já se instalou há um bom tempo nos corações e mentes dos homens e mulheres de nosso tempo. 







Inconveniente este que só se agrava na medida em que o liberalismo triunfante e sem adversários enreda a tudo e a todos, inclusive a si mesmo, nas armadilhas da lógica de mercado, e que não tem pudores ou preconceitos contra a ciência ou a religião.








Que o digam Bill Gates ou o 'bispo' Macedo, para citar dois exemplos bem afastados tanto em termos geográficos quanto em relação às atividades em questão, numa comparação aparentemente estapafúrdia mas ainda assim que remete ao mesmo raciocínio financeiro-especulativo. Vai dizer que não?








Não nos deixemos iludir por nossa própria miopia intelectual: qualquer coisa que poderia ser designada como "espírito" (seja no sentido filosófico quanto religioso), há muito se retirou da nossa realidade mundana e diuturna, ou daquilo a que ainda poderíamos nos referir como "alma do mundo". O dinheiro é o único Deus que é levado a sério: temos que admitir isso se não quisermos passar por hipócritas.








Tal desencantamento funesto, seja em que sentido se prefira acolher, vai continuar nos levando à falência civilizatória e não há argumentos que possam negá-lo. A esperança, de uma forma geral, está em vias de se tornar moribunda, já que o futuro só é considerado no curto prazo dos investimentos monetários, enquanto que a preocupação com as gerações vindouras insensivelmente se dilui num 'projeto às avessas', embasado numa ilusão consumista imediata e idiota.







O fato é que a Modernidade não cumpriu as promessas do Iluminismo e cabe a todos nós darmos uma parada estratégica e analisarmos em profundidade e com consciência crítica (a mais radical possível) os eventuais desvios e as possíveis correções de rumo. 






Aprender com o erro e não ter vergonha de tentar de novo! Pois não podemos continuar nos enganando: vivemos uma intensa crise civilizatória que exige, antes de mais nada e acima de tudo, uma refundação de nossas raízes judaico-cristãs, helenísticas e romanas, conforme sugere Jean-Claude Guillebaud em seu livro "A REINVENÇÃO DO MUNDO", não sem levar em conta toda a autocrítica que se processou no século XX e que precisa continuar, num processo que não pode prescindir das contribuições do Islã, das culturas orientais, da África negra e dos povos indígenas que sobrevivem a duras penas.







Uma refundação de princípios, mas não por um viés nostálgico, ou na aposta sempre provada como ineficaz pela História numa 'terceira via' apaziguante e condescendente, ou muito menos numa derrelição total que conduziria invariavelmente (como já está fazendo lentamente, mas em aceleração constante) a um 'vale-tudo' estúpido que é, em última instância, genocida e suicida. Alguém se habilita a discordar?   







Refundação, sim, pois como diria Nietzsche, "como pudemos nós esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte?". Ou de forma menos poética Pierre Legendre: "A humanidade está sendo acossada pela necessidade de se alicerçar para poder viver".  









Imbuídos de uma compreensão sagaz ou de uma intuição inconsciente, sabemos que a informação sofre necessariamente um processo comprovado e contínuo de disseminação que não pode ser detido, e cuja flecha do tempo corre oposta àquela que orienta a inevitável decadência decorrente da entropia; assim sendo, temos que manter acesa a chama da Imaginação, acima de toda controvérsia ilusória entre Ciência e Religião, propondo e apresentando um diálogo fecundo entre idéias, algumas geniais, outras "mucho locas", mas acima de tudo visando um maior e melhor entendimento do homem e do mundo.







Mais sobre o assunto futuramente, quando pretendo discutir as idéias do físico indiano Amit Goswami em seu livro "O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE". Paz à todos!







POST-SCRIPTUM:




"O que está embaixo é igual ao que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar o milagre de uma só coisa." (A Tábua de Esmeralda)


    domingo, 13 de fevereiro de 2011

    BIG BANG POETRY




    In an Universe
    Doomed by entropy,
    That cruel and cold 
    Unavoidable death

    Will dark matter 
    Add enough to total mass 
    So gravity wins over 
    Inflationary expansion?





    Forces centrifugal 
    Giving way to centripetal, 
    Reversing the arrow of time
    In a Big Crunch?

    Through the nexus of 
    A supreme singularity
    Into the heart of 
    An all-consuming Black Hole






    Something called Reality 
    (Relatively speaking)
    Would fold into itself 
    To greet patient Oblivion


    When extremities shall meet
    Yesterday becomes tomorrow
    The all that is nothing, 
    The nothing that is all...




    Will the mother 
    Of all White Holes 
    Throw 'It' elsewhere/elsewhen 
    In a reverse motion?

    Or will the explosive Universe,
    Going beyond
    Its own event’s horizon,
    Get unimaginably bigger and cooler?





    To die...  
    At last... 
    As a timeless and infinite void, 
    Devoid of all light and heat?

    Or is a cosmological constant 
    Reigning over?
    Is a systolic/diastolic cosmic metabolism 
    The rule?






    Will the fabric of reality 
    Tear itself apart 
    By it's own 
    never-ending growth?

    Does Eternal Return 
    Have anything to do 
    With conventional concepts 
    Of beginning and end?





    Maybe it's all parts 
    And no whole
    As in the poet's intuition 
    About the so-called mystery

    Or it could be 
    A circular "motu continuo":
    The Ouroboros 
    Eating its own tail





    Be it a non-dimensional zero, 
    A complex fractal infinity,
    Or even an unthinkable 
    Combination of both

    According to Heisenberg 
    And Bohr’s way
    Ying and Yang must preserve 
    The equilibrium of the Tao





    So, from victorious death
    New life must rise 
    Again and again 
    As ever and ever

    Pehaps escaping 
    Through myriad Worm Holes
    Or replicating itself 
    In probability clouds





    After No-time 
    In No-space,
    That never manifested 
    Non-being,

    (By a Mystery Ineffable 
    Fueled by Forces Unknown)
    Surfaces from 
    The deep Beyond





    Creating an Anomaly 
    In Hyperspace
    And thus igniting 
    The eternal Big Bang

    A collapsing Chaos 
    That died as a Null
    Is born again 
    As a radiant Unity






    Multiplying itself 
    In an expanding Cosmos
    And generating space-time 
    By Necessity

    Bringing on inexorable 
    Patterns of Order
    While opening Fields 
    Of interaction




    Granted by Chance, 
    Blind and mighty,
    Creating the Possibility 
    Of transformation

    Primordial axions 
    Coalesce!
    Weightless photons 
    Coruscate!



    Where is all 
    The Antimatter 
    That should 
    Be/Not-be?

    What is 
    Dark Energy 
    And its supposed 
    Antigravity?




    Why is 
    General Relativity 
    Incompatible with 
    Quantum Mechanics?

    Give! 
    Me! 
    My!
    Higg's boson!




    Supersimetry, supergravity, superstrings,
    Eleven dimensions, p-branas, M-theory,
    Mesons and gluons, 
    Leptons and quarks

    Up, Down 
    And Strange! 
    Charm, Top 
    And Bottom!




    If Physics was a religion
    All its priests would be praying 
    To their gods and saints
    In mathemathics' Heaven

    Aristotle, Galileo, Newton 
    Maxwell, Plank, Einstein
    Dirac, Feynman, Hawking
    Etcetera, etcetera, etcetera




    Heartly pleading 
    For the 'Holy Grail' 
    Of an unified theory 
    Of Everything

    In a Multiverse 
    Of impossible possibilities, 
    Parallel worlds, 
    Transfinite sets and open totalities




    Schrödinger’s cat dreams 
    About imaginary numbers,
    Half-dead, half-alive 
    Inside a hidden variable

    When Energy 
    Becomes Mass 
    By polarization into 
    Opposite particles

    And wave patterns 
    Interfere among themselves
    There is just one thing for sure:
    Uncertainty...



    Arte: 'DEVIRES', desenho de Aroldo Lacerda




    POST-SCRIPTUM:


    De vez em quanto gosto de me arriscar a traçar algumas linhas poéticas, seja em português ou em inglês. Neste caso, trata-se de uma tentativa 'filosófica' de abordar a cosmologia a partir de alguns conceitos da física teórica.

    BECOMING = DEVIR [do latim ‘devenire’] - Verbo intransitivo; vir a ser, tornar-se, devenir.