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quarta-feira, 30 de abril de 2014

SAUDADES DO FUTURO (2)




[Editado de um texto de Arnaldo Jabor publicado no Segundo Caderno do jornal O GLOBO]


A cultura patriarcal/estatal desde a colônia nos garantiu durante o populismo janguista até 64, que o Estado faria uma revolução tropical e transcendental (vide os delírios de Darcy Ribeiro, por exemplo), de modo a tirar o país da "alienação" e salvar, pela arte, os oprimidos. A cultura era uma política. O golpe de 64 foi uma porrada na utopia. Mas houve uma vantagem: a derrota nos "ajudou" a ver o atraso de nossas certezas. A ditadura e a depressão dos derrotados nos mostraram que o buraco era mais embaixo e que as forças da História eram mais labirínticas. A esquerda começou a se autocriticar (nem toda, claro - vide os soviéticos que ainda vicejam por aí).

Nos anos 1970, a contracultura ampliou repertórios e códigos artísticos, pela loucura do "desbunde" e da subcultura hippie. Houve uma virada mais antropológica que ideológica.



De cabeça para baixo, vimos mais. Valíamos pelo que "não" tínhamos e, se antes éramos vítimas imaginárias do capitalismo, agora éramos vítimas reais da ditadura e passamos a ter uma nova meta: a liberdade.

Surgiu um novo ente: o mercado. Se Lênin disse que nada existe fora do poder, o capital respondia que nada existia fora do mercado. Para onde ir? O trauma da globalização foi mais profundo que a derrota de 64; ficamos mais informados politicamente, mais cultos, embora, para os mais burros, tenha renascido um neonacionalismo rancoroso e feroz, a ideologia cultural do "bode-preto" reforçando conceitos superados: um "mix" de farrapos de esquerda, azedume "punk", pálida tristeza e anseios regressistas.

De repente, outra porrada no voluntarismo de intelectuais e artistas: não há mais futuro. Subitamente o presente nos atacou com uma enxurrada de vida liberada pela era digital na internet.

Sempre falávamos na democratização da cultura, das artes... Pois ela está aí... e não foi o Estado nem o ministério, nem anseios neorromânticos. 

Ela está aí... Bill Gates, Jobs, as redes, os microchips mudaram o mundo... Quem diria?



E agora a mutação é mais intrincada porque não há "uma" ideia nova, uma escola, uma tendência. A mutação atual é a "contribuição milionária" de todos os desejos expressivos. Mudaram todos os suportes, as formas se multiplicam sem parar criando novas significações.

Sabíamos que a era digital mudaria tudo, desde o mundo árabe até a poesia de Shakespeare? Mais uma vez, as coisas criam os homens... Todo mundo pode fazer arte, poesia e a internet é o novo parnaso digital.

Reação romântica: como fazer arte sem futuro, sem finalidade? Sem a ideia de "eterno"? Que será do artista demiurgo, aqueles "poucos falando para muitos"? Agora, em que todos criam para todos, o que é "importante", como dizíamos? O que terá hoje ou amanhã o prefixo"Ur" (alemão) - as coisas fundadoras? Onde está a totalidade?

  

Há uma revolução de meios sem uma clareza de fins. Como será o mundo árabe? Como será a grande arte? Ainda haverá? Os meios justificam fins desconhecidos. E, vamos combinar, que mesmo na louvação das irrelevâncias, ainda dorme talvez o desejo de um sentido. Olha a encrenca... A própria ideia de um debate sobre esta dúvida já é antiga.

Se fosse proposta a um jovem blogueiro, ele diria: "Pra quê?"


POST-SCRIPTUM:


 




terça-feira, 29 de abril de 2014

SAUDADES DO FUTURO (1)


[Editado de um texto de Arnaldo Jabor publicado no Segundo Caderno do jornal O GLOBO]


Sempre falamos em "cultura brasileira", mas não sabemos exatamente o que é isso, hoje em dia. Cultura é o que? Uma senhora grega, de camisola, segurando uma tocha? Cultura é uma índia, negra e portuguesa, de cocar e saiote? Cultura é um museu erudito e paralítico que rima com "sepultura"? Fazemos boquinha elegante para falar em "cultura" mas sempre sobra um gosto de alguma coisa em crise, que deve ser salva.

Na tradição de bacharéis colonizados de cartola e fraque, sempre amamos as "coisas do espírito", "a alma minha gentil" ou o "vai-se a primeira pomba despertada", as poesias com que nos embriagávamos nos botequins da República Velha, em meio à febre amarela e à varíola. 

A impotência política para superar nosso atraso endêmico nos levou a uma supervalorização da "cultura artística". Era nossa ilusão e consolo: "somos pobres, mas com uma cultura rica...". Senti isso em minha juventude, quando um companheiro me disse: "Não temos nada, mas somos o sal da terra". Fazíamos arte, filmes, música como se salvássemos o país. Agora a web é uma cachoeira de criações artísticas. Acabam os poucos artistas criando para muitos.

Antes, o subdesenvolvimento nos dava uma "superioridade" sobre os "falsos problemas europeus", como o absurdismo do teatro de Beckett ou Ionesco, o "existencialismo alienado do social" ou o sinistro comercialismo americano. A pobreza era nossa maior riqueza. Vivíamos na divisão simplista entre "centro e periferia", colonia e metrópole, vítimas santificadas do imperialismo cruel.

Nossos defeitos institucionais seculares ficavam ocultos, já que a culpa era "dos outros". Chegamos a fazer a glamourização da incompetência. Era a poética da precariedade contra a técnica dos países ricos e "decadentes". Achávamos a miséria uma nova estética - o mito de que o tosco, o povo simples e até o burro são ungidos por uma "verdade sagrada".

Essa ideia reacionária rola até hoje, haja visto o carisma triunfal do ex-presidente operário. Minha geração, no cinema e na esquerda, achávamos que teríamos um futuro cultural que nos salvaria; havia um geist artístico em marcha a uma harmonia libertadora. Éramos os "sujeitos" que moldariam a História. Éramos hegelianos e não sabíamos.

No entanto, as mutações culturais mais visíveis (que não enxergávamos) vieram por "irrupções" de causas materiais, de relações de produção industriais e comerciais: a cultura do café e o Modernismo; o crash da bolsa em 29 contribuindo para nossa "identidade" na revolução de 30; a indústria fonográfica americana e o rádio projetando a música popular dos anos de ouro; a industrialização juscelinista possibilitando a arquitetura, a bossa nova, o Cinema Novo; a Philips e outras gravadoras veiculando a música dos anos 1960; a TV ensinando o povo a falar e a ver o país. Não éramos marxistas e não sabíamos.


POST-SCRIPTUM:





 Continua...

 

sábado, 19 de abril de 2014

ÍCONE DO ROCK


[Editado de uma reportagem de Carlos Albuquerque publicada no jornal O GLOBO em 12.04.2014]


A mitológica guitarra 'Fender Stratocaster' está completando 60 anos.

Criado pelo americano Leo Fender em 1954, o instrumento se tornou, ao longo dos anos, o maior ícone do rock, graças ao seu uso por superastros como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jeff Beck, David Gilmore, Stevie Ray Vaughan, Ritchie Blackmore e The Edge, entre muitos outros. 

Celebrada graças ao seu design cheio de estilo e à sua sonoridade única, a 'Fender Stratocaster' - amada no Brasil por craques como Lulu Santos e Roberto Frejat - tem sua importância resumida numa declaração do próprio Clapton: "Se pudesse voltar no tempo diria a ele que realmente criou algo insuperável". Trata-se, sem dúvida, de um dos instrumentos mais marcantes da História.



Sua construção, seus recursos e sua sonoridade revelam um momento único de inspiração. Mas quando foi visto pela primeira vez em público, durante uma apresentação de Buddy Holly, no programa de televisão de Ed Sullivan, em dezembro de 1957, a 'Fender Stratocaster' parecia algo do outro mundo. Numa época em que a concorrência oferecia instrumentos que, em sua maioria, pareciam nada mais que violões elétricos, alguns detalhes causaram espanto e até dúvida se aquilo era mesmo uma guitarra, como seu desenho único (com um recorte duplo), sem buracos, a fixação dos captadores, as tarraxas só de um lado do braço e a alavanca de vibrato, para "torcer" as cordas.

 


E, de 1954 para cá, não faltaram individualidades ao corpo da 'Strato'. Foi o som dela que marcou a surf music dos Beach Boys e de Dick Dale, no começo dos anos 1960. Foi empunhando uma que Bob Dylan fez sua famosa virada elétrica, no festival de Newport, em 1965. Foi com um modelo desses que Hendrix subverteu o hino americano, no festival de Woodstock, em 1969, Clapton gravou o clássico "Layla", em 1970, e Ritchie Blackmore fez o imortal riff de "Smoke on the Water", em 1971. 



E, num pulo no tempo, foi com uma 'Stratocaster' que John Frusciante, dos Red Hot Chili Peppers, brilhou em "Californication", em 1999, e John Mayer tocou no funeral de Michael Jackson, em 2009.



POST-SCRIPTUM:

Um solo de aniversário em homenagem aos 60 anos do maior ícone do rock'n'roll pelas mãos de Jimi Hendrix! (sem comentários...)







terça-feira, 15 de abril de 2014

STAN LEE



Este ano a MARVEL COMICS completa 53 anos. Na verdade ela é bem mais antiga, pois é a continuação natural de uma editora chamada "Timely" que começou suas atividades no final dos anos 1930, depois mudou o nome para "Atlas" nos anos 1950 e, só então, à partir dos anos 1960, passou a se chamar "Marvel", quando Stan Lee e Jack Kirby começaram a lançar novos personagens, super-heróis com personalidade e que viviam problemas cotidianos como a maioria de nós, pobres mortais.

Com exceção do Capitão América (criado em 1941 por Joe Simon e Jack Kirby), a MARVEL COMICS passou a ser conhecida como tal em virtude das criações (Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Thor, Hulk, X-Men, Homem de Ferro, etc.) daquela dupla genial (Lee & Kirby).


Por incrível que pareça, aquele que pode ser considerado um dos grupos de heróis mais populares da editora (ao lado dos Vingadores) não teve inicialmente a mesma sorte que as outras criações da mesma; a revista dos X-Men chegou a ser cancelada no fim dos anos 1960, até retornar triunfante no início dos anos 1970 com uma nova formação e novos autores, a ponto de hoje deter o recorde de vendas de um único gibi: sete milhões de exemplares.



Apresentamos agora um trecho de uma entrevista com Stan Lee, concedida por telefone ao repórter Eduardo Souza Lima do jornal O GLOBO, em 1993:

P: Como surgiu a idéia de criar Os Vingadores e os X-Men?

R: Em relação aos Vingadores, eu tinha uma série de heróis, todos com características distintas, mas achava que poderiam funcionar bem juntos. Algo como eles se encontrassem e dissessem: "vamos trabalhar juntos?". Felizmente a ideia funcionou. Já com os X-Men, o que eu queria era criar um time de heróis, mas que tivesse características diferentes. Por isso eles teriam que ter adquirido seus poderes de forma diferente do, digamos, usual. Pensei então em heróis mutantes e quis chamar a história de "Os Mutantes". Mas meu editor não gostou do nome, ele achou que ninguém saberia o significado do nome. Como eram homens com extra-power (poder extra), resolvi chamá-los X-Men. Foi o que ficou.



P: Por que acha que os X-Men originais não deram certo?

R: É uma história estranha. Eles eram populares na época em que foram criados, mas eu tinha outras revistas para fazer, outras ocupações. Assim sendo, acabei tendo que parar de escrever os X-Men e delegando essa função para outras pessoas. Foi quando houve a queda. É como um filme. Não adianta ter uma boa história se você não tem um bom diretor.

P: Você acha que existe algum artista hoje em dia que seja capaz de criar um novo universo como o da Marvel?

R: Não sei, não quero parecer pretensioso, mas acho que seria uma tarefa difícil. Tivemos sorte, eu, Steve Ditko, Jack Kirby...

 

P: Já que o cinema o atrai, já pensou em dirigir um filme basado num personagem seu?

R: Eu adoraria, sabia? Mas pensando bem, não tenho mais idade para aprender as técnicas da direção. Seria muita pretensão minha, com tantos bons diretores em atividade, querer fazer o trabalho deles... Mas talvez eu pudesse dar um bom diretor assistente (risos).  



POST-SCRIPTUM:


Como diria Stan the Man: EXCELSIOR!



quinta-feira, 27 de março de 2014

O MAIOR RIVAL DO SUPERMAN


[Texto de autoria de Marco Moretti, publicado originalmente na revista Wizmania nº 43, em abril de 2007]


Na esteira do sucesso do Superman, lançado em quadrinhos em 1938, nos anos seguintes passaram a surgir novos super-heróis fantasiados por intermédio de editoras pequenas e variadas.

Na maioria das vezes, essas criações não passavam de plágios baratos do Homem de Aço, como o Wonder Man, criado pelo lendário Will Eisner pra revista Wonder Comics, em maio de 1939. Antes porém que Eisner chegasse a ser processado pela DC Comics, Wonder Man foi tirado de circulação logo após sua estréia. Foi só então que Eisner partiu pra criação de seu mais famoso (e mais original) personagem, o Spirit.

Contudo, a maior imitação ao Superman ainda estava por vir. Indubitavelmente, essa honra coube ao Capitão Marvel, que surgiu na Whiz Comics, em fevereiro de 1940. Filhote da então prestigiosa Fawcett Publications, o Capitão Marvel chegou a ser o campeão de vendas da categoria na década de 40. Criado pelo artista C. C. Beck e o roteirista Bill Parker, suas aventuras tinham mais humor que as do concorrente e um apelo direto junto aos garotos, que se identificaram de imediato com o alter ego insuspeito do herói, o menino Billy Batson.

Como o Superman, ele tinha força descomunal e a capacidade de voar, além de contar com poderes mágicos que eram invocados com a palavra "Shazam", sempre pronunciada quando Batson se transformava no "Mais Poderoso Mortal do Mundo".




Da mesma maneira que o Homem de Aço, que vira e mexe, enfrentava Lex Luthor, Marvel tinha como arquiinimigo um cientista malévolo (e maluco), o Dr. Silvana. Para completar, o Capitão Marvel também dispunha de um uniforme característico, com capa e um relâmpago dourado como símbolo, tão marcante como o "S" do Superman.

As semelhanças entre os dois personagens eram por demais evidentes pra que a DC aceitasse passivamentea imitação e decidiu processar a Fawcett por plágio.

A batalha judicial se arrastou por mais de uma década e foi somente em 1953 que a justiça chegou a uma decisão. Após idas e vindas entre tribunais de primeira e segunda instância, a Fawcett acabou capitulando e aceitou para de publicar as histórias do Capitão Marvel.

Foram necessários mais 20 anos pra que a DC adquirisse os direitos sobre o personagem e o revivesse em uma revista mensal, apropriadamente chamada de 'Shazam!'.

Foi somente a partir de então que o herói passou a ocupar seu lugar de direito entre os maiores super-heróis de todos os tempos. E quase em pé de igualdade com seu maior rival.



  


POST-SCRIPTUM:

Infelizmente a nova revista do Capitão Marvel lançada na década de 70, agora publicado pela DC Comics, teve vida curta. Os tempos eram outros e a ingenuidade inerente a suas histórias não fez mais sucesso. 

Porém, revisado em alguns pontos há alguns anos, o herói agora faz parte da Liga da Justiça. Nada mal para o velho Capitão, que começou como um suposto plágio do Último Filho de Krypton, hein? 


quinta-feira, 20 de março de 2014

LOLLAPALOOZA E LOBÃO



[Editado do capítulo 4 ('Por que o rock continua errando') do livro MANIFESTO DO NADA NA TERRA DO NUNCA, escrito por Lobão e publicado pela Editora Nova Fronteira]


Por que será que aqui no Brasil nós temos tanta dificuldade em lidar com esse tal de roquenrou?

Ao invés de haver uma infraestrutura no nosso dia a dia - que permita a esse tipo de cultura existir de forma normal, prosperar e, assim, por merecimento e vontade do público e do empresário, ingressar pela porta da frente dos festivais -, acabam por enfiar os artistas brasileiros em palcos coadjuvantes, em horários pouco significativos, com visibilidade, som, luz, tudo sensivelmente inferior.

Agora, se você tentar modificar a situação, como aconteceu comigo no bisonho "episódio Lollapalooza", você se fode de verde e amarelo.

Contarei a história como se passou:
Fui contratado pela produção do festival Lollapalooza para tocar em sua primeira edição brasileira, fato esse que muito me entusiasmou por ser um festival mais para o alternativo, sem a grandiloquência de um 'Rock in Rio'.

Já havia uma promessa contratual escrita e, às vésperas do evento, a inevitável assinatura do contrato definitivo. Foi quando me deu um estalo e cismei em telefonar para o produtor nacional do festival para saber de mais detalhes. Aí a coisa encrencou. 

O nosso estimado produtor me esclareceu efusivamente que eu iria tocar no horário "filé" das bandas nacionais, o que muito me deixou espantado, pois, de cara, já revelava um apartheid entre as bandas nacionais  e as internacionais. Algo estranhíssimo para aquele festival de cunho alternativo, cuja tradição era de incrementar a integração das bandas, e o que estava me sendo informado era justamente o contrário. 

Eu exclamei assustado: "Mas o que é isso? Assim é muito barra pessada! Apartar os artistas brasileiros do resto do festival é no mínimo esculhambante!"

Ele tentou me explicar que o festival tinha suas regras quanto à escolha do line-up, que havia sido uma exigência "dos gringos" e que não me preocupasse com o horário, pois era um festival de características diurnas, e eu voltei à carga alegando saber disso tudo, mas as atrações "filés" começariam a tocar ao cair da tarde, quando o sistema de luz faz a diferença, e eu só tocaria se fosse incluído para tocar pelo menos no fim da tarde, mas às duas da tarde, de jeito nenhum.

Ele tentou me alertar mais uma vez sobre o fato de "os gringos serem durões" e terem regras muito restritas em relação aos artistas brasileiros e que não havia essa opção: ou eu tocava às duas da tarde ou nada feito.

Nada feito. qual seria o problema em integrar todos os artistas de todos os lugares? Por que criar essa situação de afastamento de grupos?

Apesar de tudo isso, sou um otimista. Não vejo motivo real para nos colocarmos tão vacilantes e inseguros sempre que nos metemos em relações internacionais, exceto por termos entranhada essa mentalidade insular que nos aparta do mundo exterior. Um pouco de petulância não faz mal a ninguém.


POST-SCRIPTUM: 




Não sei como será o festival este ano, que ocorrerá nos dias 5 e 6 de abril, mas espero sinceramente que tenham abolido o apartheid entre as bandas nacionais e gringas.   

 

domingo, 16 de março de 2014

A COPA DO CU DO MUNDO



[Editado a partir de um artigo publicado no jornal O GLOBO em 01.03.2014 da autoria de José Miguel Wisnik]


Numa sequência ao mesmo tempo divertida e contundente, na base do programa de auditório, joga-se com a iminência da realização, no Brasil, desse maior espetáculo da Terra, que é chamado nada mais nada menos do que a Copa do Cu do Mundo.

Todo o sentido crítico que se possa, toda a virada pelo avesso do padrão Fifa, exibido pela culatra, toda a remissão às misérias, às derrisões e aos terrores da doença brasileira, tudo está aí, nesse nome.

Mas também, no reconhecimento disso, a capacidade de afirmar a potência da cultura (com trocadilho), de rir das máscaras canastronas, de exercer o apetite de viver e, por incrível que pudesse ser e é, de marcar um lugar original no planeta. É claro que isso só pode ser afirmado em vista da grandeza artística do todo, e no modo como o espetáculo vai fundo na experiência social e vital do país.

A discutida camiseta da Adidas para a Copa, onde se estampa "I love Brazil" na forma de um coração-bunda, é uma versão limitada, mercadológica pitoresca e não assumida do fato de que se olha difusamente a Copa do Brasil como uma espécie de Copa do Cu do Mundo.

Não o quarto mundo, não o cu do mundo, mas a quarta dimensão do cu do mundo.

POST-SCRIPTUM:

"O futuro do Brasil é tão grandioso que não há abismo em que caiba." - Agostinho da Silva

Será mesmo? Espero sinceramente que sim, senão corremos o sério risco de atolar num esgoto metafórico...



sábado, 15 de março de 2014

A CONTRACULTURA E O CINEMA AMERICANO



[Texto de autoria de PETER BISKIND, autor do livro 'COMO A GERAÇÃO SEXO-DROGAS-E-ROCK'N'ROLL SALVOU HOLLYWOOD']

Em meados dos anos 1960, os estúdios americanos não estavam indo bem. Os filmes tinham um público cada vez menor. Simplesmente não conseguiam se comunicar com a juventude daquela época. Afinal de contas, eles eram produzidos por pessoas de 60 anos ou mais que não compreendiam o comportamento da rapaziada. A contracultura era algo que os horrorizava.




Pessoas bêbadas, drogadas e violentas como Dennis Hopper, na época com 20 e poucos anos, os assustavam. E foi justamente um filme dirigido por Hopper, 'Sem Destino' (Easy Rider), que deu novo fôlego ao cinema ianque. De repente, essa geração de rebeldes começou a ingressar nas escolas de cinema e a fazer filmes. O público adorava. Os estúdios não tiveram outra opção a não ser abraça-los.


Gente como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Warren Beatty, Peter Bogdanovich e Robert Altman tinha uma atitude diferente da dos velhos produtores. Não queriam fazer filmes óbvios, se recusavam a filmar em estúdios, estavam cansados das composições perfeitas, iluminação e artificialidade. Mesmo os atores dessa época eram diferentes. Saíam de cena os anglo-saxões perfeitos, entravam os atores étnicos como Robert De Niro, Al Pacino e Dustin Hoffman.


As drogas foram uma parte importante dessa cultura. Enquanto todos os pais tomavam álcool, a juventude fumava maconha. Os cineastas diziam que a erva aumentava sua criatividade e sensibilidade artística. Depois de um tempo, a cocaína virou a droga principal em Hollywood. Ela dava energia, podiam filmar a noite toda. Foi o começo do declínio dessa geração. Na década de 80, quando finalmente perceberam o quanto a droga era perigosa, todo mundo já estava usando. Teve um efeito terrível entre os cineastas. 




Quanto mais essa geração dava certo mais Hollywood lucrava. Os lançamentos eram cada vez maiores. Foi aí que outros dois expoentes dessa geração, George Lucas e Steven Spielberg, começaram a liderar uma contra-revolução. 'Tubarão' e 'Star Wars' fizeram tanto dinheiro, tiveram tanto público, licenciaram tantos produtos, que os estúdios não quiseram mais fazer filmes contraculturais. Tinha início a era dos blockbusters, com investimentos astronômicos, muita propaganda e efeitos especiais.

 

O tipo de filme que está hoje nos cinemas é resultado das portas que a contracultura abriu em Hollywood. Os grandes diretores do cinema mataram os filmes autorais. Se hoje você vai a um multiplex, põe o óculos 3-D e assiste a duas horas e quarenta e cinco minutos de efeitos especiais estonteantes, é porque lá, nos anos 60, uns hippies tiveram a coragem de tirar os filmes das mãos dos produtores e bater de frente com os estúdios.

Só que Hollywood ganhou a guerra.  




POST-SCRIPTUM:

É isso aí, bicho!


VIDEOGAMES




[Publicado no jornal O DIA em 19.02.2014]


Jogos eletrônicos podem fazer bem a jovens. A conclusão é da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). Em testes, verificou-se que 'games' desenvolveram a habilidade do cérebro, como a percepção de contraste, útil para quem dirige à noite.

Ao contrário do que se pensava, a diversão pode tratar uma deficiência visual chamada ambliopia, que causa a perda de visão de profundidade. Jogos de ação tiveram os melhores resultados.


POST-SCRIPTUM:

Taí mais um motivo para infindáveis discussões. Nada contra os videogames, mas tem uma molecada por aí que exagera na dose e esquece da vida. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

MACONHA LIBERADA!



Sei que é notícia velha, mas foda-se: nunca é tarde demais para comemorar o bom-senso!

O Uruguai regulamentou (ou está prestes a fazê-lo) o uso da cannabis e, paralelamente, vários estados nos EUA também, ao longo do último ano.

Até que enfim está entrando na cabeça dos políticos que a proibição é o pior caminho para encarar o problema do eventual abuso e dependência.

Com a regulamentação legal torna-se muito mais fácil o controle da venda (com as respectivas vantagens fiscais decorrentes) e do uso desta erva que "ameniza a pressão", como diria o bom e velho RAPPA.
      
Agora só resta esperar que no Brasil os políticos e falsos moralistas abram os olhos e "façam a cabeça".


POST-SCRIPTUM:

Não tem nada a ver com o assunto, mas, mesmo assim, lá vai: tô com uma leve desconfiança de que essa Copa do Mundo vai ser, no mínimo, complicada. 

Isso se não for um fracasso total, com tanta roubalheira, atraso em obras e descaso com a população.   

Até que seria uma boa lição pra quadrilha do Congresso...


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

DAYTRIPPER




Publicada nos EUA pelo selo VERTIGO da DC Comics a HQ "Daytripper", de Fábio Moon e Gabriel Bá é cosiderada uma obra-prima no gênero, tendo sido laureada com vários prêmios no exterior. 

Em 2011 os autores foram premiados com o Eisner Award, o 'Oscar dos quadrinhos',  em cerimônia na Comic-Con em San Diego, Califórnia, na categoria de 'melhor minissérie'.




 A trama, por mais insólita que pareça, é sobre 
um escri­tor de obi­tuá­rios em crise com a pro­fis­são. A HQ ficou durante um mês na lista de quadrinhos mais vendidos do The New York Times. 

A HQ também foi premiada no Festival Internacional de Ficção Científica Utopiales, que acontece anualmente na cidade de Nantes, na França. 





POST-SCRIPTUM:


Homônima de uma canção de sucesso dos Beatles, a minissérie em dez capítulos está sendo lançada pela editora PANINI condensada em um álbum de 256 páginas.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

EU NÃO SOU KAL PENN!



Não tenho certeza, mas acredito que algumas pessoas possam estar me confundindo com esse tal de KAL PENN, ator americano de origem indiana e ex-relações públicas do governo Barack Obama, devido a um equívoco que ocorre quando se buscam imagens no 'GOOGLE' referentes a mim, THEORYKAL: de repente, misturada à minha preciosa iconografia, lá está a cara dele com a bandeira norte-americana ao fundo junto com algumas outras imagens que eu não faço idéia de onde vieram ('a very Harold & Kumar Christmas'?? Que diabo é isso??)...

Porra, que fique bem claro: EU NÃO SOU KAL PENN, nem tenho nada a ver com sua "Big Brain Theory"!!!


POST-SCRIPTUM:

Se o equívoco ainda fosse com o SEAN PENN eu nem ligava...                                                                                             
                                     

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

QUEM É BENETT?



Benett Alberto de Macedo ou simplesmente ALBERTO BENETT é cartunista radicado em Curitiba, capital do estado do Paraná (Brasil). 

Publica suas tiras, ilustrções e charges no jornal GAZETA DO POVO e é editor da revista de humor e quadrinhos ZONGO CÔMIQUES, que teve apenas uma edição. Benett jura que algum dia a Zongo voltará triunfante!

Em 2005 foi vencedor do SALÃO DE HUMOR DE PIRACICABA, na categoria quadrinhos (HQ/BD/comics).

Normalmente os assuntos abordados em seu trabalho são de cunho autobiográfico (neuroses, paranóias, desespero e alguma felicidade), embora possua personagens como Punkadinha (uma espécie de Bob Cuspe das tiras infantis), Barata (um sujeito que vive, e convive, com uma faca fincada no peito), Carlos Invertebrado (personagem que nasceu sem vertebra) e, por conta disso, fica o tempo todo deitado). Seu mais recente personagem é Amok, o menino-caveira com síndrome de Amoque (aquela vontade de matar todo mundo que leva adolescentes a cometerem chacinas em suas escolas) e Ludwig, um menino que é um mero coadjuvante em sua própria vida.

Suas influências artísticas consistem, basicamente, em Charles M. Schultz e nos brazucas Laerte e Angelí.

No final de 2007 Benett publicou, pela Editora Juruá, seu primeiro livro de tiras, "BENETT APAVORA! - TIRAS INFAMES E DESENHOS ENCARDIDOS PARA TODA FAMÍLIA DISFUNCIONAL".




POST-SCRIPTUM:
[Chupado descaradamente da WIKIPÉDIA]





Um novo personagem inspirado em algumas idéias aterradores que certas pessoas andam tendo por aí. Amok, segundo Steven Pinker, autor do incrível livro Como a Mente Funciona (Cia das Letras, 666 págs, 45 reais) "é uma palavra malaia que designa as orgias homicidas ocasionalmente empreendidas por homens solitários da Indochina que sofreram uma perda de amor, de dinheiro ou da honra". Trata-se de uma síndrome, chamada Síndrome de Amoque, mais ou menos o que deu no Michael Douglas naquele filme Um Dia de Fúria. Com a diferença que, o ataque de uma pessoa com Síndrome de Amoque, "é desencadeado não por um estímulo, não por um tumor, não por um jorro aleatório de substâncias químicas no cérebro, mas por uma idéia". Horripilante, não?






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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CARNAVAL 2013



E lá se vai mais um Carnaval. Admito que não sou fanático pela festa, mas costumo sair todo ano num bloco que reúne uma galera da minha adolescência. Além de ser uma boa desculpa pra rever muita gente boa às vezes dá até pra conhecer umas caras novas e... (deixa prá lá!).

Quanto ao desfile das Escolas de Samba, pra mim não tem mais muita graça não, parece que todo ano é sempre a mesma coisa, apesar de torcer pro Salgueiro. Aliás, foi uma das poucas que eu tive paciência de assistir pela TV, além da Unidos da Tijuca, Mangueira, Beija-Flor e São Clemente, até porque estavam entre as primeiras a desfilar no domingo e na segunda-feira.





Sem querer ser chato, vou ousar fazer algumas críticas, tanto ao desfile quanto à transmissão da TV Globo. O Salgueiro veio “arrebentando”, com muito luxo e abusando da tecnologia. Nada contra, até porque o desfile é cada vez mais para gringo ver.

Unidos da Tijuca, idem, muito bonita e cheia de truques tecnológicos. Pena que pecou num detalhe nem tão pequeno assim. A homenagem à Alemanha foi original, mas a Escola cometeu um equívoco logo na Comissão de Frente ao exaltar a mitologia germânica. Thor e Odin, apesar de terem sido reverenciados na antiga Alemanha, eram conhecidos como Donar ou Doner e Wotan ou Woden. Thor e Odin são os nomes pelos quais estas divindades eram conhecidas na Escandinávia (Dinamarca e Noruega, principalmente). Não chegou a tirar o brilho do espetáculo (legal a mágica com o martelo!), mas que foi um tremendo “vacilo” isso foi.






Mangueira e Beija-Flor: ambas como sempre dignas e belas, candidatas indiscutíveis ao título. Entretanto a Escola de Nilópolis também teve seu equívoco, e não foi pequeno. Um dos destaques foi uma fantasia muito bonita e luxuosa chamada “Dario, Rei da Babilônia”. Hein?!? Dario foi Imperador da Pérsia, gente. Tudo bem que suas conquistas também alcançaram a região entre os rios Tigre e Eufrates (atual Iraque), onde localizava-se a antiga Babilônia, mas, pelo amor de Zaratustra, essa foi imperdoável!





Outro equívoco, até engraçado, veio de um dos comentaristas da TV Globo. O tema da Beija-Flor era uma homenagem ao cavalo, animal que, desde pelo menos a última Era Glacial, tem sido um parceiro indispensável da humanidade na construção das civilizações. Acontece que uma certa alegoria focalizava a evolução do animal desde seus ancestrais mais longínquos, entre eles o "eohippus", que existiu mais ou menos entre 10 e 20 milhões de anos atrás. Era um animal pequeno em comparação com nosso cavalo, mais ou menos do tamanho de um cachorro médio atual. Durante o desfile, a certa altura, o comentarista declarou que devia ter sido mais fácil para o “homem das cavernas” caçar aqueles “cavalinhos” do que os dinossauros. Putz! Essa foi hilária! Alguém andou vendo desenhos animados demais! Entre a extinção dos últimos dinossauros e o surgimento dos primeiros hominídeos existe um intervalo de, pelo menos, 50 milhões de anos!!! Fala sério...






Quanto a São Clemente, pessoalmente detestei. Veio homenageando as novelas da TV Globo, num demonstração descarada de “puxa-saquismo” típico. Por sinal, por que só a Globo pode transmitir o desfile das Escolas de Samba? Ah é, muito dinheiro...

E pra quem não sabe o desfile agora tem patrocínio de empresas privadas. Quem não gosta de dinheiro?



POST-SCRIPTUM:



Anyway, parabéns a todas as Escolas de Samba que desfilaram no Sambódromo da Av. Marquês de Sapucaí. E que vença a melhor!

domingo, 4 de setembro de 2011

HQ 'SUBVERSIVA' CHEGA AO BRASIL



[THAIS.AZEVEDO@METROJORNAL.COM.BR]


Originalmente publicada em 1965, no auge da Guerra do Vietnã, a revista "Blazing Combat" chegou ao mercado dos EUA em meio a polêmicas.

Com roteiros de Archie Goodwin, a obra trazia histórias de guerra em que os protagonistas eram os combatentes. A idéia das páginas em preto-e-branco era mostrar não apenas a coragem, o sofrimento e os conflitos internos dos oficiais mas também deixar claro o quão absurdos e inúteis eram os choques armados.

No momento em que os jovens eram recrutados diariamente e a vida de milhares de famílias era alterada para sempre, o governo norte-americano logo viu um problema na linguagem da HQ. Depois de apenas quatro edições, ela foi cancelada sob as acusações de ser antiamericana e subversiva.

Lançada no Brasil pela Gal Editora (preço sugerido: R$ 42,00), "Combate Inglório" chega ao público do país em edição especial.

O livro traz desenhos de alguns dos mais importantes artistas do gênero, entre eles Wally Wood, Alex Toth e John Severin. O material extra inclui entrevistas com o roterista Archie Goodwin e com o editor James Warren, além de biografias e uma galeria com capas originais de Frank Frazetta.






POST-SCRIPTUM:


Excelente notícia para os amantes de quadrinhos de qualidade. Tanto o autor quanto os desenhistas (inclusive os não citados Al Williamson e Gene Colan) são clássicos que já fazem parte da história dos 'comics' e todos eles contribuíram com seu talento para as grandes editoras de quadrinhos americanas entre as décadas de 1950 e 1970 (alguns indo até mais além).







Interessante e paradoxal é que os EUA entraram na Guerra do Vietnã para supostamente 'defender a democracia', mas diante da 'ameaça' de uma mera revista de HQ seu governo não pensou duas vezes antes de violar o direito de expressão no próprio ambiente doméstico. Tempos sinistros aqueles, mas nem por isso menos fascinantes.