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sexta-feira, 24 de abril de 2015

O SER E O EVENTO (2)



[Introdução; O SER E O EVENTO; ALAIN BADIOU; Jorge Zahar Editor; Editora UFRJ]



O enunciado (filosófico) segundo o qual as matemáticas são a ontologia - a ciência-do-ser-enquanto-ser - foi a réstia de luz que iluminou a cena especulativa que, em minha Teoria do Sujeito, eu havia limitado, pressupondo pura e simplesmente que "havia" subjetivação. A compatibilidade desta tese com uma ontologia possível me preocupava, pois a força - e a absoluta fraqueza - do "velho marxismo", do materialismo dialético, fora postular tal compatibilidade sob a forma da generalidade das leis da dialética, isto é, afinal da contas, do isomorfismo entre a dialética da natureza e a dialética da história. Sem dúvida, esse isomorfismo (hegeliano) era natimorto. Quando nos batemos, até hoje, do lado de Prigogine e da física atômica para encontrar aí corpúsculos dialéticos, não passamos de sobreviventes de uma batalha que nunca foi seriamente travada senão sob as injunções um tanto brutais do Estado stalinista. A Natureza e sua dialética nada tem a ver com isso. Mas que o processo-sujeito seja compatível com o que é pronunciável - ou pronunciado - do ser, eis uma dificuldade séria, que, aliás, eu havia apontado na pergunta feita sem rodeios por Jacques-Alain Miller a Lacan em 1964: "Qual é sua ontologia?" Nosso mestre, esperto, respondeu por uma alusão ao não-ente, o que era apropriado, mas curto. Da mesma maneira, Lacan, cuja obsessão matemática só fez crescer com o tempo, havia indicado que a lógica pura era "ciência do real". O real continua sendo, contudo, uma categoria do sujeito.

Tateei durante vários anos em torno dos impasses da lógica - uma exegese cerrada dos teoremas de Lowënhein-Gödel, de Tarski - sem ultrapassar o quadro da Teoria do Sujeito senão pela sutileza técnica. Sem me dar conta, eu continuava sob o domínio de uma tese logicista, que sustenta que a necessidade dos enunciados lógico-matemáticos é formal, porquanto resulta da erradicação de todo efeito de sentido, e que, de todo modo, não convém interrogar sobre aquilo por que esses enunciados são responsáveis, fora de sua consistência. Eu me enredava na consideração de que, supondo que há um referente do discurso lógico-matemático, não escapávamos da alternativa de pensá-lo, seja como "objeto" obtido por abstração (empirismo), seja como Ideia supra-sensível (platonismo), dilema em que nos encurrala a distinção anglo-saxã universalmente reconhecida entre as ciências "formais" e as ciências "empíricas". Nada disso era coerente com a clara doutrina lacaniana segundo a qual o real é o impasse da formalização. Eu estava no caminho errado.


Foi finalmente ao acaso de pesquisas bibliográficas e técnicas sobre o par discreto/contínuo que passei a pensar que era preciso mudar de terreno, e formular, quanto às matemáticas, uma tese radical. Pois o que me pareceu constituir a essência do famoso "problema do contínuo" era que tocávamos aí um obstáculo intrínseco ao pensamento matemático, em que se dizia o impossível próprio que lhe funda o domínio. Considerando bem os paradoxos aparentes das investigações recentes sobre a relação entre um múltiplo e o conjunto de suas partes, acabei por pensar que só havia aí figuras inteligíveis se admitíssemos de antemão que o Múltiplo seja, para os matemáticos, não um conceito (formal) construído e transparente, mas um real cujo descompasso interior, e o impasse, a teoria manifestava.


Cheguei então à certeza de que era preciso postular que as matemáticas escrevem aquilo que, do próprio ser, é pronunciável no campo de uma teoria pura do Múltiplo. Toda a história do pensamento racional pareceu-me esclarecer-se a partir do momento em que adotávamos a hipótese de que as matemáticas, longe de serem um jogo sem objeto, extraem a severidade excepcional da sua lei do fato de estarem condenadas a sustentar o discurso ontológico. Por uma inversão da questão kantiana já não se tratava de perguntar: "Como a matemática pura é possível?" e de responder: graças ao sujeito transcendental. Mas sim: sendo a matemática pura ciência do ser, como um sujeito é possível?





quarta-feira, 15 de abril de 2015

O SER E O EVENTO (1)





[Parte 1 da Introdução do livro "O SER E O EVENTO" de autoria de ALAIN BADIOU]


Admitamos que hoje, na escala mundial, seja possível começar a análise do estado da filosofia pela suposição dos três enunciados que se seguem:

1. Heidegger é o último filósofo universalmente reconhecível.

2. A figura da racionalidade científica é conservada como paradigma, de maneira dominante, pelos dispositivos de pensamento, sobretudo norte-americanos, que se seguiram às mutações matemáticas, às da lógica e aos trabalhos do círculo de Viena.

3. Está em desenvolvimento uma doutrina pós-cartesiana do sujeito, cuja origem pode ser atribuída a práticas não filosóficas (a política, ou a relação instituída com as "doenças mentais"), e cujo regime de interpretação, marcado pelos nomes de Marx (e Lenin), de Freud (e Lacan), está enredado em operações, clínicas ou militantes, que excedem o discurso transmissível.

Que há de comum nestes três enunciados? Não há dúvida de que designam, cada um a sua maneira, o fecho de uma época inteira do pensamento e de seus desafios. Heidegger, no elemento da desconstrução da metafísica, pensa a época como regida por um esquecimento inaugural, e propõe um retorno grego. A corrente "analítica" anglo-saxã desqualifica a maior parte das frases da filosofia clássica como desprovidas de sentido, ou limitadas ao exercício livre de um jogo de linguagem. Marx anunciava o fim da filosofia, e sua realização prática. Lacan fala de "antifilosofia", e prescreve ao imaginário a totalização especulativa.

Por outro lado, o que há de incongruente nestes enunciados salta aos olhos. A posição paradigmática da ciência, tal como, até em sua negação anarquizante, ela organiza o pensamento anglo-saxão, é assinalada por Heidegger como um efeito último, e niilista, da disposição metafísica, ao passo que Freud e Marx conservam seus ideais, e que o próprio Lacan reconstituía nela, pela lógica e a topologia, os esteios de eventuais matemas. A ideia de uma emancipação, ou de uma salvação, é proposta por Marx ou Lenin no modo de uma revolução social, mas é considerada por Freud ou Lacan com um pessimismo cético, considerada por Heidegger na antecipação retroativa do "retorno dos deuses", enquanto, grosso modo, os americanos se contentam com o consenso em torno dos procedimentos da democracia representativa.

Há, portanto, acordo geral quanto a convicção de que nenhuma sistemática especulativa é concebível, e de que está encerrada a época em que a proposição de uma doutrina do nó ser/não-ser/pensamento (se admitirmos que é desse nó que, desde Parmênides, se origina o que chamamos "filosofia") podia ser feita na forma de um discurso acabado. O tempo do pensamento está aberto para um regime de apreensão diferente.

Há desacordo quanto à questão de saber se essa abertura, cuja essência é encerrar a idade metafísica, se indica como revolução, como retorno, ou como crítica.

Minha própria intervenção nessa conjuntura consiste em traçar nela uma diagonal, pois o trajeto de pensamento que tento passa por três pontos suturados, cada um, num dos três lugares que os enunciados acima designam. 

- Com Hidegger, vamos sustentar que é do ângulo da questão ontológica que se sustenta a re-qualificação da filosofia como tal.

- Com a filosofia analítica, afirmaremos que a revolução matemático-lógica de Frege-Cantor fixa orientações novas para o pensamento.

- Admitiremos, por fim, que nenhum aparato conceitual é pertinente se ele não for homogêneo às orientações teórico-práticas da doutrina moderna do sujeito, ela própria interior a processos práticos (clínicos ou políticos).

Esse trajeto remete a periodizações imbricadas,
cuja unificação, a meu ver arbitrária, conduziria à escolha unilateral de uma das três orientações contra as demais. Vivemos uma época complexa, se não confusa, visto que as rupturas e as continuidades de que ela se entretece não se deixam subsumir sob um vocabulário único. Não há hoje "uma" revolução (ou "um" retorno, ou "uma" crítica). Eu tenderia a resumir assim o múltiplo temporal descompassado que organiza nossa situação:

1. Somos contemporâneos de uma terceira época da ciência, após a grega e a galileana. A cesura nomeável que abre esta terceira época não é (como no caso da grega) uma invenção - a das matemáticas demonstrativas -, nem (como a galileana) um corte - aquele que matematiza o discurso físico. É uma reorganização, a partir da qual se revelam a natureza da base matemática da racionalidade e o caráter da decisão de pensamento que a estabelece.

2. Somos igualmente contemporâneos de uma segunda época da doutrina do Sujeito, que não é mais o sujeito fundador, centrado e reflexivo, cujo tema se estende de Descartes a Hegel, e ainda permanece legível até Marx e Freud (e até Husserl e Sartre). O sujeito contemporâneo é vazio, clivado, a-substancial, irreflexivo. Aliás, ele pode apenas ser suposto no tocante a processos particulares cujas condições são rigorosas.

3. Somos, por fim, contemporâneos de um começo no que diz respeito à doutrina da verdade, depois que sua relação de consecutividade orgânica com o saber se desfez. Percebemos retroativamente que, até agora, reinou absoluta o que chamarei aqui a veridicidade; e, por estranho que isso possa parecer, convém dizer que a verdade é uma palavra nova na Europa (e alhures). De resto, esse tema da verdade atravessa Heidegger (que é o primeiro a subtraí-lo ao saber), os matemáticos (que no fim do século XIX romperam tanto com o objeto quanto com a adequação) e as teorias modernas do sujeito (que excentram a verdade de sua pronunciação subjetiva).

A tese inicial de minha empreitada, aquela a partir da qual dispomos o imbricamento das periodizações, extraindo o sentido de cada uma, é a seguinte: a ciência do ser-enquanto-ser existe desde os gregos, pois esse é o estatuto e o sentido das matemáticas. Somente hoje, porém, temos os meios de saber tal coisa. Dessa tese decorre que a filosofia não tem por centro a ontologia - a qual existe como disciplina exata e separada -, mas circula entre essa ontologia, as teorias modernas do sujeito e sua própria história. O complexo contemporâneo das condições da filosofia abarca, por certo, tudo a que se referem meus três enunciados primeiros: a história do pensamento "ocidental", as matemáticas pós-cantorianas, a psicanálise, a arte contemporânea e a política. A filosofia nem coincide com nenhuma dessas condições, nem elabora sua totalidade. Ela deve apenas propor um quadro conceitual onde possa se refletir a compossibilidade contemporânea desses elementos. Só o pode fazer - pois é isso que a despoja de toda ambição fundadora, em que se perderia - designando entre suas próprias condições, e como situação discursiva singular, a própria ontologia, sob a forma das matemáticas puras. É isso, propriamente, o que a liberta, e a consagra finalmente ao zelo das verdades.

     

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ESQUERDA, DIREITA: BABACAS, MARCHEM!

Groucho-Marxismo


[EDITADO E ADAPTADO A PARTIR DO ARTIGO "RITOS DE ESQUERDA" PUBLICADO NO LIVRO "GROUCHO-MARXISMO" DA AUTORIA DE BOB BLACK E PUBLICADO PELA ED. CONRAD]



Na astronomia, "revolução" se refere a uma volta ao mesmo lugar. Para a esquerda, parece significar mais ou menos a mesma coisa. O esquerdismo é literalmente reacionário. Assim como os generais estão sempre uma guerra atrasados, os esquerdistas estão sempre em busca de uma revolução.



Eles a vêem como bem-vinda porque sabem que já nasceu fracassada. São vanguardistas porque estão sempre atrás de seu tempo. Como todos os líderes, os esquerdistas são menos intragáveis quando seguem seus seguidores, mas, em certas crises, eles tomam a frente para fazer o sistema funcionar.

Se a metáfora esquerda/direita tem algum significado, ele só pode ser que a esquerda fica à esquerda da mesma coisa da qual a direita fica à direita. Mas e se "revolução" significar sair da linha?



Se não houvesse direita, a esquerda teria que inventá-la - e ela muitas vezes o fez (exemplos: a histeria calculada com os nazistas e a KKK, que concede a esses covardes retardados a notoriedade de que precisam). A direita, da mesma forma, precisa da esquerda: sua definição operacional é sempre "anticomunismo" ou seus vários sinônimos baratos. Assim, a esquerda e a direita pressupõem e recriam uma à outra.



Um efeito negativo dos tempos difíceis é que eles tornam a oposição fácil demais, como (por exemplo) a atual crise econômica, que é encaixada em categorias marxistas arcaicas, populistas ou sindicalistas. A esquerda, portanto, se posiciona para cumprir seu papel histórico de reformista desses males incidentais (embora agonizantes), os quais, devidamente abordados, escondem as injustiças essenciais do sistema: a hierarquia, o moralismo, a burocracia, a mão-de-obra assalariada, a monogamia, o governo, o dinheiro (o marxismo poderá ser um dia algo mais do que a maneira mais sofisticada de o capital pensar sobre si mesmo?).


O desemprego é ruim. Mas a isto não se segue, fora do dogma direito-esquerdista, que o emprego seja bom. Não é. O "direito ao trabalho", talvez um slogan adequado em 1848, está obsoleto. As pessoas não precisam de trabalho. Nós precisamos é da satisfação das necessidades de subsistência, por um lado, e, por outro, de oportunidades de atividade criativa, de convivência, educativa, diversificada e apaixonante.



A mais de cinquenta anos atrás, estimou-se que 5% do trabalho existente na época atenderia às necessidades mínimas de sobrevivência, um índice que deve ser mais baixo hoje; obviamente, ramos inteiros de atividade não servem para nada mais do que atender às finalidades predatórias do comércio e da coerção. 



Essa é uma infra-estrutura ampla a ser modificada para criar um mundo de liberdade, comunidade e prazer no qual a "produção" de usos-valores seja o "consumo" de atividades gratificantes livres. Transformar o trabalho em brincadeira é um projeto para um proletariado que rejeita essa condição, não para esquerdistas que não têm mais o que conduzir.


O pragmatismo, como um rápido olhar no seu funcionamento torna óbvio, é uma armadilha ilusória. A utopia não passa de senso-comum. A escolha entre o "pleno emprego" e o desemprego  - escolha à qual a esquerda e a direita colaboram entre si para nos confinar - é a escolha entre o Gulag e a sarjeta. Não admira que, depois desses anos todos, uma população sufocada e sofredora esteja cansada da mentira democrática. Há cada vez menos pessoas que querem trabalhar  - até entre aquelas que têm motivos para temer o desemprego - e cada vez mais pessoas que querem fazer maravilhas.



Por favor, vamos fazer barulho para obter concessões, redução de impostos, amostras grátis, pão e circo - por que não morder a mão que nos alimenta, se seu sabor é excelente? -mas sem ilusões.

A pérola (sur)racional da verdade dentro da mística ostra marxista é esta: a "classe trabalhadora" é o lendário "agente revolucionário", mas somente se, parando de trabalhar, abolir as classes. "Ativismo" é idiotice quando enriquece nossos inimigos e lhes dá poder.



O esquerdismo, esse parasita de símbolos doloridos, teme a deflagração do incêndio que vai consumir seus partidos e sindicatos junto com as corporações, exércitos e igrejas atualmente controlados por seu ostensivo oponente.

Hoje em dia, você precisa ser estranho para ser efetivo. O esquerdismo cinzento, com suas listas de antagonismos obrigatórios (contra issismos, aquilismos e aquiloutrismos) não tem nenhum humor, nenhuma imaginação; portanto, não pode preparar revoluções, só golpes, que mudam as mentiras, mas não a vida.



Mas o ímpeto de criar é também um ímpeto destrutivo. Mais um esforço, esquerdistas, se quiserem ser revolucionários! Se vocês não se revoltarem contra o trabalho, estarão trabalhando contra a revolta.


POST-SCRIPTUM:






ANARQUISTAS DO MUNDO, UNÍ-VOS! (Mas sem sindicatos ou partidos, ok?)



segunda-feira, 11 de abril de 2011

KARL MARX E 'A MISÉRIA DA FILOSOFIA'





Em fins do século XIX as reflexões de Karl Marx (1818-1883) sobre a história levaram-no a reconhecer a importância fundamental das questões ligadas à produção: não há sociedade que não consuma para sobreviver; e, para consumir, ela precisa, de algum modo, produzir.

Assim, não há como compreender a complexidade inerente a qualquer sociedade se não levarmos em conta os problemas ligados ao modo pelo qual ela organiza a sua produção e ao modo pelo qual nela se dá a apropriação da riqueza produzida. 






Esta é, em essência, a concepção da história elaborada por Marx, a qual corresponde com perfeita coerência à sua concepção do homem, cujos aspectos essenciais ele desenvolveu numa polêmica com o socialista utópico francês, Proudhon.

Advertia Marx, então, que "as relações de produção formam um todo" e que certa visão de conjunto torna-se indispensável para a avaliação do verdadeiro alcance de cada fenômeno observado na história. Marx se contrapunha, portanto, à ilusão que levava Proudhon a se basear, não na totalidade dinâmica das relações de produção, mas numa pretensa natureza humana imutável, para avaliar os problemas históricos da sociedade de seu tempo.






"O Sr. Proudhon não sabe que toda a história tem sido apenas uma transformação constante da natureza humana", escreveu Marx em seu livro 'A MISÉRIA DA FILOSOFIA'. 

Desde o seu nascimento, a Filosofia tratou de assuntos cruciais: a natureza das coisas, a natureza do homem, a ética, as formas de governo, a felicidade, o trabalho, o átomo, a economia, a liberdade, a justiça, o amor, a verdade, a vida, a morte, etc. Todos estes problemas são ainda hoje atuais. Nunca, nenhum deles foi equacionado definitivamente. Isso mostra que as questões realmente importantes são sempre retomadas e articuladas de modo novo ao longo da história humana.






A Filosofia é, portanto, um discurso vivo e inacabado, justamente porque se origina nas questões radicais de nossa existência, bem com da ciência, da política, da arte e da religião. Assim sendo, ela não pode ser neutra. Pelo contrário, deve revestir-se de um profundo sentido transformador e crítico da realidade, que surge a partir de concepções revolucionárias do homem e do mundo.

Tais concepções se colocam como contraponto ao discurso praticado pela tradição filosófica que situava a discussão no nível exclusivo de uma visão metafísica da realidade ou permanecia presa à estreiteza de um ponto de vista puramente contemplativo; em outras palavras, "a miséria da filosofia".






“Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; trata-se, entretanto, de transformá-lo”, escreveu Marx. Ou seja, sua proposta era de rompimento com práticas anteriores caracterizadas pela inércia e pelo conformismo com a situação que se apresentava e de participação no sentido de um engajamento em um verdadeiro movimento transformador das consciências em geral, e do curso de filosofia em particular, instaurando, assim, o pensar que quer ser agente e ator da transformação da realidade.

Alguns poderiam questionar, e muitos o fazem, a respeito da relevância do pensamento de Karl Marx para os dias de hoje, pelo menos fora dos meios acadêmicos. Nestes vetustos santuários da ortodoxia marxista, até onde sei, ele vai muito bem, obrigado (ou, pensando bem, talvez nem tanto...). Mas e no caldeirão da cultura globalizada, território por excelência do genérico, do virtual e do fugaz (qualidades essas que – e isto deve ser sempre enfatizado – não merecem à priori o rótulo de 'negativas', diga-se de passagem)?






Eu diria que, como tudo, depende. Depende, entre outros aspectos que se possa pensar, principalmente da interpretação que se dê a seus escritos e da relação dessa interpretação com a transformação das circunstâncias históricas, desde a época em que foram concebidos até os dias atuais.

Se o ponto de partida for o marxismo ortodoxo, ou seja, aquela velha ladainha maniqueísta dos partidos de esquerda tradicionais, não vale nem a pena começar a discutir, é pura perda de tempo. Esse tipo de ‘pensamento’ não vai além de alguns clichês e palavras de ordem decoradas em cartilhas fomentadoras do ódio e do ressentimento. E, além do mais, extremamente hipócritas.







Entretanto, se o ponto de partida for o pensamento vivo desse que foi, antes de tudo, um filósofo, e só depois um economista e um político, ou seja – como diria o mestre José Arthur Giannoti – , não o ‘marxismo’ (que diria respeito a tudo que foi feito, devida ou indevidamente, em nome de Karl Marx), mas o pensamento ‘marxiano’ (que nos remeteria ao que ele efetivamente escreveu), então a resposta só pode ser um sonoro sim, pois não há como entender o século XX e entrar no século XXI sem conhecer as revolucionárias idéias de Marx.



POST-SCRIPTUM:


Não obstante que, em sua maior parte, a doutrina marxista seja de 'segunda mão' – originária de interpretações dadas por dirigentes soviéticos como Lênin, Trotsky e Stálin, ou o chinês Mao Tsé-Tung –, a obra de Marx, incontestavelmente, trouxe contribuições originais para a filosofia, a sociologia, a economia política e a história, ainda que discordemos pontualmente de algumas (ou mesmo de muitas) de suas colocações. 







E, se há que se admitir que poucos, na verdade, ousaram desbravar a complexidade de sua obra, não há como negar que, toda vez que achamos que alguma coisa está errada em uma sociedade em que uma minoria tem muito dinheiro e a maior parte da população vive em dificuldade, e que os sonhos de consumo nos tornam apenas mais vazios, estamos pensando na companhia de Marx, de uma forma ou de outra.


(Agradecimentos especiais aos professores LEANDRO KONDER e OLINTO PEGORARO)






sábado, 22 de janeiro de 2011

PENSAMENTOS




Em primeiro lugar nasceu o Caos" - Hesíodo







"Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como as do arco e da lira" - Heráclito






"A causa da existência de todas as coisas é o redemoinho incessante a que chamo necessidade; e tudo acontece de acordo com a necessidade. Dessa forma, a criação é constantemente criada e recriada" - Demócrito






"O homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são tal como são e das que não são tal como não são" - Protágoras





"O que está embaixo é igual ao que está em cima, e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar o milagre de uma só coisa" - A Tábua de Esmeralda




"A analogia dos contrários é a relação que vai da luz à sombra, do vértice ao abismo, do pleno ao vazio. A alegoria, mãe de todos os dogmas, é a mentira da verdade e a verdade da mentira" - Eliphas Levi



"Lá, o olho não alcança, nem a fala, nem a mente, não sabemos ou sequer entendemos como poderia ser ensinado" - Os Upanishads




"Homens sem sabedoria deliciam-se na análise da simples letra dos Vedas" - Os Vedas




"A letra mata, o espírito vivifica" - Paulo de Tarso





"Só sei que nada sei" - Sócrates




"Não há esperança sem medo nem medo sem esperança" - Spinoza




"Que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; mas se tiver que explicar a alguém, não sei" - Santo Agostinho




"O Tempo e o Espaço são modos pelos quais pensamos, e não condições nas quais vivemos" - Albert Einstein





"A Natureza ama esconder-se" - Heráclito





"O Tao que pode ser expresso não é o Tao eterno" - Tao Te Ching




"Deus é uma esfera cujo centro está em toda parte, e a circunferência em lugar nenhum" - Hermes Trimegistus




"Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento? O homem não lhe conhece o caminho; nem se acha ela na terra dos viventes" - Livro de Jó, 28:12




"I'm looking for the face I had 
Before the world was made" - Yeats ("The Winding Stair")




"A primeira sephirah é Keter, a Coroa, origem de tudo, vácuo primordial. Primeiro criou um ponto, que se tornou o Pensamento, onde imprimiu todas as figuras. Era e não era, encerrado no nome e esquecido no nome, o Não-Movente, que não é corpo, não tem figura, forma, peso, quantidade ou qualidade, e não vê, não sente, não é apreendido pela sensibilidade, não é um lugar, nem um tempo ou um espaço, não é alma, inteligência, imaginação, opinião, número, ordem, medida, substância, eternidade, não é treva nem luz, não é erro nem verdade" - Casaubon ("O Pêndulo de Foucoult", de Umberto Eco)




"No ponto em repouso do mundo em mutação, nem carne nem ausência de carne; nem ida nem volta: no ponto em repouso há dança, mas nem interrupção nem movimento. E não se chame de fixo o lugar em que o passado e o futuro se encontram. Nem movimento de vinda ou de volta, nem ascenção nem declínio. Se não ouvesse o ponto, o ponto em repouso, não haveria dança, e só há dança" - T. S. Elliot



"A Natureza é partes sem um todo. Isto é talvez o tal mistério de que falam" - Alberto Caeiro (vulgo Fernando Pessoa)




"Salomão disse: 'Não há nada de novo sobre a terra'. E tanto assim quanto Platão imaginou, 'que todo conhecimento é apenas recordação'; tanto assim Salomão sentenciou, 'que toda novidade não passa de esquecimento'" - Francis Bacon ("Essays LVIII")




"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que a as mentiras" - Nietzsche




"As maiores almas são capazes dos maiores vícios tanto quanto das maiores virtudes" - Descartes




"Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos, pois, reciprocamente as nossas tolices" - Voltaire



"Senhor, que tolos são esses mortais..." - William Shakespeare, em "Sonhos de Uma Noite de Verão"




"A Igreja diz que a Terra é achatada, mas eu sei que é redonda, porque eu vi sua sombra na Lua, e eu tenho mais fé numa sombra do que na Igreja" - Fernão de Magalhães




"Jamais houve um vislumbre de evidência de que os Estados cristãos sejam menos belicosos que os demais. De fato, algumas das guerras mais ferozes foram devidas a conflitos entre diferentes tipos de cristianismo" - Bertrand Russell



"Parece-me que a questão decisiva da espécie humana é a de saber se, e em que medida, o seu desenvolvimento cultural será bem-sucedido em dominar o obstáculo à convivência representado pelos impulsos humanos de agressão e de autoaniquilação" - Sigmund Freud




"Para seguir a trilha do conhecimento é preciso ser muito imaginativo. Na trilha do conhecimento, nada é tão claro quanto gostaríamos que fosse" - Don Juan Matus ("A Erva do Diabo", de Carlos Castañeda)



"A natureza é um templo em que pilastras vivas por vezes emitem palavras confusas, e nele o homem passa por florestas de símbolos que o observam com um olhar familiar" - Charles Baudelaire




"Crê naqueles que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram" - André Gide



"Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade" - Carl Gustav Jung



"Se cuidarmos da liberdade, a verdade cuida de si mesma" - Richard Rorty




"O passado mostra, invariavelmente, que, quando a liberdade de um povo desaparece, ela não se vai com um estrondo, mas envolta pelo silêncio dos que se sentem confortáveis com os cuidados que estão recebendo. Esse é o extremo perigo da tendência ao estatismo" - Richard Weaver




"A imaginação é a mais importante das faculdades humanas" - Albert Einstein



"Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; trata-se, entretanto, de transformá-lo" - Karl Marx 




"A Ciência deve começar com os mitos e com a revisão crítica dos mitos" - Karl Popper



"A leitura histórica da tradição nos mostra que os grandes filósofos deixaram a sua marca e influenciaram o desenvolvimento da filosofia na medida em que tiveram idéias originais, foram criativos, abrindo novas possibilidades para o pensamento, mas também na medida em que tiveram bons leitores, isto é, discípulos que souberam, inclusive criticamente, interpretar seu pensamento, tomá-los como ponto de partida para novos desenvolvimentos e encontrar novas dimensões e novas aplicações de suas obras. Encontramos o melhor exemplo disso no período clássico com Platão em relação a Sócrates e, por sua vez, com Aristóteles em relação a Platão. Filosofias que pareciam praticamente extintas, como o ceticismo antigo, ressurgem com novo vigor porque encontram novos leitores; o início do período moderno é um exemplo disso. Assim tradição e criação não se excluem, mas se fecundam mutuamente" - Danilo Marcondes



"Quando Platão tentou abarcar a alma (psyche), recorreu tanto ao mito quanto ao pensamento racional meticuloso. Precisou dos dois caminhos. Plotino recorre ao mito quando discute a alma. Freud também utilizou dois caminhos. Sua linguagem racional é intercalada de imagens míticas, digna dos pré-socráticos" - J. Hillman




"Uma generalização feita não pelo mero prazer de generalizar, mas para resolver problemas previamente existentes, é sempre uma generalização frutífera" - Henri Lebesgue




"Quanto mais a matéria é, em aparência, positiva e sólida, mais sutil e laborioso é o trabalho da imaginação" - Charles Baudelaire



"Se o mundo dos sentidos não se ajusta às matemáticas, tanto pior para o mundo dos sentidos" - Bertrand Russell




"Quando você pode medir algo sobre o qual está falando e expressá-lo em números, você sabe alguma coisa sobre ele" - Lord Kelvin




"Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - Antoine Lavoisier 



"Não pode haver nenhuma certeza apodítica na ciência, nenhuma certeza conclusiva além do alcance da crítica" - Peter Medawar



"A realidade é meramente uma ilusão, ainda que uma muito persistente" - Albert Einstein




"Em termos de tecnologia, o que quer que possa ser imaginado eventualmente será construído" - Andrew S. Grove ("Only the Paranoid Survive")




"Existe um limite para os nossos poderes de observação e para o mínimo de perturbação que acompanha o nosso ato de observação, um limite que é inerente à natureza das coisas e que nunca pode ser vencido pelo aperfeiçoamento da técnica e da habilidade do observador" - Paul Dirac



"Dizer que a história da razão é discontínua pode levar a pensar que, afinal, esta não indica nada de muito preciso, claro ou rigoroso e que, talvez, seja um mito que a cultura ocidental inventou para si mesma. Mas pode significar também algo bem mais importante: que a razão não é a estrutura universal do espírito humano e sim um meio precioso de que dispomos para criar, julgar e avaliar conhecimentos, para dar sentido às coisas, às situações e aos acontecimentos e para transformar nossa existência individual e coletiva" - Marilena Chauí




"Deve-se compreender que há 'mais' e não 'menos' em uma organização quantitativa do real que em uma descrição qualitativa da experiência" - Gaston Bachelard



"Quem não se sentiu chocado com a teoria quântica, não pode tê-la compreendido" - Niels Bohr



"A teoria quântica é sobre a compatibilidade de dois opostos aparentemente irreconciliáveis" - Paul Strathern




"Aprendemos que a verdade é de diferentes tipos, nem todos completamente compatíveis" - Peter Medawar




"Mesmo que se compreenda que o significado de um conceito jamais será definido com precisão absoluta, alguns conceitos são parte integrante dos métodos da ciência, pelo fato de representarem, pelo menos por algum tempo, o resultado final do desenvolvimento do pensamento humano desde um passado assaz remoto; eles podem mesmo ter sido herdados e são, qualquer que seja o caso, instrumentos indispensáveis na execução do trabalho científico em nosso tempo" - Werner Heisenberg



"A compreensão dos fenômenos naturais, dos mais simples aos mais profundos, deveria apenas fortalecer nossa espiritualidade. A racionalidade e a espiritualidade são aspectos complementares" - Marcelo Gleiser



"A Ciência pode impor limites ao conhecimento, mas não deve impor limites à imaginação" - Bertrand Russell




"Só mesmo a obscuridade pode servir de proteção para o que é absurdo" - John Locke




"A primeira obrigação da inteligência é desconfiar de si mesma" - Stanislaw J. Lec




"Não saber do que se fala é uma grande vantagem da qual não se deve abusar" - Régis Debray




"Estude! Não para saber uma coisa a mais, mas para sabê-la melhor" - Sêneca



"Entre compreender e não compreender há um número bastante grande de classes, nas quais 9/10 das pessoas se incluem bastante comodamente" - G. C. Lichtenberg



"A lucidez crônica torna as pessoas mal-humoradas e rabugentas" - Jorge Luis Gutierrez



"A seriedade ontológica precisa de um humor diabólico ou fenomenológico" - Gilles Deleuze




"A retórica, por um lado, é um composto da ciência analítica e da política, por outro, é semelhante ora à dialética, ora aos discursos sofísticos" - Aristóteles



"Sem a loucura que é o homem? Mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?" - Fernando Pessoa




"Honro a filosofia, odeio os filósofos" - Ludwig Boltzmann




"O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem" - Vladimir Lênin



"Em geral, pensa-se que o nacional-socialismo significa apenas brutalidade e terror. Mas isso não é verdade. O nacional-socialismo - e, mais amplamente, o fascismo - também significa um ideal, ou ideais que persistem hoje sob outras bandeiras: o ideal da vida como arte, o culto da beleza, o fetichismo da coragem, a dissolução da alienação em sentimentos extáticos de comunidade, o repúdio ao intelecto, a família humana (sob a paternidade de líderes). Esses ideais são vívidos e comoventes para muitas pessoas porque seu conteúdo corresponde a um ideal romântico ao qual muitos continuam ligados e que se expressa em diversas formas de dissidência cultural e de promoção de novas formas de comunidade, como a cultura jovem e do rock, a terapia primal, a antipsiquiatria e a crença no oculto" - Susan Sontag




"Há, soltas no mundo, palavras demais, não querendo dizer absolutamente nada" - Millôr Fernandes




"Há uma tempestade de merda chegando!" - Norman Mailer




"Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução..." - Carlos Drummond de Andrade




"Somos todos impostores!" - Roger-Pol Droit



"Os egípcios conheciam a eletricidade?" - Peter Kolosimo




"Dreams are like angels, they keep bad at bay" - Frankie Goes To Hollywood




"O filho-da-puta só prospera onde existe uma massa ignara de idiotas" - Lobão



"Existem três coisas de que você precisa abrir mão: julgar, controlar e ser o dono da verdade. Livre-se das três, e você terá a mente íntegra e vibrante de uma criança" - Hugh Prather



"O propósito da vida não é ser feliz. É ser útil, ser honrado, ser compassivo, fazer a diferença entre ter vivido e ter vivido bem" - Ralph Waldo Emerson




"Talvez eu devesse ter lutado menos e perguntado mais!" - Steven Rogers (Captain America #125, vol. 1, May 1970: "Captured in Vietnam!"; by Stan Lee & Gene Colan)



"Ou você é parte da solução, ou é parte do problema" - Eldridge Cleaver




"Nada se cria, tudo se copia" - Abelardo Barbosa (Chacrinha)




"Seguramente, existem três coisas boas na vida: um uísque antes, e um cigarro depois!" - Anônimo






POST-SCRIPTUM:






O Pensador ('Le Penseur'), uma das mais famosas obras de arte do mundo, é criação do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917).