domingo, 16 de março de 2014

A COPA DO CU DO MUNDO



[Editado a partir de um artigo publicado no jornal O GLOBO em 01.03.2014 da autoria de José Miguel Wisnik]


Numa sequência ao mesmo tempo divertida e contundente, na base do programa de auditório, joga-se com a iminência da realização, no Brasil, desse maior espetáculo da Terra, que é chamado nada mais nada menos do que a Copa do Cu do Mundo.

Todo o sentido crítico que se possa, toda a virada pelo avesso do padrão Fifa, exibido pela culatra, toda a remissão às misérias, às derrisões e aos terrores da doença brasileira, tudo está aí, nesse nome.

Mas também, no reconhecimento disso, a capacidade de afirmar a potência da cultura (com trocadilho), de rir das máscaras canastronas, de exercer o apetite de viver e, por incrível que pudesse ser e é, de marcar um lugar original no planeta. É claro que isso só pode ser afirmado em vista da grandeza artística do todo, e no modo como o espetáculo vai fundo na experiência social e vital do país.

A discutida camiseta da Adidas para a Copa, onde se estampa "I love Brazil" na forma de um coração-bunda, é uma versão limitada, mercadológica pitoresca e não assumida do fato de que se olha difusamente a Copa do Brasil como uma espécie de Copa do Cu do Mundo.

Não o quarto mundo, não o cu do mundo, mas a quarta dimensão do cu do mundo.

POST-SCRIPTUM:

"O futuro do Brasil é tão grandioso que não há abismo em que caiba." - Agostinho da Silva

Será mesmo? Espero sinceramente que sim, senão corremos o sério risco de atolar num esgoto metafórico...



sábado, 15 de março de 2014

A CONTRACULTURA E O CINEMA AMERICANO



[Texto de autoria de PETER BISKIND, autor do livro 'COMO A GERAÇÃO SEXO-DROGAS-E-ROCK'N'ROLL SALVOU HOLLYWOOD']

Em meados dos anos 1960, os estúdios americanos não estavam indo bem. Os filmes tinham um público cada vez menor. Simplesmente não conseguiam se comunicar com a juventude daquela época. Afinal de contas, eles eram produzidos por pessoas de 60 anos ou mais que não compreendiam o comportamento da rapaziada. A contracultura era algo que os horrorizava.




Pessoas bêbadas, drogadas e violentas como Dennis Hopper, na época com 20 e poucos anos, os assustavam. E foi justamente um filme dirigido por Hopper, 'Sem Destino' (Easy Rider), que deu novo fôlego ao cinema ianque. De repente, essa geração de rebeldes começou a ingressar nas escolas de cinema e a fazer filmes. O público adorava. Os estúdios não tiveram outra opção a não ser abraça-los.


Gente como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Warren Beatty, Peter Bogdanovich e Robert Altman tinha uma atitude diferente da dos velhos produtores. Não queriam fazer filmes óbvios, se recusavam a filmar em estúdios, estavam cansados das composições perfeitas, iluminação e artificialidade. Mesmo os atores dessa época eram diferentes. Saíam de cena os anglo-saxões perfeitos, entravam os atores étnicos como Robert De Niro, Al Pacino e Dustin Hoffman.


As drogas foram uma parte importante dessa cultura. Enquanto todos os pais tomavam álcool, a juventude fumava maconha. Os cineastas diziam que a erva aumentava sua criatividade e sensibilidade artística. Depois de um tempo, a cocaína virou a droga principal em Hollywood. Ela dava energia, podiam filmar a noite toda. Foi o começo do declínio dessa geração. Na década de 80, quando finalmente perceberam o quanto a droga era perigosa, todo mundo já estava usando. Teve um efeito terrível entre os cineastas. 




Quanto mais essa geração dava certo mais Hollywood lucrava. Os lançamentos eram cada vez maiores. Foi aí que outros dois expoentes dessa geração, George Lucas e Steven Spielberg, começaram a liderar uma contra-revolução. 'Tubarão' e 'Star Wars' fizeram tanto dinheiro, tiveram tanto público, licenciaram tantos produtos, que os estúdios não quiseram mais fazer filmes contraculturais. Tinha início a era dos blockbusters, com investimentos astronômicos, muita propaganda e efeitos especiais.

 

O tipo de filme que está hoje nos cinemas é resultado das portas que a contracultura abriu em Hollywood. Os grandes diretores do cinema mataram os filmes autorais. Se hoje você vai a um multiplex, põe o óculos 3-D e assiste a duas horas e quarenta e cinco minutos de efeitos especiais estonteantes, é porque lá, nos anos 60, uns hippies tiveram a coragem de tirar os filmes das mãos dos produtores e bater de frente com os estúdios.

Só que Hollywood ganhou a guerra.  




POST-SCRIPTUM:

É isso aí, bicho!


PARALISIA



[Publicado no jornal O DIA em 19.02.2014]


Uma pesquisa realizada em Boston (EUA) fez com que um macaco controlasse movimentos de outro pelo pensamento.

Os pesquisadores conectaram o cérebro do animal principal à espinha do outro através de uma prótese. A experiência é uma boa notícia para pacientes com paralisia. 

O objetivo é usar a atividade cerebral para controlar o próprio membro paralisado da pessoa com deficiência. O estudo foi publicado na 'Nature Communications'.


POST-SCRIPTUM:




Notícia legal esta. É o futuro se materializando no presente para trazer esperança no tratamento de pessoas que sofrem de paralisia. Parabéns a estes pesquisadores. E aos macacos.




VIDEOGAMES




[Publicado no jornal O DIA em 19.02.2014]


Jogos eletrônicos podem fazer bem a jovens. A conclusão é da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). Em testes, verificou-se que 'games' desenvolveram a habilidade do cérebro, como a percepção de contraste, útil para quem dirige à noite.

Ao contrário do que se pensava, a diversão pode tratar uma deficiência visual chamada ambliopia, que causa a perda de visão de profundidade. Jogos de ação tiveram os melhores resultados.


POST-SCRIPTUM:

Taí mais um motivo para infindáveis discussões. Nada contra os videogames, mas tem uma molecada por aí que exagera na dose e esquece da vida. 

quinta-feira, 6 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (5)




[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


Aonde tudo isso nos leva?

"(...) suponhamos o ato analítico a partir do momento seletivo em que o psicanalisante passa a psicanalista".

Isso quer dizer que o ato de que se trata agora não é o de César atravessando o Rubicão. Agora, César é o analisante e o Rubicão, o momento em que diz: "Sou psicanalista". 


É disso que se trata. Antes, era analisante, paciente; agora, analista. Não tem nada a ver com o exercício profissional, com o exercício da psicanálise como prática social.

É um instante, um instante que só se deduz de uma análise, um instante em que se muda de posição. É isso o que Lacan interpreta para dizer à comunidade analítica que o analista se esquece desse momento.


Há, portanto, algo fatalmente difícil para um analista em dizer "sou". De modo geral, a comunidade leiga também lhe cobra essa definição: você é psiquiatra, psicólogo, pode dar receitas? Ela não tem de saber o que é um analista, mas há problemas quando o próprio psicanalista não sabe.

Esse momento em que poderia dizer "sou analista" está, como diz Lacan, "esquecido".



POST-SCRIPTUM:

E então? Não tem certeza de nada? Não sabe o que fazer de sua vida? Tudo parece inútil e sem sentido? Qual o objetivo disso tudo?

Cruze o Rubicão: seja seu próprio analista!

E relaxe fumando um 'baseado' do bom, ao lado de companhias agradáveis, uma garrafa de vinho e música de qualidade...

(Se não for possível ter todos esses itens ao mesmo tempo não tem problema: um ou dois já são suficientes)

Quem sabe você não se surpreende?

DEPRESSÃO



O indivíduo é acometido por uma tristeza profunda. O que antes era sinônimo de prazer passa a não ter mais importância. Falta disposição para tudo - trabalho, família, lazer, a pessoa perde a disposição de viver.

Projetada para ser a segunda causa de incapacitação na população mundial em 2020, a depressão, um distúrbio médico, crônico e recorrente, hoje ocupa o quinto lugar entre as causas de incapacidade por doença, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).



O tratamento consiste na combinação da farmacoterapia (antidepressivos combinados ou não com ansiolíticos ou calmantes) com aporte da psicoterapia, com tempo definido e limitado. Um grande avanço no tratamento da depressão foi o desenvolvimento dos inibidores seletivos de recaptura de serotonina (ISRS).

A depressão altera a função das substâncias cerebrais serotonina e noradrenalina - responsáveis pelo equilíbrio emocional.  O medicamento vai modificar a maneira como o cérebro produz e aproveita essas substâncias, sendo que o mais conhecido é a fluoxetina. Os efeitos colaterais são menores do que os dos remédios anteriores.

 


POST-SCRIPTUM:

Estamos acostumados a pensar que depressão não é doença grave, mas a verdade é que ela leva à incapacidade e afeta a qualidade de vida de forma mais grave do que muitas doenças que têm risco maior de morte.

PIADA NATALINA FORA DE ÉPOCA



Uma senhora levou a filha de 17 anos ao médico, queixando-se de que a jovem andava com vômitos, tonturas e que tinha perdido o apetite. O médico, que observava a menina, concluiu: 

- Minha senhora, a sua filha está grávida de três meses!

- A minha filha? Ela nunca esteve sozinha com um homem! Não é verdade, filha?

- Eu nem beijei ainda, mãe!

O médico armou-se de um binóculo que tirou da gaveta, aproximou-se da janela e ficou calado, olhando para o infinito.

Após alguns minutos, a mãe, admirada e farta, perguntou ao médico o que se passava. E o médico respondeu:

- Da última vez em que isso aconteceu, nasceu uma estrela no Oriente e chegaram três reis magos. Desta vez não vou perder o espetáculo!


POST-SCRIPTUM:

Tava guardando essa pra quando o Natal chegasse, mas não resisti. Bwa-ha-ha! 

quarta-feira, 5 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (4)




[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


Se pensamos no Rubicão, vemos que o ato tem a ver com o corte que instala um antes e um depois. Ele tem uma ligação estreita e estrutural com a questão da temporalidade, pois não se passa a vida fazendo um ato.

Um ato é um instante, é o momento em que se salta. Sua temporalidade é a de um instante, precisamente o que o neurótico não consegue. O neurótico, sobretudo o obsessivo, considera que o "bom momento" jamais chega: a água está fria, molha os sapatos, melhor esperar a primavera porque o tempo será mais bonito, melhor pedir permissão, o que me dirão depois, já fiz uma vez e não deu em nada, enfim...




O que é a neurose? É o relato da negação do ato. E podemos fazer o esforço de situar como a questão se verifica não apenas na obsessão, em que é cintilante, mas também na histeria e na fobia.

O que é o perverso? É o sujeito que se engana a respeito de um ato. É alguém que quer ter um saber fazer sobre o ato, e isso o precipita a fazer muitas coisas diante das quais o neurótico certamente recua. 

Mas não se trata de um ato basicamente porque a dimensão do Outro é estritamente necessária para a perversão, e, de maneira geral, alguém pode se perguntar diante de que o acting out é perverso, a quem se endereça.



Toda a lógica da sessão, da sessão curta, da pontuação, a lógica dessa maneira tão especial com que Lacan utilizava tempo, é inteiramente solidária à sua concepção de ato.

O grande texto de Lacan sobre o ato é o novo sofisma, o texto sobre os prisioneiros que tem de tomar a decisão de sair. Valendo-se dele, Lacan formula os tempos lógicos: o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir, que constituem sua teoria do ato.  

POST-SCRIPTUM:

Continua...

terça-feira, 4 de março de 2014

ROMÃ: PROTEÇÃO CONTRA O CÂNCER


[Editado a partir de um reportagem publicada no jornal MEIA HORA]

Estudos mostram que substâncias presentes na romã apresentam efeito protetor contra o câncer e as doenças cardiovasculares. O fruto, segundo cientistas, possui três vezes mais capacidade antioxidante do que o vinho e o chá verde.

O alimento ainda tem papel anti-inflamatório, contribuindo, principalmente, para que o câncer de próstata não desenvolva novos focos de tumor, ou seja, a metástase nos ossos.

Além do câncer, a romã tem papel antioxidante, prevenindo contra danos neurológicos e reduzindo as taxas de colesterol no organismo. Sendo assim, o fruto também funciona como um aliado à saúde do coração.

Apesar de seus efeitos benéficos, a romã deve ser evitada por quem tem diverticulite, ou seja, inflamação no intestino grosso. Como possui sementes, elas não são digeridas e chegam inteiras ao organismo, podendo agravar ou facilitar o surgimento de crises inflamatórias.


POST-SCRIPTUM:


Este foi mais um serviço gratuito de utilidade pública prestado por nosso blog. Não precisam agradecer...

CASO RIOCENTRO


[Adaptado de uma notícia publicada no jornal O GLOBO em 16.02.2014]


Após dois anos de investigação, em nova tentativa de punir os culpados pelo atentado à bomba no Riocentro na época da ditadura militar, o Ministério Público Federal obteve provas inéditas e denunciou cinco militares reformados e um ex-delegado, entre eles três generais.


Entre os depoimentos inéditos, um dos mais importantes é o do major Divany Barros, que confessou ter ido ao local da explosão para retirar provas da participação de militares.



Com a nova denúncia, o Ministério Público tenta reabrir o caso, pois entende que o atentado, de 1981, não está coberto pela Lei da Anistia, de 1979.


POST-SCRIPTUM:

E depois o outro lado é que leva a fama de terrorista. Um clássico caso de "dois pesos e duas medidas"...

domingo, 2 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (3)


[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


O que distingue um ato de uma ação? Um ato não é equiparável a uma ação porque as coordenadas são coordenadas simbólicas, ou seja, o ato é significativo, significa, é interpretável.

Lacan repetidamente exemplifica o que seria um ato: o momento em que César atravessa o Rubicão. Não creiam que saltar por cima do Rubicão é algo semelhante à travessia dos Andes. Nada disso, não é necessário nenhum esforço físico para atravessar o Rubicão, basta um salto.

Por isso o que é o ato? Não há nenhuma ação grandiosa em César que permita dizer que ele passou para a História por causa dela. Trata-se simplesmente do fato de que o Rubicão demarcava o limite que não podia ser atravessado pelo exército da República. César, então, desafia as leis da República, indo além das coordenadas simbólicas que regiam as leis da época.

 

De fato, antes de atravessar o Rubicão, César era um soldado da República; depois, tornou-se um rebelde. Não é mais o mesmo.

Pois bem, esse é o exemplo utilizado por Lacan para explicar que um ato se mede pelas coordenadas simbólicas, não representa nenhuma ação, nenhum gasto físico. 

Entende-se, contudo, que, para ultrapassar as leis, devemos tê-las no horizonte, devemos situar o Outro e ir além dele. Isso permite pressupor que o Outro sempre acompanha a dimensão do ato, precisamente para que se vá além dele. Não há ato sem o Outro.


Deve-se traçar o limite, para se ver depois como retraçá-lo. É preciso a lei simbólica para que se possa ver como transgredi-la, como ultrapassá-la. Não há ato de outra forma.


POST-SCRIPTUM:

Continua...


ABSURDO



[Editado do artigo "Absurdo do absurdo" de Arnaldo Bloch, publicado no 'Segundo Caderno' do jornal O GLOBO em 01.02.2014]


No comando de um Brasil no qual as prisões emulam cenas de masmorras medievais, país em que o saneamento não chega a mais da metade da população e o modelo energético do futuro (e a propaganda totalitária que o acompanha) é todo calcado no petróleo, os discursos de Dilma pintando o Brasil como Terra Prometida (na esteira da balela da "Copa das Copas") soam como o absurdo dos absurdos.

Se a incomunicabilidade iminente vista pelo teatro de Ionesco nos anos 1950 era um alerta que denunciava a falência da linguagem, transformada numa colagem de fórmulas e convenções para preencher o vazio existencial e a falta do que dizer, o que vivemos hoje é uma exacerbação deste status, por um caminho inverso: o vazio está superlotado de informações que pretendem tudo esclarecer e explicar simultaneamente por todos os caminhos possíveis.

O absurdo saiu de uma dinâmica bidimensional, dualista, para um ambiente pseudoquântico, no qual todos os cenários de significados são passíveis de serem possíveis e lógicos, sem qualquer centralidade de valores, digamos, universais, aos quais se agregarem.


POST-SCRIPTUM:


Enquanto isso permanecemos empacados na perplexidade do existir, desde que haja carnaval, futebol e cerveja...

sábado, 1 de março de 2014

DECEPÇÃO



[Editorial publicado no jornal O DIA em 19.02.2014: "Um acinte à economia nacional"]


Reiteradas vezes se afirmou que o Congresso brasileiro é um dos mais caros do mundo: em 2013, a estrutura bicameral sugava, por dia, R$ 23 milhões do Erário. A salgada conta punha o país no topo do ranking dos gastos em relação ao PIB. 

À época, a cada R$ 100 produzidos para a riqueza nacional, 19 centavos iam para os ralos do Legislativo. É pertinente relembrar essas cifras de tempos em tempos. Ainda mais agora, quando o ministro Marco Aurélio Mello liberou o pagamento dos acintosos supersalários a barnabés. A benevolência do magistrado permite excrescências como vencimentos de R$ 30 mil ou mais.

Em outubro, o Tribunal de Contas da União recomendara o corte dos salários de 1,8 mil funcionários que ganhavam acima do teto - o parâmetro é o vencimento dos ministros da Corte. A Câmara e o Senado ratificaram. Até então, desperdiçavam-se, anualmente, R$ 517 milhões com o pagamento dessa gente.




Na liminar, o juiz do STF alegou que os servidores deveriam ter sido avisados do corte. Daí ter restituído a gastança. Estranha um dos julgadores do Mensalão, saga contra o vazadouro de recursos para financiar uma política escusa, manifestar-se a favor de um acinte à população, numa época em que a economia rateia, o cenário externo não ajuda e os gastos da máquina só incham.

Os funcionários agraciados com os supersalários deveriam ter sido os primeiros a expor as irregularidades. Mas no Brasil, pátria-mãe da Lei de Gérson e das farras bancadas com o dinheiro dos contribuintes, empreendem-se esforço hercúleo para ocultar o malfeito.

É pena que o Judiciário prenda-se a ritos e a justicismos mesmo diante de uma aberração. É ilegal haver salários acima do teto. É escandaloso que quase dois mil servidores o recebam. É imoral que se mantenham a canetadas.

Espera-se que o Pleno do Supremo reveja essa decisão e dê aos trabalhadores brasileiros uma justa e necessária economia.


POST-SCRIPTUM:

Depois de nos dar motivo de orgulho com a condenação da camarilha do Mensalão, agora um ministro do STF sai com uma dessas. Fica difícil engolir. Decepção, pura decepção...

Infelizmente a decisão é embasada em critérios jurídicos, já que uma mudança como essa, em princípio, não pode retroagir. Grande parte desses supersalários existe porque a lei permitiu o acúmulo de vencimentos. Se algo tiver que mudar terá de ser para frente.

Que sejam urgentemente mudadas, então, as leis para que se evite o surgimento de novos marajás ganhando acima do teto. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O ATO ANALÍTICO (2)


[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


Passemos a 1912. "Recordar, repetir e elaborar" é a segunda grande entrada para a questão do ato no ensino de Freud. Nesse texto, há uma mudança de perspectiva.

Freud não se contradiz, mas é importante reconhecer que ele elabora o ato de outro lugar, baseando-se no que se opõe à rememoração.

Ele introduz a famosa expressão agieren, termo traduzido em inglês por Strachey como acting out. Agieren provém do latim agere: ato, atuação, ativo, atividade, ator, atriz.



A mesma raiz abarca essas diferentes modalidades do ato. Quando Freud o trabalha em "Recordar, repetir e elaborar", não o faz como o ato interpretável, mas sim como o ato que se opõe à rememoração que desenbocaria na interpretação.

Em outros termos, situa no ato algo contrário à lógica do inconsciente, uma vez que o inconsciente tem uma maneira de repetir-se e o ato, outra. Lacan aborda essas duas formas de repetição em O Seminário, livro 11, ao estabelecer a diferença entre tykhé e automaton.

Essas são, portanto, as duas grandes perspectivas de Freud sobre o ato: na condição de interpretável, remete a "A psicopatologia da vida cotidiana"; como o que se opõe ao inconsciente, a "Recordar, repetir e elaborar".



POST-SCRIPTUM:

Continua...

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

PRECATÓRIOS


[Texto adaptado de notícia veiculada pelo jornal EXTRA]


Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) retomaram os trabalhos há duas semanas atrás, após recesso.

Com esse retorno, quatro recursos e uma ação que pedem a restituição das perdas das cadernetas de poupança por ocasião dos Planos Bresser, Verão e Collor I e II, nas décadas de 1980 e 1990, devem voltar à pauta de votações. Quase 400 mil processos em tribunais do país estão parados, aguardando a decisão da Corte.

O presidente do Supremo, ministro Joaquim Barbosa, garantiu que terão prioridade, em 2014, os julgamentos dos processos com repercussão geral. Esse tipo de decisão precisa ser repetido por outros juízes de todo o país, na análise de ações semelhantes.


POST-SCRIPTUM:

Fico daqui torcendo por aqueles que tem um interesse pessoal no assunto.

Mas será que eles terão que esperar por mais uma ou duas décadas?

Quem viver, verá...

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

FIM OU COMEÇO?


[Adaptado de uma notícia publicada no jornal EXTRA]

A delegacia do Catete continua investigando a agressão a um adolescente espancado e preso, nu, a um poste com um a trava de bicicleta, na Av. Rui Barbosa, no Flamengo. A delegada Monique Vidal, abriu inquérito para apurar o crime de lesão corporal.

Nas redes sociais, internautas apoiaram a ação: "Acordem seus tapados... quem anda no Flamengo sabe... isso aí é ladrão que assalta senhoras e mulheres todos os dias... ele tem uma gangue... fizeram foi pouco... faltou álcool e isqueiro para 'esterilizar' o meliante..."

Pelas ruas do bairro da Zona Sul, moradores também reclamaram que a quantidade de usuários de 'crack' no Flamengo aumentou consideravelmente, trazendo a sensação de insegurança e desconforto:

   - A polícia não faz nada. Aí, chega um grupo de pessoas, que deve ter sido assaltada por alguns deles, e mete a porrada. É o jeito que arrumaram para se defender. Fazer o que? - afirmou um morador do bairro, que preferiu não se identificar.

POST-SCRITUM:

"Os Vingadores" tupiniquins? 

O fim não virá numa explosão pirotécnica de fogos de artifício, mas talvez num surdo gemido de agonia, melancólico e agonizante, lento e interminável...

Ou quem sabe um improvável cruzamento do "super-homem" de Nietzsche com o "cristo cósmico" de Teilhard de Chardin virá salvar a todos no último instante?

Não percam os próximos episódios!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O ATO ANALÍTICO (1)



[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria] 


O tema do ato está presente em Freud e tem duas grandes entradas. A primeira está situada no começo de seu ensino, em  "A psicopatologia de vida cotidiana", de 1901. É um grande escrito sobre o ato, que pode ser posto na mesma série de outras formações do inconsciente, ou seja, em série com "A interpretação dos sonhos" (1900) e "Os chistes e sua relação com inconsciente" (1905), três textos que compõe a primeira tópica de Freud e a grande variedade que traz ao mundo: a ideia de que o inconsciente é interpretável, não se manifesta a céu aberto a não ser em seus retornos, em suas formações, sendo por meio desses que se pode explicar a hipótese do inconsciente.




Assim, é na perspectiva do ato falho ou do ato sintomático que o ato surge na psicanálise freudiana. "A psicopatologia da vida cotidiana" é uma grande classificação - não inteiramente segura - dos atos. 

Freud é guiado pela idéia de que os atos não são inocentes, não são meros movimentos e tem uma significação. Esta é a porta pela qual o ato entra na psicanálise. A partir de então, ninguém pode mais dizer que tomou um ônibus errado para ir a sua sessão porque dormiu pouco e estava cansado; ou que pega sua chave de casa ao chegar ao consultório do analista por hábito. Todos esses hábitos são interpretáveis, do mesmo modo que um sonho.

POST-SCRIPTUM:

Continua...

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

QUE CALOR!!!




E o calor continua sem dar trégua aqui no Rio de Janeiro. 

Em 3 de fevereiro a temperatura chegou a 40,9 graus centígrados no bairro da Vila Militar, a marca mais alta desde 8 de janeiro de 2013 quando os termômetros chegaram a 40,9 graus, com sensação térmica de 52 graus!

Entretanto, a maior temperatura no Rio nesta época do ano foi em 26 de dezembro de 2012 quando a meteorologia registrou a marca de 43,2 graus centígrados no bairro de Santa Cruz.
Foi a mais alta temperatura registrada desde 1915, quando começaram as medições.      





Os metereologistas ligados à Prefeitura explicam que uma massa da ar seco sobre as regiões Sul e Sudeste estava impedindo a chegada de frentes frias, mantendo bem altas as temperaturas nestas regiões, com picos de até 42 graus.

Mas parece que vem um refresco por aí: a temperatura deve dar uma amenizada nos próximos dias com, finalmente, a chegada de uma frente fria vinda do sul do continente.


POST-SCRIPTUM: 

Agora só falta torcer prá não cair um toró daqueles de causar enchentes quando as águas de março e o Carnaval chegarem...


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MANIFESTAÇÃO POPULAR OU GUERRA CIVIL?



Antes de tudo quero esclarecer que não apoio a velha tradição do "olho por olho, dente por dente". 

A morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes, Santiago Andrade, foi um acontecimento lamentável que poderia ter sido evitado.



A "autoridade" pública provocou, em certa medida, novas manifestações de protesto ao aumentar o preço das passagens de ônibus municipais para R$ 3,00, mesmo sabendo que existem estudos que comprovam que o valor de R$ 2,50 já seria suficiente para cobrir as despesas das empresas. Ou seja, deveria, isto sim, BAIXAR o preço anterior de R$ 2,75 para R$2,50 e não AUMENTAR para R$ 3,00!!!

Quer dizer que foi uma provocação? Claro! E não esperava-se consequências? É óbvio que sim, até mesmo contava-se com elas.


 


O que os governos municipal e estadual do Rio de Janeiro queriam era só uma desculpa para endurecer contra os manifestantes, "descer o cacete", lançar bombas de gás e dar tiros com balas de borracha (que podem aleijar e até mesmo matar, sabiam?).

Só que eles não sonhavam que seus desejos seriam atendidos com tanta precisão. Os dois idiotas que participaram do atentado com o tal "rojão" que matou o jornalista "entregaram de bandeja" tudo que as "autoridades" queriam e muito mais.



O resultado é um inocente morto, os dois patetas na cadeia por uma boa temporada e o governo tirando uma de "bom moço", levando sua pseudojustiça "até as últimas consequências".

E A PASSAGEM CONTINUA A TRÊS REAIS!!! Maravilha, né? Fala sério...

 

Quando de minha postagem sobre o livro "Groucho-Marxismo", de Bob Black, ao conclamar os anarquistas a se unirem, estava naturalmente sendo irônico (pra quem não entendeu), até mesmo porque o anarquismo não possui uma única vertente, uma "doutrina codificada" (axé, Bakunin!) que una todos os que pensam diferente da mesmice entranhada nos corações e mentes das massas.

É, na verdade, um paradoxo, conclamar os anarquistas a se unirem, a não ser por breves momentos e por causas específicas. E é claro que eu sei disso.



  


Que ninguém se iluda: o sistema não vai cair se você jogar uma bomba nele. Ele simplesmente te joga 10, 100, 1.000 bombas e ainda conta com o apoio natural da mídia e da população, chocadas com a morte de alguém cujo único interesse era registrar fatos, informar no interesse até mesmo e principalmente dos manifestantes nos casos de violência policial.

Estes rapazes que agora serão tratados como criminosos comuns não passam de "bucha de canhão" numa estratégia imbecil e equivocada, incentivada sabe-se lá por quais interesses escusos.




Quanto pior, melhor? É, o PT já pensou assim também e olha aonde ele chegou. Bem alto, né? Só que, quanto maior a altura, maior a queda...

Resumindo, tudo tem sua hora e seu lugar. O movimento de rebelião tem sangue nas mãos e deu vários passos atrás com todo esse quadro lamentável.

O sistema ainda vai cair. Mas será de podre, sob seu próprio peso, e não sob pauladas e pedradas ou mesmo em consequência de "coquetéis moltov" ou fogos de artifício.

Li, não me lembro onde, que dar a outra face não é sinal de fraqueza, mas de protesto; pode bater o quanto quiser: daqui não saio, daqui ninguém me tira!

Que o exemplo de Gandhi e de Nelson Mandela nos inspirem no futuro e não o de uma dupla de garotos irresponsáveis e mal orientados.


POST-SCRIPTUM:

A luta continua. Mas é uma luta de consciências e não uma guerra civil. Infelizmente, parece que tem gente interessada na segunda opção...

E, com certeza, não é com isso que o povo brasileiro sonha.