quinta-feira, 20 de março de 2014

DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!





[Foto de Napoleão F. da Silva]



Entrevista com o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, ao jornal O Globo. Estamos todos no inferno. Não há solução, pois não conhecemos nem o problema.




O GLOBO: Você é do PCC?


- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…


O GLOBO: – Mas… a solução seria…


- Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.


O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?


- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.


O GLOBO: – O que mudou nas periferias?


- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.


O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?


- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa?


O GLOBO: – Mas… não haveria solução?


- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco…na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi cheentrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

REFERÊNCIAS (Wikipédia):

O Inferno é a primeira parte da "Divina Comédia" de Dante Alighieri, sendo as outras duas o Purgatório e o Paraíso. Está dividido em trinta e quatro cantos (uma divisão de longas poesias), possuindo um canto a mais que as outras duas partes, que serve de introdução ao poema. A viagem de Dante é uma alegoria através do que é essencialmente o conceito medieval de Inferno, guiada pelo poeta romano Virgílio. No poema, o inferno é descrito com nove círculos de sofrimento localizados dentro da Terra. Foi escrito no início do século XIV.

O Portal do Inferno não tem portas ou cadeados, somente um arco com um aviso que adverte: uma vez dentro, deve-se abandonar toda a esperança de rever o céu, pois de lá não se pode voltar. A alma só tem livre-arbítrio enquanto viva, portanto, viva se decide pelo céu ou pelo inferno. Depois de morta, perde a capacidade de raciocinar e tomar decisões.



POST-SCRIPTUM:


A entrevista é meio antiga, do tempo do Lula, mas a realidade é a mesma até hoje. E como é!


O que fazer? Chorar???


VOTE NULO! ESTAMOS TODOS NO INFERNO!

FUNDAMENTALISMO



[Texto de autoria de Leonardo Boff]

Além de rejeitar decididamente o terrorismo e o fundamentalismo devemos procurar entender o porquê deste fenômeno. Já abordei tal tema num livro, "Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz: desafio do século XXI" (Ed. Vozes, 2009). Aí refiro, entre outras causas, o tipo de globalização que predominou desde o seu início, uma globalização fundamentalmente da economia, dos mercados e das finanças. Edgar Morin a chama de "a idade de ferro da globalização".

Não se seguiu, como a realidade pedia, uma globalização política (uma governança global dos povos), uma globalização ética e educacional. Explico-me: com a globalização inauguramos uma nova fase da história do Planeta vivo e da própria humanidade. 

Estamos deixando para trás os limites restritos das culturas regionais com suas identidades e a figura do estado-nação para entrarmos cada vez mais no processo de uma história coletiva, da espécie humana, com um destino comum, ligado ao destino da vida e, de certa forma, da própria Terra. Os povos se puseram em movimento, as comunicações universalizaram os contatos e multidões, por distintas razões começaram a circular pelo mundo afora.

A transição do local para o global não foi preparada, pois o que vigorava era o confronto entre duas formas de organizar a sociedade: o socialismo estatal da União Soviética e o capitalismo liberal do Ocidente. Todos deviam alinhar-se a uma destas alternativas.

Com o desmonte da União Soviética, não surgiu um mundo multipolar, mas o predomínio dos EUA como a maior potência econômico-militar que começou a exercer um poder imperial, fazendo com que todos se alinhassem a seus interesses globais.

Mais que globalização em sentido amplo, ocorreu uma espécie de ocidentalização do mundo e, em sua forma pejorativa, uma "hamburguerização". Funcionou como um rolo compressor, passando por cima de respeitáveis tradições culturais. Isso foi agravado pela típica arrogância do Ocidente de se sentir portador da melhor cultura, da melhor ciência, da melhor religião, da melhor forma de produzir e de governar.

Essa uniformização global gerou forte resistência, amargura e raiva em muitos povos. Assistiam a erosão de sua identidade e de seus costumes. Em situações assim surgem, normalmente, forças identitárias que se alinham a setores conservadores das religiões, guardiães naturais das tradições. Daí se origina o fundamentalismo que se caracteriza por conferir valor absoluto ao seu ponto de vista. 

Quem afirma de forma absoluta sua identidade, está condenado a ser intolerante para com os diferentes, a desprezá-los e, no limite, a eliminá-los.


POST-SCRIPTUM:


Concordo plenamente com o pensador Leonardo Boff: toda forma de intolerância deve ser combatida, mas devemos ter em mente que somente através da educação este câncer social poderá ser um dia erradicado. 



quarta-feira, 19 de março de 2014

30 ANOS DE SAMBÓDROMO



[Publicado originalmente em Liesa News nº 13]


Inaugurado em 2 de março de 1984, o Sambódromo é considerado o Templo do Samba. Localizado entre a Praça Onze e o Catumbi, foi construído pelo então governador Leonel Brizola justamente onde existiu a Pequena África do Rio de Janeiro, concentrando descendentes de africanos. Ali aconteceram as primeiras rodas de samba da cidade.

O empreendimento pôs fim ao monta-desmonta de arquibancadas de madeira, que acompanharam o crescimento do espetáculo desde os anos 1950, passando pela Avenida Rio Branco, Presidente Vargas, Presidente Antônio Carlos e a própria Marquês de Sapucaí, no Centro.

Sua arquitetura é uma criação do renomado Oscar Niemeyer, que só viu a obra concluída conforme o projeto original em 2012, quando foram construídos quatro novos módulos de arquibancadas no espaço anteriormente ocupado por um gigantesco bloco de camarotes.

O Sambódromo serviu de modelo para vários outros construídos no Brasil. Além de abrigar o Melhor Espetáculo da Terra também será usado para a prática de algumas modalidades esportivas nas Olimpíadas de 2016. Coincidentemente, seu trigésimo aniversário foi festejado no dia de abertura dos desfiles do Grupo Especial.


POST-SCRIPTUM:




Tá tudo muito bom, mas eu só não gostei do desfile deste ano porque o meu Salgueiro perdeu o campeonato para a Unidos da Tijuca por uma diferença de um décimo. Sacanagem! 


MICHEL FOUCAULT



[Adaptado de uma reportagem publicada no caderno 'Prosa & Verso' do jornal O GLOBO, em 11.01.2014]


No ano em que se completam três décadas da morte do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) presto aqui minha homenagem aquele que foi o pensador libertário das marginalidades sociais e das minorias culturais, raciais e sexuais.

Foucault expunha uma visão da cultura e da História que não pretendia explicar o presente pelo passado. Preferia investigar os discursos que condicionam as formas de ver e julgar, e analisar a maneira pela qual a cultura contemporânea determina as condições de possibilidade do novo. Construiu assim sua arqueologia da cultura ocidental.


POST-SCRIPTUM:


A seguir um trecho de declarações feitas pelo filósofo, em entrevista concedida ao "Jornal da Tarde", numa visita ao Brasil poucos dias depois do assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes da ditadura militar em 1975:

"A dialética mestre-escravo, segundo Hegel, é o mecanismo pelo qual o poder do mestre se esvazia pelo fato mesmo de seu exercício. A certa altura ele se encontra na dependência do escravo, não tendo mais poder porque cessou de exercê-lo. 

Quero mostrar o oposto: que o poder se reforça pelo seu próprio exercício - não passa sub-repticiamente para o outro lado. Desde 1831, a Europa não parou de pensar que a derrubada do capitalismo era iminente. Isso muito antes de Marx. E ele está aí. Não digo que ele nunca será desenraizado. Mas que o custo de sua derrubada não é o que imaginamos.

Se essas lutas são feitas em nome de alguma essência do homem, tal como ela foi construída no pensamento do século XVIII, eu diria que essas lutas estão perdidas. Porque elas serão conduzidas em nome do homem abstrato, do homem 'normal', do homem 'de boa saúde', que é o precipitado de uma série de poderes.

Agora, se quisermos fazer a crítica desses poderes, não se deve efetuá-la em nome de uma ideia do homem construída a partir desses poderes. Quando o marxismo vulgar fala do homem completo, do homem reconciliado com ele mesmo, de que se trata? Do homem 'normal', do homem 'equilibrado'. Quando se formou a imagem desse homem? A partir de um saber e de um poder psiquiátrico, médico, um poder 'normalizador'. 

Fazer crítica política em nome desse humanismo significa reintroduzir na arma do combate aquilo contra o qual combatemos."



HOMENAGEM A ELIS REGINA




Vista por mais de 70 mil espectadores em pouco mais de 3 meses em cartaz, superprodução recria a trajetória de Elis Regina, uma das maiores cantoras da história da música popular brasileira.

O musical esteve em cartaz  no Rio de Janeiro e agora continua sua trajetória de sucesso em São Paulo.


POST-SCRIPTUM:


Fica aqui registrada minha homenagem ao mito nessa interpretação incomparável de "Como Nossos Pais" da autoria de Belchior.





Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz
Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração
Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais


terça-feira, 18 de março de 2014

OS DOIS LADOS DAS GRADES



[Editado a partir de uma reportagem de Karine Rodrigues, publicada no jornal O GLOBO]


Nos idos de 1850, quem ingressava na Casa de Correção da Corte, primeira unidade prisional do Brasil, depois transformada no já extinto Complexo Penitenciário Frei Caneca, no centro do Rio, lá permanecia por não mais de uma década. Nenhuma relação com os crimes cometidos. Tratava-se, na verdade, do tempo que o corpo suportava condições tão aviltantes. O borracheiro Elson de Jesus Pereira, porém, não chegou a tanto, embora tenha sido detido um século e meio depois. 

Levado a penitenciária de Pedrinhas, no Maranhão, sob acusação de ter receptado quatro pneus roubados, ele foi decapitado poucos dias depois, em outubro do ano passado, durante uma das inúmeras rebeliões ocorridas naquela unidade prisional.

Em Pedrinhas, a separação de presos conforme a natureza do delito cometido é letra morta. Situação que, segundo levantamento do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), concluído em fevereiro do ano passado, é comum a 1.598 unidades prisionais do país, apesar de ser uma norma da Constituição de 1988.


POST-SCRIPTUM:

Nas palavras do filósofo Foucault: "As prisões não diminuem a taxa de criminalidade: pode-se aumentá-las, multiplicá-las ou transformá-las, a quantidade de crimes e de criminosos permanece estável, ou, ainda pior, aumenta (...) a prisão, consequentemente, em vez de devolver à liberdade indivíduos corrigidos, espalha na população delinquentes perigosos." 



domingo, 16 de março de 2014

A COPA DO CU DO MUNDO



[Editado a partir de um artigo publicado no jornal O GLOBO em 01.03.2014 da autoria de José Miguel Wisnik]


Numa sequência ao mesmo tempo divertida e contundente, na base do programa de auditório, joga-se com a iminência da realização, no Brasil, desse maior espetáculo da Terra, que é chamado nada mais nada menos do que a Copa do Cu do Mundo.

Todo o sentido crítico que se possa, toda a virada pelo avesso do padrão Fifa, exibido pela culatra, toda a remissão às misérias, às derrisões e aos terrores da doença brasileira, tudo está aí, nesse nome.

Mas também, no reconhecimento disso, a capacidade de afirmar a potência da cultura (com trocadilho), de rir das máscaras canastronas, de exercer o apetite de viver e, por incrível que pudesse ser e é, de marcar um lugar original no planeta. É claro que isso só pode ser afirmado em vista da grandeza artística do todo, e no modo como o espetáculo vai fundo na experiência social e vital do país.

A discutida camiseta da Adidas para a Copa, onde se estampa "I love Brazil" na forma de um coração-bunda, é uma versão limitada, mercadológica pitoresca e não assumida do fato de que se olha difusamente a Copa do Brasil como uma espécie de Copa do Cu do Mundo.

Não o quarto mundo, não o cu do mundo, mas a quarta dimensão do cu do mundo.

POST-SCRIPTUM:

"O futuro do Brasil é tão grandioso que não há abismo em que caiba." - Agostinho da Silva

Será mesmo? Espero sinceramente que sim, senão corremos o sério risco de atolar num esgoto metafórico...



sábado, 15 de março de 2014

A CONTRACULTURA E O CINEMA AMERICANO



[Texto de autoria de PETER BISKIND, autor do livro 'COMO A GERAÇÃO SEXO-DROGAS-E-ROCK'N'ROLL SALVOU HOLLYWOOD']

Em meados dos anos 1960, os estúdios americanos não estavam indo bem. Os filmes tinham um público cada vez menor. Simplesmente não conseguiam se comunicar com a juventude daquela época. Afinal de contas, eles eram produzidos por pessoas de 60 anos ou mais que não compreendiam o comportamento da rapaziada. A contracultura era algo que os horrorizava.




Pessoas bêbadas, drogadas e violentas como Dennis Hopper, na época com 20 e poucos anos, os assustavam. E foi justamente um filme dirigido por Hopper, 'Sem Destino' (Easy Rider), que deu novo fôlego ao cinema ianque. De repente, essa geração de rebeldes começou a ingressar nas escolas de cinema e a fazer filmes. O público adorava. Os estúdios não tiveram outra opção a não ser abraça-los.


Gente como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Warren Beatty, Peter Bogdanovich e Robert Altman tinha uma atitude diferente da dos velhos produtores. Não queriam fazer filmes óbvios, se recusavam a filmar em estúdios, estavam cansados das composições perfeitas, iluminação e artificialidade. Mesmo os atores dessa época eram diferentes. Saíam de cena os anglo-saxões perfeitos, entravam os atores étnicos como Robert De Niro, Al Pacino e Dustin Hoffman.


As drogas foram uma parte importante dessa cultura. Enquanto todos os pais tomavam álcool, a juventude fumava maconha. Os cineastas diziam que a erva aumentava sua criatividade e sensibilidade artística. Depois de um tempo, a cocaína virou a droga principal em Hollywood. Ela dava energia, podiam filmar a noite toda. Foi o começo do declínio dessa geração. Na década de 80, quando finalmente perceberam o quanto a droga era perigosa, todo mundo já estava usando. Teve um efeito terrível entre os cineastas. 




Quanto mais essa geração dava certo mais Hollywood lucrava. Os lançamentos eram cada vez maiores. Foi aí que outros dois expoentes dessa geração, George Lucas e Steven Spielberg, começaram a liderar uma contra-revolução. 'Tubarão' e 'Star Wars' fizeram tanto dinheiro, tiveram tanto público, licenciaram tantos produtos, que os estúdios não quiseram mais fazer filmes contraculturais. Tinha início a era dos blockbusters, com investimentos astronômicos, muita propaganda e efeitos especiais.

 

O tipo de filme que está hoje nos cinemas é resultado das portas que a contracultura abriu em Hollywood. Os grandes diretores do cinema mataram os filmes autorais. Se hoje você vai a um multiplex, põe o óculos 3-D e assiste a duas horas e quarenta e cinco minutos de efeitos especiais estonteantes, é porque lá, nos anos 60, uns hippies tiveram a coragem de tirar os filmes das mãos dos produtores e bater de frente com os estúdios.

Só que Hollywood ganhou a guerra.  




POST-SCRIPTUM:

É isso aí, bicho!


PARALISIA



[Publicado no jornal O DIA em 19.02.2014]


Uma pesquisa realizada em Boston (EUA) fez com que um macaco controlasse movimentos de outro pelo pensamento.

Os pesquisadores conectaram o cérebro do animal principal à espinha do outro através de uma prótese. A experiência é uma boa notícia para pacientes com paralisia. 

O objetivo é usar a atividade cerebral para controlar o próprio membro paralisado da pessoa com deficiência. O estudo foi publicado na 'Nature Communications'.


POST-SCRIPTUM:




Notícia legal esta. É o futuro se materializando no presente para trazer esperança no tratamento de pessoas que sofrem de paralisia. Parabéns a estes pesquisadores. E aos macacos.




VIDEOGAMES




[Publicado no jornal O DIA em 19.02.2014]


Jogos eletrônicos podem fazer bem a jovens. A conclusão é da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). Em testes, verificou-se que 'games' desenvolveram a habilidade do cérebro, como a percepção de contraste, útil para quem dirige à noite.

Ao contrário do que se pensava, a diversão pode tratar uma deficiência visual chamada ambliopia, que causa a perda de visão de profundidade. Jogos de ação tiveram os melhores resultados.


POST-SCRIPTUM:

Taí mais um motivo para infindáveis discussões. Nada contra os videogames, mas tem uma molecada por aí que exagera na dose e esquece da vida. 

quinta-feira, 6 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (5)




[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


Aonde tudo isso nos leva?

"(...) suponhamos o ato analítico a partir do momento seletivo em que o psicanalisante passa a psicanalista".

Isso quer dizer que o ato de que se trata agora não é o de César atravessando o Rubicão. Agora, César é o analisante e o Rubicão, o momento em que diz: "Sou psicanalista". 


É disso que se trata. Antes, era analisante, paciente; agora, analista. Não tem nada a ver com o exercício profissional, com o exercício da psicanálise como prática social.

É um instante, um instante que só se deduz de uma análise, um instante em que se muda de posição. É isso o que Lacan interpreta para dizer à comunidade analítica que o analista se esquece desse momento.


Há, portanto, algo fatalmente difícil para um analista em dizer "sou". De modo geral, a comunidade leiga também lhe cobra essa definição: você é psiquiatra, psicólogo, pode dar receitas? Ela não tem de saber o que é um analista, mas há problemas quando o próprio psicanalista não sabe.

Esse momento em que poderia dizer "sou analista" está, como diz Lacan, "esquecido".



POST-SCRIPTUM:

E então? Não tem certeza de nada? Não sabe o que fazer de sua vida? Tudo parece inútil e sem sentido? Qual o objetivo disso tudo?

Cruze o Rubicão: seja seu próprio analista!

E relaxe fumando um 'baseado' do bom, ao lado de companhias agradáveis, uma garrafa de vinho e música de qualidade...

(Se não for possível ter todos esses itens ao mesmo tempo não tem problema: um ou dois já são suficientes)

Quem sabe você não se surpreende?

DEPRESSÃO



O indivíduo é acometido por uma tristeza profunda. O que antes era sinônimo de prazer passa a não ter mais importância. Falta disposição para tudo - trabalho, família, lazer, a pessoa perde a disposição de viver.

Projetada para ser a segunda causa de incapacitação na população mundial em 2020, a depressão, um distúrbio médico, crônico e recorrente, hoje ocupa o quinto lugar entre as causas de incapacidade por doença, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).



O tratamento consiste na combinação da farmacoterapia (antidepressivos combinados ou não com ansiolíticos ou calmantes) com aporte da psicoterapia, com tempo definido e limitado. Um grande avanço no tratamento da depressão foi o desenvolvimento dos inibidores seletivos de recaptura de serotonina (ISRS).

A depressão altera a função das substâncias cerebrais serotonina e noradrenalina - responsáveis pelo equilíbrio emocional.  O medicamento vai modificar a maneira como o cérebro produz e aproveita essas substâncias, sendo que o mais conhecido é a fluoxetina. Os efeitos colaterais são menores do que os dos remédios anteriores.

 


POST-SCRIPTUM:

Estamos acostumados a pensar que depressão não é doença grave, mas a verdade é que ela leva à incapacidade e afeta a qualidade de vida de forma mais grave do que muitas doenças que têm risco maior de morte.

PIADA NATALINA FORA DE ÉPOCA



Uma senhora levou a filha de 17 anos ao médico, queixando-se de que a jovem andava com vômitos, tonturas e que tinha perdido o apetite. O médico, que observava a menina, concluiu: 

- Minha senhora, a sua filha está grávida de três meses!

- A minha filha? Ela nunca esteve sozinha com um homem! Não é verdade, filha?

- Eu nem beijei ainda, mãe!

O médico armou-se de um binóculo que tirou da gaveta, aproximou-se da janela e ficou calado, olhando para o infinito.

Após alguns minutos, a mãe, admirada e farta, perguntou ao médico o que se passava. E o médico respondeu:

- Da última vez em que isso aconteceu, nasceu uma estrela no Oriente e chegaram três reis magos. Desta vez não vou perder o espetáculo!


POST-SCRIPTUM:

Tava guardando essa pra quando o Natal chegasse, mas não resisti. Bwa-ha-ha! 

quarta-feira, 5 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (4)




[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


Se pensamos no Rubicão, vemos que o ato tem a ver com o corte que instala um antes e um depois. Ele tem uma ligação estreita e estrutural com a questão da temporalidade, pois não se passa a vida fazendo um ato.

Um ato é um instante, é o momento em que se salta. Sua temporalidade é a de um instante, precisamente o que o neurótico não consegue. O neurótico, sobretudo o obsessivo, considera que o "bom momento" jamais chega: a água está fria, molha os sapatos, melhor esperar a primavera porque o tempo será mais bonito, melhor pedir permissão, o que me dirão depois, já fiz uma vez e não deu em nada, enfim...




O que é a neurose? É o relato da negação do ato. E podemos fazer o esforço de situar como a questão se verifica não apenas na obsessão, em que é cintilante, mas também na histeria e na fobia.

O que é o perverso? É o sujeito que se engana a respeito de um ato. É alguém que quer ter um saber fazer sobre o ato, e isso o precipita a fazer muitas coisas diante das quais o neurótico certamente recua. 

Mas não se trata de um ato basicamente porque a dimensão do Outro é estritamente necessária para a perversão, e, de maneira geral, alguém pode se perguntar diante de que o acting out é perverso, a quem se endereça.



Toda a lógica da sessão, da sessão curta, da pontuação, a lógica dessa maneira tão especial com que Lacan utilizava tempo, é inteiramente solidária à sua concepção de ato.

O grande texto de Lacan sobre o ato é o novo sofisma, o texto sobre os prisioneiros que tem de tomar a decisão de sair. Valendo-se dele, Lacan formula os tempos lógicos: o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir, que constituem sua teoria do ato.  

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Continua...

terça-feira, 4 de março de 2014

ROMÃ: PROTEÇÃO CONTRA O CÂNCER


[Editado a partir de um reportagem publicada no jornal MEIA HORA]

Estudos mostram que substâncias presentes na romã apresentam efeito protetor contra o câncer e as doenças cardiovasculares. O fruto, segundo cientistas, possui três vezes mais capacidade antioxidante do que o vinho e o chá verde.

O alimento ainda tem papel anti-inflamatório, contribuindo, principalmente, para que o câncer de próstata não desenvolva novos focos de tumor, ou seja, a metástase nos ossos.

Além do câncer, a romã tem papel antioxidante, prevenindo contra danos neurológicos e reduzindo as taxas de colesterol no organismo. Sendo assim, o fruto também funciona como um aliado à saúde do coração.

Apesar de seus efeitos benéficos, a romã deve ser evitada por quem tem diverticulite, ou seja, inflamação no intestino grosso. Como possui sementes, elas não são digeridas e chegam inteiras ao organismo, podendo agravar ou facilitar o surgimento de crises inflamatórias.


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Este foi mais um serviço gratuito de utilidade pública prestado por nosso blog. Não precisam agradecer...

CASO RIOCENTRO


[Adaptado de uma notícia publicada no jornal O GLOBO em 16.02.2014]


Após dois anos de investigação, em nova tentativa de punir os culpados pelo atentado à bomba no Riocentro na época da ditadura militar, o Ministério Público Federal obteve provas inéditas e denunciou cinco militares reformados e um ex-delegado, entre eles três generais.


Entre os depoimentos inéditos, um dos mais importantes é o do major Divany Barros, que confessou ter ido ao local da explosão para retirar provas da participação de militares.



Com a nova denúncia, o Ministério Público tenta reabrir o caso, pois entende que o atentado, de 1981, não está coberto pela Lei da Anistia, de 1979.


POST-SCRIPTUM:

E depois o outro lado é que leva a fama de terrorista. Um clássico caso de "dois pesos e duas medidas"...

domingo, 2 de março de 2014

O ATO ANALÍTICO (3)


[Trecho extraído do livro 'short story: os princípios do ato analítico', de Graciela Brodsky, publicado pela Contra Capa Livraria]


O que distingue um ato de uma ação? Um ato não é equiparável a uma ação porque as coordenadas são coordenadas simbólicas, ou seja, o ato é significativo, significa, é interpretável.

Lacan repetidamente exemplifica o que seria um ato: o momento em que César atravessa o Rubicão. Não creiam que saltar por cima do Rubicão é algo semelhante à travessia dos Andes. Nada disso, não é necessário nenhum esforço físico para atravessar o Rubicão, basta um salto.

Por isso o que é o ato? Não há nenhuma ação grandiosa em César que permita dizer que ele passou para a História por causa dela. Trata-se simplesmente do fato de que o Rubicão demarcava o limite que não podia ser atravessado pelo exército da República. César, então, desafia as leis da República, indo além das coordenadas simbólicas que regiam as leis da época.

 

De fato, antes de atravessar o Rubicão, César era um soldado da República; depois, tornou-se um rebelde. Não é mais o mesmo.

Pois bem, esse é o exemplo utilizado por Lacan para explicar que um ato se mede pelas coordenadas simbólicas, não representa nenhuma ação, nenhum gasto físico. 

Entende-se, contudo, que, para ultrapassar as leis, devemos tê-las no horizonte, devemos situar o Outro e ir além dele. Isso permite pressupor que o Outro sempre acompanha a dimensão do ato, precisamente para que se vá além dele. Não há ato sem o Outro.


Deve-se traçar o limite, para se ver depois como retraçá-lo. É preciso a lei simbólica para que se possa ver como transgredi-la, como ultrapassá-la. Não há ato de outra forma.


POST-SCRIPTUM:

Continua...


ABSURDO



[Editado do artigo "Absurdo do absurdo" de Arnaldo Bloch, publicado no 'Segundo Caderno' do jornal O GLOBO em 01.02.2014]


No comando de um Brasil no qual as prisões emulam cenas de masmorras medievais, país em que o saneamento não chega a mais da metade da população e o modelo energético do futuro (e a propaganda totalitária que o acompanha) é todo calcado no petróleo, os discursos de Dilma pintando o Brasil como Terra Prometida (na esteira da balela da "Copa das Copas") soam como o absurdo dos absurdos.

Se a incomunicabilidade iminente vista pelo teatro de Ionesco nos anos 1950 era um alerta que denunciava a falência da linguagem, transformada numa colagem de fórmulas e convenções para preencher o vazio existencial e a falta do que dizer, o que vivemos hoje é uma exacerbação deste status, por um caminho inverso: o vazio está superlotado de informações que pretendem tudo esclarecer e explicar simultaneamente por todos os caminhos possíveis.

O absurdo saiu de uma dinâmica bidimensional, dualista, para um ambiente pseudoquântico, no qual todos os cenários de significados são passíveis de serem possíveis e lógicos, sem qualquer centralidade de valores, digamos, universais, aos quais se agregarem.


POST-SCRIPTUM:


Enquanto isso permanecemos empacados na perplexidade do existir, desde que haja carnaval, futebol e cerveja...

sábado, 1 de março de 2014

DECEPÇÃO



[Editorial publicado no jornal O DIA em 19.02.2014: "Um acinte à economia nacional"]


Reiteradas vezes se afirmou que o Congresso brasileiro é um dos mais caros do mundo: em 2013, a estrutura bicameral sugava, por dia, R$ 23 milhões do Erário. A salgada conta punha o país no topo do ranking dos gastos em relação ao PIB. 

À época, a cada R$ 100 produzidos para a riqueza nacional, 19 centavos iam para os ralos do Legislativo. É pertinente relembrar essas cifras de tempos em tempos. Ainda mais agora, quando o ministro Marco Aurélio Mello liberou o pagamento dos acintosos supersalários a barnabés. A benevolência do magistrado permite excrescências como vencimentos de R$ 30 mil ou mais.

Em outubro, o Tribunal de Contas da União recomendara o corte dos salários de 1,8 mil funcionários que ganhavam acima do teto - o parâmetro é o vencimento dos ministros da Corte. A Câmara e o Senado ratificaram. Até então, desperdiçavam-se, anualmente, R$ 517 milhões com o pagamento dessa gente.




Na liminar, o juiz do STF alegou que os servidores deveriam ter sido avisados do corte. Daí ter restituído a gastança. Estranha um dos julgadores do Mensalão, saga contra o vazadouro de recursos para financiar uma política escusa, manifestar-se a favor de um acinte à população, numa época em que a economia rateia, o cenário externo não ajuda e os gastos da máquina só incham.

Os funcionários agraciados com os supersalários deveriam ter sido os primeiros a expor as irregularidades. Mas no Brasil, pátria-mãe da Lei de Gérson e das farras bancadas com o dinheiro dos contribuintes, empreendem-se esforço hercúleo para ocultar o malfeito.

É pena que o Judiciário prenda-se a ritos e a justicismos mesmo diante de uma aberração. É ilegal haver salários acima do teto. É escandaloso que quase dois mil servidores o recebam. É imoral que se mantenham a canetadas.

Espera-se que o Pleno do Supremo reveja essa decisão e dê aos trabalhadores brasileiros uma justa e necessária economia.


POST-SCRIPTUM:

Depois de nos dar motivo de orgulho com a condenação da camarilha do Mensalão, agora um ministro do STF sai com uma dessas. Fica difícil engolir. Decepção, pura decepção...

Infelizmente a decisão é embasada em critérios jurídicos, já que uma mudança como essa, em princípio, não pode retroagir. Grande parte desses supersalários existe porque a lei permitiu o acúmulo de vencimentos. Se algo tiver que mudar terá de ser para frente.

Que sejam urgentemente mudadas, então, as leis para que se evite o surgimento de novos marajás ganhando acima do teto.