terça-feira, 10 de agosto de 2010

AS ORIGENS DA MARVEL COMICS: UM RESUMO HISTÓRICO



























Local: cidade de Nova York, Estados Unidos da América. Ano: 1939. A indústria das histórias-em-quadrinhos era ainda relativamente jovem quando Martin Goodman, um experiente empresário do ramo das publicações conhecidas como ‘pulp magazines’ (revistas baratas fabricadas com papel de baixa qualidade, especializadas em contos de ficção-científica, detetives, ‘westerns’ e aventuras em geral), decidiu pegar carona no sucesso de vendas que se tornara a novidade das revistinhas coloridas de periodicidade regular (os ‘comic books’), que a um baixo custo de produção e por um preço bastante convidativo – 10 centavos de dólar –, ofereciam texto e desenhos produzidos especialmente para as mesmas, e não republicações de tiras de jornal dominicais, como no início. Goodman investiu pela primeira vez na empreitada com a revista Marvel Comics, através de sua nova editora, batizada como Timely Comics, e esta publicação inaugural provaria, futuramente, ser a semente de um verdadeiro império.









Durante estes dias iniciais, o time de escritores e desenhistas da Timely incluía nomes que viriam, eventualmente, a se tornar lendários: Joe Simon, Jack Kirby, Bill Everett e Carl Burgos, além de um jovem editor-assistente chamado Stan Lee. Eles e seus parceiros criaram, na época, alguns dos mais bizarros e insanos personagens imagináveis: The Human Torch (o Tocha Humana original), um andróide – o primeiro 'homem sintético' dos quadrinhos – que podia se inflamar sem ser consumido por suas próprias chamas; Namor the Sub-Mariner (o Príncipe Submarino), um mutante anfíbio, dotado de força sobre-humana, pele à prova de balas, e que podia voar graças a 'asinhas' nos pés (!!!); The Whizzer (conhecido no Brasil como Corisco), um super-velocista que recebeu seus poderes através da transfusão de sangue de um pequeno mamífero, o mangusto (!?), depois de ser picado por uma cobra venenosa (!?!?); The Vision (o Visão original), um ser de outra dimensão que surgia e desaparecia, literalmente, numa nuvem de fumaça; e muitos outros, como Citizen V, The Destroyer, Blue Diamond, Thin Man, Jack Frost, The Patriot, Miss America, Black Marvel, etc. Porém, sem sombra de dúvida, o mais bem-sucedido entre todos eles, tanto em termos de vendas quanto em popularidade, era o patriótico Captain America (Capitão América) – criado em 1941 pela dupla Simon & Kirby – que desafiava as convenções ao ser o primeiro super-herói a enfrentar ostensivamente Hitler e suas hordas nazistas, meses antes dos Estados Unidos se engajarem ativamente no conflito que ficou conhecido como Segunda Guerra Mundial.










A partir de então, quase que como uma exigência, as forças do Eixo se tornaram o principal adversário dos personagens da predecessora da Marvel por quase meia década, um inimigo praticamente 'pedindo' para ser combatido, convenientemente real e odiado por milhares de leitores fiéis, todos ávidos pelas façanhas fantásticas de heróis que lutavam do lado certo numa justa batalha contra a tirania e pela liberdade. Entretanto, com o inevitável fim da guerra desaparecia um poderoso foco catalisador da atenção das massas, o que levou a que, eventualmente, a Timely perdesse muito de seu ímpeto inicial, assim como aconteceu com a maioria das editoras de quadrinhos na época. Por volta da década de cinqüenta a popularidade dos gibis de super-heróis havia decrescido consideravelmente – com raras exceções como Superman e Batman da DC Comics (cujo nome oficial era National Periodical Publications) e o Capitão Marvel original (que, apesar do nome, nada tinha a ver com a futura Marvel Comics) da editora Fawcett Publishing – o que levou a indústria norte-americana de quadrinhos a experimentar outros gêneros com renovado vigor: ‘western’, guerra, romance, humor, terror, todos voltaram a se tornar tema para novas estórias em novas revistas.








Da enorme variedade de heróis publicados pela Timely originalmente nos anos quarenta, apenas alguns poucos sobreviveram à crise daqueles tempos, liderados pelo Capitão América (que se tornara um ‘caçador de comunistas’), o Tocha Humana e o Príncipe Submarino. Por volta da metade dos anos cinqüenta juntaram-se a este grupo seleto personagens como o Cavaleiro Negro original (The Black Knight), magnificamente ilustrado por Joe Maneely, e o Garra Amarela (Yellow Claw), uma imitação do clássico vilão chinês dos 'pulps' Fu Manchu, combatido por um destemido agente do FBI, o detetive sino-americano Jimmy Woo.








As novas histórias de terror publicadas então – principalmente pela legendária EC Comics, que viriam a se tornar clássicos do gênero – geraram grande polêmica, levando muitos a considerar os ‘comic books’ como "ofensivos à moral e aos bons costumes" vigentes à época. Entre estes estava o psiquiatra Fredric Wertham, autor de um livro intitulado “Sedução do Inocente”, onde acusava as histórias-em-quadrinhos de ser o principal fator de corrupção da juventude americana. Em 1954, um comitê do Senado encarregado de avaliar possíveis causas para a delinqüência juvenil passou a investigar o conteúdo das estórias, o que levou os próprios empresários da indústria de quadrinhos, numa iniciativa que visava evitar um eventual e provável controle externo de suas atividades, à criação do famigerado ‘Comics Code Authority’, responsável pela censura auto-imposta tanto do texto quanto dos desenhos publicados e considerado um dos mais restritivos códigos de proibições que já existiu direcionado a um meio de comunicação. A eficiente campanha de difamação e os fatos dela decorrentes foram duros golpes no desenvolvimento tanto criativo quanto comercial da jovem e promissora indústria (antes de o CCA ser implantado, aproximadamente um bilhão de gibis era vendido anualmente).








Este clima político de "caça às bruxas" levou a Timely/Marvel – agora conhecida como Atlas Comics – a criar sua própria e original abordagem para o tema, sob a direção editorial de Stan Lee. Em meio às estórias mais convencionais de vampiros e mortos-vivos, uma nova estirpe de monstros fantásticos e com nomes esquisitos – Fin Fang Foom, Groot e Xemnu, entre outros – começava a surgir nos primeiros anos da década de sessenta. Publicados em títulos como Tales of Suspense, Strange Tales, Journey Into Mystery e Amazing Adult Fantasy estas estórias eram escritas por Lee e desenhadas por Jack Kirby, Steve Ditko, Don Heck, Gene Colan, John Romita Sr. e John Severin. Os monstros extravagantes, de uma forma indireta e inesperada, conduziram ao que viria a ser conhecido como ‘A Era Marvel’ das histórias-em-quadrinhos. Algumas daquelas idéias tornaram-se o protótipo para um novo e incomum tipo de herói. Por exemplo, a estória “O Homem no Formigueiro” (The Man in the Ant Hill), publicada em Strange Tales, número 73, de fevereiro de 1960, levou à criação do Homem-Formiga (The Ant-Man), enquanto o monstro-vilão que eventualmente viria a ser conhecido como Xemnu the Titan apareceu originalmente com o nome de 'Hulk' em Journey Into Mystery, número 62, de novembro de 1960.








Impressionados com o sucesso de vendas da rival DC com a estreante Liga da Justiça, (bem como com as novas versões de personagens veteranos como Flash e Lanterna Verde), Stan Lee, Jack Kirby e companhia, agora oficialmente sob a alcunha de Marvel Comics Group, canalizaram seus talentos num esforço de colaboração para o desenvolvimento de uma geração inteiramente nova de super-heróis, dando origem a personagens hoje clássicos como Fantastic Four (Quarteto Fantástico), The Incredible Hulk (o Incrível Hulk), The Amazing Spider-Man (Homem-Aranha), The Mighty Thor (o Poderoso Thor), Doctor Strange (Dr. Estranho), The Invincible Iron Man (Homem de Ferro), The Avengers (Os Vingadores), Daredevil (Demolidor), Captain Marvel (o novo Capitão Marvel) e The Uncanny X-Men (os X-Men originais), além de resgatar dois ícones já tradicionais da editora, Capitão América e Namor, o Príncipe Submarino. Tais criações da Marvel iriam mais uma vez quebrar o molde estabelecido do super-herói infalível, apresentando qualidades e fraquezas tipicamente humanas e tendo que lidar com problemas triviais de qualquer pessoa comum, como pagar o aluguel ou pegar um resfriado, e mesmo com questões mais relevantes, como lidar com a intolerância e o preconceito, conquistando, assim, uma legião de fãs entusiasmados. Os assim chamados ‘comics’, considerados tradicionalmente como leitura inconseqüente, tornaram-se, inesperadamente, dignos do respeito de intelectuais e da atenção da mídia e os quadrinhos da Marvel viraram um fenômeno universitário. Celebridades como o escritor Tom Wolf e o cineasta Frederico Fellini podiam ser flagrados em visita à redação da Marvel, enquanto que os próprios Lee & Kirby apareciam, vez por outra, num divertido exercício de meta-linguagem, nas páginas dos próprios gibis.







Se no início dos anos sessenta a DC ainda se mantinha como a principal editora de quadrinhos, pelo final da década a honra havia passado indiscutivelmente para a Marvel. Novos e inusitados personagens iam surgindo em seus próprios títulos, alguns dos quais inaugurando tendências como nas aventuras de 'espada-e-magia' de Conan the Barbarian (Conan, o Bárbaro), cortesia de Roy Thomas e Barry Windsor-Smith, ou reinventando gêneros como o terror em Tomb of Dracula (Tumba de Drácula), desenvolvido por Marv Wolfman e Gene Colan. A característica inovadora da House of Ideas (ou ‘Casa das Idéias’, como era apelidada por Stan Lee) teve ainda o mérito de atrair novos talentos criativos, destacando-se nomes como os de Jim Steranko, Neal Adams, Jim Starlin, Walter Simonson e John Buscema na arte, bem como os de Steve Englehart, Bill Mantlo, os irmãos Mike e Gary Friedrich, Steve Gerber e Doug Moench nos roteiros, entre outros. Em 1972 Stan Lee deixou o cargo de Editor-Chefe da Marvel Comics tendo tido vários sucessores: Roy Thomas, Len Wein, Marv Wolfman, Gerry Conway e Archie Goodwin. Este foi o início de uma época de grande efervescência criativa na editora, que chegou a anunciar nas capas de suas revistas a ‘Fase 2 da Era Marvel’, o que não parecia exagero. Estrearam na época, por exemplo: Luke Cage, Hero For Hire (Luke Cage, o Herói de Aluguel); Iron Fist (Punho de Ferro); Nova the Human Rocket (Nova, o Foguete Humano); Spider-Woman (Mulher-Aranha); Ghost Rider (Motoqueiro Fantasma); Moon Knight (Cavaleiro da Lua); Master of Kung Fu (Mestre do Kung Fu); Man-Thing (Homem-Coisa); Howard the Duck (Howard, o Pato); e The Punisher (o Justiceiro).







O Homem-Aranha, o mais popular dos personagens criados por Stan Lee & Cia., continuava a ser o carro-chefe da editora, mas em 1975, um fenômeno inesperado surgiu em cena. Os X-Men, um conceito que havia até então gozado de limitado sucesso, foi dramaticamente reformulado a fim de retratar uma nova equipe de heróis, composta por um mix étnico e ideológico totalmente inédito. Concebido por Len Wein e Dave Cockrum, o título foi assumido pelo novato escritor Chris Claremont (e, pouco depois, pelo desenhista John Byrne), crescendo gradativamente até tornar-se um dos mais poderosos marcos criativos já vistos nos quadrinhos ‘mainstream’ até os dias de hoje.







Por volta desta época a Marvel tornou-se pioneira no licenciamento de outras mídias para a produção de versões sob a forma de histórias-em-quadrinhos, tendo publicado ao longo dos anos gibis estrelados pelas franquias cinematográficas Star Wars (Guerra nas Estrelas), Star Trek (Jornada nas Estrelas), Godzilla, Indiana Jones e Robocop, por exemplo, bem como por personagens originalmente concebidos como brinquedos, entre os quais Rom the Spaceknight (Rom, o Cavaleiro do Espaço), Micronauts (Micronautas), G.I. Joe, Transformers e Shogun Warriors.







Com a chegada dos anos 80 o sucesso indiscutível de X-Men levou à criação de séries derivativas relacionadas ao universo mutante como The New Mutants (Os Novos Mutantes), X-Factor, Wolverine e Excalibur, com diferentes graus de êxito. Novas linhas de produtos foram experimentadas e eventualmente abandonadas como, por exemplo, os selos: Epic Comics, que visava um público mais adulto e sofisticado; Star Comics, orientado ao público infantil; New Universe, cujo objetivo era criar uma franquia nos moldes do Universo Marvel tradicional, mas com uma abordagem supostamente mais realística; e 2099, que apresentava versões futurísticas dos personagens mais populares da ‘Casa das Idéias’, como Homem-Aranha, X-Men e Hulk, entre outros. Em 1984, a Marvel Comics lançou aquela que seria a publicação de quadrinhos mais vendida até então: Secret Wars (Guerras Secretas), uma mini-série em 12 capítulos apresentando o primeiro grande ‘crossover’ entre seus principais personagens, por iniciativa de seu Editor-Chefe, Jim Shooter, um veterano que começara sua carreira aos 14 anos nos gibis da DC Comics nos anos 60, autor do roteiro, com arte de Mike Zeck e Bob Layton. O que originalmente deveria apenas ter sido um expediente editorial para alavancar as vendas de uma nova linha de bonecos articulados lançados por uma fábrica de brinquedos foi um estrondoso sucesso que redefiniu o formato dos ‘comics’. A partir daí, eventos monumentais envolvendo todo um universo ficcional de personagens, publicados em séries fechadas e com ramificações por toda a linha editorial, passaria a ser lugar-comum entre as editoras ‘mainstream’ de quadrinhos.







A saída de Jim Shooter da empresa – o qual, apesar de ser considerado por seus colegas na época como uma figura autoritária e controversa, desbravou novas fronteiras criativas e manteve a editora em sua posição de líder do mercado – abriu caminho para que a vaga fosse preenchida por Tom DeFalco e, no início dos anos 90, a Marvel Comics ia "de vento em popa" com o lançamento de um novo título do escalador-de-paredes, Spider-Man, escrito e desenhado por Tod McFarlane (que vendeu mais de um milhão de cópias em seu primeiro número), bem como de dois novos títulos mutantes, X-Men, da dupla Chris Claremont & Jim Lee, e X-Force, por Fabian Nicienza & Rob Liefeld, todos eles grandes sucessos comerciais. A Marvel Comics tornou-se Marvel Entertainment Group e dispersou seus investimentos em novos negócios com a compra de empresas de outros ramos, como a fabricante de brinquedos Toy Biz, por exemplo, e a fundação da Marvel Studios, uma iniciativa que eventualmente geraria frutos extremamente lucrativos, permitindo a realização de um sonho por muito tempo considerado impossível, ou seja, o desenvolvimento de grandes produções cinematográficas estreladas por seus personagens. Entretanto a concretização deste projeto ainda demoraria muitos anos e nesse meio tempo a Marvel iria enfrentar dificuldades financeiras decorrentes de uma administração desastrosa e que a deixariam à beira de um processo de falência, contratempo que eventualmente superou graças ao potencial indiscutível de sua linha editorial, reestabelecendo-se como uma robusta empresa do ramo de entretenimento.







Em 1995 Bob Harras assumiu a responsabilidade de Editor-Chefe e durante seu mandato a Marvel se associou à DC para a publicação de uma minissérie com confrontos entre seus personagens, onde os resultados das lutas eram decididos pelos leitores através de votação. Foi ele também o responsável pelo controverso evento conhecido como Heroes Reborn (‘Heróis Renascem’) em 1996, quando dois prodígios em vendas da época, os artistas Rob Liefeld e Jim Lee, receberam total controle criativo sobre todos os aspectos de quatro dos mais populares títulos da Marvel durante um período de doze meses: Vingadores, Capitão América, Quarteto Fantástico e Homem de Ferro. A experiência não foi o que se poderia considerar um sucesso retumbante, mas uma das características da Marvel Comics foi a de sempre procurar implantar uma estrutura não-convencional e em constante evolução, onde idéias revolucionárias possam ser testadas sem medo de errar, com o objetivo de criar continuamente novos conceitos, por mais bizarros ou explosivos que pareçam, na mesma tradição que vem impulsionando a editora desde que Stan Lee e Jack Kirby inauguraram a Era Marvel no início dos anos 60. 








A sabedoria de tal política pode ser atestada nos dias de hoje sob a administração de Joe Quesada como Editor-Chefe quando, mais do que em qualquer outra época, a Marvel é a líder inconteste do mercado de quadrinhos nos EUA e no mundo, com a publicação de sagas de grande sucesso, tanto comercial quanto de crítica, envolvendo conceitos que questionam os próprios fundamentos de seu universo super-heróico, como Civil War (Guerra Civil), onde um ‘Registro de Super-Humanos’ proposto pelo governo coloca antigos aliados em posições antagônicas; Secret Invasion (Invasão Secreta), onde alienígenas transmorfos tomam secretamente o lugar de vários personagens, criando um clima de intensa paranóia à la "Invasores de Corpos" (Invasion of the Body Snatchers), filme cult de ficção-científica dos anos 60; e Dark Realm (Reinado Sombrio), onde um tradicional ‘super-vilão’, supostamente regenerado, assume o controle sobre o principal órgão de segurança norte-americano, invertendo definitivamente os papéis convencionais entre ‘mocinhos’ e ‘bandidos’, numa nem tão sutil alusão à realidade política estadunidense.







Tendo recentemente se tornado uma subdisiária do conglomerado Walt Disney, a Marvel Comics goza atualmente de uma posição privilegiada no mundo dos quadrinhos, em grande parte em decorrência do sucesso de suas franquias cinematográficas mas, principalmente, devido a qualidade de suas publicações, com seus títulos ocupando frequentemente a maioria das posições no ‘ranking’ dos mais vendidos nos EUA e seus principais personagens estabelecidos como ícones populares ao redor do mundo.









Agora a Marvel Studios prepara-se para conquistar definitivamente o inconsciente coletivo das massas com uma sequência de filmes estrelados por seus personagens mais icônicos tanto individualmente quanto em grupo (Iron Man, Hulk, Captain America, Thor, The Avengers), enquanto que a rival DC ataca de Batman (de novo) e Green Lantern (Lanterna Verde), com talvez Superman (de novo) para breve.









Com tanta grana entrando, agora então com a Disney no negócio, espera-se que a Marvel seja razoável no reconhecimento de parte dos direitos de criação de seus principais personagens ao espólio de Jack Kirby e mais flexível nas negociações com os criadores do Universo Malibu, como parece ter acontecido na aquisição do Universo CrossGen.








POST-SCRIPTUM:


Pode parecer otimismo exagerado (e provavelmente, é) esperar um maior reconhecimente, no futuro, sob a forma de 'royalties', aos criadores de 'comics' aposentados e das famílias daqueles já falecidos, tanto pela Marvel quanto pela DC. Independente disso esse pessoal tem se unido e lutado por seus direitos nos tribunais há um bom tempo, conquistando em diversos casos, ultimamente, acordos de co-propriedade.


DESTROYER DUCK LIVES! 
JACK KIRBY RULES! 










Fontes de consulta e pesquisa:


- 'THE OVERSTREET COMIC BOOK PRICE GUIDE', de Robert M. Overstreet e Gary M. Carter (Gemstone Publishing)



- NOSSOS DEUSES SÃO SUPER-HERÓIS ('OUR GODS WEAR SPANDEX'), de Christopher Knowles e J. M. Linsner (Editora Cultrix)


- 'ALTER EGO', periódico sobre a história das HQ e de seus criadores, editada por Roy Thomas (TwoMorrows Publishing)



quarta-feira, 14 de julho de 2010

HÁ VIDA FORA DA TERRA OU ESTAMOS SÓS?



["NOVOS MUNDOS - EM BUSCA DE NOVAS TERRAS" por Timothy Ferris; publicado em 'National Geographic Brasil', no. 117, de dezembro de 2009]



Foram necessários milhares de anos para que nós, seres humanos, explorássemos nosso próprio planeta, e séculos para que aprendêssemos algo a respeito dos planetas vizinhos, mas hoje novos mundos estão sendo descobertos toda semana. Até agora os astrônomos já identificaram mais de 370 “exoplanetas”, ou seja, corpos celestes girando em torno de outras estrelas além do Sol. Alguns são tão estranhos que confirmam um famoso comentário do biólogo J. B. S. Haldane, segundo o qual “o universo não é só mais bizarro do que imaginamos, mas também mais bizarro do que conseguimos imaginar”.

A 260 anos-luz da Terra, há, por exemplo, uma espécie de “Saturno quente”, que gira em torno de sua estrela com tal velocidade que um ano ali dura menos de três dias. Em volta de outra estrela, a 150 anos-luz, descobriu-se um “Júpiter quente” cuja atmosfera superior está sendo arrancada com tanta força que o planeta exibe uma cauda como se fosse um cometa.

Em meio a esses exemplares exóticos, os cientistas estão empenhados em descobrir indícios de planetas semelhantes à Terra, que giram em torno de suas estrelas a uma distância conveniente – com uma temperatura nem muito alta nem muito baixa – para manter a vida tal como a conhecemos. Identificar um planeta tão pequeno e pálido como o nosso em meio ao brilho de sua estrela é como tentar distinguir um vagalume em uma explosão de fogos e detectar sua influência gravitacional sobre a estrela é como ouvir um grilo durante um tornado. No entanto, aperfeiçoando sem cessar as tecnologias já disponíveis, os astrônomos estão cada vez mais próximos do dia em que vão topar com uma outra Terra.

Apenas 11 exoplanetas, todos eles de grande porte, brilhantes e distantes de suas estrelas, foram até hoje fotografados. A maioria dos outros foi detectada graças ao uso de uma técnica baseada no efeito Doppler, que analisa o espectro da luz emitida pela estrela a fim de detectar indícios de que ela está sendo deslocada pela força gravitacional de seus planetas. Os astrônomos hoje podem dizer quando uma estrela altera sua posição normal em apenas 1 metro por segundo – a velocidade de um ser humano caminhando. Isto é suficiente para identificar a presença de um planeta gigante em órbita distante ou de um planeta pequeno próximo da estrela, mas não algo parecido com a Terra, em órbita a 150 milhões de quilômetros do Sol. A Terra altera a posição do Sol em 10 centímetros por segundo, ou seja, a velocidade de um bebê engatinhando. E uma diferença tão ínfima ainda não pode ser distinguida na luz emitida por estrelas distantes.

Outra técnica se baseia na verificação de ligeiras variações periódicas no brilho da estrela, que devem ocorrer sempre que um planeta do sistema passa diante dela e bloqueia uma fração de sua luminosidade. No máximo, um décimo de todos os sistemas planetários está orientado de tal modo que esses minieclipses, os “trânsitos”, sejam visíveis da Terra. Isso significa que os pesquisadores precisam monitorar muitas estrelas a fim de captar apenas alguns trânsitos. O satélite francês Corot descobriu assim sete exoplanetas – um deles é apenas 70% maior que o nosso.

O satélite americano Kepler é o sucessor mais ambicioso do Corot. Lançado do cabo Canaveral em março de 2009, o Kepler é basicamente uma grande câmera digital com uma abertura de 95 centímetros e um detector de 95 megapixels. Ele faz fotos a cada 30 minutos, captando a luz de mais de 100 mil estrelas em uma única região do céu, entre as estrelas de Deneb e Vega. Computadores monitoram o brilho desses milhares de estrelas ao longo do tempo, alertando os pesquisadores quando ocorre ligeiro obscurecimento que poderia indicar o trânsito de algum planeta.

Os cientistas que trabalham com o Kepler só anunciam a presença de algum planeta depois de o trânsito ter sido registrado pelo menos três vezes. Se conseguirem descobrir um planeta rochoso com o tamanho aproximado ao da Terra e numa órbita habitável – nem tão próxima da estrela, a ponto de toda sua água ser vaporizada, nem tão distante, a ponto de ela congelar –, eles terão encontrado o que, de acordo com os biólogos, poderia ser um refúgio propício à vida.

As candidatas mais promissoras talvez sejam as estrelas anãs, menores que o Sol. Há uma profusão dessas estrelas, e suas vidas são longas e estáveis, emitindo um fluxo constante de radiação para qualquer planeta dotado de vida que esteja orbitando nas zonas habitáveis do sistema. Quanto menos brilhante é a estrela, mais próximas ficam as zonas habitáveis, de modo que a observação dos trânsitos pode dar resultado em bem menos tempo. Um planeta mais próximo também exerce uma atração gravitacional mais forte sobre a estrela, o que torna mais fácil confirmar sua presença com a técnica Doppler. Na verdade, o planeta mais promissor já encontrado – a “super-Terra” Gliese 581 d, com massa sete vezes maior que a do nosso planeta – orbita na zona habitável de uma estrela anã vermelha que tem apenas um terço da massa de nosso Sol.

Caso planetas similares à Terra sejam achados no interior das zonas habitáveis de outras estrelas, um telescópio espacial específico, projetado para detectar sinais de vida, poderia no futuro captar o espectro da luz emitida por tais planetas e examiná-lo em busca de possíveis “bioassinaturas”, como a presença na atmosfera de metano, ozônio e oxigênio. Não seria uma tarefa fácil.

Enquanto se debatem com o intimidante desafio de efetuar análises químicas de planetas que nem sequer conseguem ver, os cientistas empenhados na busca de vida extraterrestre não podem descartar a possibilidade de que ela seja muito diferente daquela que conhecemos. A evolução biológica é tão intrinsecamente imprevisível que mesmo se a vida surgisse em um planeta idêntico ao nosso na mesma época em que apareceu aqui, a vida nesse planeta certamente seria hoje muito diversa da terrestre.

Como disse certa vez o biólogo Jacques Monod, a vida evolui não apenas em função da necessidade – do funcionamento universal das leis naturais – como também do acaso, da intervenção imprevisível de incontáveis acidentes. O acaso manifestou-se muitas vezes na história de nosso planeta, e de forma dramática no caso das várias extinções em massa, criando assim espaço para o desenvolvimento de novas formas de vida. Alguns desses acidentes parecem ter sido causados pela colisão de cometas e asteróides com a Terra – o mais recente desses acidentes foi o impacto, há 65 milhões de anos, que exterminou os dinossauros. Por esse motivo, os cientistas não buscam apenas por exoplanetas parecidos com a Terra atual mas por aqueles que se assemelhem a versões passadas. “A Terra moderna pode ser o pior modelo para usarmos na busca de vida em outras partes”, diz Caleb Scharf, diretor do Centro de Astrobiologia da Universidade Colúmbia.

Não foi nada fácil aos primeiros exploradores fazer uma idéia da profundeza dos oceanos, mapear o lado oculto da Lua ou distinguir indícios da presença de oceanos sob as superfícies congeladas das luas de Júpiter – e também não será fácil encontrar vida nos planetas de outras estrelas. Mas agora temos bons motivos para crer que devem haver bilhões de tais planetas, e eles guardam a promessa de expansão não só do horizonte do conhecimento humano mas também da imaginação humana.

Durante milhares de anos, nós conhecíamos tão pouco a respeito do universo que priorizamos nossas fantasias, em detrimento da realidade. (Como escreveu o filósofo espanhol Miguel de Unamuno, o misticismo dos visionários religiosos do passado surgiu de uma “intolerável disparidade entre a imensidão de seus desejos e a estreiteza da realidade”.) Agora, com os avanços da ciência, tornou-se mais que evidente que a assombrosa criatividade da natureza supera em muito a nossa. E já se descortinam inumeráveis mundos novos, cada qual com a sua história.

Sempre se achou, ao longo da história, que só havia um planeta como a Terra no universo. Mas logo talvez haja outra Terra. E outra. E mais outra. No fim de 2009, o número de exoplanetas (que giram em torno de uma estrela que não seja o Sol) conhecidos era de 373. Nos últimos anos, foram achados 13 planetas rochosos com dimensões similares à Terra e girando em torno de estrelas parecidas com o Sol.

Além de nosso Sol, já se comprovou que 316 outras estrelas são orbitadas por um ou mais planetas. Não é fácil imaginar suas distâncias: com exceção das mais próximas, a luz delas levou séculos para chegar até nós. Os planetas se formam do disco de gás e resíduos sólidos que circunda uma estrela recém-formada. Entre os diversos tipos de estrela, algumas são ainda muito jovens e quentes para que haja a possibilidade de contarem com planetas parecidos com a Terra.

Os braços de nossa galáxia espiralam a partir de uma barra central de estrelas com 27 mil anos-luz de comprimento. Nosso sistema solar está situado em um braço menor, o de Órion, assim chamado por estar próximo dessa constelação. A maioria dos exoplanetas até agora encontrados gira em torno de estrelas situadas a uma distância de até 400 anos-luz do sistema solar. O satélite Kepler, da NASA, agora está monitorando estrelas até 6 mil anos-luz distantes do braço de Órion. Estrelas parecidas com o Sol, situadas no intervalo de 600 a 1,8 mil anos-luz da Terra, são consideradas as mais promissoras.

“Não há nada que impeça uma infinidade de mundos”, escreveu o filósofo grego Epicuro 23 séculos atrás. Hoje, com as imagens cada vez mais nítidas de regiões remotas do espaço, essa idéia voltou a ganhar peso. Uma visão panorâmica de nossa galáxia, a Via Láctea, refulge com mais de 100 bilhões de estrelas – e bilhões delas provavelmente contam com seus próprios sistemas solares. Com instrumentos precisos, os astrônomos esperam descobrir planetas semelhantes à Terra – alguns, talvez, com todas as condições para a vida.




POST-SCRIPTUM:




'The Truth Is Out There'. Ou não?

Eu não diria a "Verdade" - existiria tal quimera, a não ser num sentido metafórico e exclusivamente pessoal? -, mas pelo menos mais uma parte do quebra-cabeça que permitirá ao homem compreender melhor este Universo surpreendente em que vivemos.  


terça-feira, 13 de julho de 2010

FÉ E VONTADE




Fé, no meu entender, seria apostar na possibilidade de superação das circunstâncias e limitações, na coragem de ir adiante apesar de tudo e de todos, nas possibilidades infinitas do devir, extrapolando toda e qualquer crença em "seres superiores" ou "realidades transcendentes", no sentido que lhes atribuem a metafísica tradicional (sem necessariamente negar a possibilidade de suas existências, mas condicionando-as a uma indispensável discussão sobre suas naturezas e fundamentos).

Uso o termo 'fé' de forma puramente convencional, por praticidade, na medida em que engloba a definição de "crer, confiar e apostar" em algo, mesmo tendo consciência de que remete a conteúdos teológicos, os quais não rejeito de antemão, mas que faço questão de interpretar segundo perspectivas filosóficas, simbólicas, mitológicas, psicológicas, sociológicas, antropológicas ou literárias, mas nunca de forma literal (ou, pelo menos, nunca segundo a perspectiva da literalidade convencional).

É um sentimento até certo ponto irracional, como o é a fé teológica, não há dúvida, mas infinitamente diferente em sua sutileza e profundidade filosófica. Afinal de contas, não há argumento definitivo contra o papel salutar de um pouco de irracionalidade; o que não é produtivo é abandonarmos completamente a racionalidade em favor de um emocionalismo fácil, sedutor e, em última análise, pernicioso.

Alguém já disse que é muito fácil acreditar em Deus, que ele não é nenhum “bicho-de-sete-cabeças”.

Sem querer defender posições, mas esse é um dos problemas com o conceito tradicional de 'Deus': ele é "um bicho que só tem uma cabeça", ou seja, ele é unilateral, parcial e limitado sob muitos aspectos (para não dizer simplório e ingênuo), além de contraditório segundo a estrita lógica formal, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, se pretende absoluto, onipotente e infinito, num universo, tanto mental quanto físico, que continua dando provas de ser, cada vez mais, múltiplo e indefinível.

Não que eu seja completamente impermeável à idéia de paradoxo, muito pelo contrário, mas para admiti-lo só com um longo trabalho de reformulação de valores e conceitos para muito além daqueles pressupostos pela teologia convencional.

Apesar da teologia pretender tratar do sagrado, sob certo ponto de vista bem específico nem todo sagrado tem a ver com teologia. As religiões decorrem, em princípio e em parte, do reconhecimento da dimensão do sagrado, mas o reconhecimento deste não precisa levar, necessariamente, a alguma religião organizada em dogmas e hierarquias.

A questão de "acreditar em Deus do seu jeito" está na ênfase que se dá a "Deus" ou a "do seu jeito". Pois "o meu jeito" de acreditar em um fundamento ontológico tem muito pouco, ou quase nada, a ver com o deus "bonzinho" da moralidade cristã. E sua utilidade maior reside em não dar passagem ao niilismo improdutivo, mas pelo contrário, à realização de que, colocando em termos simples e da forma o mais genérica possível, "querer é poder".


POST-SCRIPTUM:


E se alguém quiser compreender o sentido cabalístico do ‘nome de Deus’ (IHVH, ou "Eu Sou") vai encontrar muita semelhança com a visão do budismo, na medida em que o interprete como você mesmo falando de si para si: "Eu sou Deus". E todos e tudo o mais também o são. O caminho que se tomar a partir daí fica à vontade do freguês, com todas as vantagens e desvantagens decorrentes, bem como toda a responsabilidade assumida implicitamente. Ou, como já dizia o bardo, "se o bem e o mal existem, é preciso escolher"...


OS MUTANTES: 'BALADA DO LOUCO'



Os Mutantes (Sérgio Dias, Rita Lee e Arnaldo Baptista), grupo formado em São Paulo nos anos 60, que se consagrou por sua postura de deboche e irreverência – além de sua extrema criatividade, tanto musicalmente quanto por suas letras inovadoras – na então insipiente cena do rock brasileiro, o qual se desenvolveu paralelamente a outro movimento revolucionário da MPB, o Tropicalismo, é considerado um marco histórico na música brasileira.

Em 1968 gravam o clássico LP “Tropicália ou Panis et Circensis” na companhia de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé e Nara Leão e, um ano depois, apresentam o antológico show “Planeta dos Mutantes”, no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. Em 1972 lançam “Os Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets”, com um dos maiores sucessos de sua carreira, a “Balada do Louco”. O grupo é citado como definição da palavra mutantes na enciclopédia Delta La Rousse, tendo recebido a comenda Padre Anchieta outorgada pela Câmara Municipal de São Paulo.



Em 2006, retornando com uma formação diferente da original (sem Rita Lee), Os Mutantes apresentam um show no Barbican Theatre em Londres, com a participação de Zélia Duncan nos vocais. Logo após, fazem uma tournée nos EUA (Nova York, Los Angeles, San Francisco, Seatle, Chicago e Miami), onde recebem o premio de melhor show do ano de 2006. Em 2007, tocam pela primeira vez no Brasil após 30 anos, no aniversário da Cidade de São Paulo, em frente ao Museu do Ipiranga, para um publico de 100.000 pessoas. Após diversos shows no Brasil, EUA e Europa, Os Mutantes chegam a merecer a primeira página do NY Times, na qual Sérgio Dias é comparado a Eric Clapton e Carlos Santana. 



POST-SCRIPTUM:




Hoje (13 de julho) é o "DIA DO ROCK", pessoal! Sério!!! 

Portanto nada melhor do que 'curtir' a pioneira e uma das melhores bandas do rock brasileiro experimental, que flertava despudoradamente com a MPB, bem como com outras sonoridades mais 'exóticas' e surpreendentes... 

'Ladies and gentlemen', com vocês: 

OS MUTANTES!






BALADA DO LOUCO
(Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias)


Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz


Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão


Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu


Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu


Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu


Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz


Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz





O PARADOXO DE DEUS



































[O texto original de autoria de Daniel Haddad encontra-se em: http://br.geocities.com/ateismo]



Uma boa reflexão é tentar estabelecer quais seriam os desígnios de "Deus", dentro do plano da Criação, cotejados com a possibilidade aleatória real da destruição desta mesma criação, por um fenômeno natural, como o choque de um asteróide com a Terra. Esta questão está no mesmo nível do paradoxo da existência do mal em um mundo criado por um ser "Omniciente", todo bondade e amor. Por que existe o mal na Criação de um ser "todo-bondade"? Por que em um mundo, em que em última palavra Deus é responsável, existem desastres naturais que podem matar milhões? Por que existem doenças que causam sofrimentos e mutilações em crianças e inocentes? Em outras palavras, por que existe o mal e o sofrimento de qualquer espécie? Este dilema é conhecido como o "problema do mal". 





Resumidamente, podemos caracterizar o problema do mal da seguinte maneira: Se Deus não sabe que existe o mal Ele não é "Omniciente". Se Deus sabe que existe o mal, mas não pode evitá-lo Ele não é "Omnipotente". Se Deus sabe que existe o mal, pode evitá-lo, mas decide não fazê-lo Ele não é "Omnibondoso". 





Se, como os cristãos afirmam, Deus é todo-sabedoria e é todo-poder, temos que concluir que Deus não é todo-bondade. A existência do mal no Universo exclui essa possibilidade. Tem havido várias tentativas dos religiosos de escapar do problema do mal. Uma abordagem teológica geral do problema do mal, consiste na afirmativa de que o mal é de alguma maneira irreal ou, puramente, de caráter negativo. Este argumento é tão inadmissível que poucos cristãos se oferecem para defendê-lo. Um dos primeiros problemas com esse argumento é: "Se o mal não é realmente nada, então por que toda agitação sobre o pecado: nada?". Qualquer tentativa de absolver Deus da responsabilidade sobre o mal, afirmando que em última análise não existe tal coisa denominada mal, é uma piada sem graça. 



Outro esforço comum para reconciliar Deus com o mal, argumenta que o mal é a conseqüência do livre arbítrio humano. Apesar desta abordagem possuir uma coerência inicial, ela falha de imediato na solução do problema do mal. Somos solicitados a acreditar que Deus criou o homem com o poder de escolha na esperança que este, voluntariamente, seguisse o caminho do bem e se o homem frustasse o desejo de Deus, atrairia o mal sobre sua própria cabeça. Porém, para começar, falar-se de frustar ou agir, contrariamente, aos desígnios de um ser divino "omnipotente" não faz sentido. Não existem barreiras para a "omnipotência" divina, nenhum obstáculo poderia obstar seus desejos, desta forma temos que assumir que o presente estado do mundo está precisamente como a vontade de Deus quis. Se Deus desejasse que as coisas estivessem de maneira diferente do que elas estão, nada poderia evitar que elas fossem de maneira diferente, não obstante o livre arbítrio do homem. 



O livre arbítrio é incompatível com o conhecimento "a priori" que o ser "Omnipotente" detém, desta forma o apelo ao livre arbítrio também falha neste aspecto. De qualquer maneira, Deus ao criar o homem possuía total conhecimento do sofrimento generalizado que este estaria sujeito e dada à sua faculdade de evitar esta situação, devemos presumir que Deus desejou e quis que esta atrocidade imoral ocorresse. 



É injusto colocar a responsabilidade de ações imorais, generalizadamente, no livre arbítrio humano. Homens individuais cometem atrocidades, não a abstração "homem". Alguns homens cometem injustiças, outros não. Alguns homens assassinam, roubam ou enganam mas outros não o fazem. Como então, podemos avaliar um Deus que permite a injustiça disseminada quando, facilmente, estaria entre seus poderes evitá-la. Os cristãos acreditam em um Deus que demonstra pouco ou nenhum interesse na proteção dos inocentes, e devemos nos perguntar se tal entidade pode ser chamada "bom". 



Mesmo que ultrapassássemos as presentes dificuldades, o apelo ao livre arbítrio é ainda derrubado porque ele encampa somente o chamado mal moral (i.e. ações do homem). Ainda restariam os problemas incomensuráveis dos males físicos, tais como desastres naturais, sobre os quais o homem não tem controle. 



Por que existem inundações e terremotos que podem matar bilhões e mesmo aniquilar com a espécie humana? A responsabilidade por estas ocorrências obviamente não poderá recair sobre os ombros do homem...



POST-SCRIPTUM:




Como diz o ditado (e muitos deles possuem uma sabedoria intuitiva muito aguçada), "o pior cego é aquele que não quer ver".




Do ponto de vista antropológico, tal questão, suscitada pela escatologia judaico-cristã, só se resolve na dimensão do imaginário (chamem-no de inconsciente coletivo, imaginal, 'illud tempus', etc.), onde se processa a fenomenologia do mitema, através da aceitação do ganho interpretativo fornecido pelo entendimento da simetria paradialética colocada pela reflexão inclusiva (que admite uma lógica paradoxal), muito bem expressa na fórmula hermética: "O diabo é deus inverso".




Ou, em outras palavras (como já sugeria Mme. Blavatsky), Deus e Satã, enquanto componentes de uma mesma determinada bacia semântica, são um e o mesmo, e sua aparente oposição é um 'efeito de imagem' produzido a partir de perspectivas topológicas diferentes e não necessariamente excludentes, mas, muito pelo contrário, complementares.




Supera-se, portanto, a moralidade eclesiástica entendendo-a como uma particularidade histórica e contingente plasmada a partir de um 'sentimento de moralidade' (algo como um 'instinto utilitarista' psicossocial que visaria, em última análise, a preservação da espécie) maior e mais abrangente, porque arquetípico.




Se entendermos 'Deus' como o fundamento primeiro e último de todo e qualquer evento, sua representação mais coerente em qualquer instância é o Devir, e este se põe, desde sempre, como Multiplicidade.




No horizonte mitológico do imaginário, que dá sentido ao arquétipo da 'divindade', a multiplicidade do Devir se dá (como, aliás, em qualquer horizonte interpretativo) num regime de "excesso" não totalizável que engloba as anomalias virtuais do 'um' (afirmação da negação) e do 'não-um' (negação da afirmação), além do próprio movimento circular que se estabelece entre ambos.




Esta "santíssima trindade" é somente passível de apreensão, para além de sua aparente contradição, a partir da reflexão que admita uma lógica mais ampla, paradoxal, da qual a lógica formal, com seus silogismos e identidades, é apenas um caso especial, numa relação análoga aquela entre a geometria euclidiana e a possibilidade de múltiplos tipos de geometria.




Deus, portanto, 'é um' e 'é muitos', simultaneamente, ainda que 'não-seja' absolutamente, posto que, na gramática do imaginário, 'ele' é, antes de tudo Verbo (ação de movimento recíproco entre simetrias) e, só depois, Sujeito e Predicado, ainda que apenas virtualmente.




Sintetizando de forma mais clara: o conceito originário de 'Deus' (ou de 'realidade', ou de 'universo') não tem nenhuma relação com nossas concepções humanas de Bem e Mal, justiça e injustiça; estes são meros reflexos imateriais projetados por nossas necessidades até certo ponto instintivas de segurança, conforto, atenção e afeto. 




Somos coagidos a agir como entes morais até por uma questão de sobrevivência cultural (moral esta que pode variar de acordo com as circunstâncias temporais, espaciais e existenciais, inclusive), o que não obriga necessariamente o resto do mundo ou 'Deus' a sê-lo, de forma alguma.




Na verdade, imputamos tais características a nossas divindades e depois invertemos os termos da equação dizendo que fomos "criados a sua imagem e semelhança". 


Parafraseando a própria Bíblia, "cresçamos e nos multipliquemos", mas também tornemo-nos mais maduros, honestos e corajosos.  


HOMENS E ANIMAIS



































Não penso ser o caso de comparações entre exemplos particulares, até porque, efetivamente, não existe igualdade na natureza; o que há são características genéticas e morfológicas que, mais ou menos, assemelham os indivíduos de uma suposta mesma espécie a um padrão genérico convencionado.

Tal padrão é, até certo ponto, inegavelmente arbitrário, mas nem por isso absurdo na medida em que se fundamenta nos pressupostos lógicos de uma racionalidade eminentemente técnica que tem-se mostrado muito útil na resolução de problemas, com maior ou menor grau de sucesso, no âmbito de várias ciências (física, química, biologia, antropologia, etc.), ao longo da história do pensamento.

Mais precisamente desde, pelo menos, o Renascimento (ou talvez mesmo antes), porém com maior ênfase a partir do advento do Iluminismo e com profundas raízes fincadas no Idealismo (ainda que às vezes de forma sutil e em outras tantas vezes de forma constrangedoramente envergonhada ou até mesmo não-admitida).

Somos, portanto, segundo esta perspectiva e ainda que sob o regime de uma admissão relutante, animais sim, também sujeitos a instintos como todos os demais, mas, e aí se introduz a diferença crucial, de um tipo especial: animal humano, aristotélico-platônico, racional. Mas será que somos tão 'especiais' assim?

Ainda que a própria vida de vez em quando nos prove que esta classificação não é de forma alguma absoluta e nem mesmo a mais plausível ou muito menos a única possível, ainda assim, há que se admitir um diferencial óbvio e inescapável.

Sejam quais forem os parâmetros, o homem não é necessariamente melhor ou pior que os outros animais, mas fundamentalmente diferente num sentido bem claro. E o que nos permite apontar essa clareza de forma tão veemente é a habilidade que possui o homem de saber manipular códigos e signos em geral com complexidade e eficiencia ímpar, apesar de ser evidente que o homo sapiens não é absolutamente a única espécie dotada de capacidade criativa, comunicação (nem tão rudimentar em alguns casos, ainda que não-verbal) e hierarquia social.      

Porém, é justamente por ser capaz de dominar tão eficientemente linguagens as mais variadas possíveis que ao homem é dado legar informação e conhecimento, em quantidade e sofisticação incomparável, às gerações futuras. Este animal insólito e surpreendente é, portanto, e definitivamente, um criador de cultura. E essa é sua dádiva e sua maldição.

A própria possibilidade de concepção de um julgamento ético ou moral a respeito da 'violência', da 'crueldade' ou do 'egoísmo' humanos é uma evidencia mais que suficiente: sem uma cultura estruturada de tal e qual forma não haveria lugar para este tipo de avaliação, até porque na natureza, entre os outros animais, e ainda sob um ponto de vista inescapavelmente humano, essa é a regra impessoal e amoral.

Nesse sentido, não há como simplesmente negar esse componente diferenciador (a cultura) e pretender voltar a ser animal não-humano, 'besta-fera', mas também não é o caso de abandonar completamente certos instintos básicos e inegavelmente úteis à manutenção do indivíduo e da espécie ou, ainda, abnegadamente render-se a tradições culturais que levam a pensar o homem de forma negativa e pessimista. 

O que ocorre, efetivamente, e dessa 'nova fé' precisamos nos imbuir, é um constante aprendizado com vistas à evolução progressiva, inspirado na aposta vital e existencial de que é possível superar os impasses colocados pela próprias circunstâncias biológicas, políticas e tecnológicas. Ou seja - e as transformações psicossociais decorrentes de novas descobertas e propostas até então inéditas dentro do própirio ambiente cultural garantem tal possibilidade -, é preciso abrir mão de um certo 'esquema de pensamento' ultrapassado e abraçar um novo paradigma que permita a superação dos atuais desafios à criatividade e à própria sobrevivência do homem e do mundo em outros níveis de entendimento.

Não obstante a submissão cega proposta pela teologia tradicional aos "desígnios superiores" de divindades inescrutáveis (sem mesmo discutí-los ou procurar compreender a possibilidade da atuação de estruturas e forças impessoais e exteriores a nossa percepção limitada), de qualquer forma ou sob qualquer outro ponto de vista diferente, penso ser quase inescapável, para alguns, supor que o suicídio seja a opção mais honesta e corajosa, ainda que muitos prefiram simplesmente "assistir a tudo de cima do muro" ou hedonística e egocentricamente "curtir" a vida sem maiores preocupações, talvez por mera ignorância ou sincera perplexidade diante do reinado sombrio de que todos somos súditos nos dias atuais.

Para alguns tal estado de coisas seria o reflexo de um momento específico no ciclo cósmico da existência e que ora se manifesta como decadência (mas também como renovação), conhecido no hinduísmo como Kali Yuga. Outros talvez o interpretem como a aproximação do 'fim do mundo', ou coisa que o valha. E outros tantos simplesmente não admitem sentido algum à existencia e, sendo assim, "tanto faz como tanto fez".

Entretanto, tudo tem seu preço, e o mundo que nossos filhos e netos herdarão no futuro depende em muito do esforço que cada um de nós estiver disposto a fazer para torná-lo melhor desde já, a fim de garantir que haja um 'depois' tanto para a humanidade quanto para os outros animais. Até porque corremos o risco de que, muito em breve, os únicos seres vivos a habitarem nosso planeta sejam as baratas e as bactérias.

"E daí?", dirão alguns. "Eu só quero saber do meu, o resto que se dane", dirão outros (ou provavelmente os mesmos). É lastimável que, mesmo não sendo maioria (assim espero), provavelmente constituam uma parcela considerável da população mundial. Este tipo de 'comportamento-resposta' aos desafios do mundo - misto de indiferença com egoísmo -, não é inédito na história, mas não deixa sempre de nos surpreender a capacidade humana para a imbecilidade.     

POST-SCRIPTUM:


Este já é outro assunto, o qual, assim nos parece, tem pouco a ver com o suposto conflito 'homem x animal', ao qual talvez retornemos no futuro.


O IMAGINÁRIO I



['INTRODUÇÃO' da obra “O Imaginário: Ensaio Acerca das Ciências e da Filosofia da Imagem”, de Gilbert Durand; tradução de René Eve Levié; Coleção 'Enfoques – Filosofia', da editora Difel; 1998]


Seria muito banal afirmar que os enormes progressos das técnicas de reprodução por imagem (a fotografia, o cinema, os vídeos, “as imagens de síntese”, etc.) e de seus meios de transmissão (o belinógrafo, a televisão, o fax, etc.) permitiram ao século 20 acompanhar a construção de uma “civilização da imagem”. Por conseguinte, torna-se fácil imaginar uma inflação de imagens prontas para o consumo tenha transtornado completamente as filosofias, que até então dependiam do que alguns denominam “a galáxia de Gutenberg”, isto é, a supremacia da imprensa e da comunicação escrita – com sua enorme riqueza de sintaxes, retóricas, e todos os processos de raciocínio – sobre a imagem mental (a imagem perceptiva, das lembranças, das ilusões, etc.) ou icônica (o figurativo pintado, desenhado, esculpido e fotografado...).

As civilizações não-ocidentais nunca separaram as informações (digamos, “as verdades”) fornecidas pela imagem daquelas fornecidas pelos sistemas de escrita. Os ideogramas (o signo escrito copia algo num desenho quase estilizado sem limitar-se a reproduzir os signos convencionais, alfabéticos e os sons da língua falada) dos hieróglifos egípcios ou os caracteres chineses, por exemplo, misturam com eficácia os signos das imagens e as sintaxes abstratas. Em contrapartida, antigas e importantes civilizações como a América pré-colombiana, a África negra, a Polinésia, etc., mesmo possuindo uma linguagem e um sistema rico em objetos simbólicos, jamais utilizaram uma escrita.

Todas estas civilizações não-ocidentais, em vez de fundamentarem seus princípios de realidade numa verdade única, num único processo de dedução da verdade, num modelo único do Absoluto sem rosto e por vezes inominável, estabeleceram seu universo mental, individual e social em fundamentos pluralistas, portanto diferenciados.

Aqui, toda diferença (alguns mencionariam um “politeísmo de valores”) é percebida como uma figuração diferenciada com qualidades figuradas e imaginárias. Portanto, todo politeísmo ipso facto é receptivo às imagens (iconófilo) quando não aos ídolos (êidolon, em grego, significa “imagem”). Ora, o Ocidente, isto é, a civilização que nos sustenta a partir do raciocínio socrático e seu subseqüente batismo cristão, além de desejar ser considerado, e com muito orgulho, o único herdeiro de uma única Verdade, quase sempre desafiou as imagens. É preciso frisar que este paradoxo de uma civilização, a nossa, que por um lado, propiciou ao mundo as técnicas, em constante desenvolvimento, de reprodução da comunicação das imagens e, por outro, do lado da filosofia fundamental, demonstrou uma desconfiança iconoclasta (que “destrói” as imagens ou, pelo menos, suspeita delas) endêmica.