sábado, 19 de abril de 2014

ÍCONE DO ROCK


[Editado de uma reportagem de Carlos Albuquerque publicada no jornal O GLOBO em 12.04.2014]


A mitológica guitarra 'Fender Stratocaster' está completando 60 anos.

Criado pelo americano Leo Fender em 1954, o instrumento se tornou, ao longo dos anos, o maior ícone do rock, graças ao seu uso por superastros como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jeff Beck, David Gilmore, Stevie Ray Vaughan, Ritchie Blackmore e The Edge, entre muitos outros. 

Celebrada graças ao seu design cheio de estilo e à sua sonoridade única, a 'Fender Stratocaster' - amada no Brasil por craques como Lulu Santos e Roberto Frejat - tem sua importância resumida numa declaração do próprio Clapton: "Se pudesse voltar no tempo diria a ele que realmente criou algo insuperável". Trata-se, sem dúvida, de um dos instrumentos mais marcantes da História.



Sua construção, seus recursos e sua sonoridade revelam um momento único de inspiração. Mas quando foi visto pela primeira vez em público, durante uma apresentação de Buddy Holly, no programa de televisão de Ed Sullivan, em dezembro de 1957, a 'Fender Stratocaster' parecia algo do outro mundo. Numa época em que a concorrência oferecia instrumentos que, em sua maioria, pareciam nada mais que violões elétricos, alguns detalhes causaram espanto e até dúvida se aquilo era mesmo uma guitarra, como seu desenho único (com um recorte duplo), sem buracos, a fixação dos captadores, as tarraxas só de um lado do braço e a alavanca de vibrato, para "torcer" as cordas.

 


E, de 1954 para cá, não faltaram individualidades ao corpo da 'Strato'. Foi o som dela que marcou a surf music dos Beach Boys e de Dick Dale, no começo dos anos 1960. Foi empunhando uma que Bob Dylan fez sua famosa virada elétrica, no festival de Newport, em 1965. Foi com um modelo desses que Hendrix subverteu o hino americano, no festival de Woodstock, em 1969, Clapton gravou o clássico "Layla", em 1970, e Ritchie Blackmore fez o imortal riff de "Smoke on the Water", em 1971. 



E, num pulo no tempo, foi com uma 'Stratocaster' que John Frusciante, dos Red Hot Chili Peppers, brilhou em "Californication", em 1999, e John Mayer tocou no funeral de Michael Jackson, em 2009.



POST-SCRIPTUM:

Um solo de aniversário em homenagem aos 60 anos do maior ícone do rock'n'roll pelas mãos de Jimi Hendrix! (sem comentários...)







quarta-feira, 16 de abril de 2014

MARCHA DA MACONHA


[Editado de uma reportagem de Daniel Biasetto e Júlia Amin publicada no jornal O GLOBO]


A sétima edição da Marcha da Maconha, no Rio, em 10 de maio terá uma ala especial destinada aos pais de crianças que fazem uso de medicamentos a base de Canabidiol no tratamento contra a epilepsia, e reivindicam a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importar e administrar a substância na luta contra crises convulsivas sofridas por seus filhos.

A ideia ganhou força após decisão de caráter liminar da Justiça Federal em Brasília determinar que a Anvisa entregue o medicamento à família de uma criança de 4 anos que sofre do distúrbio neurológico e teve redução significativa de crises convulsivas ao adotar o uso do remédio indicado por um médico.

 

Presença confirmada na marcha, a advogada Margarete Brito foi a primeira pessoa no Brasil a entrar em contato com a empresa que fornece o medicamento nos Estados Unidos para importá-lo. Mãe de Sofia, de 5 anos e que sofre da síndrome rara denominada CDKL5, cuja principal manifestação são crises convulsivas diárias, ela lidera um grupo de mães para criar uma associação.

Além das dificuldades de importação do remédio, as mães afirmam que a falta de conhecimento dos médicos sobre o Canabidiol é o principal motivo de dúvida na decisão de iniciar o tratamento.


Após muita pesquisas na internet, e descrente dos efeitos dos medicamentos permitidos no país, Margarete resolveu, em outubro de 2013, importar o Canabidiol como última tentativa de curar a sua filha. Ela diz que não teve medo das consequências legais com a importação clandestina do CBD.

Sofia foi tratada durante um mês e teve suas crises reduzidas em 50%.  


POST-SCRIPTUM:


Vamos fumar a hipocrisia no dia 10 de maio na Marcha da Maconha do Rio de Janeiro!









terça-feira, 15 de abril de 2014

STAN LEE



Este ano a MARVEL COMICS completa 53 anos. Na verdade ela é bem mais antiga, pois é a continuação natural de uma editora chamada "Timely" que começou suas atividades no final dos anos 1930, depois mudou o nome para "Atlas" nos anos 1950 e, só então, à partir dos anos 1960, passou a se chamar "Marvel", quando Stan Lee e Jack Kirby começaram a lançar novos personagens, super-heróis com personalidade e que viviam problemas cotidianos como a maioria de nós, pobres mortais.

Com exceção do Capitão América (criado em 1941 por Joe Simon e Jack Kirby), a MARVEL COMICS passou a ser conhecida como tal em virtude das criações (Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Thor, Hulk, X-Men, Homem de Ferro, etc.) daquela dupla genial (Lee & Kirby).


Por incrível que pareça, aquele que pode ser considerado um dos grupos de heróis mais populares da editora (ao lado dos Vingadores) não teve inicialmente a mesma sorte que as outras criações da mesma; a revista dos X-Men chegou a ser cancelada no fim dos anos 1960, até retornar triunfante no início dos anos 1970 com uma nova formação e novos autores, a ponto de hoje deter o recorde de vendas de um único gibi: sete milhões de exemplares.



Apresentamos agora um trecho de uma entrevista com Stan Lee, concedida por telefone ao repórter Eduardo Souza Lima do jornal O GLOBO, em 1993:

P: Como surgiu a idéia de criar Os Vingadores e os X-Men?

R: Em relação aos Vingadores, eu tinha uma série de heróis, todos com características distintas, mas achava que poderiam funcionar bem juntos. Algo como eles se encontrassem e dissessem: "vamos trabalhar juntos?". Felizmente a ideia funcionou. Já com os X-Men, o que eu queria era criar um time de heróis, mas que tivesse características diferentes. Por isso eles teriam que ter adquirido seus poderes de forma diferente do, digamos, usual. Pensei então em heróis mutantes e quis chamar a história de "Os Mutantes". Mas meu editor não gostou do nome, ele achou que ninguém saberia o significado do nome. Como eram homens com extra-power (poder extra), resolvi chamá-los X-Men. Foi o que ficou.



P: Por que acha que os X-Men originais não deram certo?

R: É uma história estranha. Eles eram populares na época em que foram criados, mas eu tinha outras revistas para fazer, outras ocupações. Assim sendo, acabei tendo que parar de escrever os X-Men e delegando essa função para outras pessoas. Foi quando houve a queda. É como um filme. Não adianta ter uma boa história se você não tem um bom diretor.

P: Você acha que existe algum artista hoje em dia que seja capaz de criar um novo universo como o da Marvel?

R: Não sei, não quero parecer pretensioso, mas acho que seria uma tarefa difícil. Tivemos sorte, eu, Steve Ditko, Jack Kirby...

 

P: Já que o cinema o atrai, já pensou em dirigir um filme basado num personagem seu?

R: Eu adoraria, sabia? Mas pensando bem, não tenho mais idade para aprender as técnicas da direção. Seria muita pretensão minha, com tantos bons diretores em atividade, querer fazer o trabalho deles... Mas talvez eu pudesse dar um bom diretor assistente (risos).  



POST-SCRIPTUM:


Como diria Stan the Man: EXCELSIOR!



A PALERMA


[Conto de Anton Tchékhov in "A Corista e outras histórias"; publicado por L&PM Editores em fevereiro de 2012]


Dias atrás mandei chamar a governanta dos meus filhos, Iúlia Vassílievna, ao meu gabinete. Precisávamos acertar as contas.

- Sente-se, Iúlia Vassílievna! - eu disse. - Vamos acertar nossas contas. A senhora provavelmente necessita de dinheiro, mas tem cerimônia demais para pedir... Vamos lá... Nós combinamos trinta rublos por mês...

- Quarenta...

- Não, trinta... Eu tenho aqui escrito... Eu sempre paguei trinta para as governantas... Então a senhora ficou aqui dois meses...

- Dois meses e cinco dias...

- Dois meses exatos... Eu tenho aqui anotado. Portanto, a senhora tem a receber sessenta rublos... temos que descontar nove domingos... pois a senhora não estudou com Kólia nos domingos, sempre passearam... e houve ainda três feriados...

Iúlia Vassílievna ficou vermelha e começou a repuxar os babadinhos de sua roupa, mas não disse uma só palavra...

- Três feriados... Consequentemente, vamos tirar doze rublos... Durante quatro dias Kólia ficou doente e não teve aulas... A senhora estudou só com Vária... Três dias a senhora teve dor de dente e minha esposa permitiu que a senhora não desse aula depois do almoço... Doze mais sete - dezenove. Subtraindo, restam... hum... 41 rublos. Certo?

O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou vermelho e cheio d'água. Seu queixo tremeu. Ela deu uma tossida nervosa, assoou o nariz, mas - nem uma palavra!

- Na véspera de ano-novo a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. Vamos tirar dois rublos... A xícara custa mais do que isso, era herança de família, mas... deixa prá lá! Não vamos fazer questão disso! Adiante: devido à sua falta de atenção, Kólia subiu numa árvore e rasgou seu casaquinho. Vamos tirar dez... A arrumadeira, também devido à sua falta de atenção, roubou uma botinas de Vária. A senhora deveria cuidar de tudo. É para isso que recebe salário. Então, vamos tirar mais cinco... No dia sete de janeiro a senhora pegou adiantado comigo dez rublos...

- Eu não peguei! - sussurou Iúlia Vassílievna.

- Mas eu tenho aqui anotado!

- Então está bem... Que seja.

- De 41 vamos subtrair 27 - restam quatorze.

Os dois olhos de Iúlia Vassílevna encheram-se de lágrimas... No seu belo e alongado narizinho apareceram gotas de suor. Pobre menina!

- Eu só peguei uma vez - disse ela com voz trêmula. - Peguei com a sua esposa três rublos... Não peguei mais...

- É mesmo? Ora, isso não está anotado! Tirando três de quatorze, sobram onze... aqui está o seu dinheiro, caríssima! Três... três... três... um... um... Tenha a bondade de receber!

E lhe entreguei onze rublos... Ela pegou o dinheiro e com os dedinhos tremendo meteu-o no bolso.

- Merci - sussurou ela.

Levantei-me de um salto e comecei a caminhar pelo gabinete. Estava indignado.

- 'Merci' por quê? - perguntei.

- Pelo dinheiro...

- Mas eu a roubei, com os diabos, eu a assaltei! Acabei de roubá-la! Por quê 'merci'?

- Nos outros lugares eles não pagavam nada...

- Não pagavam? Então não é de se estranhar! Eu estava brincando com a senhora, estava lhe dando uma lição cruel... Vou lhe pagar todos os oitenta rublos! Estão aqui preparados, neste envelope! Mas é possível ser assim tão pateta? Por que a senhora não protesta? Por que fica calada? Será que nesse mundo é possível não ser atrevido? É possível ser tão palerma?

Ela deu um sorriso azedo e eu li no seu rosto: "É possível!"

Pedi desculpas pela cruel lição e, para sua grande surpresa, entreguei-lhe todos os oitenta rublos. Ela disse um 'merci' tímido e saiu... Fiquei olhando quando ela se afastava e pensei: "Como é fácil ser poderoso neste mundo!" 

19 de fevereiro de 1883



POST-SCRIPTUM:


TCHÉKHOV é um verdadeiro mestre do conto! (e vem acompanhado de um mestre da pintura: EDGAR DEGAS; "As irmãs Bellelli", 1865-1866). 




A INVASÃO ARGENTINA


[Editado de uma reportagem de Janaína Figueiredo, publicada no jornal O GLOBO em 01.03.2014]


A Copa de 2014 chegou num mau momento para muitos argentinos. A crise financeira conspira contra o sonho de acompanhar a seleção de Lionel Messi no Brasil.

Mas nem todos os argentinos renunciaram ao sonho de participar da festa mundial do futebol.
Na cidade de Paraná, capital da província de Entre Rios, a 500 quilômetros de Buenos Aires, dez amigos decidiram desafiar as adversidades. Em maio de 2013, compraram um ônibus usado e, desde então, trabalham para transformá-lo num motorhome que os levará às cidades brasileiras.



Eles tiveram de negociar com seus chefes  e, também, mulheres e namoradas, uma ausência de pelo menos um mês fora de casa. Todos foram compreensivos, segundo eles, e ficaram encantados com o projeto. Nos últimos meses, o grupo se encontra nos fins de semana para montar o ônibus, que terá sala, cozinha e um quarto com 12 camas.

Um dos obstáculos é a compra de ingressos. apesar de se inscreverem em todos os sorteios, não conseguiram ingresso. Eles pretendem partir rumo ao Brasil em 7 de junho, para chegar a São Paulo no dia 12, a tempo da abertura. Depois vão acompanhar a seleção argentina.


POST-SCRIPTUM:






CUIDADO GALERA! ELES ESTÃO CHEGANDO!!!



segunda-feira, 14 de abril de 2014

AGENDA OCULTA


[Editado a partir de um texto de STEPHEN KANITZ]



Muitos escritores, cientistas e formadores de opinião usam e abusam de nossa confiança. Sutilmente nos enganam para defender os próprios interesses. É o que em epistemologia chamamos de "agenda oculta". Quanto mais velhos ficamos, mais percebemos quanta agenda oculta existe por trás de quase tudo o que é escrito hoje em dia no Brasil e no mundo. É simplesmente desanimador.

Prefiro sempre artigos que apresentam tabelas, números e outras informações concretas em vez de "idéias", opiniões e indignações. É justamente isso que editores de livros no mundo inteiro nos aconselham a evitar, porque senão "ninguém lê", o que infelizmente é verdade. Mas é justamente isso que deveria ser lido.



Ignoramos solenemente os que fazem parte de nossa Academia Brasileira de Ciências, que descobrem a essência do que ocorre na prática, as causas de seus efeitos, os que usam o método científico de análise. O último acadêmico de ciências nem sequer foi noticiado pela imprensa brasileira.

"Imortais" no Brasil são aqueles bons de bico, que nos seduzem com belas frases e palavras, pois somos um país do "me engana que eu gosto". Nosso descaso com ciência, estatísticas, equações, dados, números, análise científica é a causa de nosso atraso. Porque não nos preocupamos com ciência, viramos o país da mentira.



Muito do que se escreve, até em livros de filosofia, vem, na realidade, de pessoas justificando sua vida, seus erros e suas limitações. Elas têm uma agenda oculta que cabe a você descobrir. Quando alguém sai propondo maiores gastos em educação, sempre indago se não é mais um professor querendo maiores salários, pagos por impostos, "impostos" à sociedade.

Notem como 95% desses artigos pedem verbas, vinculações de verbas e mais verbas, e nenhum discute quais as novas matérias que seriam ensinadas. Omitem invariavelmente o fato de que hoje, nas universidades, algo em torno de 50% dos alunos nem terminam o curso - e por volta de 50% dos que terminam não exercem a profissão. Este é um problema resolvido com mais verbas ou com uma urgente reforma no conteúdo educacional?




Se não mudarmos nossa mentalidade, se não nos preocuparmos em detectar a agenda oculta de todos aqueles que nos pregam alguma coisa, pagaremos caro pela nossa falta de vigilância epistêmica.

Seremos sempre presas fáceis dos que falam bonito e escrevem melhor ainda.


POST-SCRIPTUM:

Concordo em boa parte com o autor, mas não podemos perder de vista que nem tudo que é literatura ou filosofia é "conversa prá boi dormir", senão corremos o risco de descartar muita coisa pertinente como desimportante, certo?

 




VICIADOS EM INTERNET


[Editado a partir de um texto da autoria de WALCIR CARRASCO]


O ciberviciado entra em síndrome de abstinência se não estiver plugado. É fácil reconhecê-lo: em locais públicos tecla nervosamente o celular à procura de um conexão. Assume uma expressão de alívio quando consegue trocar duas ou três palavras com alguém que nem conhece pessoalmente. Eu mesmo já me aproximei perigosamente do cibervício.

Para algumas pessoas, o uso contínuo da internet tem impacto no trabalho, nas relações de amizade e também nas afetivas. A pesquisadora americana Kimberly Young fundou o  Center for Online Addiction, em Bradford, na Pensilvânia, para tratar ciberviciados. Como nos EUA existem grupos para tudo, lá funcionam os de apoio para ciberviúvas - esposas de viciados em relações amorosas, pornografia ou apostas pela internet.


A compulsão já é tratada em vários outros centros especializados nos EUA. O fenômeno é mundial. O hospital londrino Capio Nightingale também oferece sessões de terapia a jovens viciados no computador.

Na Coréia do Sul, o tratamento procura estimular as relações face a face e trabalhos manuais, para criar outros interesses entre os ciberviciados. Desde 2008 o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo iniciou o tratamento de jovens com dependência tecnológica, incluindo em videogames.



São raros os pais que detectam quando o adolescente começa a usar drogas tradicionais. O cibervício também é enganador. Pais tendem a acreditar que mexer com computador é sinal de inteligência. Preferem o adolescente em casa que na balada. É um erro. No mínimo, os ciberviciados afastam-se do convívio social importante para sua formação.

Há quem diga que o viver on-line é tão perigoso quanto consumir cocaína ou qualquer outra droga. Talvez seja exagero. Mas o cibervício pode afetar perigosamente a vida do dependente e destruir sua qualidade de vida.


POST-SCRIPTUM:


Olho vivo papais e mamães: tem maluco no Japão que mora, quase que literalmente, em lan-houses



domingo, 13 de abril de 2014

O LIVRO NEGRO DO CAPITALISMO




[Editado a partir de um texto da autoria de EMIR SADER]



Em tempos de regressão conservadora como os atuais, a "baderna" voltou ao vocabulário cotidiano, não pela voz dos militares - que, depois de cumprir seu papel de "restabelecimento da ordem e da disciplina", deixaram a função na mão de civis - mas de órgãos da grande imprensa e de ex-comunistas, em guerra contra os pobres.

Bradar pela ordem é um dos mecanismos básicos da direita - aquela que privilegia a ordem em detrimento da justiça, segundo Norberto Bobbio - e portanto a "baderna" é parte integrante do vocabulário da direita. Faz parte do mecanismo de buscar bodes expiatórios para o fracasso de sua civilização, vitoriosa na virada do século.

Se a esquerda assume o que foi a URSS como proposta fracassada de sociedade socialista, assume e tira consequências, a direita se esquiva dos monstros que criou.


Afinal de contas, as duas guerras mundiais foram guerras interimperialistas e, portanto, seus milhões de mortos, pertencem, com justiça, ao Livro Negro do Capitalismo, porque foram uma expressão da feroz disputa de mercados entre as potências capitalistas. Assim como o nazismo, o fascismo, o franquismo, o salazarismo foram expressões exacerbadas de sociedades capitalistas.

Ou foram o que?


POST-SCRIPTUM:

Esta postagem é em "homenagem" ao ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que renunciou ao cargo e que já vai tarde.

E que não volte tão cedo!






REALIDADE E PERCEPÇÃO



[Editado a partir de um texto de Maria Medeiros, publicado na REVISTA O GLOBO em 02.02.2014]



Quando se diz que uma imagem vale mais do que mil palavras, logo pensamos em cenas e fotografias que não precisam de explicação: a força de sua mensagem dispensa legendas. Mas imagem não é apenas algo que se enxerga concretamente.

Poucas coisas são tão fortes quanto a imagem que a gente cria. E como todos gostam de saber com quem estão lidando para evitar surpresas, essa imagem vira referência e pode agir a nosso favor e também contra - preconceitos vêm daí.

Você pode mudar? Pode. Para melhor e para pior. A vida é longa. Mas para comuns mortais, é bem mais penoso reverter a própria imagem. A imprensa não cobre.

Rótulos, mesmo os bons, são limitadores. O ideal seria que pudessem esperar qualquer coisa de nós, já que somos mesmo capazes de surpreender. Mas o mundo se apega às certezas, não às dúvidas.

Então, tenha em mente que tudo que você faz (e principalmente o que você repete) ficará arquivado na memória daqueles com quem convive, e será um trabalhão desfazer essa imagem. 

Não que seja impossível, mas vai exigir mais do que mil palavras.


POST-SCRIPTUM:







FREUD JÁ NÃO EXPLICA MAIS


[Texto de autoria de Miguel Falabella]



Sarita abandonou a psicanálise. Telefonou-me de madrugada, parecendo muito feliz com a decisão.

- Freud já não explica mais nada, meu anjo - ela disse, mais ansiosa do que o habitual. - Era um escritor muito habilidoso, mas eu não posso mais perder tempo investigando nada.

- Você não gosta mais de fazer terapia?

- Não se trata disso. Tenho o outro tipo de urgência.

Ela, agora, segundo suas próprias palavras, repõe substâncias químicas que seu organismo é incapaz de produzir. Tem dormido bem e a angústia mudou-se para endereço ignorado.

Depois, disse que com a medicação vive constantemente numa frequência baixa, que lhe proporciona grande bem estar.




Sarita não está mais conseguindo absorver o mundo e a rapidez com que se desenrola o novelo das civilizações, eu penso. Ela está paralisada, como muitos de nós, tentando adivinhar um mundo que ela já não conhece e que é rápido demais para seu entendimento.

Digo a ela que não concordo. Quer dizer, concordo, em parte, mas gosto das interpretações e dos caminhos da psicanálise. Gosto de percorrer as vielas escuras da mente, quase sempre se encontra alguém interessante com quem você gostaria de trocar uma ou duas palavras.

Literatura, meu bem. Literatura - ela disse, do outro lado da linha. Uma prática das elites, não tem nada a ver com gente normal.

Eu achei melhor não me estender, mas Sarita não se deu por vencida e ainda falou por um longo tempo. Em determinado momento, eu deixei de ouvir e fui visitar o futuro assombrado que ela anunciava, povoado por uma humanidade dopada e feliz.

Freud já não explica mais nada, então? A aventura do conhecimento interior dissolve-se com a pílula, na saliva amarga das bocas. Um mundo novo, sem dúvida.

Adormeci olhando para os céus, com medo de um meteoro perdido qualquer viesse a se chocar com a Terra, na noite mesma em que eu descobri que felicidade podia-se não desejar, ainda que estivesse ali, ao alcanca de todos.


POST-SCRIPTUM:

      

sábado, 29 de março de 2014

ENSINAR A PENSAR?


[Texto de autoria do professor RICARDO CORRÊA BARBOSA]


Pode-se ensinar filosofia, mas não a pensar. 

Aliás, em suas lições de Lógica, Kant nos deixou uma palavra importante sobre isso: 

"Ninguém que não possa filosofar pode-se chamar de filósofo. Mas filosofar é algo que só se pode aprender pelo exercício e pelo uso próprio da razão. Como é que se poderia, aprender Filosofia? Todo pensador filosófico constrói, por assim dizer, sua obra própria sobre os destroços de uma obra alheia; mas jamais se erigiu uma que tenha sido estável em todas as suas partes. (...) quem quer aprender a filosofar tem o direito de considerar todos os sistemas da Filosofia tão-somente como uma história do uso da razão e como objeto do exercício de seu talento filosófico."

"O verdadeiro filósofo, portanto, na qualidade de quem pensa por si mesmo, tem que fazer um uso livre e pessoal de sua razão, não um uso servilmente imitativo."

Nestas linhas de Kant, ouve-se o eco de sua conhecida resposta à pergunta sobre o que é Aufklärung: - pensar por si mesmo, ter a coragem de fazer uso próprio da própria razão.

Assim, o que o filosofar exige é antes a formação de uma atitude - uma atitude diante do pensamento.

Exercício sem medo, coisa de quem sabe que é na água que se aprende a nadar.


POST-SCRIPTUM:


E, concomitantemente, por aqueles que sabem que este aprendizado exige que a reflexão solitária desague na discussão em comum, na busca do melhor argumento...

E com razão.