quarta-feira, 15 de abril de 2015

O SER E O EVENTO (1)





[Parte 1 da Introdução do livro "O SER E O EVENTO" de autoria de ALAIN BADIOU]


Admitamos que hoje, na escala mundial, seja possível começar a análise do estado da filosofia pela suposição dos três enunciados que se seguem:

1. Heidegger é o último filósofo universalmente reconhecível.

2. A figura da racionalidade científica é conservada como paradigma, de maneira dominante, pelos dispositivos de pensamento, sobretudo norte-americanos, que se seguiram às mutações matemáticas, às da lógica e aos trabalhos do círculo de Viena.

3. Está em desenvolvimento uma doutrina pós-cartesiana do sujeito, cuja origem pode ser atribuída a práticas não filosóficas (a política, ou a relação instituída com as "doenças mentais"), e cujo regime de interpretação, marcado pelos nomes de Marx (e Lenin), de Freud (e Lacan), está enredado em operações, clínicas ou militantes, que excedem o discurso transmissível.

Que há de comum nestes três enunciados? Não há dúvida de que designam, cada um a sua maneira, o fecho de uma época inteira do pensamento e de seus desafios. Heidegger, no elemento da desconstrução da metafísica, pensa a época como regida por um esquecimento inaugural, e propõe um retorno grego. A corrente "analítica" anglo-saxã desqualifica a maior parte das frases da filosofia clássica como desprovidas de sentido, ou limitadas ao exercício livre de um jogo de linguagem. Marx anunciava o fim da filosofia, e sua realização prática. Lacan fala de "antifilosofia", e prescreve ao imaginário a totalização especulativa.

Por outro lado, o que há de incongruente nestes enunciados salta aos olhos. A posição paradigmática da ciência, tal como, até em sua negação anarquizante, ela organiza o pensamento anglo-saxão, é assinalada por Heidegger como um efeito último, e niilista, da disposição metafísica, ao passo que Freud e Marx conservam seus ideais, e que o próprio Lacan reconstituía nela, pela lógica e a topologia, os esteios de eventuais matemas. A ideia de uma emancipação, ou de uma salvação, é proposta por Marx ou Lenin no modo de uma revolução social, mas é considerada por Freud ou Lacan com um pessimismo cético, considerada por Heidegger na antecipação retroativa do "retorno dos deuses", enquanto, grosso modo, os americanos se contentam com o consenso em torno dos procedimentos da democracia representativa.

Há, portanto, acordo geral quanto a convicção de que nenhuma sistemática especulativa é concebível, e de que está encerrada a época em que a proposição de uma doutrina do nó ser/não-ser/pensamento (se admitirmos que é desse nó que, desde Parmênides, se origina o que chamamos "filosofia") podia ser feita na forma de um discurso acabado. O tempo do pensamento está aberto para um regime de apreensão diferente.

Há desacordo quanto à questão de saber se essa abertura, cuja essência é encerrar a idade metafísica, se indica como revolução, como retorno, ou como crítica.

Minha própria intervenção nessa conjuntura consiste em traçar nela uma diagonal, pois o trajeto de pensamento que tento passa por três pontos suturados, cada um, num dos três lugares que os enunciados acima designam. 

- Com Hidegger, vamos sustentar que é do ângulo da questão ontológica que se sustenta a re-qualificação da filosofia como tal.

- Com a filosofia analítica, afirmaremos que a revolução matemático-lógica de Frege-Cantor fixa orientações novas para o pensamento.

- Admitiremos, por fim, que nenhum aparato conceitual é pertinente se ele não for homogêneo às orientações teórico-práticas da doutrina moderna do sujeito, ela própria interior a processos práticos (clínicos ou políticos).

Esse trajeto remete a periodizações imbricadas,
cuja unificação, a meu ver arbitrária, conduziria à escolha unilateral de uma das três orientações contra as demais. Vivemos uma época complexa, se não confusa, visto que as rupturas e as continuidades de que ela se entretece não se deixam subsumir sob um vocabulário único. Não há hoje "uma" revolução (ou "um" retorno, ou "uma" crítica). Eu tenderia a resumir assim o múltiplo temporal descompassado que organiza nossa situação:

1. Somos contemporâneos de uma terceira época da ciência, após a grega e a galileana. A cesura nomeável que abre esta terceira época não é (como no caso da grega) uma invenção - a das matemáticas demonstrativas -, nem (como a galileana) um corte - aquele que matematiza o discurso físico. É uma reorganização, a partir da qual se revelam a natureza da base matemática da racionalidade e o caráter da decisão de pensamento que a estabelece.

2. Somos igualmente contemporâneos de uma segunda época da doutrina do Sujeito, que não é mais o sujeito fundador, centrado e reflexivo, cujo tema se estende de Descartes a Hegel, e ainda permanece legível até Marx e Freud (e até Husserl e Sartre). O sujeito contemporâneo é vazio, clivado, a-substancial, irreflexivo. Aliás, ele pode apenas ser suposto no tocante a processos particulares cujas condições são rigorosas.

3. Somos, por fim, contemporâneos de um começo no que diz respeito à doutrina da verdade, depois que sua relação de consecutividade orgânica com o saber se desfez. Percebemos retroativamente que, até agora, reinou absoluta o que chamarei aqui a veridicidade; e, por estranho que isso possa parecer, convém dizer que a verdade é uma palavra nova na Europa (e alhures). De resto, esse tema da verdade atravessa Heidegger (que é o primeiro a subtraí-lo ao saber), os matemáticos (que no fim do século XIX romperam tanto com o objeto quanto com a adequação) e as teorias modernas do sujeito (que excentram a verdade de sua pronunciação subjetiva).

A tese inicial de minha empreitada, aquela a partir da qual dispomos o imbricamento das periodizações, extraindo o sentido de cada uma, é a seguinte: a ciência do ser-enquanto-ser existe desde os gregos, pois esse é o estatuto e o sentido das matemáticas. Somente hoje, porém, temos os meios de saber tal coisa. Dessa tese decorre que a filosofia não tem por centro a ontologia - a qual existe como disciplina exata e separada -, mas circula entre essa ontologia, as teorias modernas do sujeito e sua própria história. O complexo contemporâneo das condições da filosofia abarca, por certo, tudo a que se referem meus três enunciados primeiros: a história do pensamento "ocidental", as matemáticas pós-cantorianas, a psicanálise, a arte contemporânea e a política. A filosofia nem coincide com nenhuma dessas condições, nem elabora sua totalidade. Ela deve apenas propor um quadro conceitual onde possa se refletir a compossibilidade contemporânea desses elementos. Só o pode fazer - pois é isso que a despoja de toda ambição fundadora, em que se perderia - designando entre suas próprias condições, e como situação discursiva singular, a própria ontologia, sob a forma das matemáticas puras. É isso, propriamente, o que a liberta, e a consagra finalmente ao zelo das verdades.

     

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DESERTO DO SAARA ENCHE A AMAZÔNIA DE POEIRA


[Notícia publicada no jornal O GLOBO]


A transferência de poeira do deserto do Saara para a Amazônia já era conhecida, mas agora cientistas mediram o volume de material transportado.

Usando satélites, a NASA estimou que, por ano, 182 milhões de toneladas de poeira são carregados pelo vento e cruzam os 2,5 mil quilômetros que separam a América do Sul da África, sendo que 27,7 milhões de toneladas da poeira, o suficiente para encher 105 mil caminhões, são depositadas na floresta.

 


POST-SCRIPTUM:

Esse é o tipo de notícia que me deixa particularmente perplexo.

Quem sabe que tipo de consequência potencialmente danosa pode advir para a floresta amazônica ao longo do tempo?



sábado, 4 de abril de 2015

SOMOS VIÁVEIS? (2)


[ARNALDO BLOCH; O GLOBO - SEGUNDO CADERNO; 07.03.2015]


Pouco tempo atrás, acreditávamos que havíamos chegado a um estágio em que o arsenal nuclear se reduziria até ser coisa do passado. O que vemos hoje? Chantagem nuclear e potências armadas até os dentes. Acreditávamos que a democracia era o caminho definitivo, universal.

O que vemos? Opositores sendo assassinados na Rússia, um juiz que investiga o governo sendo baleado na Argentina, um governo democrata nos EUA que espiona seus parceiros, colossos de corrupção por toda a parte e um esforço por debelá-la menos associado à pura justiça e mais a serviço do puro interesse político, num jogo de troca de posto que se eterniza.




Acreditávamos que o racismo e a xenofobia seriam em breve varridos do chamado velho mundo. O que vemos? A Europa em crise, polvilhada de poderosos partidos de extrema direita que ganham popularidade ano a ano, fechando os olhos para a exploração sanguinária que promoveram contra os povos que hoje querem expulsar.





Acreditávamos que os países de maioria muçulmana rumavam para uma discussão profunda sobre suas sociedades, assinalada pela Primavera Árabe. O que vemos um ano depois? A ascensão do Estado Islâmico, enterrando populações vivas e empreendendo um programa de expansão com tentáculos invisíveis pelo mundo inteiro, usando a tecnologia digital para uma campanha de recrutamento planetária.

 

Acreditávamos que a cultura continuaria a dialogar com a ciência e a filosofia em busca de uma boa interseção entre a razão e os mistérios que ainda (talvez nunca) decifraremos. O que vemos? A ciência demonizada e um crescimento cada vez maior da escravidão às crendices e às religiões, numa marcha que arrisca jogar a Humanidade de volta à Idade Média. E, paralelamente, um paradoxal culto cientificista em busca de respostas objetivas para tudo. É a era dos especialistas: tenta-se assassinar o mistério, inclusive a subjetividade da arte, que se institucionaliza.



Nós, porta-vozes dos feitos e desfeitos da Humanidade, que se crê no topo da evolução, deveríamos nos perguntar, antes mesmo de nos situarmos no ranking evolucionário, se a espécie é, simplesmente, viável, ou não.

Se não está destinada a se extinguir muito antes que milhões de outras espécies desapareçam. Se isto acontecer, quem decidirá, divulgará e publicará notícias sobre o nosso papel na História do Universo?


POST-SCRIPTUM:





É preciso dizer mais?



sábado, 21 de março de 2015

LEONARD NIMOY R.I.P.



Homenagem póstuma ao grande Leonard Nimoy, falecido recentemente.

POST-SCRIPTUM:


Ele foi até onde nenhum homem jamais esteve.
Ele teve uma vida longa e próspera.
Ele não será esquecido.




sexta-feira, 20 de março de 2015

SOMOS VIÁVEIS? (1)

    




  [ARNALDO BLOCH; O GLOBO - SEGUNDO CADERNO; 07.03.2015]

Um dos traços característicos da espécie humana é a crença de que, entre os demais seres vivos conhecidos, estamos no topo da evolução. Nossas capacidades de refletir sobre nós mesmos, formular hipóteses, destrinchar as causas naturais para os fenômenos e nossa consciência, que permite transcender o simples viver, são consideradas valiosas. Mas nunca perguntamos: valiosas para quem e para quê?
O planeta se lixa para nós. O Cosmo não está nem aí. Os animais são esculachados. As florestas, montanhas, geleiras; os mares, os rios - estão indo para o brejo. Resta, então, a hipótese de que somos valiosos para nós mesmos. De que nossa busca é o estágio em que o Universo toma consciência de si, num processo que ainda está na infância, mas resultará, um dia, em algo grande para nós e para o todo.


Mas, se olharmos com cuidado, a julgar pelo ponto a que chegamos, nem essa hipótese (sermos valiosos para nós) se sustenta. No máximo, pode-se considerar que um indivíduo pode ser feliz por um tempo determinado, mas nem isso é uma obra que a espécie realizou: é um benefício que a vida, a natureza, conferem a um ser, e pelo qual deveríamos agradecer humildemente.

De resto, que evolução é esta que o humano alcançou? Mesmo dentro de nossas conceituações do que seja bom ou mal para a Humanidade, qualquer progresso que se verifique está, sempre, sub judice. A própria ideia de progresso vive em xeque: o crescimento irrefreado, que é o ideal de qualquer pensamento econômico aceito, é obviamente destinado ao desastre. Mesmo se deixarmos de lado os sinais claros de que esse paradigma está destruindo a vida em sociedade, é uma questão de matemática rudimentar: a Terra tem uma determinada extensão. Logo, a multiplicação de objetos, edificações, veículos, propriedades, e da população, tem um limite. De espaço, de recursos, de energia, de meios, de motivação.

Mesmo assim, o crescimento, puro e simples, infinito, é o único que vale para qualquer índice que calcule a prosperidade de uma nação, como se não houvesse um horizonte final (em outras palavras, danem-se as próximas gerações, o que importa é o mundo agora). Se há um discurso e um movimento planetários em prol da preservação ou até conceitos malucos como o do descrecimento, a comunidade das nações não dá qualquer sinal de que possa haver uma concórdia sobre as providências no sentido de uma decisiva mudança de postura global.

Falam mais alto as paixões, a sede de potência e de acúmulo, guiados pela certeza da morte, e a compulsão pela otimização do gozo numa corrida contra o relógio que leva a tumba.

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Resultado de imagem para capitalismo selvagem




terça-feira, 20 de janeiro de 2015

JE SUIS CHARLIE

[Editado de um artigo de autoria de ARNALDO BLOCH, publicado no jornal O GLOBO em 17.01.2015]


Saiu uma tirinha de humor no Facebook (não descobri autoria nem fonte) em que um sujeito pergunta: "Quem somos?". Um grupo responde: "Somos todos Charlie." O sujeito retruca: "Mas o que queremos?". O grupo: "A verdade, a justiça, a liberdade de imprensa e a paz mundial". O sujeito: " "Como vamos conseguir?". No último quadrinho só um texto: "Com a ajuda do Obama,da CIA, do Pentágono, do FBI, do serviço secreto israelense, dos maiores fabricantes de armas do mundo, da mídia ocidental, dos países que colonizaram a África, dos sheiks árabes, da extrema-direita francesa, da Grã-Bretanha".

Estamos ferrados? Bem possível que sim, pois ainda não se provou que a espécie humana, com Deus ou sem Deus, é viável. Porém, por má-fé ou ingenuidade, cria-se a ideia de que os agentes da salvaguarda são um Ocidente malvado, onde toda a mídia é inimiga. Tesouram-se os pacifistas, a ONU, os diplomata que dão o sangue para impedir guerras piores, as conversas multilaterais, os moderados, as campanhas que, nas redes sociais, sobrevivem à estupidez, e a esquerda francesa que chocada com a própria submissão ao lobby extremista, liderou a marcha na Republique.



Óbvio que, na configuração da geopolítica atual, é impossível que a CIA, a Alemanha, o Mossad, os líderes árabes, os sheiks, as ex-colônias na África do Norte e tantas outras esferas não estejam na luta contra o avanço que ameaça o pouco que se conseguiu de coesão entre as nações do mundo. Um mundo que busca um status em que suas terríveis contradições,  suas injustiças, sua loucura corporativa, seu cassino financeiro (que esmaga toda força produtiva) se inspiram em certa ideia de democracia.

Contudo, é terrorismo ideológico dizer que esta é apenas uma guerra entre o perverso Ocidente e a malvada cultura islâmica. Os "malvados" estão dos dois lados, ou de todos os lados que formam o poliedro da grande confusão. Lados que formam alianças tácitas, às vezes inconscientes, com seus inimigos.


O judeu que matou Rabin não integrava qualquer grupo organizado. Era como o louco que matou Lennon. O que se combate, hoje, é, sim, o terrorismo islâmico, como se combateria qualquer terrorismo pancontinental, que reunisse método, massa e distribuição global de células explosivas. De resto Islã é paz, e o diálogo é o antídoto da guerra. Um diálogo paralelo e a longo prazo. Pois, agora, o que temos, que pena, é a batalha.



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Tudo está perdoado. Ou não?








quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ESTRANHEZA QUÂNTICA: O ABISMO E A PONTE


[Editado do cap. I do livro "O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE" da autoria de AMIT GOSWAMI, publicado pela EDITORA ROSA DOS TEMPOS]


Enfrentamos hoje na física um grande dilema. Na física quântica - a nova física - descobrimos um marco teórico que funciona. Explica um sem-número de experimentos de laboratório, e muito mais.

A física quântica deu origem a tecnologias de imensa utilidade, tais como as de transistores, lasers e supercondutores. Ainda assim, não conseguimos extrair sentido da matemática da física quântica sem sugerir uma interpretação dos resultados experimentais que numerosos indivíduos só podem considerar como paradoxal, ou mesmo inaceitável.

Vejamos, como exemplo, as propriedades quânticas seguintes: 

a) Um objeto quântico (como, por exemplo, um elétron) pode estar no mesmo instante, em mais de um lugar (a propriedade da onda);

b) Não podemos dizer que um objeto quântico se manifeste na realidade comum espaço-tempo até que o observemos como uma partícula (o colapso da onda);

c) Um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico);

d) A manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato - pouco importando a distância que os separa (ação quântica à distância).



Não podemos ligar a física quântica a dados experimentais sem utilizar alguns esquemas de representação, e a interpretação depende da filosofia com que encaramos os dados. A filosofia que há séculos domina a ciência ( o materialismo físico) supõe que só a matéria - que consiste de átomos ou, em última análise, de partículas elementares - é real. Tudo mais são fenômenos secundários da matéria, apenas uma dança dos átomos constituintes. Essa visão do mundo é também denominada de realismo porque se presume que os objetos sejam reais e independentes dos sujeitos, nós, ou da maneira como os observamos.


A ideia, contudo, de que todas as coisas são constituídas de átomos é uma suposição não provada. Não se baseia em prova direta no tocante a todas as coisas. Quando a nova física nos desafia com uma situação que parece paradoxal, quando vista da perspectiva do realismo materialista, tendemos a ignorar a possibilidade de que os paradoxos possam estar surgindo por causa da falsidade de nossa suposição não comprovada. (Tendemos a esquecer que uma suposição mantida por longo tempo não se transforma, por isso, em verdade, e, não raro, não gostamos que nos lembrem disso.)

 

Atualmente, numerosos físicos desconfiam que há alguma coisa de errado no realismo materialista, mas têm medo de sacudir o barco que lhes serviu tão bem, por tanto tempo. Não se dão conta de que o bote está à deriva e precisa de novo rumo, sob uma nova visão do mundo.

Há, por acaso, uma alternativa ao realismo materialista? Essa tese esforça-se, sem sucesso, a despeito de seus modelos de computador, para explicar a existência da mente, em especial o fenômeno de uma autoconsciência causalmente potente.

"O que é consciência?"

O realismo materialista tenta ignorar a pergunta com um encolher de ombros e com a resposta arrogante de que ela nenhuma importância tem. Se, contudo, estudamos, por menor que seja a seriedade, todas as teorias que a mente consciente constrói (incluindo as que a negam), então a consciência tem, de fato, importância.


POST-SCRIPTUM:

Eu escutei
E olhei
Com olhos bem abertos.
Verti minha alma
No mundo
Procurando o desconhecido 
No conhecido.
E canto em altos brados
O meu assombro!

- Rabindranath Tagore






sexta-feira, 13 de junho de 2014

MANGÁS E ANIMÊS


[Editado de uma reportagem de Claudia Sarmento publicada no jornal O GLOBO]


Os quadrinhos criados no Japão, com sua estética única, são uma referência mundial, tão pop quanto o sushi. Mas são uma arte que está sob bombardeio.

Muitos dos desenhos animados japoneses - os animês - que marcaram diferentes gerações de espectadores, nasceram como mangás. Dos heróis de capa preta de "Matrix" à francesinha Amélie Poulin, o cinema ocidental busca frequentemente inspiração nos quadrinhos nipônicos.

Eles também estão na raiz das multidões de cosplayers que se reúnem em convenções tanto no Rio quanto em Seul, fantasiados de personagens como Astro Boy, Naruto ou Sailor Moon. O traço japonês, acompanhado por histórias densas, parece mais influente do que nunca, mas as vendas de mangás estão despencando, atingidas, como toda forma tradicional de entretenimento por uma nova realidade.

 


Cristopher McDonald, responsável pelo site Anime News Network, uma das mais respeitadas fontes sobre quadrinhos e animações japonesas, concorda que a web, sempre apontada como a vilã que está afundando negócios tradicionais, pode também ser encarada como salvadora, desde que a indústria saiba se adaptar aos novos tempos.

 

Um passeio a Akihabara, bairro de Tóquio que é considerado a meca dos fãs de mangás, animês e tudo que gira em torno dessa estética, elimina qualquer sensação de crise. O lugar está sempre cheio. Para os leigos parece um universo paralelo, onde bonecos são comprados por milhares de dólares, marmanjos se vestem de super-heróis e garçonetes usam vestidinhos de babado com meias 7/8, e falam com voz infantil, como se todos os clientes tivessem 12 anos. A realidade ali não tem a menor importância. 



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segunda-feira, 2 de junho de 2014

"VITÓRIA" A QUALQUER CUSTO


[Editado de um texto de Ignacio Cano, sociólogo e professor da UERJ, publicado no jornal O GLOBO]


Os moradores de áreas carentes são as principais vítimas da criminalidade violenta. Por isso, e também pelo fato de que eles não têm acesso à segurança privada, o Estado deveria considerar a proteção dessas populações a sua primeira prioridade. 

Entretanto, as políticas tradicionais de segurança pública historicamente visaram à nossa proteção, à dos moradores do asfalto, contra os perigos provenientes das favelas.

É justamente por isso que as autoridades manifestam-se constantemente no sentido de que a morte de alguns inocentes na luta contra o crime é lamentável, mas inevitável para travar essa "guerra".

O fato é que esses inocentes sempre tombam nos mesmos lugares, lugares em que a vida vale bem menos e o braço do Estado nem sempre respeita a lei.

Façamos o exercício de imaginar uma porta de uma casa no Leblon ensanguentada por um menino morto por um disparo de policial. Talvez possamos imaginar também pedidos de desculpas de autoridades e até alguma renúncia.

A questão real que se coloca é se a política de segurança tem como objetivo a minimização dos tiroteios e, sobretudo, a proteção dos moradores de áreas violentas, ou uma suposta vitória militar sem importar o custo.

Essa "vitória" alcançada a despeito da insegurança e mesmo da integridade daqueles que supostamente se pretende proteger seria o equivalente de uma Delegacia Antissequestro que, regularmente, acabasse com a vida dos reféns junto com a dos sequestradores.



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E a guerra civil continua...



domingo, 25 de maio de 2014

FARIAS BRITO E O RISCO DO PENSAMENTO


[Texto editado de autoria de Sérgio de Oliveira Souza publicado em TRAMA - Revista dos pós-graduandos em Filosofia pela UERJ]


A história do pensamento no Brasil é enriquecida pelas inegáveis contribuições de um cearense obstinado, Raimundo de Farias Brito (1862-1917), que assume seu amor pelo saber, elevando-o à paixão. 

É de fato apaixonadamente que ele se dedica à filosofia, por mais que tentem desestimulá-lo ou até impedi-lo. Queixa-se da influência positivista que passa a dominar com Benjamin Constant e que retira a filosofia dos currículos oficiais do ensino brasileiro.

Mas a sua paixão é mais forte e ele resolve que tem o direito de dedicar-se a esta "inutilidade", assim como os outros se dedicam às suas preferências.

Através dele, enquanto procura da "finalidade do mundo", pensadores como Voltaire, Schopenhauer, Kant, Hegel, Feuerbach, Renan, Hamilton, Stuart Mill, Bergson e outros vão sendo apresentados aos leitores (talvez poucos) da época.

Farias Brito trabalha com dois pontos principais: natureza e consciência. Seleciona três pares de diferenças para os quais entende que se deve buscar, pela filosofia, explicação nos universais: vida e morte, prazer e dor, direito e dever. Não era um pessimista, mas estudou essa corrente.

Volta a Sócrates para falar da morte como necessária e a Salomão - citando o Eclesiastes (12,8): "vaidade das vaidades, tudo vaidade". Considera as recíprocas relações entre moral, filosofia e direito. Afirma que a metafísica é uma necessidade  fundamental do espírito humano. Acusa o erro positivista de tentar eliminar a metafísica.

A filosofia é conhecimento em desenvolvimento (in fieri) e a ciência é conhecimento já feito. Entende que filosofia e Poesia andam juntas, pois têm as mesmas fontes ocultas no espírito, sendo que a primeira tem maior extensão, maior alcance.

O nosso organismo dá origem a dois tipos de fenômeno: físicos e psíquicos. Os primeiros dependem das leis do movimento, espaço e tempo e os outros dos fenômenos da consciência (sentimento e conhecimento). A morte é apresentada como solução e garantia de continuidade para a vida e também tem a sua lógica. No entanto, a vida é a verdadeira finalidade do mundo. Toda evolução do cosmo tende para ela, mas em certa ordem: mecanismo, vegetação, animalidade e homem.

O homem, porém, apesar de citado por último na ordem acima, é elemento indispensável para a filosofia, pois nele "se manifesta o fenômeno fundamental da consciência (...) a ação com suas condições formais - o sentimento e o conhecimento."

Para Farias Brito, a filosofia, a religião e a ciência não devem se hostilizar umas às outras, pois têm papéis definidos na sociedade e na formação da consciência e na finalidade universal, mas não são excludentes. A corrente positivista, dominante, está errada ao tentar impor apenas a ciência como referência para o desenvolvimento humano.

A filosofia é "o espírito interrogando a realidade e elaborando o conhecimento". A ciência, por sua vez, tem por fim "estabelecer o domínio do homem sobre a natureza". Para filosofar é necessário imaginação, tem-se que ler "no fundo da consciência", na busca do ideal e no sonho mais legítimo, "a verdade no pensamento, em correspondência com a luz da natureza".

A luz porém não será alcançada sem o auxílio da fé. Mas a fé também é um dos alvos da falsa ciência que tenta matá-la. Então é preciso mantê-la viva. Com que autoridade? Da consciência que sou. Aí está uma "Psicologia Transcendente" que também inclui o questionamento dos questionamentos: "O que há após a morte?" A ciência aqui revela-se incapaz e desautorizada, mas a filosofia auxilia a fé viva que responde através de seus fatos inegáveis ainda que inexplicáveis para a razão.


POST-SCRIPTUM:


A filosofia da consciência de Farias Brito nada perde em seriedade e capacidade argumentativa a qualquer outro pensador que possa ser tomado como referência (a grande maioria estrangeira e imposta aos alunos dos cursos de filosofia).

   

A DECADÊNCIA DA CORRUPÇÃO


[Texto de Millôr Fernandes publicado originalmente em O PASQUIM nº 281]


Pode ser que esta discussão não tenha acontecido, ou tenha, pode ser que eu seja especialista em leis, pode ser que não seja, pode ser que vocês acreditem no que escrevo, pode ser que não. Tudo pode ser e pode não ser ao mesmo tempo. Hamlet perdeu seu tempo e seu latim.

O fato é que meus amigos - que chamaremos de Paulo Pai e Paulo Filho, ou Paulo Sênior e Paulo Junior, para os que preferem anglicismos, Paulo I e Paulo II, para os que ainda suspiram pela monarquia, - tiveram uma discussão.

Paulo Filho estava fazendo 20 anos, uma idade absolutamente provecta para quem, cinco anos antes tinha apenas 15 e está portanto, 1/3 mais velho, e Paulo Pai tocou no delicado assunto de escolha de uma carreira.

Não se tratava mais "do que é que você vai ser agora que já está demasiado crescido" (Paulo Filho tem 1 metro e 83). Pois embora Paulo Pai estime muito o filho, não é dado aos pais, mesmo os mais estimativos, sustentar os estimados filhos até a morte - comumente morte deles próprios, pais, porém, algumas vezes, dos referidos filhos, pois ninguém é tão velho que não possa viver mais um ano nem tão jovem que não possa morrer já.

Pois, então, dialogaram:
- Bem, meu pai - disse Paulo Filho - creio que, ao escolher uma profissão, devo ser prático. Tenho que pensar em algo que, acima de tudo, dê dinheiro.

- Acho que não, meu filho - disse Paulo Pai - o fundamental é o espírito. Você deveria ser um artista.

- Artista, pai? Pouco rendoso. Além do que, e a vocação?

- Bem, se você não quer ser um artista, então seja um pesquisador social, um professor, um filantropo, qualquer atividade que se dirija, enfim, ao bem público.

Paulo Filho pensou que o pai estava ironizando e mostrou-o em palavras:

- Está ironizando, meu pai? Eu estou falando sério.

Paulo Pai, não compreendendo como o filho não via a seriedade de suas propostas, parou de sugerir. Paulo Filho, atencioso, analisou minuciosamente as propostas do pai e mostrou-lhe que eram todas impraticáveis.

Paulo Pai que, como todos os pais, é altamente sensível às razões dos filhos, concordou. E a coisa estava nesse impasse quando Paulo Filho teve uma brilhante ideia. Por que ele não poderia se dedicar à prática do crime, que é uma profissão, afinal, livre, rendosa e aventurosa?

Paulo Pai estremeceu diante da brilhante argumentação do filho, concordou que a proposta, partida de um jovem de alta classe média era, pelo menos, original. E concordou. Nesse instante é que me procuraram, não sei se pela minha sabedoria ou se pelos meus livros de consulta, outra forma da mesma coisa.

A primeira dúvida era, evidentemente, que tipo de especialidade, dentro do vasto ramo Crime. Paulo Filho deveria seguir: o delito leve, atos não distantes da boa conduta social, coisas como dolo, peculato e simples picaretagem ou deveria entrar mesmo no crime mais amplo, incluindo assalto, violência e morte?

Paulo Filho imediatamente colocou a sua posição: "Quero logo deixar bem claro que não desejo dedicar minha vida a nada que não seja intenso e absorvente. Se vou abraçar o crime não pretendo ficar no delito leve, que qualquer leigo pode praticar e que pode ser até cuspir na calçada e chegar atrasado no emprego. Não, se vou me dedicar ao crime, quero me dedicar ao crime. E crime mesmo, para mim, é assassinato."

- Ótimo - disse eu - isso torna tudo mais fácil. Temos definição. Mas, falar em definição, você sabe o que é Assassinato? Assassinato que em inglês se chama 'murder', no latim 'homicidium'...

- Não poderíamos passar por cima da erudição, seu Millôr? - me pediu Paulo Filho. Passei por cima e concluí: "... e consiste em tirar a vida de um ser humano, ilegal e intencionalmente. Passo a explicar ponto por ponto."

- Não precisa - disse Paulo Filho - explique apenas "ilegal e intencionalmente".

Peguei meus códigos mas, ao fim de meia hora de explicações, ambos os Paulos mostravam-se visivelmente cansados e desiludidos: "Realmente não temos condições econômicas para enfrentar esse tipo de atividade."

- Acho que vocês tem toda razão - concordei. - O assassinato é uma atividade extremamente mais complicada do que parece à primeira vista, e, se Paulo Filho vai ingressar nela, tem que estar técnica e teoricamente preparado, porque o menor descuido pode levá-lo a praticar uma morte não apenas desculpável, mas mesmo justificável, chegando até, em alguns dos casos, a ser socialmente desejável.

- O senhor está se referindo a atividade tipo Esquadrão da Morte?

- Não, estou me referindo a Eutanásia. Por que não tenta o roubo?

- É uma boa ideia - disse Paulo Filho, não porque a ideia tivesse partido de mim mas porque, evidentemente, tudo conduzia a isso. - Como é que se define?

- Roubo - disse eu - é o ato de se apropriar de qualquer bem material alheio, com emprego de força ou violência, com invasão de domicílio, estabelecimento comercial, templo...

Parei, respirei e disse a Paulo Filho.

- Não quero desanimá-lo, mas só nesse código, o roubo tem 37 páginas de definição. Tem também, importantíssimo, um Mens Rea.

- O que é isso?

- Uma coisa parecida com ilegal e intencionalmente - chutei - Quer que leia? São só seis páginas.

- Não, não, Millôr, deixa, - me respondeu Paulo Filho decepcionado - é tudo muito complicado. Acho que meu pai tem razão. Vou ser um homem de bem.


POST-SCRIPTUM:


O crime não compensa mesmo hoje em dia?




sexta-feira, 23 de maio de 2014

O ENIGMA DE HERÁCLITO




“Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois o enganaram meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco.” - fragmento 56


A filosofia, da forma como se manifesta entre os pré-socráticos, por seu conteúdo inaugural, tem em comum com a religião grega os mesmos pressupostos, ou seja, a imaginação poética e a intuição da analogias, uma vez que a instauração do questionamento filosófico não se deu pelo rompimento radical com sua herança mitológica,  já que o homem grego não compreendia seus deuses como pertencentes a um mundo sobrenatural, sem embargo de reconhecermos em seu discurso algo totalmente diferente do discurso dos poetas.

Não obstante, cada um, a sua maneira, é obscuro, sinuoso, truncado e, portanto, de difícil compreensão. Por outro lado, apesar da maior dificuldade que apresentam para seu entendimento, têm a vantagem de abranger inúmeros significados simultaneamente.

Sendo assim, nada nos impede de imaginar que uma das chaves para a compreensão do enigma proposto por Heráclito seja o fato de que, segundo as lendas, Homero era cego. Portanto, a continuarmos nesta linha de raciocínio, mesmo tendo sido considerado o mais sábio entre os gregos, este não poderia supor que se tratava de algo tão vulgar quanto a cata de piolhos a resposta à questão colocada pelos tais meninos com o evidente propósito de pilheriar.

Entretanto, não devemos entender a intenção do filósofo, ao enunciar a citada proposição, de forma tão simplória, sob a pena de, também nós, cairmos na armadilha da ilusão.  Até mesmo porque esta não chega nem a ser uma compreensão óbvia, sendo, antes, uma transcrição literal: aquilo que os meninos largam são exatamente aqueles piolhos que eles veem, pegam e matam. Aqueles que eles não veem não podem ser pegos e, portanto, continuam com eles, escondidos.

É evidente que este enigma não aponta apenas para a mera atividade de catar piolhos, pois, como nos diz o próprio Heráclito “não devemos julgar apressadamente as grandes coisas” (fragmento 47). Outras vias de entendimento apontam para uma descrição radical da forma como esse filósofo compreende o movimento de realização das potencialidades vitais, sendo, portanto, bem mais sutis e instigantes.

Num primeiro momento podemos tentar compreender aquilo que Heráclito nos propõe “mais ou menos” como uma metáfora da ilusão dos homens “quanto ao conhecimento das coisas visíveis”. Outrossim, como deixamos claro acima, devemos estar atentos ao fato de que essa compreensão pode dar-se ao nível de variados e diferentes contextos.

O homem está sempre a procura de “pegar” tudo aquilo que vê, ou seja, adquirir um conhecimento imediatista e superficial a respeito do mundo material (as “coisas visíveis”). Esta atitude equivocada leva-o a enganar-se da mesma maneira que o mais sábio de todos os helenos. Agindo assim, afasta-se daquilo que é realmente importante e que não é tão visível, estando, portanto, escondido como os piolhos que não são vistos nem pegos pelos meninos e que, apesar de tudo, “trazemos conosco”, nossos valores e crenças.

Elaborando um pouco mais, podemos dizer que, ao dedicar-se ao assim chamado “mundo sensível”; ao assumir uma postura eminentemente empírica frente ao conhecimento; ao sobrevalorizar um modus operandi essencialmente analítico, o homem está simplesmente a “catar piolhos”, pegando o que vê para, em seguida, “matar” e largar como faria a um pequeno e insignificante inseto, em decorrência mesmo dessa atitude indiferente e desapaixonada associada à atividade de detectar coisas menores.

Desta feita, ao persistir neste caminho, aliena-se, na mesma proporção e com a mesma intensidade, do que seria a sua realidade interior, o “mundo inteligível”. Ou seja, enquanto permanece cego e iludido, apartado de sua autenticidade, despojado de sua espontaneidade e descrente de sua intuição, sendo apenas mais um em meio aos entes, não se apercebe daquela unidade de que compartilha em sua manifestação mais radical que, em síntese, é o Ser. 




POST-SCRIPTUM:



"Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Lógos" (fragmento 45)



  

UM EQUILÍBRIO PRECÁRIO ENTRE O BEM E O MAL


[Texto de Moisés Efraym]


Há muitas implicações decorrentes de uma sentença do tipo "um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal". 

Estas implicações devem, em todo caso, passar por uma investigação acerca das noções de "equilíbrio precário" e "bem" e "mal". É sobre estas noções que se desenrola, de forma geral, o desenvolvimento da abordagem mítica da realidade, como característica inerentemente humana, de elucidação fenomenológica, nas comunidades originárias.

Uma primeira interpretação da expressão "equilíbrio precário" revela uma relação paradoxal, remetendo-nos a palavra "equilíbrio" à ideia de igualdade e a palavra "precário" à ideia de instabilidade; somos, portanto, levados a uma conclusão que deverá fundir, em forma de compreensão, uma dicotomia que manifeste uma unidade inteligível. De que forma é possível esta unidade?

Não por acaso, a sentença "um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal" está intimamente ligada às mais variadas formas assumidas pelo mito em lugares e épocas diferentes. 


Independentemente das possíveis explicações sobre a origem dos mitos, o paradoxo da relação acima citada perpassa a todos sob a forma de um "paradigma imanente". 

Qualquer tentativa de conciliação da dicotomia aludida seria inútil, pois ela só existe se a realidade - como no mito - se torna objeto de investigação pelo homem. Nesse processo de investigação o homem carece de promover uma "ruptura" na maneira de ser da realidade que lhe permita nomear, isoladamente, o complexo fenomênico que o circunda.

A inocência inerente à composição mito-poética desenvolve o caráter simbólico da maneira de ser do real, sem habilitar-se, entretanto, à compreensão da unidade manifesta no "paradigma imanente" que a fundamenta.

Por estar incondicionalmente sujeita a essa limitação, a explicação mítica tende à multiplicidade, antropomorfizada na forma de deuses, semideuses e heróis, e à dicotomia que tem por base o ser humano e suas convicções e sentimentos e também a oposição aparente das diferentes manifestações da natureza tidas como acontecimentos externos ao homem e que se manifestam conforme seu caráter agradável ou desagradável, segundo o julgamento e sensações individuais (o "quente" em oposição ao "frio" ou, tendo como referencial o homem, o "bem" em oposição ao "mal"). 

    

O "paradigma imanente" (que manifesta a unidade do real) e a dicotomia estabelecida pelo mito podem ser verificados na relação entre as mitologias nórdica e grega, por exemplo. 

Atendo-se não à explicação fenomênica do mito mas aos "lugares míticos" pode-se estabelecer a relação que perpassa as diferentes mitologias e está diretamente atada à noção de confronto entre "bem" e "mal".

Asgard e Olimpo representam, respectivamente, nas mitologias nórdica e grega, a "morada dos deuses"; nestes "lugares" residem os soberanos na hierarquia divina. Nifleheim e Tártaro estão em oposição direta àqueles primeiros. Há similitudes e distinções entre as duas manifestações de mitologia que carecem de esclarecimento. Entretanto, não rompem de forma absoluta com a dicotomitização do real que, certamente, compõem a base destas.

Por não dispor de nenhuma fonte prévia de explicação para os fenômenos naturais, a mitologia, fazendo uso dos aspectos inerentes às relações humanas e à personalização em seu caráter individual, interpretou a realidade circundante como resultante de um conflito divino que ensejaria, então, o movimento fenomênico observado.   

  

Tanto nos Eddas nórdicos quanto na Teogonia grega a harmonia reinante no mundo divino é rompida por dissenções havidas entre seus representantes. Esta ruptura cria uma tensão, uma "relação de oposição" entre seres divinos, que possibilita a realidade em sua dinâmica conhecida.

Gaia, a "Mãe Terra", para os gregos e Midgard para os nórdicos, representam o ponto de equilíbrio dessa tensão. Aí se observa, de forma alternada, a atuação das forças do bem e do mal. Na instância "superior" (Olimpo, Asgard) estão os representantes máximos das forças do bem (Zeus, Odin), na "inferior", os representantes máximos das forças do mal (Hades, Surtur).


Hades recebeu de presente de Zeus o reino subterrâneo por apoiar este na luta contra a tirania do próprio pai (Cronos). Quanto a oposição entre Odin e Surtur, esta estava predestinada desde o início dos tempos.

Ainda sobre as mitologias nórdica e grega, existem, respectivamente, o Valhalla e os Campos Elísios, onde hão de fazer morada, após a morte "neste mundo", as almas merecedoras.

O "paradigma imanente" ou unidade do real observa-se na ligação necessária entre essas instâncias. Sem essa ligação a explicação a respeito da realidade, mesmo na multiplicidade estabelecida pelo mito, perde o sentido.


POST-SCRIPTUM:


A forma de ser das coisas na realidade é tão enigmática que, apesar de todo avanço científico-tecnológico e de todo desenvolvimento do pensamento filosófico, a maioria da população ocidental continua encarando o caráter fenomênico da realidade como um "equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal", haja visto sua continuidade na base, por exemplo, das três religiões monoteístas atuais (judaica, cristã e maometana).




sexta-feira, 16 de maio de 2014

O VÍDEO


[Texto de Gonçalo M. Tavares publicado no caderno Prosa & Verso do jornal O GLOBO]


Não te leves demasiado a sério, mas leva a sério o mundo.

Lembro-me do vídeo, mas não do autor. De repente, à nossa frente no ecrã, estava uma bela mulher nua, deitada. Uns seios belos e uma pele que fazia com que o olhar se esquecesse de que existem mais coisas no mundo.

Parece dormir, a bela mulher, os olhos estão fechados.

Por segundos quem vê está na cadeira do desejo e da excitação. E nesses pequenos segundos balança nessa cadeira de um lado para o outro, como que à procura da melhor localização dos seus olhos em relação ao ecrã.

Alguém se aproxima. Está vestido de branco, um homem. Para quem vê a expectativa dirige-se para o que de sexual existe na situação. A cadeira parece um pouco mais desconfortável, estamos perante um vídeo, mas o nosso corpo move-se como se alguém o agitasse.

Subitamente, um pequeno objeto na mão do homem faz um corte brutal no tronco da mulher. Os seios caem, um para cada lado, como sacos. Um mundo acaba. Queremos fugir da cadeira, mas não fugimos antes de perceber que estamos perante a filmagem de uma autópsia. Aquela mulher estava morta há muito. Aquele homem estava a cumprir uma função, era um profissional.

O que choca neste vídeo é o mísero segundo que basta para se passar do desejo para a repugnância. O interior de um corpo é tirado para fora e o belo percebe-se finalmente como uma superfície, uma camada finíssima que se pode quebrar a qualquer momento.

Entre o belo e o horror não apenas o intervalo de um segundo, mas o intervalo de uma camada de pele; a distância: uns milímetros.


POST-SCRIPTUM:

Ah, a beleza, fugaz por natureza...