sexta-feira, 23 de maio de 2014

O ENIGMA DE HERÁCLITO




“Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois o enganaram meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco.” fragmento 56


A filosofia, da forma como se manifesta entre os pré-socráticos, por seu conteúdo inaugural, tem em comum com a religião grega os mesmos pressupostos, ou seja, a imaginação poética e a intuição da analogias, uma vez que a instauração do questionamento filosófico não se deu pelo rompimento radical com sua herança mitológica,  já que o homem grego não compreendia seus deuses como pertencentes a um mundo sobrenatural, sem embargo de reconhecermos em seu discurso algo totalmente diferente do discurso dos poetas.

Não obstante, cada um, a sua maneira, é obscuro, sinuoso, truncado e, portanto, de difícil compreensão. Por outro lado, apesar da maior dificuldade que apresentam para seu entendimento, têm a vantagem de abranger inúmeros significados simultaneamente.

Sendo assim, nada nos impede de imaginar que uma das chaves para a compreensão do enigma proposto por Heráclito seja o fato de que, segundo as lendas, Homero era cego. Portanto, a continuarmos nesta linha de raciocínio, mesmo tendo sido considerado o mais sábio entre os gregos, este não poderia supor que se tratava de algo tão vulgar quanto a cata de piolhos a resposta à questão colocada pelos tais meninos com o evidente propósito de pilheriar.

Entretanto, não devemos entender a intenção do filósofo, ao enunciar a citada proposição, de forma tão simplória, sob a pena de, também nós, cairmos na armadilha da ilusão.  Até mesmo porque esta não chega nem a ser uma compreensão óbvia, sendo, antes, uma transcrição literal: aquilo que os meninos largam são exatamente aqueles piolhos que eles veem, pegam e matam. Aqueles que eles não veem não podem ser pegos e, portanto, continuam com eles, escondidos.

É evidente que este enigma não aponta apenas para a mera atividade de catar piolhos, pois, como nos diz o próprio Heráclito “não devemos julgar apressadamente as grandes coisas” (fragmento 47). Outras vias de entendimento apontam para uma descrição radical da forma como esse filósofo compreende o movimento de realização das potencialidades vitais, sendo, portanto, bem mais sutis e instigantes.

Num primeiro momento podemos tentar compreender aquilo que Heráclito nos propõe “mais ou menos” como uma metáfora da ilusão dos homens “quanto ao conhecimento das coisas visíveis”. Outrossim, como deixamos claro acima, devemos estar atentos ao fato de que essa compreensão pode dar-se ao nível de variados e diferentes contextos.

O homem está sempre a procura de “pegar” tudo aquilo que vê, ou seja, adquirir um conhecimento imediatista e superficial a respeito do mundo material (as “coisas visíveis”). Esta atitude equivocada leva-o a enganar-se da mesma maneira que o mais sábio de todos os helenos. Agindo assim, afasta-se daquilo que é realmente importante e que não é tão visível, estando, portanto, escondido como os piolhos que não são vistos nem pegos pelos meninos e que, apesar de tudo, “trazemos conosco”, nossos valores e crenças.

Elaborando um pouco mais, podemos dizer que, ao dedicar-se ao assim chamado “mundo sensível”; ao assumir uma postura eminentemente empírica frente ao conhecimento; ao sobrevalorizar um modus operandi essencialmente analítico, o homem está simplesmente a “catar piolhos”, pegando o que vê para, em seguida, “matar” e largar como faria a um pequeno e insignificante inseto, em decorrência mesmo dessa atitude indiferente e desapaixonada associada à atividade de detectar coisas menores.

Desta feita, ao persistir neste caminho, aliena-se, na mesma proporção e com a mesma intensidade, do que seria a sua realidade interior, o “mundo inteligível”. Ou seja, enquanto permanece cego e iludido, apartado de sua autenticidade, despojado de sua espontaneidade e descrente de sua intuição, sendo apenas mais um em meio aos entes, não se apercebe daquela unidade de que compartilha em sua manifestação mais radical que, em síntese, é o Ser. 




POST-SCRIPTUM:



"Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Lógos" (fragmento 45)



  

UM EQUILÍBRIO PRECÁRIO ENTRE O BEM E O MAL


[Texto de Moisés Efraym]


Há muitas implicações decorrentes de uma sentença do tipo "um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal". 

Estas implicações devem, em todo caso, passar por uma investigação acerca das noções de "equilíbrio precário" e "bem" e "mal". É sobre estas noções que se desenrola, de forma geral, o desenvolvimento da abordagem mítica da realidade, como característica inerentemente humana, de elucidação fenomenológica, nas comunidades originárias.

Uma primeira interpretação da expressão "equilíbrio precário" revela uma relação paradoxal, remetendo-nos a palavra "equilíbrio" à ideia de igualdade e a palavra "precário" à ideia de instabilidade; somos, portanto, levados a uma conclusão que deverá fundir, em forma de compreensão, uma dicotomia que manifeste uma unidade inteligível. De que forma é possível esta unidade?

Não por acaso, a sentença "um equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal" está intimamente ligada às mais variadas formas assumidas pelo mito em lugares e épocas diferentes. 


Independentemente das possíveis explicações sobre a origem dos mitos, o paradoxo da relação acima citada perpassa a todos sob a forma de um "paradigma imanente". 

Qualquer tentativa de conciliação da dicotomia aludida seria inútil, pois ela só existe se a realidade - como no mito - se torna objeto de investigação pelo homem. Nesse processo de investigação o homem carece de promover uma "ruptura" na maneira de ser da realidade que lhe permita nomear, isoladamente, o complexo fenomênico que o circunda.

A inocência inerente à composição mito-poética desenvolve o caráter simbólico da maneira de ser do real, sem habilitar-se, entretanto, à compreensão da unidade manifesta no "paradigma imanente" que a fundamenta.

Por estar incondicionalmente sujeita a essa limitação, a explicação mítica tende à multiplicidade, antropomorfizada na forma de deuses, semideuses e heróis, e à dicotomia que tem por base o ser humano e suas convicções e sentimentos e também a oposição aparente das diferentes manifestações da natureza tidas como acontecimentos externos ao homem e que se manifestam conforme seu caráter agradável ou desagradável, segundo o julgamento e sensações individuais (o "quente" em oposição ao "frio" ou, tendo como referencial o homem, o "bem" em oposição ao "mal"). 

    

O "paradigma imanente" (que manifesta a unidade do real) e a dicotomia estabelecida pelo mito podem ser verificados na relação entre as mitologias nórdica e grega, por exemplo. 

Atendo-se não à explicação fenomênica do mito mas aos "lugares míticos" pode-se estabelecer a relação que perpassa as diferentes mitologias e está diretamente atada à noção de confronto entre "bem" e "mal".

Asgard e Olimpo representam, respectivamente, nas mitologias nórdica e grega, a "morada dos deuses"; nestes "lugares" residem os soberanos na hierarquia divina. Nifleheim e Tártaro estão em oposição direta àqueles primeiros. Há similitudes e distinções entre as duas manifestações de mitologia que carecem de esclarecimento. Entretanto, não rompem de forma absoluta com a dicotomitização do real que, certamente, compõem a base destas.

Por não dispor de nenhuma fonte prévia de explicação para os fenômenos naturais, a mitologia, fazendo uso dos aspectos inerentes às relações humanas e à personalização em seu caráter individual, interpretou a realidade circundante como resultante de um conflito divino que ensejaria, então, o movimento fenomênico observado.   

  

Tanto nos Eddas nórdicos quanto na Teogonia grega a harmonia reinante no mundo divino é rompida por dissenções havidas entre seus representantes. Esta ruptura cria uma tensão, uma "relação de oposição" entre seres divinos, que possibilita a realidade em sua dinâmica conhecida.

Gaia, a "Mãe Terra", para os gregos e Midgard para os nórdicos, representam o ponto de equilíbrio dessa tensão. Aí se observa, de forma alternada, a atuação das forças do bem e do mal. Na instância "superior" (Olimpo, Asgard) estão os representantes máximos das forças do bem (Zeus, Odin), na "inferior", os representantes máximos das forças do mal (Hades, Surtur).


Hades recebeu de presente de Zeus o reino subterrâneo por apoiar este na luta contra a tirania do próprio pai (Cronos). Quanto a oposição entre Odin e Surtur, esta estava predestinada desde o início dos tempos.

Ainda sobre as mitologias nórdica e grega, existem, respectivamente, o Valhalla e os Campos Elísios, onde hão de fazer morada, após a morte "neste mundo", as almas merecedoras.

O "paradigma imanente" ou unidade do real observa-se na ligação necessária entre essas instâncias. Sem essa ligação a explicação a respeito da realidade, mesmo na multiplicidade estabelecida pelo mito, perde o sentido.


POST-SCRIPTUM:


A forma de ser das coisas na realidade é tão enigmática que, apesar de todo avanço científico-tecnológico e de todo desenvolvimento do pensamento filosófico, a maioria da população ocidental continua encarando o caráter fenomênico da realidade como um "equilíbrio precário entre as forças do bem e do mal", haja visto sua continuidade na base, por exemplo, das três religiões monoteístas atuais (judaica, cristã e maometana).