segunda-feira, 4 de março de 2013

RELIGIÃO X CIÊNCIA: A "OUTRA LÓGICA"


                                                                                            "Noli foras ire, in interiore homine habitat veritas" 

         (adágio alquimista) 




Pois é, a visão estritamente científica (vide tópico anterior) dá a entender que não se deve misturar "alhos com bugalhos". Até aí nenhuma surpresa: é o que se deve esperar da ciência convencional. O que não quer dizer que esta seja a dona da verdade e que outras posições até mesmo opostas não devam ser consideradas.








Que fique bem claro e que não haja margem para mal-entendidos: no contexto geral eu concordo com  grande parte das declarações do professor (novamente, vide tópico anterior); evidentemente a pesquisa científica deve continuar. A descoberta do 'bóson de Higgs' é uma peça fundamental para o desenvolvimento da física na medida em que o próximo passo das pesquisas de alto nível envolverá muito provavelmente um maior empenho no sentido da tentativa de confirmação empírica da 'Teoria das Cordas', por exemplo (uma das consequências inevitáveis dos atuais experimentos).









Além do que, paralelamente traz um benefício extra e imprevisto (ainda que, sou forçado a admitir, este seja um insight pessoal): o de "abrir portas" inéditas à especulação filosófica. Talvez até no sentido de reabilitar e consolidar o estudo da metafísica em bases estritamente científicas, tanto na teoria (uma 'mitofísica') quanto, - quem sabe? -, na prática (hein!?!), mesmo admitindo-se as evidentes dificuldades inerentes ao manuseio de partículas tão elusivas (calma gente, humor e credibilidade não precisam necessariamente ser auto excludentes).








Mas isso ainda é assunto para ficção-científica, apesar de pertinente. A questão é outra: tem a ver com a guerra surda que a cultura oficial vem travando a séculos contra os poderes da imaginação e que pode levar, eventualmente, à falência do sistema educacional institucionalizado em nível global - alguns sintomas sociais e políticos ao redor do mundo já dão sinais disso - e consequentemente a uma 'desvalorização dos ativos', digamos assim, da assim-chamada Civilização Ocidental (com letras maiúsculas, por favor!). Num paralelo talvez não muito feliz, pode-se dizer que, na bolsa de valores cósmica, as ações do empreendimento CIVILIZATION INC. estão certamente em baixa...






Mas o que isso tem a ver com o título desta postagem? Nada? Talvez tudo. Ignoremos por um momento o 'nada' e concentremo-nos no 'tudo'. Para quem não percebeu ainda e indo além das consequências óbvias, completar o quadro de partículas do 'Modelo Padrão' também significa dar sentido, dar autenticidade, dar legitimidade, enfim, admitir sem dúvidas ou restrições a verdade incontestável desta 'jornada sagrada', a Ciência, que se representa com total isenção e consciência tranquila (alguém aí falou em bomba atômica?).








Em imperfeita sincronia temos a trama paralela e profana que é a vida política, social e econômica não-oficiais, este drama quase shakespeariano que experimentamos como a tão decantada - e decadente - vida cotidiana. 'Deus não joga dados'? Pode apostar que sim! 









Tudo parece muito confuso (e quem disser que não, é muito ingênuo ou está de má fé). Mas ao mesmo tempo é divertido e surpreendente. Quem pode negar a semelhança simbólica - dentro dos parâmetros de uma abordagem apoiada nas mais recentes descobertas de campo de diversas especialidades acadêmicas tão zelosamente cientes de seu positivismo e de sua razão "ciumenta e poderosa" (que Iavé não nos ouça!) - quem pode negar, repetimos, que essa pretensão cientificista a uma verdade única e soberana não tem conotações nítidas e nada sutis com um fenômeno de dimensões religiosas?









O que é a busca científica da tão propalada 'Teoria de Tudo' - que reconhecidamente resolveria problemas importantes como conciliar a teoria quântica com a relatividade geral - do que, também, a renovação do ciclo mítico do Santo Graal?  







"Lógica única?" - poderíamos perguntar a Aristóteles, usando a imaginação a fim de libertar o potencial criativo de uma "outra lógica". Essa mesma imaginação tantas vezes defenestrada, desqualificada e desmoralizada ao longo de uma história do pensamento que se acredita muito correta e, em decorrência, séria demais.








Tudo isso para finalmente dizer que, sim, é possível fazer ciência da religião, bem como ter um sentimento de religiosidade autêntica na nossa relação com a physis, incluindo "no pacote" o respeito ao meio-ambiente, a produção responsável de riquezas e bem-estar para usufruto mútuo de toda a humanidade, a prática de atividades intelectuais e/ou lúdicas (as artes, a matemática, o ócio irresponsável ou a mera diversão), bem como, e acima de tudo, o respeito pelos outros seres humanos, vivos ou mortos.









Neste devir que o dia-a-dia confirma como ciclos dentro de ciclos há que se dar um crédito quase arquetípico à matemática de Cantor e à sua Teoria dos Conjuntos, com seus infinitos dentro de infinitos ainda maiores, ou ao Teorema da Incompletude de Godel, por exemplo, bem como às intuições geniais de homens como Heráclito, Sócrates, Platão, Aristóteles, DaVinci, Giordano Bruno, Galileu, Newton, Freud, Jung, Hegel, Marx, Durkheim, Weber, Nietzsche, Darwin, Plank, Einstein, Bohr e Teilhard de Chardin (entre tantos outros) para citar apenas alguns gigantes aparentemente tão díspares entre si. 







"Samba do crioulo doido?" A Escola de Samba Unidos do Paradoxo apresenta seu enredo para este ano...









Religião? Ciência? Arte? Política? Tais conceitos, assim como os de lógica, racionalidade, evolução, acaso, complexidade, caos, estrutura, ser, vida, morte e Deus, por exemplo, entre tantos outros, já estão há algum tempo passando por revisões inevitavelmente necessárias, desde que as sementes de tal iniciativa foram plantadas nos dois últimos séculos (XIX e XX) por artistas, acadêmicos, filósofos, escritores e até mesmo cientistas que, cada um a seu modo, nos dias de hoje, podemos considerar legítimos herdeiros culturais de movimentos como o Romantismo, o Simbolismo e o Surrealismo, por exemplo, ainda que necessariamente num contexto de pós-modernidade "barroca".








Mas o que é isso que me dizem? O pós-modernismo é uma moda ultrapassada que não chegou realmente a lugar nenhum? O desconstrutivismo é um beco sem saída dentro de um labirinto onde o Minotauro joga cartas com Sísifo? Não importa: como se dizia no século passado, "a luta continua". O problema é a dificuldade cada vez maior em identificar contra quem e o que lutar...






Tá feia a coisa? Tá. Só que não adianta ficar se lamentando ou pondo a culpa nos outros; todos somos responsáveis, em maior ou menor grau, por este vazio inconveniente (digamos assim, para não sermos acusados de exagerados) que já se instalou há um bom tempo nos corações e mentes dos homens e mulheres de nosso tempo. 







Inconveniente este que só se agrava na medida em que o liberalismo triunfante e sem adversários enreda a tudo e a todos, inclusive a si mesmo, nas armadilhas da lógica de mercado, e que não tem pudores ou preconceitos contra a ciência ou a religião.








Que o digam Bill Gates ou o 'bispo' Macedo, para citar dois exemplos bem afastados tanto em termos geográficos quanto em relação às atividades em questão, numa comparação aparentemente estapafúrdia mas ainda assim que remete ao mesmo raciocínio financeiro-especulativo. Vai dizer que não?








Não nos deixemos iludir por nossa própria miopia intelectual: qualquer coisa que poderia ser designada como "espírito" (seja no sentido filosófico quanto religioso), há muito se retirou da nossa realidade mundana e diuturna, ou daquilo a que ainda poderíamos nos referir como "alma do mundo". O dinheiro é o único Deus que é levado a sério: temos que admitir isso se não quisermos passar por hipócritas.








Tal desencantamento funesto, seja em que sentido se prefira acolher, vai continuar nos levando à falência civilizatória e não há argumentos que possam negá-lo. A esperança, de uma forma geral, está em vias de se tornar moribunda, já que o futuro só é considerado no curto prazo dos investimentos monetários, enquanto que a preocupação com as gerações vindouras insensivelmente se dilui num 'projeto às avessas', embasado numa ilusão consumista imediata e idiota.







O fato é que a Modernidade não cumpriu as promessas do Iluminismo e cabe a todos nós darmos uma parada estratégica e analisarmos em profundidade e com consciência crítica (a mais radical possível) os eventuais desvios e as possíveis correções de rumo. 






Aprender com o erro e não ter vergonha de tentar de novo! Pois não podemos continuar nos enganando: vivemos uma intensa crise civilizatória que exige, antes de mais nada e acima de tudo, uma refundação de nossas raízes judaico-cristãs, helenísticas e romanas, conforme sugere Jean-Claude Guillebaud em seu livro "A REINVENÇÃO DO MUNDO", não sem levar em conta toda a autocrítica que se processou no século XX e que precisa continuar, num processo que não pode prescindir das contribuições do Islã, das culturas orientais, da África negra e dos povos indígenas que sobrevivem a duras penas.







Uma refundação de princípios, mas não por um viés nostálgico, ou na aposta sempre provada como ineficaz pela História numa 'terceira via' apaziguante e condescendente, ou muito menos numa derrelição total que conduziria invariavelmente (como já está fazendo lentamente, mas em aceleração constante) a um 'vale-tudo' estúpido que é, em última instância, genocida e suicida. Alguém se habilita a discordar?   







Refundação, sim, pois como diria Nietzsche, "como pudemos nós esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte?". Ou de forma menos poética Pierre Legendre: "A humanidade está sendo acossada pela necessidade de se alicerçar para poder viver".  









Imbuídos de uma compreensão sagaz ou de uma intuição inconsciente, sabemos que a informação sofre necessariamente um processo comprovado e contínuo de disseminação que não pode ser detido, e cuja flecha do tempo corre oposta àquela que orienta a inevitável decadência decorrente da entropia; assim sendo, temos que manter acesa a chama da Imaginação, acima de toda controvérsia ilusória entre Ciência e Religião, propondo e apresentando um diálogo fecundo entre idéias, algumas geniais, outras "mucho locas", mas acima de tudo visando um maior e melhor entendimento do homem e do mundo.







Mais sobre o assunto futuramente, quando pretendo discutir as idéias do físico indiano Amit Goswami em seu livro "O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE". Paz à todos!







POST-SCRIPTUM:




"O que está embaixo é igual ao que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar o milagre de uma só coisa." (A Tábua de Esmeralda)