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domingo, 16 de março de 2014

A COPA DO CU DO MUNDO



[Editado a partir de um artigo publicado no jornal O GLOBO em 01.03.2014 da autoria de José Miguel Wisnik]


Numa sequência ao mesmo tempo divertida e contundente, na base do programa de auditório, joga-se com a iminência da realização, no Brasil, desse maior espetáculo da Terra, que é chamado nada mais nada menos do que a Copa do Cu do Mundo.

Todo o sentido crítico que se possa, toda a virada pelo avesso do padrão Fifa, exibido pela culatra, toda a remissão às misérias, às derrisões e aos terrores da doença brasileira, tudo está aí, nesse nome.

Mas também, no reconhecimento disso, a capacidade de afirmar a potência da cultura (com trocadilho), de rir das máscaras canastronas, de exercer o apetite de viver e, por incrível que pudesse ser e é, de marcar um lugar original no planeta. É claro que isso só pode ser afirmado em vista da grandeza artística do todo, e no modo como o espetáculo vai fundo na experiência social e vital do país.

A discutida camiseta da Adidas para a Copa, onde se estampa "I love Brazil" na forma de um coração-bunda, é uma versão limitada, mercadológica pitoresca e não assumida do fato de que se olha difusamente a Copa do Brasil como uma espécie de Copa do Cu do Mundo.

Não o quarto mundo, não o cu do mundo, mas a quarta dimensão do cu do mundo.

POST-SCRIPTUM:

"O futuro do Brasil é tão grandioso que não há abismo em que caiba." - Agostinho da Silva

Será mesmo? Espero sinceramente que sim, senão corremos o sério risco de atolar num esgoto metafórico...



quarta-feira, 20 de abril de 2011

LOUCURA x 'BULLYING'



[Texto editado a partir da matéria publicada no jornal DESTAK em 11 de abril de 2011 sob o título “O mal existe”, de autoria de seu diretor editorial Fábio Santos]



Impossível evitar perguntas e não arriscar respostas diante de um episódio tão aterrador como o massacre de estudantes numa escola em Realengo, no Rio.

Matar crianças assim, como pode? Por quê?



Talvez seja essa a síntese de todas as indagações que percorrem nossas mentes assustadas frente à tamanha crueldade. 






Passados alguns dias da terrível tragédia, começa a se consolidar a idéia de que as ações de Wellington são fruto de uma mente perturbada que foi submetida à incompreensão e à crueldade de seus antigos colegas naquela mesma escola.

Ele teria sido uma vítima do chamado 'bullying', a palavra que incorporamos do inglês para descrever a crueldade infantil contra os mais fracos e menos adequados. Mas quanta gente foi alvo desse tipo de perseguição quando criança e não se torna um assassino?





Muitos se surpreenderam por esse ser um episódio raro no Brasil. "Agora importamos até crimes dos Estados Unidos", comentam alguns. Até parece que no tocante ao exercício da maldade precisamos importar algo. Wellington só é raro porque matou crianças dentro de uma escola.

Quem não se lembra da chacina da Candelária? Ali eram meninos de rua sendo mortos por policiais.

Onde estava a loucura?

E os jovens que queimaram um índio em Brasília?

Ou o grupo de garotos que espancou um mendigo até a morte na Paraíba ano passado?






POST-SCRIPTUM:



Não há como não concordar com as colocações do autor quanto à capacidade para a crueldade do brasileiro, que não deixa nada a dever ao norte-americano ou, diga-se de passagem, a nenhum outro povo da Terra.



Entretanto cabem alguns reparos quanto a seu questionamento em relação ao bullying, principalmente no que se refere ao fato de Wellington ter retornado ESPECIFICAMENTE àquela escola onde estudou.






Claro, ele certamente era um desequilibrado mental. Cometeria ele algum outro crime tão bárbaro quanto esse eventualmente, se não tivesse sido detido? Talvez sim, talvez não. Não há como ter certeza absoluta.



Assim como não há como ter certeza absoluta se não haveria outras partes envolvidas que teriam influenciado ou incentivado o assassino de alguma forma. Penso que a polícia não devia descartar tal hipótese sem uma investigação mais aprofundada, por menos provável que ela possa parecer.







Entretanto, a questão que parece escapar à maioria das pessoas é que Wellington voltou ESPECIFICAMENTE à escola onde estudou e onde sofreu as mais cruéis humilhações.



Tem-se feito muito alarde quanto à suposta esquizofrenia do assassino e quanto à fatalidade “imprevisível” de algo assim acontecer no Brasil, onde o povo é tão “pacífico” e “cordial”.







Ora, faça-me o favor! Se esse rapaz não tivesse sofrido bullying ESPECIFICAMENTE na escola onde estudou é de se supor que ele fosse descarregar suas frustrações em outro lugar e talvez mesmo de outra forma.



Até mesmo a loucura segue certos padrões, por mais ilógicos que pareçam. Wellington tinha com certeza a intenção de vingar-se de algo que ele identificava como insuportável em seu passado, no caso, aparentemente, os mal-tratos sofridos nas mãos de outros meninos e o desprezo por parte das meninas.





Talvez tenha mesmo pensado em matar aqueles que ele identificava como responsáveis diretos por suas experiências traumatizantes. Mas ele não era um alienado total: provavelmente percebera as dificuldades inerentes em localizar e matar cada um de seus algozes e, num processo muito comum de transferência, decidiu vingar-se do "ambiente mental" associado a seu trauma, o local ESPECÍFICO onde ocorrera sua vergonha, ou seja, a escola e os alunos lá presentes.



Ainda que outros e sem a menor relação aparente com aqueles a quem ele considerava culpados, ainda assim, em sua mente doentia, Wellington talvez os enxergasse por uma lógica míope como praticantes, sobre outras vítimas, das mesmas indignações por ele sofridas no passado naquela escola ESPECÍFICA.







E o argumento de que ele só queria matar meninas não se sustenta. Pelo menos dois meninos também foram alvejados e o número maior de vítimas do sexo feminino provavelmente seja um mero acaso ou coincidência. As meninas talvez fossem em maior número nas salas onde ele primeiro atacou e, se tivesse mais tempo para continuar sua missão macabra, penso que haveria mais vítimas do sexo masculino.



Ou, quem sabe, talvez a componente sexual associada a sua psicose o tivesse realmente levado a priorizar os alvos femininos, mas, de qualquer maneira, esse é apenas um detalhe: o fato concreto é que vidas inocentes foram tiradas em decorrência de circunstâncias bem ESPECÍFICAS e que poderiam ter sido evitadas. 








Os casos de bullying no Brasil e no resto do mundo são cada vez mais divulgados pela imprensa e denunciados tanto por quem o sofreu no passado como por suas atuais vítimas.



As mais variadas pesquisas referentes ao assunto dão conta de que, pelo menos, entre 40% a 60% da população em idade escolar sofre algum tipo de abuso físico ou psicológico tanto por parte dos colegas quanto – pasmem! – dos professores.







POST-SCRIPTUM:


Este é um assunto muito importante e que até pouco tempo atrás não merecia a devida atenção das autoridades. Esperemos que a partir de agora este panorama mude radicalmente e que a sociedade se conscientize de sua própria hipocrisia. Se oxalá assim acontecer, esta terá sido, infelizmente, a única e desagradável conseqüência positiva resultante do odioso ato de Wellington...






segunda-feira, 19 de abril de 2010

MORTE LENTA





































A humanidade consome a cada ano, de forma irresponsável, uma porcentagem cada vez maior dos recursos naturais do planeta e emite uma quantidade também crescente de dejetos e gases que contribuem para pôr em risco os ecossistemas de que todos nós dependemos.

Apesar da importância do problema, a grande maioria dos países está mais interessada na manutenção dos seus privilégios do que na preservação da Terra para as gerações futuras.

Ironicamente, três quartos da população terrestre permanecem à margem dos benefícios duvidosos oriundos dessa voracidade insustentável. Porém, o ritmo de crescimento econômico de países emergentes como a China, a Índia e o Brasil, por exemplo, demonstra nitidamente que a raça humana está enveredando por um caminho, talvez sem volta, que nos levará eventualmente a uma taxa de consumo sem precedentes e para muito além dos atuais excessos.

É urgente a necessidade de mudança de rumo, ou as riquezas naturais de nosso planeta - nossa fauna e nossa flora, nossos rios e nossos mares, nosso ar e nosso solo - certamente terão, e muito antes do que se possa imaginar, o mesmo destino irreversível previsto para os combustíveis fósseis: a extinção, seja por esgotamento ou por envenenamento. E não nos iludamos pensando que, tendo transformado a Terra numa bola de lama envolta numa atmosfera de gás tóxico, desprovida das mínimas condições para sustentar a vida, nossa espécie poderá sobreviver por muito mais tempo depois. 

Pelo menos não neste planeta...



domingo, 2 de agosto de 2009

COOPERAÇÃO OU EXTINÇÃO?



























A guerra sempre foi inerente ao homem em sua escalada civilizatória na mesma medida em que a violência e o conflito, de uma forma ou de outra, são também inerentes à própria existência como um todo, o que é fácil de constatar se tivermos a honestidade intelectual de observar a realidade em todas as suas instâncias com a devida isenção.

Podemos supor, entretanto, que o 'homo sapiens' esteja também sujeito à evolução social, além da biológica, e que a mesma, eventualmente, reforce a tendência a sofisticar as formas de resolução dos conflitos, substituindo a opção das guerras propriamente ditas por outras menos violentas como, por exemplo, o debate e a diplomacia.

Quando falo em ‘evolução social’ devo admitir que o faça baseado em certas observações empíricas inegavelmente discutíveis (o paralelo com a evolução biológica, por exemplo), porém não totalmente descabidas; mas também o faço por uma opção pragmática (prefiro apostar que ‘o copo está meio cheio’ do que ‘meio vazio’) e por convicção ideológica (uma fé difusa e aparentemente irracional no potencial do gênero humano, mas as aparências às vezes enganam). Entretanto não acho desejável a opção pela extinção completa da agressividade, uma vez que é dela, em última análise, que depende o instinto de sobrevivência de qualquer organismo vivo.

A questão da guerra, especificamente, assim como outras questões que envolvem interesses particulares de indivíduos ou grupos, não será resolvida com um discurso moral por si só decadente e inócuo. E ainda que manipulados por líderes desonestos, os homens continuam acreditando que fazem a guerra por motivos justos. Aliás, o que mais temos hoje são guerras ‘justas’, segundo o mesmo padrão que se usa para afirmar que a guerra é ‘imoral’.

Diz-se que a necessidade é a mãe da invenção; somente quando chegarmos ao ponto em que o homem perceba, se é que o fará (só nos resta torcer que sim), que a sobrevivência da espécie está ameaçada e que a cooperação é a única saída viável poderemos, talvez, nos tornar algo diferente do que temos sido no último milhão de anos.


"Se pensarmos em quantas coisas além de fronteiras entre estados as guerras da história decidiram, temos de sentir um respeitoso assombro, a despeito de todos os horrores. Nossa verdadeira civilização, tão boa quanto ruim, teve as guerras passadas como condição determinante" (William James)


DESTINO E O SENTIDO DA VIDA





































A questão de haver ou não um sentido ou propósito para a vida depende simplesmente da opção consciente de cada ser pensante. Tais coisas não existem independentes de quem as concebe; somos nós, tanto enquanto indivíduos quanto coletivamente, que decidimos se as há ou não, e quais seriam as mesmas, ainda que sujeitos ao ambiente cultural em que nascemos.

Quanto ao ‘destino’, é mais provável que não exista, pelo menos não de forma absoluta; certamente existe alguma pré-determinação, decorrente seja das condições iniciais do próprio universo, seja da nossa circunstância imediata, manifestando-se como certa tendência imanente; entretanto é razoável acreditar que, ainda assim, certamente deve haver um amplo espaço para que criaturas inteligentes interfiram de forma significativa no desenvolvimento do próprio universo como um todo, bem como no de suas próprias vidas individuais.

Apesar de que, de certa forma, uma distinção rigorosa entre 'destino' e 'acaso' talvez não passe de uma questão semântica. É o que alguns filósofos chamariam de "um falso problema", uma vez que, se existirem, não há como termos controle sobre um ou outro, por mais que criemos artifícios inteligentes para tentar, supostamente, contorná-los e que garantam de forma definitiva e absoluta nossa tão venerada segurança, nem nosso tão desejado conforto, num universo que só se deixa compreender até certo ponto. 

Como bem coloca Jennifer Michael Hecht, a autora do livro 'Dúvida: Uma História', "vivemos entre duas realidades divergentes: existe um mundo em nossa cabeça - e em nossa vida, enquanto não somos contrariados pela morte ou pela catástrofe - e um mundo para além da vida humana - também real, mas onde não há mostras de providência ou valor, planejamento ou julgamento, amor ou alegria", pelo menos aparentemente, eu diria. E continua: "vivemos em meio a uma ruptura de significados porque somos humanos e o universo não é".

"Passamos a vida inteira às voltas com um mistério intrigante e nem sequer temos esperança de chegar a uma resposta, se é que alguma existe. (...) os problemas precisam ser resolvidos, mas os mistérios têm de ser desfrutados intactos - aliás seríamos mais felizes se encarássemos o universo e a existência como mistérios."

Pode-se até discordar no todo ou em parte, mas não há como negar que faz mais sentido do que muitas idéias religiosas que circulam por aí prometendo recompensas ou castigos eternos no além-túmulo.

Toda essa questão relativa à oposição entre uma realidade acidental ou necessária nos obriga também a contemplar o lugar do "livre-arbítrio" nesse esquema de coisas; destino, acaso, ação voluntária: parafraseando a atividade matemática, como formular uma 'equação' que dê sentido vital a nossa existência tão particular como entidades pensantes, tanto individual quanto coletivamente, utilizando tais 'incógnitas'? E quais conjuntos de regras e axiomas poderíamos imaginar a fim de dar consistência a tal empreitada?

A relatividade geral de Einstein; o princípio da incerteza de Heisenberg; a Teoria do Caos; o estudo dos Fractais; os números transfinitos de Cantor; o teorema da incompletude de Gödel; a lógica paraconsistente; as relações sutis e nem um pouco óbvias entre a matemática, a música e a poesia; a mitologia comparada; as diversas práticas divinatórias e os exercícios físicos e psicológicos preconizados por tradições místicas tanto ocidentais quanto orientais. Estas e inúmeras outras conquistas do pensamento tanto científico quanto religioso, mas acima de tudo filosófico, podem nos dar pistas significativas para apontar o 'caminho' (ou 'caminhos').

Caminho este que - segundo as mais eminentes tradições espirituais (o Zen-budismo, a Kabbalah, o Sufismo, o Taoísmo, etc.) - é mais importante que o porto de chegada. Até porque (e pedindo licença a Fernando Pessoa) tal porto não está lá para que atraquemos nossas míseras - ainda que imponentes - caravelas, feitas de imaginação e vontade, que navegam, com precários - mas também não menos imponentes - instrumentos, sobre o oceano do Abismo. 

Entretanto, algumas daquelas mesmas tradições veneráveis dizem que tal porto está bem perto: aqui mesmo, dentro de nossos corações e mentes, a apenas algumas remadas de distância do egoismo e da vaidade...

Tudo isto me lembra a cena final do filme "Forrest Gump - O Contador de Histórias" em que o protagonista tem uma 'conversa' com sua falecida esposa diante do túmulo da mesma: 

"Minha mãe dizia que a morte faz parte da vida. Eu queria que não fizesse. Eu não sei se cada um de nós tem um destino ou se estamos apenas flutuando por aí, ao acaso, numa brisa. Mas eu acho que são ambos. Talvez as duas coisas estejam acontecendo ao mesmo tempo".