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quarta-feira, 19 de março de 2014

MICHEL FOUCAULT



[Adaptado de uma reportagem publicada no caderno 'Prosa & Verso' do jornal O GLOBO, em 11.01.2014]


No ano em que se completam três décadas da morte do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) presto aqui minha homenagem aquele que foi o pensador libertário das marginalidades sociais e das minorias culturais, raciais e sexuais.

Foucault expunha uma visão da cultura e da História que não pretendia explicar o presente pelo passado. Preferia investigar os discursos que condicionam as formas de ver e julgar, e analisar a maneira pela qual a cultura contemporânea determina as condições de possibilidade do novo. Construiu assim sua arqueologia da cultura ocidental.


POST-SCRIPTUM:


A seguir um trecho de declarações feitas pelo filósofo, em entrevista concedida ao "Jornal da Tarde", numa visita ao Brasil poucos dias depois do assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes da ditadura militar em 1975:

"A dialética mestre-escravo, segundo Hegel, é o mecanismo pelo qual o poder do mestre se esvazia pelo fato mesmo de seu exercício. A certa altura ele se encontra na dependência do escravo, não tendo mais poder porque cessou de exercê-lo. 

Quero mostrar o oposto: que o poder se reforça pelo seu próprio exercício - não passa sub-repticiamente para o outro lado. Desde 1831, a Europa não parou de pensar que a derrubada do capitalismo era iminente. Isso muito antes de Marx. E ele está aí. Não digo que ele nunca será desenraizado. Mas que o custo de sua derrubada não é o que imaginamos.

Se essas lutas são feitas em nome de alguma essência do homem, tal como ela foi construída no pensamento do século XVIII, eu diria que essas lutas estão perdidas. Porque elas serão conduzidas em nome do homem abstrato, do homem 'normal', do homem 'de boa saúde', que é o precipitado de uma série de poderes.

Agora, se quisermos fazer a crítica desses poderes, não se deve efetuá-la em nome de uma ideia do homem construída a partir desses poderes. Quando o marxismo vulgar fala do homem completo, do homem reconciliado com ele mesmo, de que se trata? Do homem 'normal', do homem 'equilibrado'. Quando se formou a imagem desse homem? A partir de um saber e de um poder psiquiátrico, médico, um poder 'normalizador'. 

Fazer crítica política em nome desse humanismo significa reintroduzir na arma do combate aquilo contra o qual combatemos."



sábado, 10 de agosto de 2013

SEGUIDORES? SIM, OBRIGADO!



Devido a alguns insistentes pedidos de amigos e conhecidos, resolví mudar meu ponto de vista sobre o assunto e aceitar seguidores neste blog com pretenções à 'maldito' ou, pelo menos, 'alternativo'; portanto, eis aí: sirvam-se e, se possível, escrevam um comentariozinho ou outro, de vez em quando, ou, quem sabe, emitam uma opinião do tipo  'engraçado', 'interessante' ou 'legal' entre as opções pra clicar aí embaixo...


POST-SCRIPTUM:


Valeu, gente!

     

sexta-feira, 6 de julho de 2012

FECHADO TEMPORARIAMENTE PARA REFORMAS




Dando um tempo, um booom tempo...



Nem é uma questão de assunto, mas há tempos venho percebendo que tanto eu quanto as outras pessoas (aliás o mundo todo em geral), anda meio louco... No mau sentido, claro.



Sei lá, tem alguma coisa muito estranha, muito esquisita acontecendo. Não é nada específico ou fácil de identificar (ou talvez até seja, mas parece que a própria percepção do problema dificulta sua definição e localização). 



Como eu disse, sei lá.



P0ST-SCRIPTUM:



Mais sobre o assunto em futuras postagens (ou não). 



Por enquanto, fuck it.

domingo, 9 de outubro de 2011

A LOUCURA É A FONTE DA SABEDORIA



[Adaptado do capítulo I do livro "O NASCIMENTO DA FILOSOFIA" de autoria de GIORGIO COLLI, publiado pela Editora da UNICAMP em 1996, traduzido por Federico Carotti]



Platão chama "filosofia" - o amor à sabedoria - à própria busca, à própria atividade educativa, ligada a uma expressão escrita, à forma literária do diálogo. 

E Platão olha reverente o passado, um mundo em que existiram os verdadeiros "sábios". Por outro lado, a filosofia posterior, a nossa filosofia, é apenas uma continuação, um desenvolvimento da forma literária introduzida por Platão; contudo, esta surge como fenômeno da decadência, na medida em que "o amor à sabedoria" está mais abaixo da "sabedoria".

O amor à sabedoria, para Platão, não significava de fato a aspiração a algo nunca atingido, mas sim uma tendência a recuperar aquilo que já fora realizado e vivido.





Portanto, não há um desenvolvimento contínuo, homogêneo, da sabedoria à filosofia. O que dá origem a esta última é uma reforma expressiva, é a intervenção de uma nova forma literária, um filtro através do qual condiciona-se o conhecimento de todo o precedente.

A tradição, em grande parte oral, da sabedoria, já obscura e escassa pela distância dos tempos, já evanescente e tênue para o próprio Platão, mostra-se, a nossos olhos, francamente falsificada pela inserção da literatura filosófica.

Por outro lado, é muito incerta a extensão temporal dessa época da sabedoria: nela está compreendida a chamada idade pré-socrática, ou seja, os séculos V e VI a.C., mas a origem mais distante nos escapa. É preciso recorrer à mais remota tradição da poesia e da religião grega, mas a interpretação dos dados não pode deixar de ser filosófica. 

Deve-se configurar, mesmo que de modo hipotético, uma interpretação do tipo daquela proposta por Nietzsche para expor a origem da tragédia. Quando um grande fenômeno oferece uma documentação histórica suficiente apenas em sua parte final, só resta a tentativa de interpolar, no que se refere a sua totalidade, certas imagens e conceitos, escolhidos e entendidos como símbolos na tradição religiosa.





Nietzsche parte, como se sabe, das imagens de dois deuses gregos, Dionísio e Apolo, e, aprofundando estética e metafisicamente os conceitos de dionisíaco e apolíneo, esboça, em primeiro lugar, uma doutrina sobre o surgimento e a decadência da tragédia grega; depois uma interpretação geral da grecidade e até uma nova visão de mundo. Assim, igual perspectiva parece abrir-se quando se considera, em vez do nascimento da tragédia, a origem da sabedoria.  

São ainda os mesmos deuses, Apolo e Dionísio, que se encontram no retroceder ao longo das sendas da sabedoria grega. Mas, nessa esfera, a caracterização de Nietzsche deve ser modificada; além disso, a prioridade deve ser concedida a Apolo, e não a Dionísio. De fato, se cabe atribuir a alguém o domínio sobre a sabedoria, é ao deus de Delfos.





Em Delfos se manifesta a vocação dos gregos para o conhecimento: sábio é quem lança a luz na obscuridade, desfaz os nós, manifesta o desconhecido, determina o incerto. Para essa civilização arcaica, o conhecimento do futuro do homem e do mundo pertence à sabedoria. Apolo simboliza esse olho penetrante, seu culto celebra a sabedoria.

Outros povos conheceram, exaltaram a arte divinatória, mas nenhum povo a elevou a símbolo decisivo, pelo qual, no mais alto grau, a potência exprime-se em conhecimento, como aconteceu entre os gregos. Adivinhar implica conhecer o futuro e manifestar, comunicar tal conhecimento. Isso ocorre através da palavra do deus, do oráculo. 

Na palavra manifesta-se ao homem a sabedoria do deus, e a forma, a ordem, o nexo em que se apresentam as palavras revela que não se tratam de palavras humanas, e sim de palavras divinas. Daí o caráter exterior do oráculo: a ambiguidade, a obscuridade, as alusões de árdua decifração, a incerteza.

O deus, portanto, conhece o porvir, manifesta-o ao homem, mas parece não querer que este o compreenda. Há um elemento de maldade, de crueldade na imagem de Apolo, que se reflete na comunicação da sabedoria. E, de fato, diz Heráclito, um sábio: "o senhor, a quem pertence o oráculo que está em Delfos, não diz nem oculta, mas acena".





A esfera do conhecimento e da sabedoria liga-se com muito mais naturalidade a Apolo do que a Dionísio. Dionísio associa-se ao conhecimento enquanto divindade eleusínia: a iniciação aos mistérios de Elêusis culminava numa "epopsia", visão mística de beatitude e purificação que de certa forma pode ser chamada de conhecimento. 

No entanto, o êxtase dos mistérios, na medida em que é alcançado através de um despojamento completo das condições do indivíduo, na medida em que nele o sujeito cognoscente não se distingue do objeto conhecido, deve ser considerado como o pressuposto do conhecimento, e não o próprio conhecimento. 

Pelo contrário, o conhecimento e a sabedoria manifestam-se por meio da palavra, e é em Delfos que é proferida a palavra divina, é Apolo, e certamente não Dionísio, que fala pela sacerdotisa. A palavra de Apolo é uma expressão  em que se manifesta um conhecimento; as palavras de adivinhação na Grécia primitiva reúnem-se em discursos, desenvolvem-se em discussões, elaboram-se no abstrato da razão, símbolos iluminadores de todo o fenômeno da sabedoria.






Outro elemento frágil na interpretação de Nietzsche está em apresentar os impulsos apolíneo e dionisíaco como antitéticos. 

Os estudos mais recentes sobre a religião grega ressaltaram uma origem asiática e nórdica do culto de Apolo. Aqui surge uma nova relação entre Apolo e a sabedoria. Um fragmento de Aristóteles nos informa que Pitágoras - justamente um sábio - foi denominado pelos crotoniatas como Apolo hiperbóreo. 





Os hiperbóreos eram, para os gregos, um povo fabuloso do extremo norte. Daí parece provir o caráter místico, extático, de Apolo, manifestando-se no arrebatamento da pítia, nas palavras delirantes do oráculo délfico.

Nas planícies nórdicas e da Ásia central atesta-se uma longa persistência do xamanismo, uma técnica particular de êxtase. Os xamãs atingem uma exaltação mística, uma condição extática, na qual são capazes de executar curas milagrosas, ver o futuro e profetizar.





Este é o pano de fundo do culto délfico de Apolo. Uma passagem célebre e decisiva de Platão nos ilumina a esse respeito. Trata-se do discurso sobre a "mania", sobre a loucura, que Sócrates desenvolve no Fedro. Logo no início, contrapõe-se a loucura à moderação, ao autocontrole, e, numa inversão paradoxal para nós, modernos, exalta-se a primeira como superior e divina.

Diz o texto: "os maiores dentre os bens chegam a nós por meio da loucura, que é concedida por um dom divino...de fato, a profetisa de Delfos e a sacerdotisa de Dodona, enquanto possuídas pela loucura, proporcionaram à Grécia muitas e belas coisas, tanto para os indivíduos quanto para a comunidade". Coloca-se em evidência, portanto, desde o início, a ligação entre "mania" e Apolo.





Em seguida, distinguem-se quatro tipos de loucura: a profética, a dos mistérios, a poética e a erótica, as duas últimas variantes das duas primeiras. A loucura profética e a dos mistérios são inspiradas por Apolo ou por Dionísio (ainda que este último não seja citado por Platão). 

No Fedro, em primeiro plano está a "mania" profética, tanto que, para Platão, a natureza divina e decisiva da "mania" é atestada pelo fato de essa mania constituir o fundamento do culto délfico. Platão funda seu juízo numa etimologia: a "mântica", isto é, a arte divinatória, deriva de "mania" e é sua expressão mais autêntica.

Portanto, a perspectiva de Nietzsche deve ser não só ampliada, mas também modificada. Apolo não é o deus da medida, da harmonia, mas do arrebatamento, da loucura. Nietzsche considera a loucura pertinente apenas a Dionísio e, além disso, delimita-a como embriaguez. 

Aqui, uma testemunha com o peso de Platão sugere-nos, pelo contrário, que Apolo e Dionísio possuem uma afinidade fundamental, justamente no terreno da "mania"; juntos eles esgotam a esfera da loucura, e não faltam bases para formular a hipótese - atribuindo a palavra e o conhecimento a Apolo, e a imediatez da vida a Dionísio - de que a loucura poética é obra do primeiro, e a erótica, do segundo.

Concluindo, se uma pesquisa sobre as origens da sabedoria na Grécia arcaica leva-nos em direção ao oráculo délfico, ao significado complexo do deus Apolo, a "mania" mostra-se-nos ainda mais primordial, pano de fundo do fenômeno da adivinhação. A loucura é a matriz da sabedoria.     




POST-SCRIPTUM:






Giorgio Colli (1917-1979) é conhecido sobretudo pela edição crítica das obras de Nietzsche, publicada na Alemanha, França e Itália, e por uma edição hoje clássica do Organon, de Aristóteles, tendo dedicado os últimos anos de sua vida à edição dos textos pré-socráticos.

É interessante perceber como o autor interliga a origem da filosofia - identificando-a como um novo gênero literário "inventado" por Platão - com a decadência da antiga sabedoria já então fragmentada e quase esquecida, derivada essencialmente da religião grega, seus mistérios e tradições orais.

Apoiado principalmente em Nietzsche, ele identifica um paralelo originário entre os primeiros refinamentos do pensamento abstrato grego - aquilo que, no ocidente, viria a ser chamado de "razão" ou "racionalidade" - e a tradição poético-religiosa da Grécia antiga, um manancial de sabedoria que permeia toda a sua rica mitologia, relacionada por sua vez com a "mania", ou "loucura" divina.  





Aliás, tal paralelo, penso eu, cabe ao estudo da mitologia e das tradições religiosas de qualquer povo, pois todas as culturas humanas sobre a face da Terra desenvolveram algum tipo peculiar de sabedoria ligada não somente aos cuidados com a esfera do transcendente como com a esfera do dia-a-dia, do conhecimento prático e utilitário, e o que é mais interessante: em todas elas ambas as esferas estão intimamente relacionadas, de uma forma ou de outra.

Uma passagem específica do texto chamou minha atenção por um aspecto curioso: a necessidade de ir procurar tão longe uma tradição religiosa que explique o "transe divinatório" das pitonisas délficas, ou seja, num suposto xamanismo nórdico ou centro-asiático, quando a vizinhança geográfica do Mediterrâneo com a África dá subsídio a hipóteses muito mais plausíveis, em minha modesta opinião.        

E viva a "loucura"!

domingo, 12 de junho de 2011

TÔ DE SACO CHEIO






É muita aporrinhação de tudo que é lado, muitos compromissos pendentes pra resolver, pouco dinheiro pra gastar e pouca paciência pra poder aturar. Tô me sentindo meio como o velho Sísifo da lenda (para os menos informados, nada a ver com "sifú", mas até que dá pra traçar um paralelo nem tão forçado...) 




Isso prá não falar nas notícias, tanto nacionais quanto internacionais. É o mesmo marasmo de sempre: corrupção, enchente, terremoto, assassinato e por aí vai.




Podem dizer que ando meio depressivo e tal, mas resolví dar um tempo em tudo. Já que nada muda a minha volta, mudo eu.  




Fui, mas volto logo...




POST-SCRIPTUM:






LEVE DESESPERO
(Capital Inicial)

Eu não consigo mais me concentrar

Eu vou tentar alguma coisa para melhorar
É importante, todos me dizem
Mas nada me acontece como eu queria

Estou perdido, sei que estou

Cego para assuntos banais
Problemas do cotidiano
Eu já não sei como resolver

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Então é outra noite num bar

Um copo atrás do outro
Procuro trocados no meu bolso
Dá pra me arrumar um cigarro?

Eu não consigo mais me concentrar

Eu vou tentar alguma coisa para melhorar
Já estou vendo TV como companhia

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Talvez se você entendesse

O que está acontecendo
Poderia me explicar
Eu não saio do meu canto
As paredes me impedem
Eu só queria me divertir

As paredes me impedem

Já estou vendo TV como companhia

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

quarta-feira, 20 de abril de 2011

LOUCURA x 'BULLYING'



[Texto editado a partir da matéria publicada no jornal DESTAK em 11 de abril de 2011 sob o título “O mal existe”, de autoria de seu diretor editorial Fábio Santos]



Impossível evitar perguntas e não arriscar respostas diante de um episódio tão aterrador como o massacre de estudantes numa escola em Realengo, no Rio.

Matar crianças assim, como pode? Por quê?



Talvez seja essa a síntese de todas as indagações que percorrem nossas mentes assustadas frente à tamanha crueldade. 






Passados alguns dias da terrível tragédia, começa a se consolidar a idéia de que as ações de Wellington são fruto de uma mente perturbada que foi submetida à incompreensão e à crueldade de seus antigos colegas naquela mesma escola.

Ele teria sido uma vítima do chamado 'bullying', a palavra que incorporamos do inglês para descrever a crueldade infantil contra os mais fracos e menos adequados. Mas quanta gente foi alvo desse tipo de perseguição quando criança e não se torna um assassino?





Muitos se surpreenderam por esse ser um episódio raro no Brasil. "Agora importamos até crimes dos Estados Unidos", comentam alguns. Até parece que no tocante ao exercício da maldade precisamos importar algo. Wellington só é raro porque matou crianças dentro de uma escola.

Quem não se lembra da chacina da Candelária? Ali eram meninos de rua sendo mortos por policiais.

Onde estava a loucura?

E os jovens que queimaram um índio em Brasília?

Ou o grupo de garotos que espancou um mendigo até a morte na Paraíba ano passado?






POST-SCRIPTUM:



Não há como não concordar com as colocações do autor quanto à capacidade para a crueldade do brasileiro, que não deixa nada a dever ao norte-americano ou, diga-se de passagem, a nenhum outro povo da Terra.



Entretanto cabem alguns reparos quanto a seu questionamento em relação ao bullying, principalmente no que se refere ao fato de Wellington ter retornado ESPECIFICAMENTE àquela escola onde estudou.






Claro, ele certamente era um desequilibrado mental. Cometeria ele algum outro crime tão bárbaro quanto esse eventualmente, se não tivesse sido detido? Talvez sim, talvez não. Não há como ter certeza absoluta.



Assim como não há como ter certeza absoluta se não haveria outras partes envolvidas que teriam influenciado ou incentivado o assassino de alguma forma. Penso que a polícia não devia descartar tal hipótese sem uma investigação mais aprofundada, por menos provável que ela possa parecer.







Entretanto, a questão que parece escapar à maioria das pessoas é que Wellington voltou ESPECIFICAMENTE à escola onde estudou e onde sofreu as mais cruéis humilhações.



Tem-se feito muito alarde quanto à suposta esquizofrenia do assassino e quanto à fatalidade “imprevisível” de algo assim acontecer no Brasil, onde o povo é tão “pacífico” e “cordial”.







Ora, faça-me o favor! Se esse rapaz não tivesse sofrido bullying ESPECIFICAMENTE na escola onde estudou é de se supor que ele fosse descarregar suas frustrações em outro lugar e talvez mesmo de outra forma.



Até mesmo a loucura segue certos padrões, por mais ilógicos que pareçam. Wellington tinha com certeza a intenção de vingar-se de algo que ele identificava como insuportável em seu passado, no caso, aparentemente, os mal-tratos sofridos nas mãos de outros meninos e o desprezo por parte das meninas.





Talvez tenha mesmo pensado em matar aqueles que ele identificava como responsáveis diretos por suas experiências traumatizantes. Mas ele não era um alienado total: provavelmente percebera as dificuldades inerentes em localizar e matar cada um de seus algozes e, num processo muito comum de transferência, decidiu vingar-se do "ambiente mental" associado a seu trauma, o local ESPECÍFICO onde ocorrera sua vergonha, ou seja, a escola e os alunos lá presentes.



Ainda que outros e sem a menor relação aparente com aqueles a quem ele considerava culpados, ainda assim, em sua mente doentia, Wellington talvez os enxergasse por uma lógica míope como praticantes, sobre outras vítimas, das mesmas indignações por ele sofridas no passado naquela escola ESPECÍFICA.







E o argumento de que ele só queria matar meninas não se sustenta. Pelo menos dois meninos também foram alvejados e o número maior de vítimas do sexo feminino provavelmente seja um mero acaso ou coincidência. As meninas talvez fossem em maior número nas salas onde ele primeiro atacou e, se tivesse mais tempo para continuar sua missão macabra, penso que haveria mais vítimas do sexo masculino.



Ou, quem sabe, talvez a componente sexual associada a sua psicose o tivesse realmente levado a priorizar os alvos femininos, mas, de qualquer maneira, esse é apenas um detalhe: o fato concreto é que vidas inocentes foram tiradas em decorrência de circunstâncias bem ESPECÍFICAS e que poderiam ter sido evitadas. 








Os casos de bullying no Brasil e no resto do mundo são cada vez mais divulgados pela imprensa e denunciados tanto por quem o sofreu no passado como por suas atuais vítimas.



As mais variadas pesquisas referentes ao assunto dão conta de que, pelo menos, entre 40% a 60% da população em idade escolar sofre algum tipo de abuso físico ou psicológico tanto por parte dos colegas quanto – pasmem! – dos professores.







POST-SCRIPTUM:


Este é um assunto muito importante e que até pouco tempo atrás não merecia a devida atenção das autoridades. Esperemos que a partir de agora este panorama mude radicalmente e que a sociedade se conscientize de sua própria hipocrisia. Se oxalá assim acontecer, esta terá sido, infelizmente, a única e desagradável conseqüência positiva resultante do odioso ato de Wellington...