sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O NOVO REI



Após 15 rodadas do Campeonato Brasileiro de 2011 disputando palmo a palmo a liderança com o Corinthians, as três vitórias seguidas só aumentam a confiança do rubro-negro carioca para o jogo contra o Coritiba amanhã, dia 06, no Engenhão.

Apesar do atraso, não posso deixar de comentar sobre a partida contra o Santos na quarta-feira retrasada (27/07), quando o Mengão estava perdendo de 3x0 para o Peixe e virou o placar, ganhando de 5x4!

Melhor ainda, faço minhas as palavras do jornalista MARCELO ABINADER em sua coluna "Fatos do Esporte" do jornal RJsports em sua edição de terça-feira passada, 02 de agosto, transcrevendo (e editando) parte do texto de sua autoria intitulado 'O REI E O PRÍNCIPE':

"O fato é que, hoje, apenas Santos e Flamengo podem proporcionar tal espetáculo. E apenas um clube com a incrível mística do Manto Sagrado poderia seguir altivo, resoluto e lutador, após tomar 3 gols de um avassalador e completo Santos, em seu reduto. Que outro time enfrenta o Peixe de peito aberto, hoje? O Flamengo o fez."

"Todos já esperavam um jogão, mas ninguém estava preparado para as emoções que viriam. Com bela jogada, o time-base da Seleção abriu o marcador. (...) O segundo gol dos locais parecia ditar o rumo do jogo. (...) Veio, então, a maravilhosa jogada individual de Neymar. Houve quem culpasse este ou aquele defensor, mas naquele lance, Neymar passaria por qualquer um. Foi daquelas arrancadas que poucos podem fazer. O gol era inevitável e merecido. Talvez o placar fosse elástico para o jogo, mas não injusto. Nesse instante, quase todo mundo ficou imaginando de quanto seria a goleada do Peixe. Quase todo mundo! Porque os 11 jogadores do Flamengo continuaram jogando de cabeça erguida, como se não soubessem do placar do jogo e da qualidade do time da casa. Somente eles pareciam ainda acreditar. E, pouco depois, Ronaldinho diminuiu. Pegou a bola e a levou para o meio. Mais três minutos e saiu o segundo gol dos visitantes. Seria possível tal reação? Claro que não! (...) [Então], o inesperado: o terceiro gol do Fla [!!!] (...)" 

"O novo gol de Neymar trouxe a questão: então a reação fantástica não terá valido de nada? Mas o até então perfeito garoto do Santos começou a se exibir - e a perder várias divididas - e o Mengo reagiu e, com dois gols de Ronaldinho, fechou a vitória mais fantástica das últimas décadas." 

"No fim, constatou-se que, sim, Neymar é pérola rara, habilidoso talento que veio para brilhar, confirmando-se como o Príncipe do nosso futebol. Mas também ficou evidente que o Rei estava do outro lado com a camisa 10." 


POST-SCRIPTUM:






 É isso aí! 
Com Ronaldinho Gaúcho de volta a sua melhor forma, o Flamengo é "Flarcelona" e não tem pra ninguém: vai ser mais uma vez campeão do Brasileirão, partir pra conquista da Libertadores de 2012 e, com as graças dos deuses do futebol, tornar-se bicampeão mundial interclubes! Quem viver verá!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O 'COMETA' AMY WINEHOUSE



Comparar a passagem da talentosíssima cantora Amy Winehouse pelo cenário da música pop a um cometa em virtude de seu brilho e celeridade é, no mínimo, uma analogia óbvia e que dispensa maiores comentários.



Mas que se dane: ainda estou sob o efeito deletério dos sentimentos de tristeza e estupefação a que a notícia de sua morte me induziram. Admito que melodrama e clichê não sejam as melhores formas de celebrar a genialidade, mas existem coisas que são inevitáveis em determinadas situações (e esta é uma delas, sem dúvida). De qualquer forma, nada pode substituir eficazmente o silêncio respeitoso que deveria impor-se como a atitude mais conveniente a fim de honrar o talento de uma artista como foi Amy Winehouse e de lidar com o vazio de sua ausência. 



Tal é a dicotomia que tanto me angustia: sinto a necessidade de aplaudir a artista, mas ao mesmo tempo me irrita a certeza de não poder fazê-lo adequadamente. Além do mais, escrever epitáfios nunca foi o meu forte; certamente não é o tipo de texto cuja leitura me dê qualquer tipo de prazer ou que me inspire de alguma forma significativa.



Independente desses sentimentos conflituosos (ou talvez em decorrência dos mesmos?), sinto-me desagradavelmente compelido a comparar (e lamentar) a similaridade existente entre as trágicas vidas e as fugazes jornadas artísticas de duas outras excepcionais cantoras de jazz e blues - no caso Billie Holliday e Janis Joplin - com as de Amy Winehouse ("wine house": casa de vinho; ironia cruel...), todas falecidas precocemente pelo abuso de álcool e outras drogas.



E que não se veja nessa constatação nenhum ranço de moralismo babaca. Ninguém pode julgar a angústia que trespassa a alma de artistas desse gabarito, cuja elevada sensibilidade os torna mais vulneráveis a dilacerantes conflitos existenciais, sejam eles reais ou imaginários.



De qualquer modo faço questão de deixar registrada minha solidariedade espiritual a Amy Winehouse, seja como a extraordinária artista que foi, seja como ser humano complexo e fascinante. Que sua essência imaterial encontre em outras paragens a paz que não encontrou nesta vida.







YOU KNOW I’M NO GOOD
(Amy Winehouse)


Meet you downstairs in the bar and heard
Your rolled up sleeves in your skull T-shirt
You say "why did you do it with him today?"
And sniffed me out like I was Tanqueray

'Cause you're my fella, my guy
Hand me your Stella and fly
By the time I'm out the door
You tear me down like Roger Moore

I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good

Upstairs in bed with my ex-boy
He's in a place, but I can't get joy
Thinking on you in the final throes
This is when my buzzer goes

Run out to meet your chips and pitta
You say when "we're married",
'Cause you're not bitter
"There'll be none of him no more"
I cried for you on the kitchen floor

I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good

Sweet reunion, Jamaica and Spain
We're like how we were again
I'm in the tub, you on the seat
Lick your lips as I soak my feet

Then you notice a little carpet burn
My stomach drop and my guts churn
You shrug and it's the worst
Who truly stuck the knife in first

I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good

I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was troubled
Yeah, you know that I'm no good



POST-SCRIPTUM:



Nada mais tosco (e eficiente) que um amontoado de lugares-comuns para garantir que se preserve a memória daqueles que realmente merecem ser lembrados. Fazer o quê? O amor é intrinsecamente brega e a vida uma aventura breve e insensata que nos exige doses generosas de delírio e deboche diluídas judiciosamente em seus interstícios para tornar-se minimamente suportável e até, em alguns momentos, surpreendentemente prazerosa. 


Sem nos esquecermos de que humor é fundamental, mesmo que seja do tipo macabro, pois ainda é melhor rir do que chorar...   


domingo, 12 de junho de 2011

TÔ DE SACO CHEIO






É muita aporrinhação de tudo que é lado, muitos compromissos pendentes pra resolver, pouco dinheiro pra gastar e pouca paciência pra poder aturar. Tô me sentindo meio como o velho Sísifo da lenda (para os menos informados, nada a ver com "sifú", mas até que dá pra traçar um paralelo nem tão forçado...) 




Isso prá não falar nas notícias, tanto nacionais quanto internacionais. É o mesmo marasmo de sempre: corrupção, enchente, terremoto, assassinato e por aí vai.




Podem dizer que ando meio depressivo e tal, mas resolví dar um tempo em tudo. Já que nada muda a minha volta, mudo eu.  




Fui, mas volto logo...




POST-SCRIPTUM:






LEVE DESESPERO
(Capital Inicial)

Eu não consigo mais me concentrar

Eu vou tentar alguma coisa para melhorar
É importante, todos me dizem
Mas nada me acontece como eu queria

Estou perdido, sei que estou

Cego para assuntos banais
Problemas do cotidiano
Eu já não sei como resolver

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Então é outra noite num bar

Um copo atrás do outro
Procuro trocados no meu bolso
Dá pra me arrumar um cigarro?

Eu não consigo mais me concentrar

Eu vou tentar alguma coisa para melhorar
Já estou vendo TV como companhia

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Talvez se você entendesse

O que está acontecendo
Poderia me explicar
Eu não saio do meu canto
As paredes me impedem
Eu só queria me divertir

As paredes me impedem

Já estou vendo TV como companhia

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

Sob um leve desespero

Que me leva, que me leva daqui

quinta-feira, 21 de abril de 2011

'RIO' IN RIO



O tapete da pré-estréia de "Rio", animação de Carlos Saldanha, em um cinema da Lagoa (bairro da zona sul do Rio de Janeiro), foi azul em vez do tradicional vermelho, em referência à ararinha Blu, personagem principal do filme, uma declarada homenagem à cidade.




Fui ver a fita e, após a exibição, me pareceu que, no geral, a aprovação por parte de quem assistiu era realmente quase unânime.  Sem dúvida é uma propaganda positiva sem precedentes, mas, sem querer ser chato, há que se fazer algumas ressalvas, em minha opinião.



É tudo muito lindo e maravilhoso, mas não se pode esquecer que é só um desenho animado feito para entreter (não só inclusive, mas especialmente, as crianças) e que a realidade do Rio de Janeiro é, para ser bem gentil, "um pouquinho" mais dura e menos colorida.


E também não há como alguém discordar a respeito do aspecto meio folclórico da coisa toda, além da trilha sonora calcada em “samba de gringo”. Mas talvez esse seja o preço a pagar quando se quer agradar cariocas e americanos ao mesmo tempo.




Meu medo era que a fita fosse um arremedo hollywoodiano da realidade, algo bizarro e excessivamente artificial que causasse vergonha aos moradores do Rio. 




Entretanto, dentro do que se propõe, a trama até que é razoável (ponto para a denúncia ao tráfico de animais silvestres) e bem engraçada, apesar de certa sensação de desconforto que me transmitiu em alguns momentos, talvez pela simplificação e redução da realidade social e psicológica dos cariocas - perfeitamente compreensível, evidentemente, dadas as exigências da mídia, mas, mesmo assim, exagerada, em minha opinião. 




Outro ponto positivo se refere à acuidade geográfica, por exemplo, que é de uma perfeição inatacável. Lá estão, compondo o cenário, os Arcos da Lapa, a Catedral Metropolitana, o prédio da Petrobrás, as ladeiras de Santa Teresa, a Baía de Guanabara, a praia de Copacabana, a Vista Chinesa na Floresta da Tijuca e o Sambódromo na avenida Marquês de Sapucaí, alguns com participação maior outros menor, mas sempre presentes.






Bom, mas aí vem a grande questão: vale mesmo a pena dar-se ao trabalho de ir ao cinema assistir ao filme em tela grande? 






Antes de responder quero abrir um parênteses para declarar algo que nada tem a ver com as qualidades (ou falta das mesmas) da fita: fiquei com uma baita de dor de cabeça ao sair da sessão! Aliás, isso sempre me acontece quando acompanho minhas filhas ao cinema para assistir desenhos-animados em 3-D...  




Admito que prefiro este artifício em filmes live action de ação ou fantasia à la 'Piratas do Caribe' ou 'Alice no País das Maravilhas'; em animações, não sei bem explicar por que, mas me cansa um pouco, principalmente quando muito coloridas e feéricas. 




Voltando ao filme, confesso que eu e as crianças adoramos, mas mesmo assim não deixamos de concordar em que faltou "algo mais". Na verdade, qualquer um dos filmes da trilogia 'Era do Gelo' (Ice Age) é indiscutivelmente superior. 






Pensando bem acho que dava para esperar sair em DVD, principalmente levando-se em conta o preço do ingresso: tá caro pra caramba, parceiro (pelo menos pra nós, meros proletários do pensamento)!



POST-SCRIPTUM:


Será que, eventualmente, veremos um 'RIO 2'? Apesar de tudo, espero sinceramente que sim (e que seja melhor que o primeiro...).






quarta-feira, 20 de abril de 2011

LOUCURA x 'BULLYING'



[Texto editado a partir da matéria publicada no jornal DESTAK em 11 de abril de 2011 sob o título “O mal existe”, de autoria de seu diretor editorial Fábio Santos]



Impossível evitar perguntas e não arriscar respostas diante de um episódio tão aterrador como o massacre de estudantes numa escola em Realengo, no Rio.

Matar crianças assim, como pode? Por quê?



Talvez seja essa a síntese de todas as indagações que percorrem nossas mentes assustadas frente à tamanha crueldade. 






Passados alguns dias da terrível tragédia, começa a se consolidar a idéia de que as ações de Wellington são fruto de uma mente perturbada que foi submetida à incompreensão e à crueldade de seus antigos colegas naquela mesma escola.

Ele teria sido uma vítima do chamado 'bullying', a palavra que incorporamos do inglês para descrever a crueldade infantil contra os mais fracos e menos adequados. Mas quanta gente foi alvo desse tipo de perseguição quando criança e não se torna um assassino?





Muitos se surpreenderam por esse ser um episódio raro no Brasil. "Agora importamos até crimes dos Estados Unidos", comentam alguns. Até parece que no tocante ao exercício da maldade precisamos importar algo. Wellington só é raro porque matou crianças dentro de uma escola.

Quem não se lembra da chacina da Candelária? Ali eram meninos de rua sendo mortos por policiais.

Onde estava a loucura?

E os jovens que queimaram um índio em Brasília?

Ou o grupo de garotos que espancou um mendigo até a morte na Paraíba ano passado?






POST-SCRIPTUM:



Não há como não concordar com as colocações do autor quanto à capacidade para a crueldade do brasileiro, que não deixa nada a dever ao norte-americano ou, diga-se de passagem, a nenhum outro povo da Terra.



Entretanto cabem alguns reparos quanto a seu questionamento em relação ao bullying, principalmente no que se refere ao fato de Wellington ter retornado ESPECIFICAMENTE àquela escola onde estudou.






Claro, ele certamente era um desequilibrado mental. Cometeria ele algum outro crime tão bárbaro quanto esse eventualmente, se não tivesse sido detido? Talvez sim, talvez não. Não há como ter certeza absoluta.



Assim como não há como ter certeza absoluta se não haveria outras partes envolvidas que teriam influenciado ou incentivado o assassino de alguma forma. Penso que a polícia não devia descartar tal hipótese sem uma investigação mais aprofundada, por menos provável que ela possa parecer.







Entretanto, a questão que parece escapar à maioria das pessoas é que Wellington voltou ESPECIFICAMENTE à escola onde estudou e onde sofreu as mais cruéis humilhações.



Tem-se feito muito alarde quanto à suposta esquizofrenia do assassino e quanto à fatalidade “imprevisível” de algo assim acontecer no Brasil, onde o povo é tão “pacífico” e “cordial”.







Ora, faça-me o favor! Se esse rapaz não tivesse sofrido bullying ESPECIFICAMENTE na escola onde estudou é de se supor que ele fosse descarregar suas frustrações em outro lugar e talvez mesmo de outra forma.



Até mesmo a loucura segue certos padrões, por mais ilógicos que pareçam. Wellington tinha com certeza a intenção de vingar-se de algo que ele identificava como insuportável em seu passado, no caso, aparentemente, os mal-tratos sofridos nas mãos de outros meninos e o desprezo por parte das meninas.





Talvez tenha mesmo pensado em matar aqueles que ele identificava como responsáveis diretos por suas experiências traumatizantes. Mas ele não era um alienado total: provavelmente percebera as dificuldades inerentes em localizar e matar cada um de seus algozes e, num processo muito comum de transferência, decidiu vingar-se do "ambiente mental" associado a seu trauma, o local ESPECÍFICO onde ocorrera sua vergonha, ou seja, a escola e os alunos lá presentes.



Ainda que outros e sem a menor relação aparente com aqueles a quem ele considerava culpados, ainda assim, em sua mente doentia, Wellington talvez os enxergasse por uma lógica míope como praticantes, sobre outras vítimas, das mesmas indignações por ele sofridas no passado naquela escola ESPECÍFICA.







E o argumento de que ele só queria matar meninas não se sustenta. Pelo menos dois meninos também foram alvejados e o número maior de vítimas do sexo feminino provavelmente seja um mero acaso ou coincidência. As meninas talvez fossem em maior número nas salas onde ele primeiro atacou e, se tivesse mais tempo para continuar sua missão macabra, penso que haveria mais vítimas do sexo masculino.



Ou, quem sabe, talvez a componente sexual associada a sua psicose o tivesse realmente levado a priorizar os alvos femininos, mas, de qualquer maneira, esse é apenas um detalhe: o fato concreto é que vidas inocentes foram tiradas em decorrência de circunstâncias bem ESPECÍFICAS e que poderiam ter sido evitadas. 








Os casos de bullying no Brasil e no resto do mundo são cada vez mais divulgados pela imprensa e denunciados tanto por quem o sofreu no passado como por suas atuais vítimas.



As mais variadas pesquisas referentes ao assunto dão conta de que, pelo menos, entre 40% a 60% da população em idade escolar sofre algum tipo de abuso físico ou psicológico tanto por parte dos colegas quanto – pasmem! – dos professores.







POST-SCRIPTUM:


Este é um assunto muito importante e que até pouco tempo atrás não merecia a devida atenção das autoridades. Esperemos que a partir de agora este panorama mude radicalmente e que a sociedade se conscientize de sua própria hipocrisia. Se oxalá assim acontecer, esta terá sido, infelizmente, a única e desagradável conseqüência positiva resultante do odioso ato de Wellington...






segunda-feira, 11 de abril de 2011

KARL MARX E 'A MISÉRIA DA FILOSOFIA'





Em fins do século XIX as reflexões de Karl Marx (1818-1883) sobre a história levaram-no a reconhecer a importância fundamental das questões ligadas à produção: não há sociedade que não consuma para sobreviver; e, para consumir, ela precisa, de algum modo, produzir.

Assim, não há como compreender a complexidade inerente a qualquer sociedade se não levarmos em conta os problemas ligados ao modo pelo qual ela organiza a sua produção e ao modo pelo qual nela se dá a apropriação da riqueza produzida. 






Esta é, em essência, a concepção da história elaborada por Marx, a qual corresponde com perfeita coerência à sua concepção do homem, cujos aspectos essenciais ele desenvolveu numa polêmica com o socialista utópico francês, Proudhon.

Advertia Marx, então, que "as relações de produção formam um todo" e que certa visão de conjunto torna-se indispensável para a avaliação do verdadeiro alcance de cada fenômeno observado na história. Marx se contrapunha, portanto, à ilusão que levava Proudhon a se basear, não na totalidade dinâmica das relações de produção, mas numa pretensa natureza humana imutável, para avaliar os problemas históricos da sociedade de seu tempo.






"O Sr. Proudhon não sabe que toda a história tem sido apenas uma transformação constante da natureza humana", escreveu Marx em seu livro 'A MISÉRIA DA FILOSOFIA'. 

Desde o seu nascimento, a Filosofia tratou de assuntos cruciais: a natureza das coisas, a natureza do homem, a ética, as formas de governo, a felicidade, o trabalho, o átomo, a economia, a liberdade, a justiça, o amor, a verdade, a vida, a morte, etc. Todos estes problemas são ainda hoje atuais. Nunca, nenhum deles foi equacionado definitivamente. Isso mostra que as questões realmente importantes são sempre retomadas e articuladas de modo novo ao longo da história humana.






A Filosofia é, portanto, um discurso vivo e inacabado, justamente porque se origina nas questões radicais de nossa existência, bem com da ciência, da política, da arte e da religião. Assim sendo, ela não pode ser neutra. Pelo contrário, deve revestir-se de um profundo sentido transformador e crítico da realidade, que surge a partir de concepções revolucionárias do homem e do mundo.

Tais concepções se colocam como contraponto ao discurso praticado pela tradição filosófica que situava a discussão no nível exclusivo de uma visão metafísica da realidade ou permanecia presa à estreiteza de um ponto de vista puramente contemplativo; em outras palavras, "a miséria da filosofia".






“Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; trata-se, entretanto, de transformá-lo”, escreveu Marx. Ou seja, sua proposta era de rompimento com práticas anteriores caracterizadas pela inércia e pelo conformismo com a situação que se apresentava e de participação no sentido de um engajamento em um verdadeiro movimento transformador das consciências em geral, e do curso de filosofia em particular, instaurando, assim, o pensar que quer ser agente e ator da transformação da realidade.

Alguns poderiam questionar, e muitos o fazem, a respeito da relevância do pensamento de Karl Marx para os dias de hoje, pelo menos fora dos meios acadêmicos. Nestes vetustos santuários da ortodoxia marxista, até onde sei, ele vai muito bem, obrigado (ou, pensando bem, talvez nem tanto...). Mas e no caldeirão da cultura globalizada, território por excelência do genérico, do virtual e do fugaz (qualidades essas que – e isto deve ser sempre enfatizado – não merecem à priori o rótulo de 'negativas', diga-se de passagem)?






Eu diria que, como tudo, depende. Depende, entre outros aspectos que se possa pensar, principalmente da interpretação que se dê a seus escritos e da relação dessa interpretação com a transformação das circunstâncias históricas, desde a época em que foram concebidos até os dias atuais.

Se o ponto de partida for o marxismo ortodoxo, ou seja, aquela velha ladainha maniqueísta dos partidos de esquerda tradicionais, não vale nem a pena começar a discutir, é pura perda de tempo. Esse tipo de ‘pensamento’ não vai além de alguns clichês e palavras de ordem decoradas em cartilhas fomentadoras do ódio e do ressentimento. E, além do mais, extremamente hipócritas.







Entretanto, se o ponto de partida for o pensamento vivo desse que foi, antes de tudo, um filósofo, e só depois um economista e um político, ou seja – como diria o mestre José Arthur Giannoti – , não o ‘marxismo’ (que diria respeito a tudo que foi feito, devida ou indevidamente, em nome de Karl Marx), mas o pensamento ‘marxiano’ (que nos remeteria ao que ele efetivamente escreveu), então a resposta só pode ser um sonoro sim, pois não há como entender o século XX e entrar no século XXI sem conhecer as revolucionárias idéias de Marx.



POST-SCRIPTUM:


Não obstante que, em sua maior parte, a doutrina marxista seja de 'segunda mão' – originária de interpretações dadas por dirigentes soviéticos como Lênin, Trotsky e Stálin, ou o chinês Mao Tsé-Tung –, a obra de Marx, incontestavelmente, trouxe contribuições originais para a filosofia, a sociologia, a economia política e a história, ainda que discordemos pontualmente de algumas (ou mesmo de muitas) de suas colocações. 







E, se há que se admitir que poucos, na verdade, ousaram desbravar a complexidade de sua obra, não há como negar que, toda vez que achamos que alguma coisa está errada em uma sociedade em que uma minoria tem muito dinheiro e a maior parte da população vive em dificuldade, e que os sonhos de consumo nos tornam apenas mais vazios, estamos pensando na companhia de Marx, de uma forma ou de outra.


(Agradecimentos especiais aos professores LEANDRO KONDER e OLINTO PEGORARO)






terça-feira, 29 de março de 2011

E OS OLHOS COR DE VIOLETA FECHARAM-SE PARA SEMPRE...




No dia 23 de março de 2011 morreu em Los Angeles aos 79 anos aquela que era considerada um dos últimos mitos do cinema norte-americano: Elizabeth Taylor. Apesar da imagem desgastada a que foi associada nas últimas décadas, ela será uma eterna referência quando o assunto for o star system hollywoodiano e sua capacidade de atiçar o imaginário dos espectadores.

A legendária atriz – famosa por sua beleza (seus olhos eram cor de violeta), seu estilo de vida glamoroso (e pouco convencional), seus inúmeros casamentos (oito no total) e sua compulsão por colecionar jóias – nasceu em Londres no dia 27 de fevereiro de 1932 e começou a carreira cinematográfica ainda criança, após seus pais se mudarem para os Estados Unidos. Talentosa e respeitada pela crítica, estrelou vários sucessos nos anos 50, entre os quais, 'Um Lugar ao Sol' (A Place in the Sun), ao lado de Montgomery Clift e 'Assim Caminha A Humanidade' (Giant), com Rock Hudson e James Dean. 






Em 1963, estrelou magistralmente 'Cleópatra', ao lado de Richard Burton, que apesar de ter ido bem nas bilheterias, ficou bem abaixo do orçamento, astronômico para os padrões da época (e mesmo para os dias atuais, quando ajustado pela inflação: aproximadamente 305 milhões de dólares em 2009). Vencedora de dois 'Oscar' por sua atuação em 'Disque Butterfly 8' (1960) e 'Quem tem Medo de Virginia Woolf?' (1966), teve também atuações de destaque na versão de Franco Zefirelli para 'A Magera Domada', de Shakespeare, e em 'O Pecado de Todos Nós', dirigido por John Huston e contracenando com Marlon Brando, ambos de 1967.







POST-SCRIPTUM:



Honestamente, eu gostava de Elizabeth Taylor tanto quanto qualquer um – lamento profundamente as circunstâncias deprimentes em que viveu seus últimos anos, bem como sua morte (e não há como negar que era de uma beleza estonteante, sem sombra de dúvida) – mas nunca fui fanático por ela enquanto atriz. 

Agora, do filme 'Assim Caminha a Humanidade' (Giant) eu sou fã de carteirinha! 

Talvez pela presença do mitológico James Dean no elenco (seu último filme, lançado um ano e dois meses após sua morte num acidente de carro), este filme de 1956 dirigido por George Stevens e com roteiro adaptado a partir de um romance de Edna Ferber é importante por vários motivos, não apenas por retratar de forma realista a ascensão dos rancheiros texanos à condição de multimilionários da indústria petrolífera, mas também por sua sub-trama centrada no racismo e na intolerância dirigida aos imigrantes mexicanos, um tema delicado e polêmico para a época, assim como a luta das mulheres por uma maior participação nas decisões sociais, políticas e econômicas de uma sociedade eminentemente machista e patriarcal: um filmaço!