sábado, 26 de abril de 2014

O JESUS JUDEU (1)



[Trecho extraído e editado do capítulo 6 ("O Jesus dos Evangelhos Sinópticos: curandeiro e mestre carismático e entusiasta escatológico") do livro AS VÁRIAS FACES DE JESUS de autoria de GEZA VERMES, publicado pela Editora RECORD]



A maioria dos títulos sob os quais Jesus foi abordado, especialmente "senhor", "profeta" e "Messias", implica uma função de professor, o que por sua vez suscita a questão da posição exata de Jesus em relação ao judaísmo tal como compreendido e praticado no seu tempo.

A tradição cristã nutrida por Paulo e João sempre afirmou que, como mensageiro de Deus, ele situava-se acima e considerava-se dissociado da degenerada religião judaica da Palestina do primeiro século, cujos representantes lhe deram, previsivelmente, uma recepção tão hostil. Assim, para justificar nossa posição básica, de que Jesus de Nazaré era inteiramente judeu em seus papéis de mestre, exorcista e pregador, profeta e filho de Deus, teremos de investigar os seus pronunciamentos sobre a Lei de Moisés, que está no coração da religião que ele ensinava e praticava.

Os evangelistas retratam Jesus implicitamente como um judeu profundamente ligado às leis e aos costumes de seu povo, e alguns dos seus ditos mais obviamente autênticos confirmam essa imagem. Os evangelhos atestam a sua presença nas sinagogas galiléias e no Templo de Jerusalém. Contam-nos que ele fez a refeição da Páscoa pouco antes de ser preso. Suas roupas eram como a dos fariseus (Mt 23:5), com as tradicionais franjas na orla da veste (Mt 9:20; Lc 8:44; Mc 6:56; Mt 14:36; Dt 22:12). O seu respeito pela legislação ritual é revelado na história do leproso já curado por ele, a quem ele ordenou submeter-se ao julgamento dos sacerdotes e oferecer o sacrifício prescrito no Templo (Mc 1:44; Mt 8:4; Lc 5:14).

Tal conduta está em perfeita harmonia com o ensinamento de Jesus sobre a validade permanente da Torá, que foi preservado em duas versões. A primeira está em Mateus: "Porque em verdade vos digo, até que passem o céu e a terra, não será omitido nenhum i, uma só vírgula da Lei" (Mt 5:18), e o segundo, quase idêntico, em Lucas: " É mais fácil passar o céu e a terra do que uma só vírgula cair da Lei" (Lc 16:17).

Mais uma vez, a melhor garantia da autenticidade dessa afirmação é a sua própria sobrevivência no Novo Testamento face ao profundo embaraço por ela causado na igreja antinomiana dos gentios, o que deu aos Evangelhos de Mateus e Lucas um lugar permanente.

Admitidamente, foram feitas tentativas, tanto na igreja primitiva, quanto no cristianismo posterior, de eviscerar a afirmação de Cristo da permanência da Torá, e de insinuar que a bifurcação dos caminhos entre o judaísmo centrado na Lei e a nova religião espiritual cristã teria sido iniciada pelo próprio Jesus.

Afirma-se que, para demonstrar a sua superioridade em relação à religião do Velho Testamento, ele desdenhou duas das obrigações mais fundamentais impostas pela Lei, a observância do Sabá e das regras dietéticas da Bíblia, e que se considerou maior do que Moisés, cujos preceitos sentiu-se livre para abolir e substituir. Nenhuma dessas acusações é capaz de resistir a um exame objetivo.

Em nossa discussão sobre Jesus como curandeiro e exorcista, já encontramos a crítica de que, ao curar os doentes no Sabá, Jesus quebrou a Lei. A questão de curar no dia de descanso é levantada explicitamente pelos próprios Evangelhos (Mc 3:4; Mt 12:10; Lc 6:9), bem como nos debates de rabinos fora do Novo Testamento. Os evangelistas fazem Jesus respondê-la afirmativamente através da sua ação, e isto está em conformidade com a opinião dos rabinos, para os quais salvar uma vida suplanta os preceitos do Sabá.

Em todo caso, a forma de curar através de palavras ditas ou pelo toque, que Jesus adotou, na verdade não contava como "trabalho" proibido no Sabá. Sabemos pelos evangelistas que a única questão que realmente preocupou as pessoas escrupulosas no seu ambiente galileu foi o grau de severidade de uma doença que pudesse justificar o "trabalho" terapêutico, por exemplo, de transportar e administrar remédios.

Mesmo a esse respeito, porém, o chefe de uma sinagoga citado por Lucas não pôs a culpa no curandeiro, mas naqueles que buscavam a cura no Sabá: "Há seis dias nos quais se deve trabalhar; portanto, vinde nesses dias para serdes curados, e não no Sabá!" (Lc 13:14).

Rabinos esclarecidos na Mixná defendem a leniência e defendem que se houvesse alguma dúvida sobre o caráter potencialmente letal de uma doença, já era o bastante para sobrepujar os preceitos do Sabá (mYomma 8:6). Na verdade, mesmo a afirmação aparentemente mais chocante de Jesus sobre o Sabá ser feito para o homem e não o homem para o Sabá (Mc 2:27) não excede a opinião expressa por um rabino do segundo século d.C.: "O Sabá vos foi entregue e não vós ao Sabá." (Mekihlta sobre Ex. 31:14).


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Continua... 




  

terça-feira, 22 de abril de 2014

ZÉ DO CAIXÃO




[Editado a partir de uma reportagem de Karla Monteiro publicada no Segundo Caderno do jornal O GLOBO em 12.02.2011]


Cultuado mais fora do Brasil, onde é conhecido como 'Coffin Joe', do que aqui, Mojica rende histórias sem fim. Barcinski e Finotti, autores da biografia publicada pela Editora 34, receberam menção especial do júri no festival de Sundance de 2001, com o documentário "Maldito - O estranho mundo de José Mojica Marins".

O personagem Zé do Caixão nasceu "no dia 11 de outubro de 1963, praticamente". Mojica adora duas palavras, que repete em quase todas as frases: praticamente e realmente. Zé do Caixão baixou num sonho. Ou num pesadelo. Na época, Mojica já era um cineasta com vários filmes no currículo, do faroeste à pornochanchada. O primeiro curta metragem é de 1945: "A mágica do mágico". E o primeiro longa, de 1958: "Sina de aventureiro".

Zé do Caixão estreou no hoje clássico "À meia-noite levarei sua alma". Por falta de atores, Mojica foi obrigado a incorporar o personagem, que, aliás, nunca desencorporou. Segundo ele, o Zé do Caixão tem até um nome de batismo: Josefel Zanatas. Nos sonhos do diretor, ele era um vulto que o arrastava até o próprio túmulo.

Mojica tornou-se famoso pelo estilo rude de filmar, baseado na improvisação, na falta de recursos técnicos e em histórias objetivas. Antes de iniciar a saga do Zé do Caixão, já flertava com o suspense. Havia fundado o estúdio Companhia Cinematográfica, depois Companhia Cinematográfica Apolo, no bairro do Brás, onde dava aulas de cinema e fazia testes, utilizando bichos como ratazanas e baratas, para "tirar a emoção, o horror dos atores". "À meia-noite levarei sua alma" marca o nascimento do gênero terror no Brasil.

De 1963 até meados dos anos 70, Mojica viveu o auge. Ganhou um programa na TV Tupi, era personagem de quadrinhos e possuía vários produtos licenciados com a marca Zé do Caixão. Em 1969, porém, começou a descer a ladeira. O marco foi a proibição pela censura do filme "O despertar da besta", considerado por muitos sua grande obra. Produtores e investidores desapareceram. Mojica não conseguia mais trabalhar. Entrou em depressão, passou a beber muito, em 1977 teve um enfarto que o deixou em coma por cinco dias e, nos anos 80, sumiu.


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segunda-feira, 21 de abril de 2014

ZARATUSTRA


[Editado do capítulo 1 do livro "O Zaratustra de Nietzsche" de autoria de Pierre Héber-Suffrin e publicado por Jorge Zahar Editor]


Por que iria um pensador alemão do século XIX falar-nos pela boca de um profeta iraniano do século VII antes de nossa era, e pôr-nos a sua escuta?

Nietzsche diz ter escolhido Zaratustra precisamente para que seu personagem diga "exatamente o contrário" do que disse o Zaratustra histórico. Assim, Nietzsche escolheu Zaratustra para opô-lo a Zaratustra.

E, de fato, ele os opõe radicalmente: de um lado, o papel do Zaratustra histórico consistiu, com efeito, na invenção de um dualismo de inspiração moral, dualismo que explicava todas as coisas pela ação de dois princípios em luta, dualismo moral para o qual um desses princípios é o Bem e o outro o Mal.

Essa invenção, Zaratustra a fez - segundo Nietzsche - extrapolando nossa experiência moral humana do bem e do mal, dando-lhes uma dimensão teológica (há um Deus Bem e um Deus Mal) e cosmológica (no universo, tudo se explica pela ação de um ou outro desses dois princípios, e por sua rivalidade).

Ora, por outro lado, precisamente, é esse dualismo e esse moralismo que Zaratustra, o personagem literário, vai rejeitar pois precisamente é a recusa desse dualismo e desse moralismo que constitui um ponto essencial do pensamento de Nietzsche.

Ele observa que Zaratustra foi o primeiro a pregar um dualismo e um moralismo que, recebidos depois, como herança, da Bíblia e da Grécia, impregnarão toda a nossa cultura.

Mas, por outro lado, o que interessa a Nietzsche é principalmente o fato de que Zaratustra foi o primeiro a VER esse dualismo moralista, o primeiro a descobrir claramente o fundamento moral de sua metafísica, a operar deliberadamente essa transposição do ético para o cósmico, a discernir a "genealogia" moral da sua concepção do mundo.

Ora, em linguagem nietzschiana, esse discernimento é sinceridade. Ser lúcido é, pois, ser sincero em relação a si mesmo, ter a coragem de suas opiniões, a coragem da verdade; é ter, antes da coragem de dizê-las, a coragem de pensá-las, de VÊ-LAS.

É por isso que Nietzsche o escolheu; em razão dessa sinceridade-lucidez que caracteriza o próprio Nietzsche, dessa sinceridade-lucidez que permitiu ao Zaratustra real ver o fundamento moral de sua metafísica e que, agora, o obriga logicamente a tornar-se o exato contrário do que ele era: o Zaratustra nietzschiano.   



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domingo, 20 de abril de 2014

MAIS CERVEJA, MENOS PÃO


[Editado a partir de um artigo publicado em GALILEO nº 223 de fevereiro de 2010]



Patrick McGovern é diretor do Laboratório Arqueológico Biomolecular do Museu da Universidade da Pensilvânia e autor do livro 'Uncorking the Past: The Quest for Wine, Beer and Other Alcoholic Beverages'.

Diferentemente do senso comum, que costuma ligar os bêbados a uma horda de bárbaros, McGovern defende que o álcool teve um importante papel no estabelecimento das primeiras civilizações. "Quando você tem que produzir álcool suficiente para toda a sua população, é necessário se assentar em algum lugar por todo o ano, cuidar das plantas." Com o tempo, os humanos começaram a construir casas, e esses assentamentos se tornaram vilas.




"Nossa agricultura surgiu para produzir álcool. Os primeiros assentamentos humanos surgiram depois do cultivo da cevada, e é mais fácil produzir cerveja do que pão, além de ser mais nutritiva." McGovern cita o exemplo do milho na América Latina. Antes de ser domesticado, o grão não servia para ser comido, ele só era consumido transformado em bebida fermentada. "Se olharmos para os grãos como arroz, cevada, trigo, milho e sorgo, eles todos podem ser transformados em bebidas. A motivação de sua domesticação foi poder consumi-los na forma de bebida alcoólica. Só depois passamos a fazer pães e massas", diz. 


 


Avançando um pouco no tempo, McGovern aponta o comércio das bebidas como grande impulsionador de intercâmbios culturais. "Enquanto os fenícios levavam o vinho em seus barcos, espalhavam sua cultura pelo Mediterrâneo." Eram vendidas a altos preços aos nobres egípcios e europeus - inclusive para os italianos e franceses, que mais tarde seriam os grandes produtores da bebida. Eles não transportavam só a cultura do vinho, mas sua indústria, o trabalho com metais e a cerâmica. Além, é claro, da mais importante contribuição de sua cultura para o mundo: o alfabeto latino.





O vinho tornou essas trocas bem mais fáceis. "Não acho que toda transferência cultural e tecnológica tem de ser pela força, ela pode ser guiada simplesmente pelo prazer. Quando vamos para outros países experimentar suas bebidas, as pessoas podem ser muito amigáveis, ficamos interessadas por suas ideias e cultura", diz McGovern.


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Quem já leu os quadrinhos de 'Astérix, o gaulês' tem uma boa ideia a respeito do que o professor McGovern está falando...

  




sábado, 19 de abril de 2014

ÍCONE DO ROCK


[Editado de uma reportagem de Carlos Albuquerque publicada no jornal O GLOBO em 12.04.2014]


A mitológica guitarra 'Fender Stratocaster' está completando 60 anos.

Criado pelo americano Leo Fender em 1954, o instrumento se tornou, ao longo dos anos, o maior ícone do rock, graças ao seu uso por superastros como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jeff Beck, David Gilmore, Stevie Ray Vaughan, Ritchie Blackmore e The Edge, entre muitos outros. 

Celebrada graças ao seu design cheio de estilo e à sua sonoridade única, a 'Fender Stratocaster' - amada no Brasil por craques como Lulu Santos e Roberto Frejat - tem sua importância resumida numa declaração do próprio Clapton: "Se pudesse voltar no tempo diria a ele que realmente criou algo insuperável". Trata-se, sem dúvida, de um dos instrumentos mais marcantes da História.



Sua construção, seus recursos e sua sonoridade revelam um momento único de inspiração. Mas quando foi visto pela primeira vez em público, durante uma apresentação de Buddy Holly, no programa de televisão de Ed Sullivan, em dezembro de 1957, a 'Fender Stratocaster' parecia algo do outro mundo. Numa época em que a concorrência oferecia instrumentos que, em sua maioria, pareciam nada mais que violões elétricos, alguns detalhes causaram espanto e até dúvida se aquilo era mesmo uma guitarra, como seu desenho único (com um recorte duplo), sem buracos, a fixação dos captadores, as tarraxas só de um lado do braço e a alavanca de vibrato, para "torcer" as cordas.

 


E, de 1954 para cá, não faltaram individualidades ao corpo da 'Strato'. Foi o som dela que marcou a surf music dos Beach Boys e de Dick Dale, no começo dos anos 1960. Foi empunhando uma que Bob Dylan fez sua famosa virada elétrica, no festival de Newport, em 1965. Foi com um modelo desses que Hendrix subverteu o hino americano, no festival de Woodstock, em 1969, Clapton gravou o clássico "Layla", em 1970, e Ritchie Blackmore fez o imortal riff de "Smoke on the Water", em 1971. 



E, num pulo no tempo, foi com uma 'Stratocaster' que John Frusciante, dos Red Hot Chili Peppers, brilhou em "Californication", em 1999, e John Mayer tocou no funeral de Michael Jackson, em 2009.



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Um solo de aniversário em homenagem aos 60 anos do maior ícone do rock'n'roll pelas mãos de Jimi Hendrix! (sem comentários...)







quarta-feira, 16 de abril de 2014

MARCHA DA MACONHA


[Editado de uma reportagem de Daniel Biasetto e Júlia Amin publicada no jornal O GLOBO]


A sétima edição da Marcha da Maconha, no Rio, em 10 de maio terá uma ala especial destinada aos pais de crianças que fazem uso de medicamentos a base de Canabidiol no tratamento contra a epilepsia, e reivindicam a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importar e administrar a substância na luta contra crises convulsivas sofridas por seus filhos.

A ideia ganhou força após decisão de caráter liminar da Justiça Federal em Brasília determinar que a Anvisa entregue o medicamento à família de uma criança de 4 anos que sofre do distúrbio neurológico e teve redução significativa de crises convulsivas ao adotar o uso do remédio indicado por um médico.

 

Presença confirmada na marcha, a advogada Margarete Brito foi a primeira pessoa no Brasil a entrar em contato com a empresa que fornece o medicamento nos Estados Unidos para importá-lo. Mãe de Sofia, de 5 anos e que sofre da síndrome rara denominada CDKL5, cuja principal manifestação são crises convulsivas diárias, ela lidera um grupo de mães para criar uma associação.

Além das dificuldades de importação do remédio, as mães afirmam que a falta de conhecimento dos médicos sobre o Canabidiol é o principal motivo de dúvida na decisão de iniciar o tratamento.


Após muita pesquisas na internet, e descrente dos efeitos dos medicamentos permitidos no país, Margarete resolveu, em outubro de 2013, importar o Canabidiol como última tentativa de curar a sua filha. Ela diz que não teve medo das consequências legais com a importação clandestina do CBD.

Sofia foi tratada durante um mês e teve suas crises reduzidas em 50%.  


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Vamos fumar a hipocrisia no dia 10 de maio na Marcha da Maconha do Rio de Janeiro!









terça-feira, 15 de abril de 2014

STAN LEE



Este ano a MARVEL COMICS completa 53 anos. Na verdade ela é bem mais antiga, pois é a continuação natural de uma editora chamada "Timely" que começou suas atividades no final dos anos 1930, depois mudou o nome para "Atlas" nos anos 1950 e, só então, à partir dos anos 1960, passou a se chamar "Marvel", quando Stan Lee e Jack Kirby começaram a lançar novos personagens, super-heróis com personalidade e que viviam problemas cotidianos como a maioria de nós, pobres mortais.

Com exceção do Capitão América (criado em 1941 por Joe Simon e Jack Kirby), a MARVEL COMICS passou a ser conhecida como tal em virtude das criações (Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Thor, Hulk, X-Men, Homem de Ferro, etc.) daquela dupla genial (Lee & Kirby).


Por incrível que pareça, aquele que pode ser considerado um dos grupos de heróis mais populares da editora (ao lado dos Vingadores) não teve inicialmente a mesma sorte que as outras criações da mesma; a revista dos X-Men chegou a ser cancelada no fim dos anos 1960, até retornar triunfante no início dos anos 1970 com uma nova formação e novos autores, a ponto de hoje deter o recorde de vendas de um único gibi: sete milhões de exemplares.



Apresentamos agora um trecho de uma entrevista com Stan Lee, concedida por telefone ao repórter Eduardo Souza Lima do jornal O GLOBO, em 1993:

P: Como surgiu a idéia de criar Os Vingadores e os X-Men?

R: Em relação aos Vingadores, eu tinha uma série de heróis, todos com características distintas, mas achava que poderiam funcionar bem juntos. Algo como eles se encontrassem e dissessem: "vamos trabalhar juntos?". Felizmente a ideia funcionou. Já com os X-Men, o que eu queria era criar um time de heróis, mas que tivesse características diferentes. Por isso eles teriam que ter adquirido seus poderes de forma diferente do, digamos, usual. Pensei então em heróis mutantes e quis chamar a história de "Os Mutantes". Mas meu editor não gostou do nome, ele achou que ninguém saberia o significado do nome. Como eram homens com extra-power (poder extra), resolvi chamá-los X-Men. Foi o que ficou.



P: Por que acha que os X-Men originais não deram certo?

R: É uma história estranha. Eles eram populares na época em que foram criados, mas eu tinha outras revistas para fazer, outras ocupações. Assim sendo, acabei tendo que parar de escrever os X-Men e delegando essa função para outras pessoas. Foi quando houve a queda. É como um filme. Não adianta ter uma boa história se você não tem um bom diretor.

P: Você acha que existe algum artista hoje em dia que seja capaz de criar um novo universo como o da Marvel?

R: Não sei, não quero parecer pretensioso, mas acho que seria uma tarefa difícil. Tivemos sorte, eu, Steve Ditko, Jack Kirby...

 

P: Já que o cinema o atrai, já pensou em dirigir um filme basado num personagem seu?

R: Eu adoraria, sabia? Mas pensando bem, não tenho mais idade para aprender as técnicas da direção. Seria muita pretensão minha, com tantos bons diretores em atividade, querer fazer o trabalho deles... Mas talvez eu pudesse dar um bom diretor assistente (risos).  



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Como diria Stan the Man: EXCELSIOR!



A PALERMA


[Conto de Anton Tchékhov in "A Corista e outras histórias"; publicado por L&PM Editores em fevereiro de 2012]


Dias atrás mandei chamar a governanta dos meus filhos, Iúlia Vassílievna, ao meu gabinete. Precisávamos acertar as contas.

- Sente-se, Iúlia Vassílievna! - eu disse. - Vamos acertar nossas contas. A senhora provavelmente necessita de dinheiro, mas tem cerimônia demais para pedir... Vamos lá... Nós combinamos trinta rublos por mês...

- Quarenta...

- Não, trinta... Eu tenho aqui escrito... Eu sempre paguei trinta para as governantas... Então a senhora ficou aqui dois meses...

- Dois meses e cinco dias...

- Dois meses exatos... Eu tenho aqui anotado. Portanto, a senhora tem a receber sessenta rublos... temos que descontar nove domingos... pois a senhora não estudou com Kólia nos domingos, sempre passearam... e houve ainda três feriados...

Iúlia Vassílievna ficou vermelha e começou a repuxar os babadinhos de sua roupa, mas não disse uma só palavra...

- Três feriados... Consequentemente, vamos tirar doze rublos... Durante quatro dias Kólia ficou doente e não teve aulas... A senhora estudou só com Vária... Três dias a senhora teve dor de dente e minha esposa permitiu que a senhora não desse aula depois do almoço... Doze mais sete - dezenove. Subtraindo, restam... hum... 41 rublos. Certo?

O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou vermelho e cheio d'água. Seu queixo tremeu. Ela deu uma tossida nervosa, assoou o nariz, mas - nem uma palavra!

- Na véspera de ano-novo a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. Vamos tirar dois rublos... A xícara custa mais do que isso, era herança de família, mas... deixa prá lá! Não vamos fazer questão disso! Adiante: devido à sua falta de atenção, Kólia subiu numa árvore e rasgou seu casaquinho. Vamos tirar dez... A arrumadeira, também devido à sua falta de atenção, roubou uma botinas de Vária. A senhora deveria cuidar de tudo. É para isso que recebe salário. Então, vamos tirar mais cinco... No dia sete de janeiro a senhora pegou adiantado comigo dez rublos...

- Eu não peguei! - sussurou Iúlia Vassílievna.

- Mas eu tenho aqui anotado!

- Então está bem... Que seja.

- De 41 vamos subtrair 27 - restam quatorze.

Os dois olhos de Iúlia Vassílevna encheram-se de lágrimas... No seu belo e alongado narizinho apareceram gotas de suor. Pobre menina!

- Eu só peguei uma vez - disse ela com voz trêmula. - Peguei com a sua esposa três rublos... Não peguei mais...

- É mesmo? Ora, isso não está anotado! Tirando três de quatorze, sobram onze... aqui está o seu dinheiro, caríssima! Três... três... três... um... um... Tenha a bondade de receber!

E lhe entreguei onze rublos... Ela pegou o dinheiro e com os dedinhos tremendo meteu-o no bolso.

- Merci - sussurou ela.

Levantei-me de um salto e comecei a caminhar pelo gabinete. Estava indignado.

- 'Merci' por quê? - perguntei.

- Pelo dinheiro...

- Mas eu a roubei, com os diabos, eu a assaltei! Acabei de roubá-la! Por quê 'merci'?

- Nos outros lugares eles não pagavam nada...

- Não pagavam? Então não é de se estranhar! Eu estava brincando com a senhora, estava lhe dando uma lição cruel... Vou lhe pagar todos os oitenta rublos! Estão aqui preparados, neste envelope! Mas é possível ser assim tão pateta? Por que a senhora não protesta? Por que fica calada? Será que nesse mundo é possível não ser atrevido? É possível ser tão palerma?

Ela deu um sorriso azedo e eu li no seu rosto: "É possível!"

Pedi desculpas pela cruel lição e, para sua grande surpresa, entreguei-lhe todos os oitenta rublos. Ela disse um 'merci' tímido e saiu... Fiquei olhando quando ela se afastava e pensei: "Como é fácil ser poderoso neste mundo!" 

19 de fevereiro de 1883



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TCHÉKHOV é um verdadeiro mestre do conto! (e vem acompanhado de um mestre da pintura: EDGAR DEGAS; "As irmãs Bellelli", 1865-1866). 




A INVASÃO ARGENTINA


[Editado de uma reportagem de Janaína Figueiredo, publicada no jornal O GLOBO em 01.03.2014]


A Copa de 2014 chegou num mau momento para muitos argentinos. A crise financeira conspira contra o sonho de acompanhar a seleção de Lionel Messi no Brasil.

Mas nem todos os argentinos renunciaram ao sonho de participar da festa mundial do futebol.
Na cidade de Paraná, capital da província de Entre Rios, a 500 quilômetros de Buenos Aires, dez amigos decidiram desafiar as adversidades. Em maio de 2013, compraram um ônibus usado e, desde então, trabalham para transformá-lo num motorhome que os levará às cidades brasileiras.



Eles tiveram de negociar com seus chefes  e, também, mulheres e namoradas, uma ausência de pelo menos um mês fora de casa. Todos foram compreensivos, segundo eles, e ficaram encantados com o projeto. Nos últimos meses, o grupo se encontra nos fins de semana para montar o ônibus, que terá sala, cozinha e um quarto com 12 camas.

Um dos obstáculos é a compra de ingressos. apesar de se inscreverem em todos os sorteios, não conseguiram ingresso. Eles pretendem partir rumo ao Brasil em 7 de junho, para chegar a São Paulo no dia 12, a tempo da abertura. Depois vão acompanhar a seleção argentina.


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CUIDADO GALERA! ELES ESTÃO CHEGANDO!!!