terça-feira, 2 de novembro de 2010

O IMAGINÁRIO II



[CONCLUSÃO da obra “O Imaginário: Ensaio Acerca das Ciências e da Filosofia da Imagem”, de Gilbert Durand; tradução de René Eve Levié; Coleção 'Enfoques – Filosofia', da editora Difel; 1998]



Foi assim que, em meados do século 20, os trabalhos pluridisciplinares convergentes permitiram tanto a criação de um balanço heurístico rico em estudos do imaginário como apresentar os conceitos-chaves de uma abordagem metódica das representações do Universo, ou de uma “mitodologia”. O pluralismo taxionômico, a tópica e a dinâmica permitem abarcar as bacias semânticas que articulam aquilo que é “próprio do homem”, o imaginário, com uma precisão mensurável. Este define-se como uma re-presentação incontornável, a faculdade da simbolização de onde todos os medos, todas as esperanças e seus frutos culturais jorram continuamente desde os cerca de um milhão e meio de anos que o homo erectus ficou em pé na face da Terra.

Contudo, não poderíamos concluir com esta constatação triunfalista. Verdade que “a civilização da imagem” permitiu a descoberta dos poderes da imagem há tanto tempo recalcados, aprofundou as definições, os mecanismos de formação, as deformações e as elipses da imagem. Por sua vez, a “explosão do vídeo”, fruto de um efeito perverso, está prenhe de outros “efeitos perversos” e perigosos que ameaçam a humanidade do Sapiens.

Em primeiro lugar porque ela impõe seu sentido a um espectador passivo, pois a imagem “enlatada” anestesia aos poucos a criatividade individual da imaginação, como já apontava Bachelard ao dar preferência à “imagem literária” sobre qualquer outra imagem icônica mesmo animada como a de um filme.

Portanto, a imagem “enlatada” paralisa qualquer julgamento de valor por parte do consumidor passivo, já que o valor depende de uma escolha; o espectador então será orientado pelas atitudes coletivas da propaganda; é a temida “violentação das massas”. Este nivelamento é perceptível no espectador de televisão, que engole com a mesma voracidade, ou melhor, com a mesma falta de apetite, espetáculos de “variedades”, discursos presidenciais, receitas de cozinha e notícias mais ou menos catastróficas... É o mesmo “olho de peixe morto” que contempla as crianças que morrem de fome na Somália, a “purificação étnica” na Bósnia ou o arcebispo de Paris subindo a escadaria da Basílica de Montmartre carregando uma cruz... Esta anestesia da criatividade do imaginário e o nivelamento dos valores, numa indiferença espetacular, são reforçados por outro e último perigo.

Trata-se do anonimato da “fabricação” destas imagens. Elas são distribuídas com tanta generosidade que escapam de qualquer “dignitário” responsável, seja ele religioso ou político, interditando assim qualquer delimitação e qualquer estado de alerta, permitindo, portanto, as manipulações éticas e as “desinformações” por produtores não-identificados. A famosa “liberdade de informação” é substituída por uma total “liberdade de desinformação”. Sub-repticiamente, os poderes tradicionais (éticos, políticos, judiciários e legislativos...) parecem ser os tributários de uma única veiculação de imagens “pela mídia”.

Não deixa de ser paradoxal que tal “poder público”, que se tornou absoluto por técnicas sofisticadas que ele utiliza e por quantias colossais de dinheiro que ele drena, seja abandonado ao anonimato, quando não ao oculto. De modo mais geral, o problema concreto da ruptura entre o poder da mídia e os poderes sociais está ligado ao excesso de “informações” (no sentido muito amplo, formações e desinformações, inclusive) das estruturas das instituições. Como se sabe, por natureza a informação (L. Brouillin) é não-entrópica – isto é, ela aumenta indefinidamente, sem conter em si mesma o germe da sua usura – enquanto as instituições, como qualquer construção humana que precisa gastar suas energias, são entrópicas, isto é, condicionadas ao desaparecimento e a morte. Então, a pletora indefinida de informações poderia ser um fator de entropia para as instituições sociais que ela desestabiliza... Constatamos que quanto mais uma sociedade é “informada” tanto mais as instituições que a fundamentam se fragilizam...

Um perigo tríplice para as gerações do “zapping”: perigoso quando a imagem sufoca o imaginário, perigoso quando nivela os valores do grupo – seja de uma nação, cantão ou “tribo” – e perigoso quando os poderes constitutivos de toda sociedade são submersos e erodidos por uma revolução civilizacional que escapa ao seu controle... Ao menos se formou – como o demonstramos ao longo destas páginas – um “magistério” discreto de sábios competentes aos quais “os políticos”, aqueles que ainda pretendem “governar” os grupos sociais, deveriam prestar atenção...



POST-SCRIPTUM:




Pouco mais a acrescentar, além de recomendar a leitura da postagem O Imaginário I (com a 'Introdução' da obra), algumas páginas atrás e, é claro, o próprio livro de Gilbert Durand...


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

VOTE NULO NO SEGUNDO TURNO




NÃO SUSTENTE CORRUPTOS E BANQUEIROS!

A atual eleição para presidente ilustra bem a lamentável situação a que chegou a farsa representada pelos supostos responsáveis pelas instituições políticas brasileiras, assim como a credulidade de uma população disposta a se agarrar a qualquer fiapo de esperança que se lhe apresente.


O texto a seguir foi resumido e adaptado a partir de um ensaio escrito pelo ideólogo anarquista BOB BLACK (“Groucho-Marxismo”, tradução de Michele de Aguiar Vartuli, Conrad Editora, 2006) e, em minha modesta opinião, cai como uma luva não só em relação à referida eleição, mas – e principalmente – em relação ao contexto geral da política brasileira.





 A MENTIRA NO ESTADO

Precisamos de uma fenomenologia da mentira. Como a essência imanente e onipresente de nossa sociedade, a mentira não merece menos; e já é hora dela ter o que merece. Vamos ser honestos sobre a desonestidade. Como ‘eles’ nos enganam? Deixe-me contar as formas.

Algumas formas de fraude, especialmente aquelas exercidas cara a cara, são altamente refinadas. Uma névoa fina desce sobre as pessoas usando qualquer uma de várias expressões idiomáticas compartilhadas, que supõe estar dizendo algo quando estão apenas emitindo sinais, barulhos, que provocam reações similares. Na verdade não passam de ruído. Muito mais expressão do que comunicação, na melhor das hipóteses elas dizem menos do que parecem dizer, e a melhor das hipóteses é rara, nesses casos.

A epítome da enganação consensual é a autocontradição transformada em jargão especializado. No outro extremo da engambelação sofisticada está a prevaricação pura e simples. Como cigarros, mas sem mensagens de advertência, essas mentiras costumam vir em pacotes. O mundo dos negócios (existe outro?) contém ocupações inteiras de profissionais da falsidade. Há ramos que pressupõe mais do que confundir de leve o consumidor comum: eles sapecam mentiras gigantescas sobre uma população ludibriada por questão de necessidade profissional. Ainda assim, políticos são os mentirosos ideais. É para mentir (além de dar ordens) que nós lhes pagamos, ou melhor, que eles se pagam com os nossos impostos.

Que as autoridades, como os autoritários que as invejam, mentem sistematicamente, não é nenhuma novidade. Mas elas refinaram, ou ao menos aumentaram, seus embustes. Nossa complexa sociedade, baseada no consentimento por coerção, criou modos de manipulação tão avançados que a falsidade pode ser minimizada, até eliminada sem que a verdade venha à tona.

O sistema nos inunda com informações tão triviais que chegam a merecer o nome desgastado de “dados”, até que os poucos assuntos de importância real sejam expulsos da mente. O conhecimento é fragmentado em ilhas artificiais e confiado a especialistas endógamos. No mundo acadêmico, essas exclusividades merecem as conotações sadomasoquistas da denominação que recebem: “disciplinas”. A divisão social da mão-de-obra – estilhaçando uma vida, que deveria ser experimentada integralmente, em “papéis” padronizados à força –, estendida à consciência, se reproduz ao mesmo tempo em que oculta sua passagem.

Regras e papéis nos tornam tão intercambiáveis quanto os bens cuja produção é a nossa destruição. Não admira que, como Karl Marx observou uma vez antes de se tornar um político, a única linguagem compreensível que temos é a linguagem das nossas posses conversando entre si. Precisamos de outra. E precisamos de ocasiões sem pressa e sem pressões para um repouso sem palavras. A revolução requer uma expressão idiomática antiidiota que expresse o até agora indizível. O amor que não ousa dizer seu nome tem vantagens sobre o outro, caluniado por rótulos, cujo nome é tomado em vão e nunca devolvido aos seus donos legítimos.

A corrupção da linguagem promove a corrupção da vida. É na verdade o seu pré-requisito. Um primeiro passo rumo à paz e a liberdade – impossível agora, sob a sociedade de classes e sua arma, o Estado – é chamar as coisa por seus verdadeiros nomes.

IMPOSTO É FURTO!






POST-SCRIPTUM:




Sejamos, portanto, honestos também com relação ao furto; que se furte de quem tem muito, para dar a quem não tem (praticamente) nada. O lendário personagem Robin Hood deve muito de sua longevidade e popularidade a este mesmo tipo de honestidade quanto ao furto. Ou seja, ele roubava dos ricos para dar aos pobres.

E ainda, na medida em que os primeiros núcleos de concentração de riqueza que deram respaldo à legitimação da dominação política surgiram da prática predatória de apropriação indébita daquela propriedade que era comum a todos, ou seja, a terra, (este sim o “pecado original”) estar-se-á meramente realizando um ato de justiça, mesmo que insuficiente, ao taxar-se apenas aquela mínima parcela da população detentora de uma parcela máxima das propriedades (sejam elas de que tipo for, grandes fortunas do mercado financeiro, heranças milionárias e latifúndios, aí prioritariamente incluídos), a fim de financiar qualquer iniciativa de bem estar público, assistencialista ou não.

Voltando ao famoso ladrão e justiceiro inglês e, paralelamente, ao imaginário popular, vale lembrar aquele velho ditado: “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Desde que, evidentemente, não seja para encher os próprios bolsos e os dos "aliados políticos".

E, sinceramente, mais de um trilhão de reais em arrecadação de impostos é muito dinheiro! Onde estão os investimentos em educação, saúde e segurança públicas compatíveis com tamanha quantia? Temos aqui um exemplo típico de inversão de valores: rouba-se dos pobres para dar aos ricos... 




terça-feira, 14 de setembro de 2010

CUBA ANUNCIA DEMISSÃO DE SERVIDORES PÚBLICOS





O governo cubano anunciou nesta segunda-feira que demitirá pelo menos 500 mil funcionário públicos, ou cerca de 20% dos trabalhadores estatais do país, nos próximos seis meses.

Em contrapartida, as autoridades em Havana determinaram a ampliação do número de permissões para se trabalhar por conta própria e abrir pequenas empresas, na maior mudança de mão-de-obra para o setor privado desde a revolução cubana em 1959.

Os cortes no setor público podem chegar a até 1 milhão de postos, já que a Central de Trabalhadores de Cuba (CTC) disse, em comunicado, que "é sabido que o excesso de vagas é de mais de 1 milhão nos setores orçamentário e empresarial".

A CTC afirmou que "o Estado não pode nem deve continuar a manter empresas com quadro de funcionários inflados, que criam empecilhos para a economia e deformam a conduta dos trabalhadores".

A maioria das vagas cortadas será em setores burocráticos do governo, especialmente nos Ministérios do Açúcar, Saúde Pública e Turismo. Aos demitidos serão oferecidas vagas em setores com déficit de vagas de trabalho como agricultura, construção, magistério, polícia e construção.

Quem não aceitar o novo cargo será demitido e terá direito a receber um salário mensal a cada dez anos trabalhado. A idoneidade de cada trabalhador será o quesito analisado para se decidir quem fica no cargo e quem será demitido e já foram criadas comissões para estudar os casos.

Também serão emitidas 460 mil licenças para os cubanos abrirem seus próprios negócios e mais de cem tipos de atividades profissionais particulares passarão a ser permitidas. Outra novidade é que os autônomos poderão contratar funcionários - antes, a lei permitia apenas que parentes do licenciado trabalhassem na microempresa.

Os cubanos que abrirem ou já tiverem seu próprio negócio também poderão vender seus produtos ou serviços ao governo. Além disso, poderão abrir conta no banco e terão direito à previdência.

[BBC Brasil]



POST-SCRIPTUM:




Notícia insólita essa: parece até que eu acordei num universo paralelo!

Que fique bem claro que a ilustração acima é apenas um reconhecimento pelo que Fidel Castro representou no passado como símbolo de luta contra a opressão; entretanto, não nutro qualquer simpatia pela ditadura retrógrada que se instalou em Cuba desde a vitória da suposta 'revolução' e, em minha modesta opinião, Fidel e Cia. já deveriam ter se aposentado há muito tempo. Após este pequeno parêntese esclarecedor, voltemos ao assunto da notícia divulgada acima.

Muitos neoliberais devem estar soltando fogos a essa altura e se congratulando entre si; assim como muitos comunistas de carteirinha devem estar achando que é o fim do mundo e culpando os EUA (se bem que, em parte, não há como negar que o bloqueio econômico americano à Cuba ao logo de tantos anos contribuiu para atrasar a modernização da economia cubana e para a criação, pelo menos indiretamente, da atual situação em que esta se encontra): cada um com sua parcela de razão...

Em minha opinião, dentro do atual contexto político-econômico de Cuba, o anúncio de um enxugamento da máquina burocrático-administrativa no governo castrista não deixa de ser uma atitude sensata, desde que aplicada com critérios justos e que não penalizem o povo e a classe trabalhadora cubana.

Pelo que me parece, a tal demissão é até um tipo de prêmio para quem a aceitar, na medida em que este “terá direito a receber um salário mensal a cada dez anos trabalhado”. Legal isso; assim, muitos dos que contribuíram efetivamente para a manutenção de algum bem-estar ao povo cubano ao longo de tantos anos, e que aceitarem a demissão, receberão algo equivalente a um reconhecimento por seus esforços, além de um incentivo financeiro para que possam estabelecer-se em negócios privados.

É a marcha da História, com certeza ainda muito longe de seu fim. Pena que, no Brasil, a tendência parece ser inversa, no sentido da manutenção de práticas perversas que punem tanto a iniciativa privada (via carga tributária e alta taxa de juros) quanto o serviço público (via ‘cabide de empregos’ com fins eleitoreiros, máquina administrativa ineficiente e sucateada e não valorização do servidor público).

E tem gente que ainda se engana com o caquético e viciado discurso da política brasileira, seja ele supostamente de direita ou de esquerda. A impressão que eu tenho em conversas de rua é de que o povão prefere “não mexer em time que está dando certo” (pelo menos em algumas poucas coisas) e quem “rouba mas faz” (até quando vão se fechar os olhos para as irregularidades cometidas pela cúpula do PT?).

Ainda assim, não me surpreenderei muito se o número de votos brancos e nulos for mais expressivo do que o normal nestas eleições. Ah, e antes que eu me esqueça: meu voto para presidente é da Marina Silva do PV.





terça-feira, 31 de agosto de 2010

WIKILEAKS




O site de denúncias Wikileaks voltou a ser objeto de atenção da imprensa internacional ao publicar mais de 90 mil documentos contendo registros secretos de incidentes e relatórios de militares americanos sobre a guerra no Afeganistão.

Entre os casos mais recentes está o de 45 civis, inclusive várias mulheres e crianças, que teriam morrido ao serem atingidos por um foguete da Otan na província de Helmand, no sul do Afeganistão.

A ocorrência de vítimas civis por causa de ações militares estrangeiras é um dos principais pontos de atrito entre o governo do presidente Hamid Karzai e seus apoiadores ocidentais, e já motivou manifestações nas ruas.

A entidade WikiLeaks divulgou dezenas de milhares de documentos secretos dos EUA mostrando o que ela disse ser "a verdadeira natureza desta guerra" no Afeganistão. Os documentos abrangem o período prévio à posse do presidente Barack Obama, que logo adotou uma nova estratégia que incluía o envio de reforços e medidas para evitar vítimas civis.

Segundo o WikiLeaks, milhares de mortes de civis, individuais ou em duplas, deixaram de ser denunciadas ou contabilizadas. Julian Assange, fundador do grupo, disse que a importância dos documentos divulgados está no acúmulo de pequenos detalhes desconhecidos, e não na revelação de um fato impactante por si só. "A verdadeira história deste material é que a guerra é uma coisa ruim depois da outra. São contínuos pequenos eventos, contínuas mortes de crianças", afirmou ele.

"Nossas atividades devem visar antes de qualquer coisa à defesa da população, não combater a população", disse o chanceler italiano, Franco Frattini, a jornalistas durante uma reunião da União Européia em Bruxelas. "Quando baixas civis ocorrem, há um péssimo quadro oferecido à opinião pública e ao mundo."

Este é o mais recente em uma longa lista de "vazamentos" (leaks, em inglês) divulgados por meio do site, que se especializa em disponibilizar material confidencial de governos e organizações internacionais e diz já ter divulgado mais de um milhão de documentos.

Em abril de 2010, por exemplo, o site publicou um vídeo mostrando um helicóptero Apache americano matando pelo menos 12 pessoas – entre elas, dois jornalistas da agência de notícias Reuters – durante um ataque em Bagdá em 2007.

Outro documento polêmico disponibilizado pelo site foi uma cópia de um guia detalhando o tipo de tratamento dado a prisioneiros do centro de detenções americano na Baía de Guantánamo, em Cuba.

O Wikileaks provocou controvérsias quando apareceu na internet, em dezembro de 2006, e ainda divide opiniões: para uns, é uma ameaça, para outros, representa o futuro do jornalismo investigativo.

Em março deste ano, o diretor do site, o australiano Julian Assange, publicou um documento supostamente emitido pelo serviço de inteligência americano, declarando que o Wikileaks representava uma "ameaça às Forças Armadas dos Estados Unidos". Mais tarde, o governo americano confirmou que o documento era verdadeiro.

Qualquer um pode oferecer material ao site de forma anônima, mas uma equipe de revisores – voluntários da grande imprensa, jornalistas e funcionários do site – decide o que é publicado. "Usamos técnicas avançadas de criptografia e técnicas legais para proteger nossas fontes", disse Assange à imprensa, e completou: "Nos especializamos em permitir a delatores e jornalistas censurados que disponibilizem seu material ao público".

O site diz que aceita "material confidencial, censurado ou restrito que tenha significância política, diplomática ou ética", mas não recebe "rumores, opiniões e outros tipos de reportagens em primeira mão ou material que já está disponível publicamente".

O Wikileaks é administrado por uma organização conhecida como Sunshine Press e diz ser "financiado por campanhas pelos direitos humanos, jornalistas investigativos, tecnólogos e o público em geral". O site diz ter driblado mais de "cem ataques legais" (processos legais com o objetivo de suspender suas operações) desde seu surgimento.

Em 2008, por exemplo, o banqueiro suíço Julius Baer conseguiu que um tribunal bloqueasse o site após a publicação de centenas de documentos sobre as atividades internacionais do seu banco. Entretanto, vários "espelhos" do site – hospedados em diferentes servidores situados em várias partes do mundo – continuaram a operar. A ordem do tribunal acabou sendo revogada.

Segundo o Wikileaks, seu sucesso em batalhas jurídicas se deve ao que o site chama de "hospedagem à prova de balas". Ele é hospedado principalmente pelo provedor sueco PeRiQuito (PRQ), que ficou famoso por hospedar o site ilegal de trocas de arquivos de música The Pirate Bay. "(O Wikileaks) é legal na Suécia, nós vamos hospedá-lo e mantê-lo funcionando quaisquer que sejam as pressões", diz o provedor. O site também é hospedado em outros países, incluindo a Bélgica.

"Para proteger a segurança de nossas fontes, tivemos de espalhar nossos ativos, criptografar tudo e transferir telecomunicações e pessoal para outras partes do mundo para ativar leis de proteção em diferentes jurisdições nacionais. Ficamos bons nisso e nunca perdemos um caso, ou fonte, mas não podemos esperar que todos façam o esforço extraordinário que fazemos", declarou o diretor do Wikileaks.

Apesar de sua fama mundial, o site enfrentou problemas financeiros. Em fevereiro, suspendeu suas operações por não poder arcar com os custos de suas operações. Segundo Assange, doações de indivíduos e organizações salvaram o site que vem crescendo exponencialmente, a ponto de não poder dar vazão a todo o material que recebe. Como resultado, o site está se reestruturando para estabelecer vários núcleos independentes pelo mundo e agir como um intermediário entre fontes e jornais, explicou. "Nós cuidamos da fonte e agimos como um intermediário neutro e também cuidamos da publicação do material enquanto o jornalista com quem nos comunicamos faz a verificação".

[BBC Brasil]







POST-SCRIPTUM:




Vida longa ao Wikileaks e a qualquer outra iniciativa semelhante em qualquer parte do mundo. 


Não nutro qualquer simpatia por aiatolás ou talibãs, mas não há como negar que há também um “perigo real e imediato” constituído a partir da atuação em todo o globo das multinacionais que compõe as indústrias bélica, petrolífera e farmacêutica do chamado Primeiro Mundo. 

Também não questiono a capacidade e a boa-vontade do presidente Barack Obama (pelo menos em princípio), mas não me deixo seduzir pela ilusão de um “salvador da pátria”, venha ele de onde vier. 

As forças e interesses em jogo não devem ser subestimados, sob o risco de simplificarmos em demasia o problema e perdermos de vista seu alcance e sua verdadeira origem. Entretanto, iniciativas individuais e localizadas também não devem ser menosprezadas, pois apontam para as brechas no sistema e indicam a possibilidade de correções de percurso.

Como já disse o filósofo Richard Rorty, “se cuidarmos da liberdade, a verdade cuidará de si mesma”.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

SETE LOCAIS PARA VISITAR ANTES DE MORRER





Ainda que seja impossível resumir em uma lista as maravilhas que o mundo possui, fizemos uma seleção de alguns lugares para onde toda pessoa deveria viajar, pelo menos uma vez na vida.

(Claro, se você tiver grana suficiente para tal...)



O TAJ MAHAL



























Este imenso complexo foi levantado pelo imperador Shah Jahan em memória de sua esposa favorita, Arjumand Bano, mais conhecida como Mumtaz Mahal, que morreu ao dar a luz ao seu 14º filho.
Em um misto de arquitetura mongol e elementos islâmicos, persas, turcos e indianos, a construção é Patrimônio da Humanidade e faz parte da lista das novas Sete Maravilhas do Mundo.



A ACRÓPOLE






























A atual Acrópole está muito longe do que foi no passado, mas vale lembrar que a construção foi símbolo do nascimento da democracia grega. O principal elemento do complexo arqueológico é o Parthenon, dedicado à deusa Athena.


NAZCA






























Se você não tem medo de altura ou de aviões, não pode deixar de visitar Nazca, no Peru, lugar famoso por abrigar as enormes figuras gravadas no solo e que são até hoje um grande mistério arqueológico de nossa história. Ninguém sabe como, quando e porque essas imagens foram feitas.



A GRANDE MURALHA DA CHINA






























Construída para defender o império chinês de invasões, a muralha tem hoje cerca de 9 mil quilômetros de extensão. No passado, a gigantesca estrutura alcançava os incríveis 20 mil quilômetros. Assim como o Taj Mahal, a muralha também faz parte das Sete Maravilhas do Mundo.



MACHU PICCHU






























Obra impressionante de arquitetura e engenharia, a área é Patrimônio da Humanidade desde 1983. O santuário histórico oficial de Machu Picchu é alcançado através do Caminho Inca, composto por um conjunto de edificações que foi levantado no século XV. Não se sabe, no entanto, se o local foi um centro de defesa, um templo cerimonial ou uma cidade.



A ESFINGE E AS PIRÂMIDES DO EGITO






























Destino clássico para aventureiros e amantes da história antiga, o Egito e sua esfinge, suas pirâmides, seus monumentos reais, suas histórias e seus mistérios banhados pelo rio Nilo, é ponto obrigatório de visita. Destaque para as pirâmides de Gizé, o único conjunto de maravilhas do mundo antigo que ainda está de pé.



CENTRO ESPACIAL KENNEDY






























A chegada do homem à Lua, o robô explorador de Marte e o telescópio espacial Hubble: todos surgiram a partir do centro de operações da NASA na Flórida, mais especificamente no Cabo Canaveral, denominado Centro Espacial Kennedy. Melhor que isso só uma visita à própria Lua (o que, com certeza, não será nenhum absurdo num futuro não muito distante).


[Adaptado de um artigo publicado no portal MSN]




POST-SCRIPTUM:



E por minha conta:



RIO DE JANEIRO






























Obviamente, uma visita ao Rio de Janeiro não pode faltar nesta lista, que de sete vira oito, mas pra eu que já estou aqui não conta, né? (Só é preciso tomar cuidado com as balas perdidas...)

Aliás, no meu entender, não poderiam faltar também visitas a outros locais deveras interessantes, como o rio Amazonas, as pirâmides maias e aztecas na América Central e no México, Nova York, Hollywood, o Kremlin em Moscou, Paris, o Coliseu de Roma, o Vaticano, Tóquio, as savanas africanas, Jerusalém, Casablanca, o Outback australiano, os vulcões da Islândia, o Caribe, etc, etc, etc.

Mas aí, só ganhando sozinho na Mega Sena. Ou sendo deputado ou senador. Ou, pelo menos, parente de um...


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

SEMANA DE QUADRINHOS DA UFRJ






















Entre os dias 27 de setembro e 01 de outubro de 2010 deverá acontecer a quarta temporada da Semana de Quadrinhos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), um evento que reúne estudiosos e especialistas para debater os caminhos da nona arte. As apresentações se darão em locais diversos e o evento é uma realização conjunta da Escola de Belas-Artes e da Escola de Comunicação da UFRJ e do SESC do Rio de Janeiro. A coordenação é do professor Octávio Aragão. Vale a pena conferir.





POST-SCRIPTUM:



PROGRAMAÇÃO:


27/09
ESCOLA DE BELAS-ARTES UFRJ
13hs - Abertura Oficial
14hs - Debate: Ex-alunos da EBA no mercado de trabalho
(Debatedores: Clara Gomes, André Dahmer e Bruno Drummond)


28/09
SESC MADUREIRA
15hs - Oficina de Roteiro com o grupo QUADRINIZE
18hs - Debate: WEB COMICS - Quadrinhos em outro formato
(Debatedores: Ana Recalde e Tiago Lacerda)


29/09
SESC MADUREIRA
15hs - Oficina de Fanzine com Renato Lima
18hs - Debate: Quadrinhos em sala de aula
(Debatedores: Alzira Valeria, André Brown e Carlos Hollanda)


30/09
SESC MADUREIRA
15hs - Oficina de Humor Gráfico com André Brown
18hs - Debate: O mercado de ilustração ontem e hoje
(Debatedores: Luis Trimano e Zé Roberto Graúna)


01/10
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO UFRJ
14hs - Debate: 100 Anos sem Angelo Agostini
(Debatedores: Luciano Magno, Pedro de Luna e Carlos Patati)


domingo, 22 de agosto de 2010

A QUESTÃO PITAGÓRICA




[Capítulo I do livro “PITÁGORAS E OS PITAGÓRICOS – UMA BREVE HISTÓRIA” (Ed. Loyola, S. Paulo, 2007 – ISBN: 978-85-15-03301-0), da autoria de Charles H. Kahn, professor de filosofia na University of Pennsylvania, especialista em Filosofia Antiga e História da Teoria Política]



Pitágoras não é apenas o nome mais famoso na história da filosofia antes de Sócrates e Platão; ele é também uma das figuras mais fascinantes e misteriosas da Antiguidade.

Pitágoras foi celebrado nas tradições antigas como matemático e filósofo da matemática, e seu nome continua associado a um importante teorema da geometria plana. Aristóteles afirma que a própria filosofia de Platão foi profundamente influenciada pelo ensinamento pitagórico(1), e autores posteriores consideraram Pitágoras o criador da tradição platônica na filosofia. Na literatura da Antiguidade tardia, Pitágoras surge como um gênio único, o pai fundador da matemática, da música, da astronomia e da filosofia.

Um platônico moderno, o matemático e filósofo do século XX A. N. Whitehead, descreveu Pitágoras como o primeiro pensador a valorizar a função das idéias matemáticas no pensamento abstrato: “Ele insistiu na importância da máxima generalidade no raciocínio e percebeu a importância do número como auxiliar na construção de qualquer representação das condições envolvidas na ordem da natureza”(2).

Whitehead está ecoando os antigos relatos que creditavam a Pitágoras a invenção da própria noção de filosofia, a primeira descrição da natureza como um cosmos ou todo ordenado, a descoberta da esfericidade da Terra, o desenvolvimento da teoria dos proporcionais na matemática, a identificação dos cinco sólidos regulares e a descoberta das razões numéricas subjacentes às concordâncias musicais básicas(3). Como ele é representado como a maior mente científica da Grécia primitiva, se não de toda a Antiguidade, seus admiradores antigos vieram a enxergá-lo como a fonte de toda a sabedoria, o “príncipe e pai da filosofia divina”, nas palavras de Jâmblico(4).

Há, porém, o outro lado da imagem. Algumas das primeiras referências a Pitágoras são ambíguas ou satíricas. Heráclito ataca-o como charlatão inteligente: seu saber é grande, mas sua sabedoria é fraudulenta(5). Eduard Zeller, na sua grande história da filosofia grega, publicada no século XIX, reconheceu que a comunidade pitagórica era antes de tudo uma seita e culto, e que, no primeiro século após sua morte, Pitágoras era conhecido, acima de tudo, pelo ensinamento da imortalidade e da reencarnação(6). Zeller era cético quanto às conquistas científicas de Pitágoras, e seu ceticismo foi reforçado pelo trabalho crítico de vários estudiosos mais recentes.

Mas o julgamento mais extremado foi o de Erick Frank, que afirmou que “todas as descobertas atribuídas ao próprio Pitágoras ou aos seus discípulos por autores posteriores foram, na realidade, a conquista de certos matemáticos do sul da Itália na época de Platão”, um século inteiro após Pitágoras, e que estes matemáticos não tinham nenhuma ligação essencial com os "pitagóricos genuínos que são atestados (...), desde o século VI, como uma seita religiosa similar àquela dos órficos”(7).

Uma conclusão muito mais moderada, mas tendendo na mesma direção, foi obtida por Walter Burkert, em seu monumental estudo Weisheit und Wissenschaft, publicado em 1962 (com uma tradução revista para o inglês em 1972), que transformou nossa compreensão das tradições antigas em torno de Pitágoras e sua escola(8). Burkert rastreia a cosmologia pitagórica e sua filosofia dos números, relatadas por Aristóteles, até o tempo de Filolau, em meados ou fins do século V, mas não encontra nenhum indício que o ligue ao fundador da escola. O próprio Pitágoras, na visão de Burkert, é uma figura xamanística, um líder espiritual e organizador carismático (como Moisés, talvez), que exerceu uma grande influência na vida cívica da Magna Grécia, mas que não contribuiu com nada para a matemática ou a filosofia.

Há dois problemas distintos aqui. Um é a questão estritamente histórica referente à extensão de nosso conhecimento ou nossa ignorância a respeito de Pitágoras e sua escola. O outro é uma questão filosófica mais complexa, referente ao conceito mesmo do que seja “pitagórico” e sua reverberação ao longo dos tempos. Por que a figura de Pitágoras atingiu tamanho prestígio? E em que sentido certos aspectos influentes da obra de Platão são peculiarmente “pitagóricos”?

Burkert demonstrou conclusivamente que a concepção de filosofia pitagórica que é tida como certa na Antiguidade tardia é essencialmente o trabalho de Platão e de seus discípulos imediatos. Mas por que estes pensadores eram atraídos por Pitágoras e por que é justamente o elemento pitagórico no pensamento de Platão que prevaleceu tão poderosamente na Antiguidade e que ressurge em tantos desenvolvimentos modernos na ciência e nas artes?

Há dois aglomerados de idéias bem diferentes que explicam a persistente vitalidade da tradição pitagórica. O primeiro, enfatizado em nossa citação de Whitehead, é a tentativa de compreender e explicar a natureza das coisas em termos matemáticos. Como relata Aristóteles, os pitagóricos começam observando as razões numéricas das consonâncias musicais ou harmoniai e, ao encontrarem muitos pontos de correspondência entre os números e o mundo, concluíram que “o céu todo é harmonia e número”(9). Esta noção de uma rede de ligações entre a música, a matemática e os fenômenos celestes, que é resumida na noção da música das esferas, constitui um dos dois princípios fundamentais do pensamento pitagórico.

O outro aglomerado de idéias é a concepção da alma como imortal, e portanto potencialmente divina, já que na tradição grega a imortalidade é o atributo distintivo dos deuses. No pensamento pitagórico, a imortalidade é concebida em função da transmigração das almas (com a noção relacionada de parentesco entre todos os seres viventes) e também na possibilidade de purificação e libertação do ciclo do renascimento, da escravidão da forma corporal. (É esta concepção do pós-vida que é comum às tradições órfica e pitagórica.) Essa visão pitagórica da alma é desenvolvida mais sistematicamente no Fédon de Platão, mas surge também na doutrina da recordação em outros diálogos e nos mitos platônicos do julgamento e da preexistência no Fédon, na República e no Fedro.

Por outro lado, a concepção matemático-musical do cosmos recebe sua expressão mais definitiva no Timeu de Platão, no qual a alma do mundo é estruturada pelas razões musicais e o corpo do mundo é organizado a partir de triângulos elementares. A engenhosa geometria e a elaborada aritmética do Timeu são certamente invenção do próprio Platão, assim como a reinterpretação da recordação e da imortalidade em função da compreensão cognitiva das Formas eternas é do próprio Platão. Mas em ambos os casos Platão está trabalhando com temas que, na origem, são inequivocamente pitagóricos.

E foi primariamente por meio destes dois diálogos, o Fédon e o Timeu, que as idéias pitagóricas tornaram-se uma influência tão poderosa no pensamento de séculos posteriores, não apenas na Antiguidade, mas, novamente, no Renascimento e para além, chegando até o nosso tempo.

O envolvimento mútuo das tradições platônica e pitagórica é muito mais complexo e extenso do que isto, como veremos. Mas o Fédon e o Timeu podem servir como emblemas para o que é mais vital e duradouro na contribuição pitagórica para o pensamento ocidental: por um lado, uma compreensão matemática do mundo da natureza; por outro lado, uma concepção do destino humano que aponta para além do mundo visível e para além do corpo mortal, para uma forma superior de vida. É a combinação destas duas concepções que é distintamente pitagórica, mas também distintamente platônica.



(1) ARISTÓTELES, Metafísica, A 6.


(2) A. N. WHITEHEAD, Science and the Modern World, New York, Macmillan, 1925, 41.


(3) Ver, por exemplo, Diógenes LAÉRCIO, VIII 8 e 48; JÂMBLICO, Vita Pythagorica 58, 115-121, 159.


(4) JÂMBLICO, VP 2.


(5) HERÁCLITO, fr. 129: “Pitágoras, filho de Mnesarco, perseguiu a investigação (historie) mais longe do que qualquer outra pessoa e, escolhendo aquilo de que gostava destas composições, produziu uma sabedoria própria, muito saber (polymatheie) e velhacaria ardilosa (kakotechnie)”.


(6) E. ZELLER, Die Philosophie der Greichen in ihrer geschichtlichen Entwicklung, Leipzig, 1892, I.i, 325.


(7) E. FRANK, Platon und die sogenannten Pythagoreer, Halle, 1923, vi.


(8) W. BURKERT, Lore and science in ancient pythagoreanism [tradução inglesa de E. L. Minar Jr., revista pelo autor], Mass., Cambridge, 1972 [Ed. original alemã: Weisheit und Wissencraft: Studien zu Pythagoras, Philolaos und Platon, Nürnberg, 1962].


(9) ARISTÓTELES, op. cit., A 6, 986a3.